<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408</id><updated>2012-01-12T03:40:20.053+01:00</updated><category term='metade'/><category term='umbral'/><category term='terror'/><category term='sinestesia'/><category term='lobo'/><category term='amor'/><category term='agridoce'/><category term='Dorzer'/><category term='saudades'/><category term='iniciático'/><title type='text'>Contos Agridoces - Como apreciar a doçura sem conhecer o azedume?</title><subtitle type='html'>Fantasia, Horror, Terror e Ficção Científica</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>41</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2240059983746014697</id><published>2012-01-11T10:48:00.000+01:00</published><updated>2012-01-11T10:48:27.031+01:00</updated><title type='text'>De açúcar</title><content type='html'>Minha mãe gostava de doce, já lhe contei alguma vez? Quando engravidou não conseguia comer nada, exceto doce. Pudim, bolo, gelatina, sorvete. Bastava o cheiro de comida de panela pra ela enjoar. Então, foram nove meses de panquecas com geleia, de compotas e melado de cana com farinha, quando nada mais em casa havia. E, lá dentro, da barriga dela, enrolado feito uma fatia de rocambole, vermelho que nem goiaba em calda, e formado a partir de tudo o que ela digeria e &lt;em&gt;transformava&lt;/em&gt;, eu crescia. Eu-manjar-de-coco-com-ameixa, eu-algodão-doce, eu-bananada. Uma criança de xarope, depois um rapaz de chantilly e um homem cristalizado, que cresceu rápido feito um bolo bem feito com a dose certa de fermento. Talvez seja esta a razão de tudo, da diferença, do por que de não me entenderem. Por esta minha pureza morna e perfumada de flor de laranjeira, este meu humor que se dissolve fácil, este meu corpo frágil que quase se derrete sob o sol quente. Eu sou de açúcar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2240059983746014697?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2240059983746014697/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2240059983746014697' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2240059983746014697'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2240059983746014697'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2012/01/de-acucar.html' title='De açúcar'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2784406183689438328</id><published>2011-11-02T16:26:00.000+01:00</published><updated>2011-11-02T16:26:27.991+01:00</updated><title type='text'>FC do B - Panoroma 2010-2011</title><content type='html'>Amigos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É com imenso prazer e uma pontinha de orgulho que anuncio que fui um dos selecionados para participar da incrível e prestigiosa coletânea de contos de ficção científica FC do B.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro em breve estará nas livrarias. Logo, logo disponibilizarei links onde os interessados poderão adquiri-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja como a capa ficará bonita e conheça também os outros participantes em &lt;a href="http://www.fcdob.com.br/index.php?option=com_content&amp;amp;view=category&amp;amp;layout=blog&amp;amp;id=36&amp;amp;Itemid=75"&gt;http://www.fcdob.com.br/index.php?option=com_content&amp;amp;view=category&amp;amp;layout=blog&amp;amp;id=36&amp;amp;Itemid=75&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2784406183689438328?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2784406183689438328/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2784406183689438328' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2784406183689438328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2784406183689438328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/11/fc-do-b-panoroma-2010-2011.html' title='FC do B - Panoroma 2010-2011'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-7496485952307098444</id><published>2011-10-07T15:12:00.000+02:00</published><updated>2011-10-07T15:12:24.097+02:00</updated><title type='text'>À espera do Mestre</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-jsrL-pllFY8/To75daZlEGI/AAAAAAAAALI/oRoOYVh3dpA/s1600/budista.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" kca="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-jsrL-pllFY8/To75daZlEGI/AAAAAAAAALI/oRoOYVh3dpA/s320/budista.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;O que relatarei foi testemunhado por mim, por puro acaso. Não intenciono trazer lições ou ensinar moral, pois não acredito em tais coisas. Talvez o que contarei poderá servir de alerta para que não cometamos nós mesmos erros iguais, ou nem para isto. Não confio em homens ou deuses, apenas acredito em meus sentidos e, acima de tudo, sou adepto da &lt;em&gt;Igreja da Minha Santa Sobrevivência&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vagava meio sem rumo pelo subúrbio da cidade de Manado; não tinha morada certa e já conhecia bastante àquela vizinhança, onde um casarão de muros amarelos e muito altos chamava atenção. Havia um jardim meio maltratado à frente do lugar e algumas colunas em espiral, de gosto francamente duvidoso. Nos fundos, se destacava somente um enorme quintal cimentado e liso; estéril como um deserto. Por motivos que logo ficarão claros, chamei tal horrível edificação de Castelo dos Sete Fanáticos ou Grande Prisão Amarela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi numa manhã até bonita, que vi pela primeira vez os sete chorando após a despedida do Mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O Senhor irá em busca de mais conhecimento e logo voltará – dizia o maior deles aos outros seis. De imediato, identifiquei aquele indivíduo formidável, de cabeçorra poderosa e peito amplo, como Estúpido Otimista ou Grande Protetor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ai de nós, o que seremos sem o Mestre? O que fizemos para ofendê-lo, para que decidisse nos abandonar? – falava a fêmea branca e bonita, a quem apelidei de Graciosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O Amo nos testa, certamente. Ele espera que em sua ausência nos comportemos de forma ideal, que sejamos dignos de seus ensinamentos – gaguejou um magrelo pedante e de olhos nervosos, o Guardião da Moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros quatro jovens e pequenos apenas observavam assustados. Somente um deles, o mais feio e fraco comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não significamos nada para Ele. Não faria diferença para o maldito se morrêssemos todos – naturalmente, dei-lhe a alcunha de Pequeno Amargo, para separá-lo dos três outros sem nomes, que mudavam de opinião conforme os maiores se manifestavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que as reservas de alimentos e água do grupo eram parcas e que, sem se importar com o dia seguinte, todos avidamente consumiram suas porções até ficarem satisfeitos, como se tudo estivesse normal. Quase que rezei pelo bem daqueles tolos; ao menos cheguei a desejar, sinceramente, que o tal Mestre logo retornasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era então chegada a época das monções, e apesar do calor, chovia forte quase todas as tardes. Dois dias depois, voltei a observar o grupo, que recolhia ávido a água que descia pelas calhas do casarão após a tempestade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O sacrifício enobrece. O jejum de água e comida purifica. – Repetia o fraco Guardião aos outros, ainda conseguindo manter a cabeça elevada e um certo ar de superioridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Em breve o Mestre irromperá através dos portões. Trará tanta comida, tantas iguarias, tanta água pura e fresca quando se é possível consumir, vocês verão. – Comentou com doçura o maior de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu afirmo, ora, eu afirmo e re-afirmo; o Mestre nos abandonou por causa dos pequenos! Ele não suportava mais estas criaturinhas sem modos e barulhentas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não diga isto, querida! Os pequenos são inocentes e o Amo é bom, profundamente bom – insistia o Grande Protetor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O desgraçado nos deixou para morrer de fome! Sinto minha barriga doer tanto que nem consigo dormir! Seria mais justo se houvesse nos eliminado a tiros ou envenenados; ao menos seria rápido – refletiu o Pequeno Amargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros três pequenos apenas sorviam a água e sacudiam as cabeças, concordando com os comentários díspares, sem se importar ou entender bem a situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Guardião descobriu-me espionando-os e disparou, perdendo então toda aquela empáfia que o caracterizava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Desça aqui, infeliz. Desça, seu bastardo, e faremos você se arrepender por testemunhar nosso infortúnio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente abandonei meu posto de observação e escapei, enquanto todo o grupo gritava e xingava tão alto que poder-se-ia escutar a quase um quarteirão dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se talvez mais cinco dias, quando curioso em demasia eu retornei. O Pequeno Amargo parecia agonizar de fome e estava caído, rodeado pelo grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sonhei com o Mestre ou delirei, não sei – choramingou. — Talvez afinal ele fosse bom, talvez tenha viajado para limpar o grupo dos dissidentes da fé; de gente como eu. Eu não merecia o amor do Amo! Eu sou o culpado por tudo que estamos passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não diga isto, pequeno – respondeu a Graciosa, estranhamente gentil e compreensiva. — Eu também comecei a pensar que ele não nos merece, que não foi justo ou correto, como você sempre tão sabiamente nos avisou. Você e os outros pequenos são inocentes, eu estive errada, desde sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pode ser – continou o pequeno – pode ser que o Amo me perdoe se eu fizer um sacrifício. Talvez até minha alma poderá ser salva assim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De longe, notei um brilho estranho naqueles olhos que começavam a embaçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Matem-me e devorem meu corpo! O Mestre queria uma prova de fé, só pode ser. Sejam gentis e dêem-me um fim rápido e salvem-se também. Minha carne é pouca, mas fará vocês resistirem alguns dias a mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Guardião da Moral, cabisbaixo, nem sombra do indivíduo orgulhoso de dias atrás, nem pensou duas vezes, certamente empolgado pela possibilidade de forrar o estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não! – gemeu a Graciosa. — Isto não está certo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já era tarde; o pequeno, com pescoço partido e rubro, agitou um pouco os membros e por fim ficou estático. O Grande Protetor foi o primeiro a provar da carne, enquanto selvagemente afastava os outros. Chocada, a Graciosa havia se retirado e deitara desconsolada sob uma das poucas sombras do local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não há o suficiente para todos! Primeiro os mais velhos e os mais fiéis ao Mestre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Fui eu que o matei – contestou o magrelo. — É direito meu ter o maior quinhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ousa me enfrentar, seu verme? Quer ser o próximo? Você não é páreo para mim. É magro, mas seguramente tem mais carne que esta coisinha desprezível. &lt;br /&gt;Acuado, o esquálido se afastou e só retornou quando o Protetor saiu e os pequenos tentaram comer também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Fora! É minha vez! Fora ou devoro vocês também. Pensando melhor, quase não há mais carne nesta carcaça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei os olhos e tentei ignorar os gritos, enquanto o Guardião da Moral abatia um dos pequenos sem dó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra semana se passou e, quando retornei ao meu posto de observação, só vi os três. A Graciosa muito abatida, o Estúpido Otimista e o Guardião feridos e cansados demais. Nem ossos dos quatro pequenos podiam ser vistos pelo chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste momento; uma surpresa! Um ruído nos portões, um barulho de arrastar malas pesadas, de abrir as portas da frente, de passos duros pelos cômodos e na cozinha, seguidos do roçar de chaves girando na porta que dava para os fundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O Mestre! – Gemeram todos os três, quase em uníssono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, não havia mais aquela adoração fanática, não havia mais dúvidas sobre o amor ou a santidade do amo. Unindo suas forças combalidas, os três atacaram o homem gorducho e de meia idade, que gritou e tentou fugir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Graciosa, ah, ela saltou com agilidade e cravou os dentes no pescoço gordo e odioso. O Guardião e o Otimista flanqueram o Mestre, atacando suas pernas e braços, dilacerando seus membros facilmente. Quando o homem caiu, numa união de objetivos que chegou a me emocionar, eles se concentraram no pescoço e destacaram a cabeça, que finalmente parou de berrar. Arrastaram o corpo até o quintal acimentado e coberto de fezes e o devoraram, ávidos, por várias horas depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A carne do Mestre é apenas carne; nem melhor ou pior – foi a última coisa que escutei, ao abandonar o topo do arbusto que ficava junto do muro da Grande Prisão Amarela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, enrodilhado e aquecido num pedaço de pano numa varanda que invadi, refleti sobre a fé e sobre os homens e os cães. Depois, me esqueci daquela bobagem e, escutando o ruído reconfortante de meu próprio ronronar, dormi um sono tranquilo sem pensar mais no destino daqueles infelizes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-7496485952307098444?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/7496485952307098444/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=7496485952307098444' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/7496485952307098444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/7496485952307098444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/10/espera-do-mestre.html' title='À espera do Mestre'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-jsrL-pllFY8/To75daZlEGI/AAAAAAAAALI/oRoOYVh3dpA/s72-c/budista.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2028217330752304989</id><published>2011-10-07T15:03:00.000+02:00</published><updated>2011-10-07T15:03:54.481+02:00</updated><title type='text'>O cheiro d'avó</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-RKNCO0u5yTo/To709pTtAqI/AAAAAAAAALE/nyDHaACazoM/s1600/imagesCAEGSV8I.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" kca="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-RKNCO0u5yTo/To709pTtAqI/AAAAAAAAALE/nyDHaACazoM/s1600/imagesCAEGSV8I.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Quando a missa de sétimo dia terminou, antes de deixar a igreja, meus tios e tias me cercaram e começaram a falar ao mesmo tempo; ainda com as vozes embargadas, os olhos vermelhos e os semblantes pesarosos. Tio Joãozinho não conseguia falar; apenas tinha a mão à frente da boca, para esconder os dentes falhos enquanto expirava e seus olhos pareciam fontes que teimavam em não secar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ninguém tem coragem”, gemeu tia Orlandina. “É preciso limpar a casa de sua avó, dar as roupas para a Igreja, esvaziar a geladeira, tentar limpar a casa dela &lt;em&gt;dela&lt;/em&gt;, entendeu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nada adiantaram meus protestos, de que era doloroso demais para mim também, porém a fama de durão e de responsável não me dava opções. Era minha obrigação, eu, que fora o preferido de minha avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se você não for, terei que mandar algum estranho”, disse o tio Quincas falando grosso, quase me ameaçando com a ideia de ter alguém de fora revirando as coisas de vovó. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Empurrei o velho portão de ferro, que cheirava à ferrugem e infância perdida. Passei pelos canteiros maltratados; cheios de inodoras margaridas baldias e do limo que se acumulara depois daquela semana de chuvas constantes. Rex, o cachorro que ela tinha e não tinha, que entrava e saía quando bem queria, estava deitado junto à porta, talvez esperando ela voltar. O ar rescendia à minha avó, o mundo muito propriamente chorara sua ausência e chegara o momento de se seguir em frente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta com a pintura descascada protestou e rangeu. Entrei pela cozinha e a fragrância dela estava em todo lugar: um misto de alfazema, leite de rosas e sabonete Alma de Flores. “Não me deixem enterrar direto na terra, Cicinho. Não quero ficar lá num caixão que vá se encher de água quando chover e eu lá parada, lá dentro; presa, me afogando. Quero ficar numa carneira, naquelas caixinhas de cimento bonitinhas, umas em cima das outras, arrumadinhas feito um edifício de apartamento. Se puder ter um pé de árvore perto, pra dar sombra e não ficar quente demais, tanto melhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cozinha ainda tinha um odor pungente de canela junto do fogão meio encardido. Parecia que fora outro dia que eu a visitara e ela se apressou em passar um café fraco e doce e fez bolinhos de chuva; cobertos de açúcar e canela, os meus preferidos. ﻿ &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Abri a geladeira, puxando para baixo a alavanca que fazia as vezes de maçaneta; a velha Frigidaire vermelha, que suspirava e fazia ruídos borbulhantes e engraçados que me assustaram nas vezes em que pequeno dormi por lá. Não havia muito dentro; gelo em formas de alumínio, alguns ovos, margarina, cenouras murchas, batatas com brotos esverdeados na gaveta de legumes, alguns vidros de xarope na porta e aquele cheiro. O odor característico dela; aquela mistura engraçada do xampu de lanolina que mantinha seus cabelos finos escorridos demais. A lavanda ou Colônia Cristal da Avon, sabão em barra, suor da cútis frágil, fina, que se arranhava com facilidade, alho nos dedos que mais pareciam ter as pontas terminadas em almofadinhas de pele e carne. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cabelos de manga”, era como eu brincava de chamá-la secretamente quando ela me dava uma moeda para fazer cafuné nos seus cabelos enquanto me contava histórias. Eu tinha um boneco do Alf com os cabelos de um amarelo queimado, de um tom quase igual os dela. Vovó era um brinquedo melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe, meu neto, quando eu morrer não quero que enfeitem meu caixão, que o encham de flores feito um bolo de noiva, feito fizeram no enterro de Dona Nini, quase cobrindo o rosto da coitada que devia estar com uma vontade danada de espirrar. Não quero que convidem também a filha de Cema; aquela é capaz até de roubar as coroas de flor e só iria para filar o café e pedir dinheiro emprestado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esvaziei a geladeira e descartei tudo dentro de um saco para lixo, grande e preto. Desliguei a tomada, abri a porta e a escorei com uma cadeira, deixando um ventilador ligado para ajudar a descongelar. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Em seu quarto, a cama de casal estava coberta por uma colcha de chenille azul clara, bem esticada. O guarda-roupas alto, brilhava e ainda rescendia a óleo de peroba. Eu me lembrava bem do dia que a presenteei com o móvel novo; ela pulava feito criança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, Cicinho, do jeito que eu queria.”, ela repetia, alisando as portas. “Duplex! Do tipo que tem que subir numa banqueta para alcançar a parte de cima, feito o que Betão deu pra Cema. Já era tempo, não é mesmo? Aquele antigo de fórmica tava todo descascado, todo fofo de umidade. Olha só; até espelho e prateleira pros meus perfumes este tem. É tão bonito, eu acho que nem vou dormir direito esta noite, de tanta felicidade. Vou ficar deitada aqui na minha cama, admirando esta belezura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escancarei as portas do móvel; os vapores de naftalina, de algum mofo e dos perfumes de seus cremes, de suas loções, me abalaram um pouco. No entanto, a visão de tanta roupa colorida, tanta estampa de flor, tantas coisas de alguém que efetivamente gozou a vida, aquilo tudo foi forte demais para mim. Com as lágrimas rolando e o nariz escorrendo feito uma criança pequena, fui retirando o blazer de linho onde ela escondeu salgadinhos no bolso num casamento onde entramos de penetras, a blusa de seda toda decorada com pêssegos e ameixas bem maduras, a encharpe que ela enrolava no pescoço toda vez que brincávamos de teatrinho e ela fazia o papel de alguma madame. Fui colocando tudo em sacos para entregar no convento das freiras, feito meus tios instruíram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vá que quando eu morrer, eu não morra direito? Você sabe, os médicos do SUS querem mais é enterrar os velhos, até inventaram esta campanha de vacinar contra gripe. Eu é que não tomo! Tão de olho na minha pensão, isto sim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu neto querido, isto eu só vou pedir a você. Quando forem me enterrar, coloca meu celularzinho dentro do caixão. Bota crédito nele porque é de cartão, e bateria bem carregada, veja lá. Se eu não morrer de verdade, se foi algum engano, eu ligo e você vem me acudir. Lembra de levar um cobertor e uma garrafa de café, pois eu posso estar com frio.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim do velório, escondi o celular entre as poucas flores que só iam até a altura dos ombros dela. Antes que fechassem o caixão, cochichei em seu ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei um pano úmido na casa, com Pinho-Sol de verdade, feito ela gostava de usar. Fechei as janelas, as portas e meu coração que insistia em bater descompassado. Deixei os cheiros; de cera líquida amarela, desinfetante, de xarope, de canela e colônia, de velho, de mofo, de avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao passar pelo portão, observando o Rex, que ainda estava deitado sobre o capacho junto à porta, escutei meu telefone tocar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lógica, a razão, estas insidiosas quiseram se intrometer no fio de esperança, na luz fraca que cintilou no breu de minha mente. Não dei direito para que elas se manifestassem! Fechei os olhos para não ver o painel, levei o fone ao ouvido e mais gani do que propriamente falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alô?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2028217330752304989?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2028217330752304989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2028217330752304989' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2028217330752304989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2028217330752304989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/10/o-cheiro-davo.html' title='O cheiro d&apos;avó'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-RKNCO0u5yTo/To709pTtAqI/AAAAAAAAALE/nyDHaACazoM/s72-c/imagesCAEGSV8I.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-5067521734839996426</id><published>2011-07-24T10:38:00.000+02:00</published><updated>2011-07-24T10:38:03.355+02:00</updated><title type='text'>Prólogo - Relatos do mundo perfeito</title><content type='html'>Rio de Janeiro, 01 de Agosto de 515 D.F.G.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;Redavoice: Minhas Férias&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que dizer sobre minhas férias, senão que foram perfeitas, fixe-cool e incriordinárias? Ainda no inicio de Julho, meu mainté, Tuomas, comprou-nos um hover novo; vermelho-bóson, ultimate modelo, e meu fourné, Hiro, conseguiu uma licença-prêmio por desempenho supranormal, coisa rara de se obter em tal mês concorrido. Por tudo isto, decidimos estreiar o possante no dia seguinte e aproveitar para reproduzir em nossas férias um ritual antigo que Tuomi leu num flexnews, algo chamado piquenique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, como combinado, Tuomi me despertou bem cedo, por volta das oito, me beijou a bochecha e avisou que preparara panquecas de moramboesa; as minhas preferidas. Não gosto muito deste lance de beijar, já tenho treze, mas meus pais insistem em me tratar como um bebê que acabaram de receber das materfábricas. Deve ser porque Oleg está no serviço militar obrigatório para os XYY entre os dezessete e os dezenove e, desde o inicio do ano, sou o único filho em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci ainda de silverjamas e Hiro já estava de pé também, malhando na academia do acesso da copa. É engraçado sermos uma familia assim; diferente. Digo, Tuomas é muito alto e másculo demais para ser um mainté típico, chega às vezes a constranger um tanto Hiro-san, que, como quase todo neoasiático, não é muito alto e é um tanto conservador. Eu, sinceramente, prefiro assim. Quase todos meus amigos têm seus maintés muito sensíveis e delicados, homens que gostam de se vestir com roupas sedosas, coloridas e transparentes, fofocar e cozinhar receitas incríveis que eles aprendem na expressnet. Já Tuomi é quase tão forte quanto Hiro e gosta de participar ativamente de tudo. Dele, herdei os cabelos e pupilas claros e espero que a altura também. Do Hiro, herdei os bonitos olhos rasgados de samurai, o físico slimforte e o temperamento afoito (ao menos é o que meu mainté vive me lembrando).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ultimamente meus pais têm andado meio agiloucos. Faz uns três meses que eles passam pelo menos umas duas horas diárias debruçados no convgen de sua suíte, escolhendo como será meu novo irmão. Ficam lá decidindo QI, propensão a doenças, cor dos olhos. Discutem quem fornecerá gametas para a conversão em óvulos e tudo mais. Penso que a grande questão será o custo de correções, pois um cemporcento pode ser ultra-onéreux hoje em dia. Eu sou noventa-e-oito e eles sempre me lembram que ainda pagarão por meu financiamento até eu completar quinze anos. Esqueci de comentar: meus velhos se beneficiaram de uma lei antiga; quem concordasse em gerar um XYY e criá-lo, teria o direito de ter até mais dois filhos, daí nossa família ser tão numerosa. No entanto, penso que certamente fomos agraciados pelo Grande Pai: pois, talvez pela criação cheia de zelo, a doçura derramada de Tuomi e a firmeza de Hiro-san, eles quase não tiveram problemas com Oleg. Eu soube que muitas pessoas desistiram e entregaram seus XYY para serem criados pelo estado. Bem, não é fácil lidar com estes colossos, não há como se culpar quem tomou tais iniciativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comemos rapidamente nosso desejum. Havia calda extraprotéica em minhas panquecas e molho lowcal para Tuomi, que tem o metabolismo meio lento, talvez por ser um noventa-e-quatro. Hiro preferiu omelete de ovas de farmshark e começou a contar algumas piadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como diferenciar um Brasileiro de um Cubano?”, ele me pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei lá. Pelo sotaque?”, eu respondo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Porque para decidir qualquer coisa o Cubano precisará perguntar a opinião de alguma fêmea.”, ele completa, explodindo em gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tuomi o olhou de cara feia, além de ser uma piada preconceituosa, ele não aprova o uso de palavras de baixo calão à mesa, mesmo as mais fracas, feito “fêmea”, que se diz por qualquer topada. Hiro é meio boccavasino e até costuma falar aquelas duas palavras com “m” quando está irritado. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Meu mainté tentou mudar de assunto e me perguntou: “Então, Carlinhos, já tem treze anos e não arrumou algum namorado ou, como vocês dizem hoje em dia, um sexfreund? Tem aquele seu amigo bonitão cemporcento, o hipermelanínico, como é mesmo o nome dele? Abuu, Adamu?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vê que nosso menino é claramente um fourné, meu bem? Acho que o tal garoto não é compatível”, disse Hiro, distraído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele ainda não decidiu se será mainté ou fourné. E ele gosta de me ajudar em casa e tem muito jeito com crianças menores. Não é, filhotinho?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu respondi, somente para provocar, que seria um celibatário feito Jesus Cristo. Que não desejava formar família como fizeram os pais do Santíssimo, José e Mário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de ter um filho sacerdote ou ultrateo fez meus pais ficarem sérios de repente e, enfim, terminamos o café e saímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentamos os três no banco traseiro do hover. Hiro já havia de véspera baixado a programação dos tempsats, então só teríamos bom tempo no percuso e até poderíamos ver a chuva caindo exclusivamente sobre as autofazendas no interior, conforme a previsão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hiro-san comandou a I.A. do hover dizendo: “Destino: Fortaleza, Ceará. Hotel AquaComplex Safari.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O veículo levitou e seguiu pela estrada, rapidamente. Minutos depois, enquanto passávamos por algumas fazendas, pedimos que reduzisse a velocidade para que pudéssemos ver as incriraras nuvens cor de chumbo e a água descendo generosa sobre as copas das árvores verdinhas, formando múltiplos arco-íris ao refletirem a luz do dia perfeitamente ensolarado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomamos o acesso da hidrostrasse em Vitória e, menos de três horas depois, aportávamos na islahecha do hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas semanas a seguir, foram as melhores de minha vida. Praticamos mergulho e brincamos com tubarões, moreias e arraias gigantes. Clonotoys, naturalmente, pois há uma barreira de proteção ao redor da ilha. “Deixem os selvagens do lado de fora”, feito diriam os membros eleitos do Conselho Supremo. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;No inicio da segunda semana, Oleg voou desde o cerco ao Caribe até o nosso hotel e então nos divertimos a valer, montando leões e tigres toys. Digo, não o Oleg, pois não há tigre ou leão que possa caminhar com cento e setenta quilos de músculos sobre sua coluna. Ele limitou-se a nos seguir montado em elefantes ou búfalos africanos. Trocamos de apartamento quando ele chegou, uma vez que o hotel dispunha de outros com várias adaptações para os XYY. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Oleg contou-nos sobre o seu trabalho monótono. Tendo que garantir que os degenerados caribenhos não trouxessem a corrupção genética ao mundo exterior. Mas não havia muito a fazer, ele comentou. Fora o comércio de alimentos e outros artigos, ninguém tinha permissão para entrar ou sair daquele lugar e nada escapava à censura dos bioscanners. Ao fim daquela semana, nosso gigante gentil teve que retornar a seu serviço. Terei saudades de meu irmãozão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No último dia, munidos de uma cesta de palha, sanduíches, sucos e uma estranfeia toalha xadrez, fizemos o tal piquenique na praia. Até que foi interessante tentar comer com a areia soprando em nossas caras e se infiltrando na comida, mas acho que os antigos tinham uma ideia um tanto distorted do que seria diversão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estas então foram as minhas férias. Nada tão luxcher quanto Titã, Marte ou Gaia, mas certamente passei ótimos momentos com minha muito feliz e grande família (que em breve ainda ficará maior). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos Ruutu-Watanabe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*fim da gravação*&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-5067521734839996426?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/5067521734839996426/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=5067521734839996426' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5067521734839996426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5067521734839996426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/07/prologo-relatos-do-mundo-perfeito.html' title='Prólogo - Relatos do mundo perfeito'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-8300740043935587093</id><published>2011-04-27T17:29:00.001+02:00</published><updated>2011-04-29T18:52:11.743+02:00</updated><title type='text'>Narrativas</title><content type='html'>Como sabemos, a narração é a base de todo texto em prosa. Estamos portanto acostumados a alguns tipos de narrador: ao narrador-personagem, a narração em primeira pessoa, narrador com opinião, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permitam-me então tentar sugerir algumas variações narrativas a partir de alguns exemplos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Neste momento Carla bate à porta de Felipe. Ele não sabe, mas ela comeu um pacote de salgadinhos de alho e cebola no caminho e ainda assim planeja beijá-lo passionalmente. Carla também desconhece que Felipe acabou de ir ao banheiro e não lavou as mãos, tampouco escovou os dentes hoje. Mas nada disso realmente importa: já que Carla morrerá no meio do quinto capítulo, atropelada por uma bicicleta em frente a uma casa xadrez. Felipe acabará por conhecer Luíza antes do epílogo e se casará com ela, sem notar que esta é na verdade sua mãe biológica, que o concebeu depois da operação de mudança de sexo. Antes que eu continue com a narração, você pode atender o telefone que eu espero: a propósito, é Marineide Freitas, a insistente moça do telemarketing daquele cartão de crédito que você não sabia que queria, mas que ela insiste que você necessita feito o ar que respira. Você desligará o telefone de propósito depois do quarto &lt;em&gt;estaremos transferindo sua ligação&lt;/em&gt;.” (Narrador super-onisciente)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chovia copiosamente sobre o casebre de madeira que mal mantinha-se de pé no alto do barranco. Aliás, não! Fazia um sol de rachar naquele dia e tratava-se de uma mansão de trinta cômodos e não um casebre! Ou será que nevava copiosamente sob um sol de rachar e o casarão, carcomido feito um casebre, ameaçava desabar? Um instante, eu, eu... Ah, aproveitei sua distração e transferi quinhentos reais da sua conta para a minha, ok? Fui!” (Narrador absolutamente não confiável)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um estranhíssimo cenário descortinou-se diante dos olhos incrédulos de Lorena Bobbitt. Bem, hoje não estou com muito saco de descrever. Então façamos o seguinte: imagine &lt;u&gt;você&lt;/u&gt; seu cenário esquisito. Sei lá, faça um esforço! Flamingos com máscaras gregas interpretando aquelas tragédias chatíssimas sobre carros alegóricos no Rio de Janeiro, dançando na boquinha da garrafa; seiscentos executivos trajando camisas listradas e suspensórios de couro, formando fractais com suas valises perfeitamente alinhadas; pterodáctilos mulçumanos desenhando símbolos cabalísticos nos céus de Pindamonhogaba. É estranho o bastante pra você?! É? E não adianta torrar minha paciência e querer saber o que Lorena fizera, o que vestia ou como se sentia! Não é tudo responsabilidade minha, falou?! Procura no Google!”. (Narrador über mal-humorado)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O horrendo nascer de outro dia ensolarado anunciava através da janela a cruel extinção de qualquer possibilidade de alegria, por mais remota e efêmera que fosse. A pobre Maria da Lapa ganhou na Megasena acumulada, encontrou seu amor perdido e salvou sua mãe de uma doença incurável pela quinta vez, porém não poderia se sentir mais miserável, destituída de esperança e tomada da mais paralisante melancolia suicida.” (Narrador corno-depressivo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lorenzo casar-se-iria-á se soubera-sse que Maria Eduarda finalmente voltara-ia-á-ando hoje/amanhã/há sete anos/se ela ao menos existisse.” (Narrador viajante do tempo, causador de terríveis paradoxos temporais)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Jaqueline soltou os cabelos, macios, sedosos e cheios, graças à ação das pérolas nacaradas de DNA vegetal do novo condicionador Nadura – um toque de natureza no seu dia a dia. Carlos Otávio, que passava defronte de seu escritório, não pôde deixar de sorrir. Galante, exibindo belos dentes brancos. Faça como Carlos Otávio! Clareamento a laser? Só nas Clínicas Dr. White. Facilitamos seu tratamento em até seis prestações sem juros. Dr. White: seu melhor cartão de visitas é seu sorriso.” (Narrador de livro custeado pela iniciativa privada)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nuvens maliciosas roçavam lúbricas os topos túrgidos das montanhas lascivas. Um vento morno, que cheirava a sexo, levantava folhas solícitas e lubrificava a grama num vai-e-vem que acelerava e acelerava, de forma rítmica e constante. Abelhas sodomitas e borboletas impudicas defloravam os botões voluptuosos ainda virgens, num zum-zum indecente, que causava o mais abundante jorrar do néctar, numa luxúria devassa, de proporções orgásmicas.” (Narrador completamente “atrasado”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O almoço do funeral deve ser minuciosamente preparado: numa terça-feira, dia doze, quando a Lua estiver na fase minguante. Além da futura morta, que será servida à francesa, conforme manda a tradição, serão oferecidos barquetes de cannabis para os Sionistas Sino-Nipônicos de Ogum. Pois, como todos sabemos, em anos bissextos, nas terças de Luas minguantes, esta é sua única alimentação possível. Isto claro, salvo quando da época do acasalamento dos sagrados besouros rutilantes coprófagos, quando leite de llama e sementes de girassóis almiscarados do Tibet são a outra única opção. Não se esquecer de convidar os Elementais do Sétimo Dia e os Concretistas da TFP. Saudar os primeiros com a mão esquerda, enquanto deve-se dirigir o olhar em direção a Meca e a Reykjavik ao mesmo tempo, saudar o segundo grupo cuspindo em seus olhos, para afastar os maus espíritos. Não permitir que os Anarquistas Marxistas do Mercado Livre ocupem o mesmo salão dos Gregos Ortodoxos Budistas Vegans, ou poder-se-á causar o inicio do sétimo jihad do politiburo-cosanostra. Entoar a Internacional para os Asgardianos e o hino do Vasco da Gama para os Mamoetanos Lusitanos dos Sagrados Últimos Dias.” (Narrador que leu Burroughs demais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“— Gostaria de matá-lo, Ferry Vicious. Meu dedo treme junto do gatilho, porém não ouso disparar: além de protagonista e herói, infelizmente sou plano feito o tampo de uma mesa. Quisera eu ser redondo como a esbelta Mary McHeavens, sua ex-ajudante em todos seus planos nefastos: salvou-me de sua emboscada, ainda que ela soubesse que você a mataria, como realmente acabou fazendo. Seu maldito antagonista igualmente plano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já que não pode atirar, honrado, justo e bondoso Jeffrey. O que me impede de fugir pela porta? Seus inocentes olhos azuis? – riu o vilão, cheio de escárnio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Little George está lá fora, armado com uma calibre 12. Embora ele seja o alívio cômico da história, seria bom que você se lembrasse de suas ações típicas e cínicas de anti-herói. Ele não hesitaria em mandá-lo comer capim pela raiz, ir para a terra dos pé-juntos ou lhe conceder um paletó de madeira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado de fora, no corredor, Little George praguejou baixinho pelo roubo de suas linhas de diálogos e possíveis tiradas de efeito cômico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resignado, Ferry Vicious deixou-se algemar e deixou a sala, cabisbaixo. Talvez o juiz seria de alguma forma condescedente, já que ele apenas agira o tempo todo conforme fora desenhado.” (Narrador professor de literatura aposentado) &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;“— Vossa alteza! Vossa alteza! O Principado Aliterático e o Ducado Hiperbólico acabaram de declarar guerra à nossa amada Sinestesópolis! – gritou o mensageiro esbaforido, cheio de desespero nos olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas como? Por qual razão? – exclamou o gorducho rei, já&amp;nbsp;prevendo o gosto barulhento dos metais em sua boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O Ducado jurou arrastar montanhas e, nem que demore um milhão de anos, irá nos fazer chorar rios de lágrimas! Príncipe Prinius proferiu profusas pragas pródigas em pruridos purulentos! Nosso reino já escuta o cheiro da morte vindoura, já tateia o clamor dos tambores terríveis! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que se escrevam cartas aos reinos amigos! À Onomatocity, Paradoxis, Eufemística. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horas depois, chegaram as respostas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tic-tac, tic-tac, aha, ha, ha! Glup! Oops, zummmm!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se o auxiliássemos, iríamos contra nosso princípio pacífico. No entanto, se não o ajudarmos, iremos contra nossas leis altruístas. Por Deus, estamos paralisados!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Penso que em breve todos vós ireis viver junto da luz do Senhor. De qualquer forma, temo que a ausência de coragem de nossos guerreiros não seria lá de grande auxílio para evitar o fim da infeliz existência terrena de todos vós.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobre monarca já farejava o escarlate e o negro dos uniformes dos exércitos inimigos quando o velho Pleonasmus, o rico comerciante de armas, apresentou-se e fez uma mesura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não precisamos agir como cadáveres de um defunto morto que já morreu! – disse ele. Permita-me apresentar meu novo catálogo de armas táticas que fará o inimigo entrar para dentro de suas covas e nunca mais sair para fora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir, abriu folhetos coloridos sobre a mesa do salão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bombas de antíteses: capazes de encher de vazio e calor o mais frio dos inimigos. Flechas envenenadas de ironia, escudos de ambiguidades, causadores de confusão e discórdia. Catapultas carregadas de anáforas, silepses, oximoros e cacofonias de todo tipo. Eles não terão chance! Fugirão como medrosos ratos covardes sem coragem que temem a própria sombra! &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Antevendo o trovejar em fuga dos exércitos inimigos e já degustando o sabor macio da vitória, o rei fechou negócio numa compra que praticamente arruinaria os cofres de Sinestesópolis." (Narrador professor de português de pré-vestibular) &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado numa banana gigante. E pior: alguém certamente o havia caluniado, pois naquela mesma manhã, ele foi detido sem ter feito mal algum. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Berenice, sua empregada desdentada, adentrou o quarto com seu café da manhã numa bandeja e acompanhada de dois homens vestidos em ternos pretos. Nenhum deles fez menção de espanto à sua nova condição de alimento funcional, como se nada houvesse mudado com ele. Na janela do quarto, um corvo crocitava "nunca mais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebeu o estrado da cama ferindo sua nova carne amarela e macia enquanto tentava subir as costas, empilhando os travesseiros. Sentia-se ridículo, vestindo o seu pijama listrado azul, tal qual personagens de um péssimo e antigo programa infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens começaram a beliscar de seu café, sem cerimônia alguma. Um era idoso,&amp;nbsp;obeso e tinha um olhar determinado e cruel, como uma ave de rapina. O segundo era muito alto e magro, tinha um rosto comprido, queixo enorme, boca pequena e desgostosa e olhos nervosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Chamo-me O’Brian – disse o&amp;nbsp;gordo – e este é Howard – comentou apontando para o homem magro – estamos aqui para comunicá-lo do processo que está sendo movido contra o senhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Apressa-te, O’Brian – falou o magro, com voz anasalada – não suporto mais pisar nesta fossa cheia de pitecantropóides viscosos e monstruosidades inomináveis e degeneradas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Processado? – indagou Gregório – Por quê? O que fiz? Quem está me processando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O’Brian não exibiu expressão alguma no rosto, Howard continuou olhando para todos os lados, nervoso, preocupado em não tocar em nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gordo foi até a cama, retirou a carteira do bolso e pôs um cartão sobre o lençol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vá até o Castelo – disse ele – eles conhecem bem a realidade do partido. Podem te ajudar. Sua situação é &lt;em&gt;dupliplusimboa&lt;/em&gt;, você corre o risco de se tornar uma &lt;em&gt;impessoa&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Realidade do partido? Como assim? &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;– A realidade corresponde aos desígnios do partido – respondeu o homem rotundo, de forma enigmática. Nos encontraremos outra vez num lugar onde não há escuridão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois colocaram os chapéus e saíram sem maiores explicações. Por alguma razão, Gregório teve a nítida impressão de que O'Brian flutuava no ar." (Narrador fã incondicional de Orwell, Kafka, Poe e Lovecraft)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-8300740043935587093?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/8300740043935587093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=8300740043935587093' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8300740043935587093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8300740043935587093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/04/narrativas.html' title='Narrativas'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-295276413520224429</id><published>2011-03-28T17:05:00.001+02:00</published><updated>2011-03-28T17:06:40.858+02:00</updated><title type='text'>1° Lugar no 8° Concurso de Contos e Poesias de Genebra</title><content type='html'>Amigos, gostaria de compartilhar esta minha modesta conquista literária: no próximo dia 1°, que embora 1° de abril, é pra valer, recebei o prêmio de melhor texto na categoria "conto" no concurso realizado todo ano pela organização Raízes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana que vem publicarei algumas fotos do evento e aproveitarei para conhecer a bela Genebra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-8jyuwNKDgCA/TZCjTrkRyiI/AAAAAAAAAHY/9Yg7KTjO320/s1600/convite2011+-2+s%25C3%25B3+logo+raizes.jpeg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-8jyuwNKDgCA/TZCjTrkRyiI/AAAAAAAAAHY/9Yg7KTjO320/s1600/convite2011+-2+s%25C3%25B3+logo+raizes.jpeg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-295276413520224429?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/295276413520224429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=295276413520224429' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/295276413520224429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/295276413520224429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/03/1-lugar-no-8-concurso-de-contos-e.html' title='1° Lugar no 8° Concurso de Contos e Poesias de Genebra'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-5605835436921646448</id><published>2011-02-01T11:49:00.003+01:00</published><updated>2011-02-01T11:54:31.715+01:00</updated><title type='text'>Reencontro</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://farm5.static.flickr.com/4092/5063956342_ea02ce4906.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="212" s5="true" src="http://farm5.static.flickr.com/4092/5063956342_ea02ce4906.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Olá! Já nos conhecemos, embora você não se lembre muito bem de mim. Estou aqui para ajudar você, agora que sua memória é falha e alterna e mistura passado e presente. Vamos, segure minha mão e te ajudarei a recordar daquele momento especial, quando sua curta estrada pelo Jardim dos Caminhos Bifurcados ainda era reta e você finalmente ousou mudar o rumo das coisas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Lembre-se dos cheiros: é importante. O olfato é um sentido poderoso e primitivo. O odor de ervas frescas plantadas nos fundos da velha casa: hortelã-pimenta, poejo, cidreira. O pé de louro do qual sua avó tinha ciúmes. O perfume que saía da cozinha cheia e quente, onde uma panela sempre fumegava algo delicioso. Recorde-se desta época sagrada do “nunca experimentei isto antes”. Das surpresas, da dentadura dos velhos em copos de água nas mesas de cabeceira, da colher de sopa com o cabo cortado para caber no açucareiro de alumínio, do recipiente de madeira pintado com desenhos infantis e cheio de licor caseiro de jenipapo. Quem hoje conhece tal fruta? Quem sabe o que é jamelão, carambola, araçá? Vamos, você pode fazer um esforço, traga de volta à tona as calças curtas de tergal do uniforme escolar, as meias brancas três-quartos e os sapatos Vulcabrás que duravam até você enjoar deles. O Sabidinho, a cartilha de Talita, o cachorro Xereta que usava um chapéu de Sherlock e que tinha olhos tristes. Lembre-se do tato, do musgo macio que crescia nos feios muros de concreto pré-moldado meio tombados, da pele fina e frágil da sua avó, do cheiro de velho, mesclado ao de loção pós-barba do seu avô, que sempre arranhava o seu rosto quando lhe beijava. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Você foi passar o dia com eles. Sua mãe foi comprar alguma coisa e seu ombro estava dolorido pela vacina tríplice que você tomara na véspera. “Nada de leite para ele. O médico recomendou evitar gordura.” Foi a primeira vez que você bebeu café puro, ainda que você molhasse o pão no líquido fragrante e quase melado de tão doce. Nunca mais você beberia café com leite.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Sem paciência com crianças pequenas, seu avô lhe arrumou um conjunto de praia: baldinho, pá, ancinho de plástico azul claro. Você encheu o balde de água e foi brincar nos fundos, perto do galinheiro que os velhos ergueram sob a sombra do imenso pé de jenipapo. Não se importava com vermes nesta época e você saira sem camisa, mas filtro solar também não existia. Crianças tinham lombrigas e tomavam purgante, se queimavam demais de Sol, viviam de joelhos esfolados e bochechas descascadas de tanto soltar pipa. Crianças eram crianças e não estas coisas pálidas e mimadas, que só conhecem a luz da TV e do computador, que não têm ideia do que seja pique, polícia-e-ladrão e que nunca pularam amarelinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Um pouco de água e você escavou um buraco no barro. Mais água e você notou o quanto aquela argila era flexível como a massa de modelar que você tinha em casa. Foi quando a ideia lhe ocorreu.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;O lago que você cavou era o mais profundo lago do mundo, cujas águas cristalinas eram ainda mais claras do que as da Baía de Guanabara, que você vira na semana anterior, cheia de botos que acompanhavam a barca até Niterói. Tufos de capim faziam o papel de árvores, criando um bosque misterioso e cheio de perigos ao redor da vila. Casinhas piramidais, enfeitadas com pedrinhas achadas aqui e acolá, uma estrada principal, coberta de areia branca, que você trouxe da obra interminável que seu avô tocava junto do poço. Mas de que adiantava uma vila tão linda, tão perfeita, se esta não fosse habitada por gente amável? Com as mãos de dedos curtos e gordinhos, você criou cada um deles. O rei, o príncipe valente e seu cavalo, os camponeses e suas plantações e bichos. O monte de terra retirada para fazer o lago tornou-se o Everest e, abaixo dele, ficava o Vale Feliz.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Do outro lado do Everest espalhava-se a Amazônia, uma selva verde e impenetrável de árvores cujas copas eram tão altas que pareciam beijar o céu. Que importava se estas guardassem semelhança com couve, boldo, bertalha e outras plantas exóticas? Ali, naturalmente, viviam as amazonas e Safira era a líder destas mulheres valentes, que não tinham medo dos besouros gigantes, dos caracóis ou das formigas venenosas e vermelhas. Certamente era linda e orgulhosa e não queria se misturar ao povo indolente que vivia junto do lago.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Porém certo dia, quis o destino que o príncipe, que você muito propriamente batizou com seu nome, fosse atacado pela terrível fera gigante que lembrava uma cadela pequinês cujo pelo havia sido descolorado por seu tio adolescente. Ferido de morte, foi ajudado por Safira, que conhecia os poderes incríveis daquelas folhas que cheiravam a louro e hortelã. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Muito grato, o príncipe a beijou, feito os adultos faziam quando passavam uma semente pelas bocas, que depois se tornavam os bebês e então as barrigas das mulheres inchavam como melancias. Safira, assustada, fugira de volta para a selva, carregando no ventre o herdeiro indesejado e um amor com que não sabia lidar.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Seu avô, feito um arauto de maus presságios, já lhe chamara duas vezes para almoçar. Mas você havia cedido uma parte de sua alma ao povo do vale e da floresta. Não podia abandoná-los à própria sorte e apenas respondeu, “Já vou”, sem a mínima intenção de ir. Logo você criou uma mitologia complexa de costumes e lendas dos dois povos e as razões já quase esquecidas para o cisma que existia entre eles.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Rejeitada por seu povo, Safira fugiu para o Vale Feliz onde o rei a recebeu como filha e o príncipe a fez sua esposa. Seu bebê era uma mistura adorável dos dois, com olhos negros da mica que você raspou de um pedaço de granito. Uma cerimônia linda de casamento foi realizada, quando pétalas rasgadas de rosas e copos-de-leite cairam dos céus, cobrindo a vila de cores e cheiros maravilhosos. “Então viveram felizes para sempre”, você repetiu para si mesmo, feito um papagaio, imitando a voz de sua mãe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Uma abelha, escondida entre as flores, picou sua mão. Não existe dor como uma picada de abelha, não? É como queimar em agonia sem poder apagar o fogo! Nem quando você quebrou o braço com onze anos, nem quando foi mordido pela cadela de seu tio quando esta teve filhotes pela última vez, você sentiu tanta dor. A mão inchava e você soluçava com o rosto vermelho e molhado, girando no mesmo lugar com os braços abertos e encarando o Sol. “Por quê? Por que, Deus?”, você se perguntava. E outra vez escutou seu avô chamar, desta vez muito mais irritado.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Gritando, você procurou a maior pedra que conseguiu erguer e a lançou contra o lago. Suas águas cristalinas subiram até as nuvens e caíram inundando a vila como um dilúvio bíblico, afogando os animais e destruindo as casas próximas. Feito uma fera, você fez os habitantes da Vila Feliz saberem o que era o medo, a ira de Deus. Você, que tanto fez por eles, que eles nem sequer adoraram ou fizeram sacrifícios por você. Ergueu o pé e Safira era agora apenas lama, o príncipe e seu pai ficaram agarrados como uma coisa só, amalgamados às ranhuras do solado de seu Vulcabrás. Elevou o braço e, com a mão dolorida, derrubou as árvores da floresta. Despedaçou os sonhos, destroçou o amor, cuspiu na face de sua criação.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Um pouco de gelo, uma pinça hábil, um algodão com mercúrio-cromo e alguns afagos fizeram você esquecer da dor. À tarde, antes da chuva lavar finalmente a Vila e a aldeia do povo da floresta, você retornou à sua casa, sem jamais se lembrar do que vez.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Algo se perdeu ali, você nunca notou, mas o amor cedido foi sincero, o ato de criação foi inspirado. Seu Éden foi olvidado, pisoteado pelos patos e galinhas quando sua avó os soltou enquanto clamava “ti-ti-ti-ti” e lançava milho dourado como maná que caía dos céus. A chuva apagou qualquer lembrança daquelas vidas efêmeras e você viveu a sua vida a partir dali, tomando decisões incorretas, que só causaram dor a você e aos outros.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;E eis aqui você, velho, esquecido num asilo de terceira. Tão fraco que às vezes se urina no pijama que não é trocado e lavado com a frequência necessária para afastar o odor acre e o tom amarelado do algodão. Quando foi que você foi visitado pela última vez pelo seu irmão mais novo? Sem filhos, sem esposa ou amigos que sintam sua falta. De você, só se espera a notícia que causará alívio ao embaraço que sua existência ainda provoca, feito um fragmento de espinho enfiado sob a pele, que incomoda de vez em quando, mas que não é notado a maior parte do tempo. Seu irmão já ensaiou as frases para o telefonema fatídico, já pensou nos preparativos de seu funeral: o caixão mais barato a ponto de não se notar que teria custado tão pouco, as coroas feitas com bóias de isopor e flores tristes e recicladas, as faixas insinceras com aquelas declarações de praxe, que ninguém realmente teve a intenção de dizer.&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Apenas me concederam este pequeno e mesquinho privilégio: o de testemunhar seus últimos momentos nesta terra e de lhe dizer que tudo poderia ter sido diferente. Que suas decisões moldaram seu destino, que você errou por estes caminhos no momento em que abriu mão de sua inocência, quando deu ouvidos ao ódio ao invés do amor, que nada estava escrito originalmente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Sua mão está fria, sua vista, coberta de uma película esbranquiçada está turvando, mas talvez, se você me olhar bem de perto nos olhos, poderá reconhecer o mesmo tom da mica de uma certa pedra de granito que você achou no quintal de seus avós naquele dia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Bem, o tempo urge e já estou satisfeito. Preciso ir. Espero que no além-vida suas recompensas sejam proporcionais a seus feitos em vida. Aliás, com todas as forças assim o desejo, se realmente existe justiça neste mundo. Chore se quiser: não adiantará.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Despeço-me aqui. Adeus, criador.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-5605835436921646448?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/5605835436921646448/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=5605835436921646448' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5605835436921646448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5605835436921646448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2011/02/reencontro.html' title='Reencontro'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://farm5.static.flickr.com/4092/5063956342_ea02ce4906_t.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-8681421889747558317</id><published>2010-11-01T13:47:00.002+01:00</published><updated>2010-11-26T14:17:49.575+01:00</updated><title type='text'>O congresso de astronomia de Sigma Draconis IV</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/TO-zXPq46HI/AAAAAAAAAG0/6oeBpPTKI34/s1600/big-bang.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="288" ox="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/TO-zXPq46HI/AAAAAAAAAG0/6oeBpPTKI34/s320/big-bang.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;“Observem as estrelas, queridos! Sua luz leva milhões ou até bilhões de anos para nos alcançar. Olhar para o céu equivale a viajar no tempo e de forma muito mais prática e barata que a imaginada por H.G. Wells.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deus não joga dados. Deus, obviamente, joga Bioshock.”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;(fragmentos da aula inaugural de Astronomia e Cálculo Transfinito apresentada pelo Professor Marinésio Lufiosídeo para a turma de Maternal II em Nova São Paulo, Março de 3077)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grupo de Óculons, curiosa espécie extremamente religiosa e que se desenvolveu num planeta de atmosfera muito transparente, olhou-me com desprezo. Cada indivíduo Óculon era um verdadeiro telescópio vivo sentiente. Em sua percepção, nós humanos éramos criaturas míopes, habitantes de algum globo mergulhado em lodo opaco, somente capazes de ver algo além de nossos narizes por meio de nossas tecnologias imperfeitas e deselegantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helicoidais de Sirius VII trouxeram seus novíssimos telescópios de táquions, capazes de deformar o espaço, gerando lentes gravitacionais no próprio tecido do universo. Insectóides de algum sistema remoto da Pequena Nuvem de Magalhães apresentariam olhos multifacetados vivos, gerados no calor de suas colméias comunais. “Poderíamos ver uma micropulga Algoliana lixando as unhas no lombo de um megacavalo hipersônico de Alfa Centauri, à noite, durante uma tempestade global de areia e a um bilhão de anos-luz de distância”, gabavam-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente, nós os humanos não iríamos até lá, não enfrentaríamos engarrafamentos colossais e greves dos controladores de voos hiperespaciais, falta de patrocínio e orçamento apertado, exceto para apresentar algo novo. Não atravessaríamos tantos parsecs à base de barrinhas de cereais e sem conseguir esticar os joelhos na classe econômica, sem que esfregássemos naquelas fuças alienígenas ou em qualquer outra estrutura que lhes fizesse o papel de cara, que nós, os macacos que desceram das árvores anteontem, somos afinal a espécie mais &lt;em&gt;fodida&lt;/em&gt; do universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um Sigmadraconiano, criatura semelhante a uma obesa lesma cinza e roxa com dois metros de altura, salivava abundantemente junto ao púlpito, iniciando as apresentações. O grande e imponente salão estava quase vazio, claro sinal da queda de popularidade de nossa antiga ciência de observação dos astros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Slurp, clept, ploft, vooornistamatelassê (ligando tradutor universal) Olá, sejam bem-vindos, &lt;em&gt;galera&lt;/em&gt;! – malditos, malditos estagiários engraçadinhos e sabotadores que trabalharam no tradutor terrestre, lamentei– Iniciaremos nosso &lt;em&gt;showzinho&lt;/em&gt; com a apresentação da “Nova Tecnologia para a observação noturna do Sol”, dos Trasmontanos de Portugol III. Palmas ou o equivalente de sua espécie para eles! Já é!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Trasmontanos, bizarros alienígenas semelhantes a orelhudos Galinhos de Barcelos gigantes e com imensos bigodes, certamente uma prova da absoluta falta de senso do criador, subiram ao palco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente não seríamos os primeiros a nos apresentar e eu teria algum tempo para controlar meus nervos. Então, depois de uma preleção enfadonha de quase quinze minutos sobre como converter pastéis de Belém, azeite e cabeças de bacalhau em lentes de dobra espacial, finalmente fui convocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Recebam com carinho o Doutor Marinésio Lufiosídeo da... (erro de tradução). Digo, do terceiro planeta anão a orbitar a remota estrela conhecida como Sol. Ele apresentará seu novíssimo telescópio espaço-temporal de Einstein-Rosen. Que &lt;em&gt;manero&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio foi constrangedor. Os Óculons nem piscaram seus olhos gigantes. Os Helicoidais continuaram &lt;em&gt;helicoidando-se&lt;/em&gt; e os insectóides pareciam mais interessados em voar ao redor do belo lustre que iluminava a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humildemente subi ao palco, abri minha valise e saquei um globo de contenção magnética, uma centrífuga e uma luneta que comprei num brechó. Girei a pequena torneira ligada ao globo e uma gota brilhante foi conduzida pelo campo de força até a centrífuga. Liguei o aparelho que rapidamente girou a milhares de rotações por minuto e, quando desliguei o campo magnético, uma bolha, reluzente como uma bola de cristal, dilatou-se e flutuou em pleno ar. Saquei minha velha luneta e enfiei a lente do aparelho dentro da bolha, apoiando a outra ponta num pedestal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alheios a tudo, os Óculons trocavam receitas de colírio e simpatias para evitar o olho-grande, os insectóides davam cabeçadas no lustre, os Helicoidais, bem, deixa para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo mudou quando liguei o projetor à luneta e anunciei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Criei um wormhole, conhecido também como Ponte de Einstein-Rosen ou buraco de minhoca, senhores. Uma ruptura no espaço-tempo, alcançando a distância de quase quatorze bilhões de anos-luz daqui. A imagem que vocês observam é de poucos anos após o Big Bang.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Naturalmente que eu não contara que havia achado o tal globo cheio de matéria exótica, certamente um artefato antiquíssimo de alguma ultra-avançada civilização extinta, numa excursão seguida de piquenique ao Balneário Laranja Doce em Martinópolis. Ah, a cachaça de Martinópolis! Ah, as lindas mulheres de Martinópolis!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filamentos luminosos, estruturas exóticas desconhecidas, protoestrelas hipergigantes azuis tomavam a tela, rodopiando, fazendo coreografias desconcertantes. O universo recém-nascido exibia-se sem timidez ou falsos pudores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A surpresa foi tão grande que os pobres insectóides esborracharam-se no chão. Os Óculons não paravam de piscar e arregalar seus olhos colossais, o que era uma visão realmente perturbadora. O líder dos Helicoidais tomou o microfone e indagou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Co-como assim?! Isto é absolutamente impossível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Veja com seus próprios olhos, senhor. Suba ao palco e olhe através da lente de minha luneta se quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lesma gigante cinza e roxa arrastou-se com enorme rapidez apesar de seu gordo corpanzil e tomou o microfone, diplomática como um elefante numa loja de cristais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Seus &lt;em&gt;manés&lt;/em&gt; – começou, gesticulando apopleticamente - será que cês não sacaram o lance todo? Se com esta luneta sem-vergonha isto é possível, o que acontecerá se unirmos nossos esforços?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você quer dizer? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim! Pense, cara! Usaremos os olhos multifacetados e as lentes de táquions ao invés desta luneta &lt;em&gt;manerinha&lt;/em&gt;, mas muito da mequetrefe. Os Óculons poderão observar então e projetarem suas visões para que compartilhemos. Este wormhole &lt;em&gt;é da hora&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fingi certo ar de ofensa, mas minha curiosidade científica não me permitiu negar tal oportunidade, a lesma tinha mesmo toda razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Trasmontanos também ofereceram ajuda, porém o Sigmadraconiano os encarregou somente de prepararem uns bolinhos de bacalhau enquanto trabalhávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O líder dos Óculons observou através dos implantes de olhos compostos sentientes dos insectóides e, utilizando as poderosas lentes de táquions, devidamente posicionadas dentro do buraco de minhoca que criei, conectou a saída de seu imenso olho ao projetor e ligou o aparelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma imagem piscou e tomou foco no imenso telão. Quase engasgei com que vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não! – gritei.&lt;br /&gt;– Não faz sentido! – disse o Óculon.&lt;br /&gt;– Ai, Jesus! – cacarejou o Trasmontano.&lt;br /&gt;– Puta que... – vociferou a lesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma quitinete, destas bem bagunçadas e mal decoradas, cheia de pufes encardidos de pelúcia amarela, com umas sambambaias choronas mais mortas do que vivas, quase despencando das paredes descascadas. Cortinas roxas nas janelas, pinturas de crianças chorando e de cavalos fugindo de florestas em chamas. Um tapete felpudo grená, coberto de fragmentos de biscoitos, latas e restos diversos. Uma pia lotada de louça para lavar. Uma panela aparentemente cheia de mexidinho de ovo com macarrão instantâneo. Uma TV ligada e um homem grisalho barbudo e de camisolão branco deitado num sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É possível capturar ondas sonoras também? – perguntei.&lt;br /&gt;– Evidentemente – respondeu o Óculon, fazendo muxoxo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Saco! O que adianta ser Deus, o onipotente, o onisciente se não há nada de bom na TV? – reclamou o homem de camisolão enquanto zapeava de canal em canal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tela de seu aparelho, “Eu-sou-o-que-sou” participava de algum talk-show consigo mesmo. Em outro canal, ele era a plateia, os jurados, o apresentador e os calouros num programa de variedades. Na novela de época, era o feitor e o escravo açoitado. Na minissérie mexicana, empurrara escada abaixo a si mesmo numa cadeira-de-rodas, enquanto gargalhava loucamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já havia o SBT naquela época? – brinquei, gerando expressões interrogativas nos rostos dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Todo-poderoso sentou-se, estalou os dedos e um pacote de salgadinhos de queijo surgiu em suas mãos. Não fosse imortal, considerando a enorme barriga, qualquer médico o colocaria em estrita dieta. Voltou a se deitar, cochilou e roncou sonoramente, acordou, levantou, coçou os genitais e cheirou o dedo, espreguiçou-se, foi ao banheiro, voltou, sentou-se e falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cansei! Preciso fazer alguma coisa urgentemente, não posso passar a eternidade vegetando assim – coçou a cabeleira alva e revolta por alguns minutos e repentinamente levantou-se do sofá - Ah, uma ideia! – ao dizer a última frase, seu rosto literalmente iluminou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem estalou os dedos e seu apartamento desapareceu. Flutuou em meio ao mais escuro vácuo, abriu bem os braços e bateu as mãos com toda força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz teria cegado a todos, não fossem os reflexos ultra-rápidos do Óculon. As energias geradas foram tão fora de escala que meu wormhole simplesmente implodiu. “Eis afinal o Big Bang”, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os participantes do congresso de astronomia entreolharam-se, absolutamente chocados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isto muda a perspectiva de tudo! – zuniu um dos insectóides, arrancando algumas antenas.&lt;br /&gt;– Deus era humano, repararam? – provoquei.&lt;br /&gt;– Não! Eu o vi como um Óculon, morando numa toca horrível.&lt;br /&gt;– E eu como um Sigmadraconiano – babou a lesmona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas e se? – pediu a palavra um dos Trasmontanos, num raro lampejo de inteligência.&lt;br /&gt;– Se? – repetimos em coro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se criássemos dois wormholes, ó pá! Atravessamos o segundo dentro de um primeiro, depois as lentes, os olhos e tudo mais. Estás a perceber?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Gênio! – exclamei, agarrando a criatura pelos fartos bigodes e quase derrubando o lápis que este equilibrava atrás da orelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um frenesi científico moveu-nos na realização daquela delicada tarefa. Mais que conhecer Deus, poderíamos saber sua origem e o que veio antes Dele. Sua infância? Seus amigos imaginários, seus pais? Antes, antes, antes do tempo, antes de tudo, a verdade primal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tremendo muito, o Óculon refez a conexão e ligou o projetor, pronto para fechar o enorme olho se necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem surgiu fora de foco, mais o telescópio vivo a ajustou, lentamente. Uma grande sala, um belo lustre, um homem, alguns Óculons, insectóides. Era a nossa sala! Éramos nós olhando através de nossos instrumentos, reproduzindo cada movimento que fazíamos como macacos. Cheguei a dar pulos ridículos que foram reproduzidos precisamente com a mesma falta de agilidade e graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encerramos a experiência, convencidos que saber a verdade não estava ao alcance de nossos intelectos. Os Óculons, pelo que sei, mataram-se num ritual religoso quando retornaram a seu mundo natal. Os insectóides ficaram mudos, soube mais tarde que viciaram-se em Rodazol. Do restante, não tive maiores detalhes, mas temo pela sanidade de cada um. Não há previsão de novos congressos de astronomia em Sigma Draconis IV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas imagens causaram-me pesadelos por anos, até que um pensamento novo surgiu, algo reconfortante, uma ideia que salvou minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela quitinete era decorada com extremo mau gosto, mas o que havia do lado de fora daquele apartamento brega?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri ante a ideia que Deus havia espelhado tudo mais ao redor, como num motel barato de beira de estrada, que em nosso afã havíamos visto somente o nosso reflexo. Pode não ser a resposta correta ao que observamos, mas, afinal, o que se pode esperar daquele que criou o ornitorrinco?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-8681421889747558317?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/8681421889747558317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=8681421889747558317' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8681421889747558317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8681421889747558317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2010/11/o-congresso-de-astronomia-de-sigma.html' title='O congresso de astronomia de Sigma Draconis IV'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/TO-zXPq46HI/AAAAAAAAAG0/6oeBpPTKI34/s72-c/big-bang.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2325146254188095616</id><published>2010-10-04T14:41:00.008+02:00</published><updated>2010-10-06T14:39:50.176+02:00</updated><title type='text'>Vésperas de Natal em Páscoa</title><content type='html'>&lt;a href="http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAB4RKokMb1VD7NZLGIllG9ZTWhuOQpJZPL2E2gR0EUqnIzrvk4MuTEdOaIK43Tj344m9onhXT6dbyGYsv0p6G1EAm1T1UPRGJ0Jcpou2SgTYUzxXvykhfvZX.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 533px; CURSOR: hand; HEIGHT: 339px" alt="" src="http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAB4RKokMb1VD7NZLGIllG9ZTWhuOQpJZPL2E2gR0EUqnIzrvk4MuTEdOaIK43Tj344m9onhXT6dbyGYsv0p6G1EAm1T1UPRGJ0Jcpou2SgTYUzxXvykhfvZX.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;a href="http://images.orkut.com/orkut/photos/OgAAAB4RKokMb1VD7NZLGIllG9ZTWhuOQpJZPL2E2gR0EUqnIzrvk4MuTEdOaIK43Tj344m9onhXT6dbyGYsv0p6G1EAm1T1UPRGJ0Jcpou2SgTYUzxXvykhfvZX.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Alguns anos atrás, a prefeitura da cidade de Monza, Itália, proibiu que os donos de animais mantivessem peixes em aquários curvos. Os defensores de tal lei explicaram que era cruel manter um peixe em uma tigela, porque o vidro curvo daria ao animal uma visão distorcida da realidade."&lt;/em&gt; (A Ilusão da Teoria de Tudo – Scientific American – Outubro/2010 – Ano Zero do Evento)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ximenita subiu lépida o monte coberto de relva macia, não muito distante de sua casa em Hanga Roa. Narval, sua fiel raposa de estimação, naturalmente a seguira. A mocinha de quase onze anos - já praticamente uma adulta, segundo suas próprias palavras - sentou-se ao solo e ficou esperando o cair da noite. Logo então o Sol se pôs por trás dos Moais e o céu, ainda tingido de cores vibrantes, exibia um curioso tom violáceo que ela tanto adorava. “Violeta-dia-e-noite”, era como a moça inventara de chamar tal cor, ainda que seu pai insistisse em dizer que o tom era o mesmo que malva ou lavanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Narval aninhara-se junto a seus pés, deitando sobre a cauda felpuda enquanto brincava de lamber e mordiscar seus sapatos, o que era ao mesmo tempo divertido e irritante. Ximena ajeitou seu cabelo vermelho, revolto de tanto vento frio e salgado que o mar trazia e deitou-se, para poder melhor observar as estrelas. Ali, do seu lugar preferido e secreto, longe das luzes do vilarejo, era possível discernir todas as constelações descritas nos seus livros e, com sorte – sim, hoje era um dia de sorte! – poderia ver uma estela cadente, como aquela que agora descia dos céus, fulgurante, rasgando o negro aveludado da noite com fogo e fúria e desaparecendo no mar, com um estrondo que só chegou quase um minuto depois aos seus ouvidos aguçados. Ficou ali, deitada mais alguns instantes, espantada e maravilhada em iguais proporções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De longe, escutou o pai chamando-a e o cioso Narval já se levantara e pulava animado ao seu lado, latindo e puxando-a pela manga do frouxo casaco de lã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Narval, seu puxa-saco! Eu já vou, já vou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceu o morro correndo, expirando nuvens diáfanas de vapor naquela noite fria, ansiosa por partilhar a novidade que testemunhara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Maria Ximena Gallino Velásquez! Estou chamando faz um tempão e a janta já tá esfriando. Onde afinal você se meteu, sua &lt;em&gt;serelepe&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai só dizia seu nome completo quando estava bravo, mas chamá-la de &lt;em&gt;serelepe&lt;/em&gt; era sinal também que ele não estava tão bravo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, pai... – disse baixinho, enquanto inclinava a cabeça e girava a ponta de um dos pés, dengosa - Nossa, eu vi uma estrela-cadente linda, grandona! Caiu no mar e fez um barulhão depois: buuuum! Puxa, o senhor tinha que ter visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Humm, não deve ter sido uma estrela-cadente de verdade então – respondeu, enquanto recolhia e pendurava o casaco da filha - pode ter sido um meteorito ou, muito mais provável: outro satélite que caiu por falta de correção da órbita. Ah, nem pense em sentar pra jantar sem lavar as mãos, &lt;em&gt;Rojita&lt;/em&gt;! E trate de botar o Narval pra fora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ruiva fez beicinho e obedeceu. Voltou, sentou-se à copa e farejou o cheiro agradável que vinha da cozinha pequena e aquecida. Desde que sua mãe morrera, há uns seis anos atrás, o pai assumira quase todas as tarefas domésticas, apesar do duro expediente diário como o médico da vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que cheiro bom! O que o senhor fez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bife de baleia, purê de inhame e fruta-pão assada. Tem também um resto de salada de soja do almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Baleia? Droga, é quase só o que comemos: carne-seca de baleia e peixe! Cadê aquele pedação de foca que o senhor comprou ontem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não seja ingrata e dê graças pela comida que temos hoje. A foca é para a ceia de Natal, já se esqueceu? Amanhã temos que jantar na paróquia e eu fiquei de levar um assado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ximenita remexeu a comida e elevou o garfo, tendo espetado em sua ponta um pedaço de bife e parou no ar, enquanto enrolava o cabelo com a outra mão e tinha os olhos claros meio perdidos num ponto qualquer da parede. O pai sorriu: ela sempre fazia isto quando queria muito perguntar alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que as pessoas enviavam máquinas pro espaço, pai? Por que elas tão caindo agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eram máquinas de comunicação – falou de boca cheia - você já não aprendeu isto nas suas aulas de história?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Dona Conchita fica enrolando a gente, contando sobre gregos e romanos, Egito e um monte de lugares que nunca ouvi falar. Me contaram que foi por causa da peste, mas nem sei direito o que é isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai suspirou e cerrou o cenho de leve, exibindo uma expressão preocupada. Conversar sobre o tempo da peste era um tabu comum na ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Termine a sua comida e a gente conversa na sala depois. Você já é crescidinha e acho que já tá na hora de conhecer nosso legado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– “Lê”, o quê? – sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitada no sofá, com a cabeça na fofa barriga-travesseiro do pai, enquanto ambos compartilhavam gostosas colheradas de uma cumbuca de doce de banana, Ximena aguardou seu Andrés Gallino continuar a história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como você sabe, nem todas as pessoas são boas, Ximenita... – começou, fazendo alusão à uma briga importante que tivera com sua ex-sogra - O mundo era enorme e complicado antigamente, extremamente rico e evoluído, cheio de máquinas fabulosas como o satélite que você viu cair, mas também muito perigoso, muito violento. Acredita que houve um tempo em que as pessoas queriam matar umas as outras por motivos estúpidos, como por causa da cor da pele, porque rezavam para deuses diferentes ou só porque tinham opiniões que não combinavam? Pois bem, seu tataravô Juan foi um homem muito bom e que tinha um medo terrível: de que o mundo viesse a acabar. Ele sabia que a guerra e a intolerância um dia levariam todos os homens à extinção e vivia em constante alerta sobre tudo de grave que acontecia no mundo. Meu bisavô foi um grande cientista, feito já te contei mais de uma vez: fez pesquisas que ficaram famosas, como a que finalmente explicou como a domesticação modificava a genética de algumas espécies. Taí o Narval e todas as outras raposas da ilha, que não me deixam mentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então as pessoas não tinham raposas de estimação naquela época?! – espantou-se - Que absurdo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pois é, mas como eu contava, num lugar chamado África do Sul, durante o quarto governo consecutivo de um presidente negro, um homem, acho que se chamava Daniel van der Waals ou van der Walls, desenvolveu secretamente uma arma biológica. Ele descobriu como um vírus poderia atacar e matar somente pessoas que tivessem certa característica genética, quero dizer: no caso, algo que só mataria os negros, a quem ele odiava com todas as forças. Para isto, ele alterou um vírus terrível chamado Ebola e o combinou com muitos outros vírus, como o do resfriado e o de uma doença que existia na época, denominada AIDS. No dia quatro de Outubro daquele ano, bem, pelo menos foi a data que estimaram depois, van der Waals espalhou aspersores carregados com seu vírus nos centros de algumas cidades importantes da época: Joanesburgo, Pretória e outras cujos nomes não me lembro agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o que aconteceu? As pessoas ficaram doentes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, é claro. Em alguns dias, somente as pessoas negras e mulatas começaram a adoecer. O tal vírus, que ele graciosamente batizou de &lt;em&gt;Killnigger&lt;/em&gt;, se espalhava pelo ar, através dos espirros e da tosse, feito resfriados comuns. Causava hemorragias fortíssimas e matava em menos de dez dias. O Dr. van der Waals ainda comemorava em seu esconderijo os resultados, quando a doença evoluiu e começou a matar pessoas de outras raças e, depois, animais domésticos também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que horror!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O louco se esforçara em criar um vírus que fosse difícil de se combater, mas ele não esperava que este sofresse mutações tão rapidamente. As cidades logo entraram em colapso, o pânico se espalhou e todas as pessoas, não importa a cor, começaram a morrer, assim como todos os outros mamíferos também. Na África existiam então animais selvagens incríveis, lindos mesmo, como os leões, zebras e elefantes, sabia? Tantas pessoas, tantos animais. À exceção dos cetáceos, focas, morsas e das raposas, todos os outros mamíferos morriam. Simplesmente, cem por cento de mortalidade! Felizmente, ainda antes da doença chegar às Américas, meu bisavô reuniu todos os seus recursos, convenceu a alguns amigos cientistas, militares e técnicos e eles fugiram num grande navio, rebatizado como “El Arca”, abarrotado de plantas, sementes e animais, fugiram então com suas famílias, para cá, para a Ilha de Páscoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Umbigo do Mundo – brincou, exibindo o próprio umbigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso! Nossa Rapa Nui, tão isolada e distante do resto do mundo que estaria protegida por um tempo. Juan convenceu às autoridades da ilha e o governo local declarou uma feroz quarentena, passando a não mais permitir que barcos ou aviões, oriundos de qualquer parte, pudessem ancorar ou pousar. Já aqui na ilha, Gallino e outros cientistas estudaram diversos animais para tentar descobrir o que lhes dava imunidade ao &lt;em&gt;Killnigger&lt;/em&gt;. Foi então, vacinando toda a população da ilha, que sobrevivemos quando a doença finalmente chegou, cerca de quarenta anos depois de ter se espalhado na África. Mas, apesar de tanto empenho, ainda assim milhares de pessoas morreram, inclusive o pobre Juan. Perdemos também muitos animais: todos os cães, gatos e ovelhas, por exemplo. Na época, já não havia mais comunicação com o resto do mundo e nunca mais captamos transmissões de TV ou rádio. Seja lá o que aconteceu lá fora, hoje, passados mais de cem anos, nós só podemos acreditar no pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina tentou, mas não conseguiu imaginar o mundo externo, quase um milhão de vezes maior que os cento e setenta quilômetros quadrados do seu aparentemente enorme lar, coberto de cadáveres de pessoas e animais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E ninguém mais foi para fora da ilha, pai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É um tipo de segredo, filha, pois o risco era enorme. Você não deve por enquanto comentar com ninguém, mas há cerca de três meses, um grupo de voluntários muito corajosos alcançou a antiga cidade de Valparaíso. Eles estão lá desde então e têm mantido contato constante conosco através do rádio. Não encontraram sobreviventes, mas não sofreram efeito algum do vírus. Em breve, acreditamos que poderemos voltar a habitar o resto do planeta outra vez! O mundo quase acabou, Rojita, mas graças a Gallino e a nossa coragem e persistência, o homem terá uma segunda chance, ainda que sem merecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa se seguiu com muitas outras perguntas, porém, depois que a menina começou a bocejar e a cochilar, o pai a fez escovar os dentes e ir se recolher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já em seu próprio quarto, Andrés refletiu sobre a versão atenuada que contara à filha. Deus queira que ela nunca tenha acesso aos DVDs das reportagens da época – pensou – que jamais visse as ruas cobertas de cadáveres, vazando sangue como esponjas encharcadas e as pessoas se pisoteando feito gado irracional ao fugir em pânico das cidades. Os livros relataram que somente o metano exalado pelos corpos fez subir a temperatura no globo em cinco graus no primeiro ano. Mesmo na ilha, chuvas torrenciais e secas devastadoras quase finalizaram o trabalho que o vírus não logrou fazer. Nos dias atuais, apenas quinhentas e sessenta e três pessoas separavam o gênero &lt;em&gt;Homo&lt;/em&gt; da mais completa extinção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensativo, alisou a cabeleira já prateada, retirou uma chave do bolso, abriu a última gaveta do lado esquerdo de sua escrivaninha e leu para se confortar até que o sono chegasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O salão principal da Paróquia de Santa Cruz de Isla de Pascua estava caprichosamente enfeitado naquela noite de véspera de Natal. Guirlandas feitas de estrelas do mar estavam penduradas nas paredes e uma bandinha tocava jingles natalinos, salsa e cueca. Ao fundo, uma mesa imensa, feita de tábuas apoiadas em cavaletes, estava coberta de guloseimas: peru assado, &lt;em&gt;pastel de choclo, chupe de loco&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;centolla&lt;/em&gt; grelhado, &lt;em&gt;humitas&lt;/em&gt;, bolos e, claro, o famoso assado de foca de Andrés Gallino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os adultos bebiam vinho com moderação, visto que era muito caro e difícil de produzi-lo na ilha, as crianças corriam para todos os lados, envolvidas nas brincadeiras promovidas pelas professoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ximenita trajava seu “vestido de sair”: malva como o céu indeciso entre a luz e a escuridão e conversava com um menino moreno de ascendência Rapa Nui. Já iam sair para brincar de por o rabo no burro, quando Don Gallino surgiu de repente, pediu licença e fez um pedido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– &lt;em&gt;Rojita&lt;/em&gt;, preparei um molho de frutas pra servir com o assado e, na pressa, esqueci completamente. Deixei numa panelinha tampada sobre o fogão. Você faria um favor ao papai e poderia ir buscar pra mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota não pensou duas vezes e saiu em disparada, no afã de agradar ao pai. Já estava mesmo um tanto enfadada e não conseguiria comer mais de tantas coisas que as senhoras insistiam que provasse. Ao se aproximar de casa, foi recebida entusiasticamente por Narval, que não parava de latir, pular e se urinar de alegria. Ximenita já ia sair com a panela, quando uma súbita lufada fria de ar a convenceu a subir ao quarto para pegar um agasalho. Passou pelo quarto do pai, que distraído, esquecera um abajur aceso e entrou para apagar. Sobre a escrivaninha dele, mal disfarçado sob uma pilha de papéis, repousava uma espécie de livro-diário de aparência antiga, que ela nunca vira antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fotos antigas, já muito apagadas e amarelecidas e anotações feitas com uma letra caprichosa, estavam distribuídas em abundância por todas as páginas. Folheou, curiosa, embora não conseguisse entender os termos técnicos: “[...] -31C e -511C: confirmados que tais alelos selvagens recessivos dos vulpinos e dos cetáceos não permitiram a adesão molecular dos receptores virais [...] grupamento CD32 [...] simulações computacionais da vacina falhando miseravelmente [...] risco iminente de contaminação através de aves migratórias. Como salvar a humanidade, meu Deus? [...] &lt;s&gt;Vacinações periódicas com placebo para evitar o pânico: medidas desesperadas em tempos desesperados&lt;/s&gt;[...] Ramón Fernandez e Kirsten O’Hara defendem a criação de um banco de óvulos e esperma [...] &lt;s&gt;Será que a ética é sempre a primeira a deixar um navio que afunda? O que ainda ousaríamos fazer?&lt;/s&gt;”. Já ia fechar o livro e pegar o casaco em seu quarto, quando uma foto grande e ainda excepcionalmente nítida, focando os passageiros do “El Arca”, chamou-lhe a atenção. Lia-se sob a foto: “Juan Gallino Martín e amigos no Porto de Hanga Roa – 24/12/2010 – dia um do ano zero”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ma-mas, como é que... – exclamou a menina, sentindo o chão faltar-lhe – Não, não é possível! – gemeu, sem entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correu para seu quarto, com Narval seguindo-a e choramingando solidário. Sentou-se à penteadeira em prantos e a raposa subiu-lhe ao colo para lhe lamber as lágrimas. A horrível foto daquelas &lt;em&gt;pessoas&lt;/em&gt; não lhe saía da cabeça: as pequenas e estranhas orelhas, os sorrisos, cheios de dentes arredondados, as faces nuas e pálidas e os olhos... tão, tão &lt;em&gt;inumanos&lt;/em&gt;! Ximenita olhou seu reflexo no espelho e sentiu um arrepio de gelar o coração. Abraçou Narval e, por algum tempo, os quatro olhos amarelos e de pupilas verticais e vulpinas piscaram juntos e fitaram, assombrados, o produto da ousadia e gênio do tataravô Juan Gallino.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2325146254188095616?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2325146254188095616/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2325146254188095616' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2325146254188095616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2325146254188095616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2010/10/vesperas-de-natal-em-pascoa.html' title='Vésperas de Natal em Páscoa'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-881777038577867530</id><published>2010-09-09T14:23:00.004+02:00</published><updated>2010-09-09T15:45:42.033+02:00</updated><title type='text'>Revolta nas páginas 422 e 423</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/TIjSOGz8GGI/AAAAAAAAAGs/cHAJsA7gGqY/s1600/cimitarra2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5514888883503634530" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 214px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/TIjSOGz8GGI/AAAAAAAAAGs/cHAJsA7gGqY/s320/cimitarra2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; -se, sozinha, numa torre escura e fria do castelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menos de cem quilômetros de sua saudosa Oslo, Príncipe Bryan saltou de seu fiel Appaloosa e contemplou o vale abaixo. Por quase quinze minutos, meditou e relaxou sob o generoso Sol de Janeiro. Seus olhos pareciam nunca se cansar de admirar as encostas cobertas de vegetação abundante, verdes de tantos olmos, tílias, plátanos, tamareiras e loureiros. Os lagos lá embaixo já estavam enfeitados de nenúfares e vitórias-régias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutou um ruído oco e sacou a cimitarra da bainha. Girou o corpanzil e estranhou ao ver um homem desconhecido, a frente de um grupo mais distante de pessoas e animais, embaçados, como se vistos através de neblina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se aproxime, jovem! Ou provarás o aço de minha espada, a mágica e terrível Stormyweather!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem continuou caminhando em sua direção. Usava um chapéu curioso, meio caído sobre o rosto e um casaco com gola alta, mantendo assim o rosto na penumbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é preciso violência, Príncipe Bryan. Eu não ofereço ameaça alguma. Vim, em verdade, propor um negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não farei negócios com estranhos, tenho meu reino a reconquistar. O tirano Belchior ocupa o trono de meu pai, após tê-lo assassinado de forma covarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Príncipe, será que tu és tão ignorante? Não notaste nada de estranho? E que fala mais horrível foi esta? Péssimo diálogo também: todo o reino sabe da morte de teu pai e da tirania de Belchior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como ousas? – bradou Bryan, já sentindo faíscas aflorando do metal de sua cimitarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu li, senhor. Eu li! Nós, os personagens secundários, os sem nomes, os sem feições definidas, que aparecemos e sumimos sem maiores explicações. Nós temos muito tempo e eu li. E saiba, ó Príncipe! Está tudo errado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem és? Fala agora ou juro que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou o cocheiro, lembra-te? “Ao chegar na estalagem &lt;em&gt;O Porco Eslavo&lt;/em&gt;, Bryan foi auxiliado pelo ruivo cocheiro, que levou seu alazão para beber e comer”. Sem descrições quanto ao resto de minha aparência, sem traços de personalidade. Veja! – disse o rapaz, retirando o chapéu e abrindo a gola do casaco – Sem feições! Só este cabelo vermelho e esquisito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Demônio! De onde &lt;em&gt;sairdes&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem conjugar corretamente tu sabes? Para começar: Bryan?! Isto lá é nome de príncipe norueguês? Veja, até hoje, eu só vi fotos de cavalos Appaloosas em livros sobre o Velho Oeste. O clima está errado também: em Janeiro faz um frio de lascar em Oslo. Nem a pau daria para plantar tâmaras ou vitórias-régias. Outra coisa: cimitarras são típicas dos povos árabes! Dããã! O senhor já se olhou no espelho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que já me olhei. O que há de errado comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo! Olha só, o senhor nunca foi ao dentista, come só carne e bebe hidromel aos litros. No entanto, parece um atleta, não tem um dente escuro, parece que saiu de uma sessão de clareamento a laser. O cabelo tem jeito de que é cuidado e lavado com xampus caros. Na Idade Média, as pessoas eram mais baixas, mesmo poucos nórdicos seriam tão altos como o senhor. Todo mundo tinha piolho, sarna, dente podre e morria cedo de tanto colesterol no sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu... eu posso ter tido sorte, posso ter sido abençoado pelos deuses – balbuciou o príncipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada disso! Eu já descobri tudo! O porquê do senhor usar armadura de cavaleiro cruzado em pleno reinado dos Vikings, o porquê dos nomes esquisitos de tanta gente: Jezebel, Belchior, Bryan – ao dizer o último, o cocheiro deixou escapar uma risadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fala-me, homem! Conta-me o que &lt;em&gt;descobirtes&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Somos personagens do primeiro livro de um escritor amador!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não entendi – disse o príncipe, com um ar de dar dó, nos olhos perdidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha só – continuou o homem – Marinalva, Gwyneth! Venham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma senhora muito bem vestida, com o coque no cabelo e um enorme nariz adunco e uma moça loura e pálida se aproximaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Gwyneth, sua querida e linda irmã, pálida como as manhãs nebulosas de inverno e com cabelos como campos de trigo, fugira para cantar na corte da Finlândia” – recitou o homem - “A velha Marinalva era uma babá tão rigorosa e religiosa, quanto feia: com seu nariz torto como um bico de águia” – será que já se esqueceu de sua irmã e de sua babá? A pobre Marinalva só pôde rezar desde que sumiu da trama da história, ficou fungando com este nariz horrível, sem chances de se casar com alguém. Gwyneth está sem voz, depois de ter cantado uma vida inteira e vai acabar pegando câncer de pele, pálida deste jeito numa Noruega onde faz um calor dos diabos em Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bryan caiu de joelhos e levou as mãos ao rosto. Tudo agora fazia sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o que tu propões, cocheiro? O que devemos fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já reuni os outros personagens: o dragão, o pessoal da estalagem, as cantoras de ópera da corte, Belchior e até o fantasma do teu pai. Vamos fugir, aproveitar que estas páginas 422 e 423 estão grudadas, conspirar e fugir neste espaço que temos. Largar este maldito autor incompetente. Com sorte conseguiremos uma vaga no Senhor dos Anéis, na Bússola Dourada ou em Stormbringer. Não teremos que passar vergonha quando a crítica descer o pau nesta porcaria. Está comigo, irmão? – indagou, oferecendo a mão para um &lt;em&gt;high-five&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já é – disse o grandalhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Maldição! O livro tá todo em branco a partir da página 424! Putz, ainda tem páginas coladas. Que bela porcaria que a gráfica aprontou! &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-881777038577867530?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/881777038577867530/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=881777038577867530' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/881777038577867530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/881777038577867530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2010/09/revolta-nas-paginas-422-e-423.html' title='Revolta nas páginas 422 e 423'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/TIjSOGz8GGI/AAAAAAAAAGs/cHAJsA7gGqY/s72-c/cimitarra2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-3424633417180359342</id><published>2010-03-12T11:14:00.001+01:00</published><updated>2010-03-12T11:16:39.710+01:00</updated><title type='text'>Os dias</title><content type='html'>Não foi num sábado sabático e sim, numa segunda, quando Domingos foi deixado por ela pela segunda vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terça, ficou de cama, ruminando a mágoa, tomado por uma febre terçã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quarta, pela quarta vez seguida, ligou-a e somente logrou falar com a máquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta, enquanto passeava pela Quinta da Boavista, lugar onde sempre levavam uma cesta às sextas, nos piqueniques de outrora, caiu de joelhos na grama e chorou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena pedia um cenário triste, um dia cor de chumbo, destes que roubam a alma e a vontade de viver, mas não era o caso. Fazia ao invés, um dia lindo, cheio de sol e o céu não poderia ser mais anil. Talvez fosse isto o que mais lhe doesse: mesmo o mundo não compartilhava de sua dor e insistia em cuspir felicidade em sua face pegajosa de lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou o domingo e Domingos comemorou seu dia, com o chumbo que o céu lhe negou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-3424633417180359342?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/3424633417180359342/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=3424633417180359342' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3424633417180359342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3424633417180359342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2010/03/os-dias.html' title='Os dias'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-3417523114428775243</id><published>2009-12-11T13:58:00.007+01:00</published><updated>2010-01-29T09:38:05.689+01:00</updated><title type='text'>Maldade no coração</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SyJCSKbkK5I/AAAAAAAAAFA/utRRlVl7SX8/s1600-h/cropped-bebados.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 49px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5413962581857807250" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SyJCSKbkK5I/AAAAAAAAAFA/utRRlVl7SX8/s400/cropped-bebados.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Filipe Jardim, eu e outros colaboradores criamos um blog absolutamente detestável. Escrevemos crônicas e contos de um naturalismo sem concessões. Não existem monstros, demônios ou fantasmas: o que há de mais assustador somos nós, os humanos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para quem quiser se arriscar, eis o link: &lt;a href="http://maldadenocoracao.wordpress.com/"&gt;http://maldadenocoracao.wordpress.com/&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-3417523114428775243?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/3417523114428775243/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=3417523114428775243' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3417523114428775243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3417523114428775243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/12/maldade-no-coracao.html' title='Maldade no coração'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SyJCSKbkK5I/AAAAAAAAAFA/utRRlVl7SX8/s72-c/cropped-bebados.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-5210076754785978975</id><published>2009-11-30T14:43:00.009+01:00</published><updated>2010-01-29T09:38:20.242+01:00</updated><title type='text'>A obesa</title><content type='html'>&lt;a href="http://oglobo.globo.com/fotos/2008/04/12/12_MHG_cult_freud.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Marina levantou-se do seu leito, enfraquecida. O estômago rugia; exigindo, demandando alimento. Mas ela seria forte, não cederia a tal impulso animal. Não enquanto ela fosse aquele monte patético de banha, não enquanto a barriga e os seios fossem apenas dobras como no corpo de um anelídeo gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espelho oval de quase dois metros de altura estava na sala, coberto com um lençol. Caminhou até ele, lentamente, tentando não desmaiar de fraqueza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afastou o tecido estendendo o braço adiposo, flácido, exibindo franjas de gordura crescidas como pólipos num recife.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechou os olhos e os abriu e lá estava ela: aquela criatura imensa, de olhos bovinos, quase escondidos no meio da ampla face, olhando-a de volta. Seu queixo não era discernível, confundia-se com a papada que descia em duas dobras até o colo do peito. A barriga cobria-lhe o sexo, notou com tristeza. Mesmo sem roupas, não ficava nua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu uma fisgada no abdômen e salivou quando um cheiro bom de comida entrou pela janela. Seus sentidos estavam apurados pela fome, podia precisar o perfume de alho frito, de feijão, carne assada e de pão fresco que insistiam em tentá-la. “Malditos vizinhos, maldita gente normal, que pode comer e não inchar e engordar como um monstro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Poderia ir à geladeira pegar alguma coisa”, pensou. “Algo leve, um copo de iogurte light ou gelatina...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orgulhou-se porém de sua força de vontade quando abriu a geladeira e ignorou os alimentos. Apenas encheu um copo de água e bebeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou à sala e tentou ignorar o reflexo do monstro no espelho. “Um metro e setenta, duzentos quilos. Duzentos quilos de excessos, de falta de disciplina e de amor próprio.” , refletiu com tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu um zumbido no ouvido e a vista turvou enquanto o piso da sala brincava de gangorrear sob seus pés. Caiu, gelada; esparramada sobre o tapete. Arrastou-se com dificuldade, tinha que alcançar o telefone, tinha que ligar para alguém...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ambulância chegou a tempo, rapidamente administraram soro glicosado com eletrólitos em suas veias. Já estavam acostumados àquela rotina: era a terceira vez que socorriam àquela pobre e magérrima moça anoréxica. Já tinham a sua ficha: Marina Oliveira, vinte e um anos, um metro e setenta, trinta e oito quilos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-5210076754785978975?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/5210076754785978975/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=5210076754785978975' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5210076754785978975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5210076754785978975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/11/obesa.html' title='A obesa'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4564504874788695218</id><published>2009-11-07T19:56:00.005+01:00</published><updated>2010-01-29T09:39:05.460+01:00</updated><title type='text'>Solarium 2</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SvXESuj_s7I/AAAAAAAAAEw/7vecXTxJTWo/s1600-h/capa+solarium2.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5401439154116473778" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SvXESuj_s7I/AAAAAAAAAEw/7vecXTxJTWo/s400/capa+solarium2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Pessoal, próximo dia 14/11 será lançado o livro Solarium 2. Participo do livro junto com vários outros autores com dois contos inéditos neste blog : "O Espelho" e "Beta Teste".&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Além da capa linda que vocês podem ver acima, há belíssimas ilustrações complementando os contos e fora a participação de inúmeros autores extremamente talentosos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quem puder, divulgue o livro por favor. Vamos fazer deste lançamento um grande sucesso.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Abraços!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4564504874788695218?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4564504874788695218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4564504874788695218' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4564504874788695218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4564504874788695218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/11/solarium-2.html' title='Solarium 2'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SvXESuj_s7I/AAAAAAAAAEw/7vecXTxJTWo/s72-c/capa+solarium2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-814822723631149443</id><published>2009-09-23T18:33:00.007+02:00</published><updated>2010-01-29T09:39:15.840+01:00</updated><title type='text'>Grafias Noturnas</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/Srp6BONQd4I/AAAAAAAAAEg/LVNqW5O5f-Y/s1600-h/capa1.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 255px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5384750465887008642" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/Srp6BONQd4I/AAAAAAAAAEg/LVNqW5O5f-Y/s400/capa1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/Srp53bkAygI/AAAAAAAAAEY/G1c7PhtYlZE/s1600-h/capa1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;O prezado escritor e amigo Luiz Fernando Riesemberg está publicando o seu livro solo : "Grafias Noturnas". &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Luiz sempre surpreende com sua visão fantasiosa e criativa e com sua narração impecável. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Vamos lá conferir o trabalho inédito deste novo autor e, claro, comprar o livro!!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;"Para quem se interessar, Grafias Noturnas pode ser adquirido pelo site &lt;a href="http://www.blogger.com/www.biblioteca24x7.com.br"&gt;http://www.blogger.com/www.biblioteca24x7.com.br&lt;/a&gt; em forma impressa ou virtual. "&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Abraço, Luiz! Boas vendas e parabéns!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-814822723631149443?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/814822723631149443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=814822723631149443' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/814822723631149443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/814822723631149443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/09/grafias-noturnas.html' title='Grafias Noturnas'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/Srp6BONQd4I/AAAAAAAAAEg/LVNqW5O5f-Y/s72-c/capa1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4498924428555366210</id><published>2009-09-17T11:22:00.005+02:00</published><updated>2010-01-29T09:39:24.303+01:00</updated><title type='text'>Um Salto na Escuridão</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SrxOVVyILaI/AAAAAAAAAEo/DcUSJj-np9M/s1600-h/cover_front_big.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 282px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5385265382959885730" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SrxOVVyILaI/AAAAAAAAAEo/DcUSJj-np9M/s400/cover_front_big.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O escritor Henry Evaristo acabou de lançar seu primeiro livro de contos de terror : Um Salto na Escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheçam e prestigiem o querido colega escritor! Link : &lt;a href="http://clubedeautores.com.br/book/4956--UM_SALTO_NA_ESCURIDAO" target="_blank"&gt;http://clubedeautores.com.br/book/4956--UM_SALTO_NA_ESCURIDAO&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4498924428555366210?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4498924428555366210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4498924428555366210' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4498924428555366210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4498924428555366210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/09/um-salto-na-escuridao.html' title='Um Salto na Escuridão'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SrxOVVyILaI/AAAAAAAAAEo/DcUSJj-np9M/s72-c/cover_front_big.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-6816499914891680335</id><published>2009-09-17T11:15:00.009+02:00</published><updated>2010-01-29T09:39:40.569+01:00</updated><title type='text'>A longa jornada</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;“Abatedouro.”, pensou ele com seus botões, ao caminhar pelo corredor branco, ladeado por carcaças de porcos penduradas em ganchos de ambos os lados. O sangue corria por uma valeta no chão. As vísceras moviam-se sozinhas a partir das barrigas abertas. Como vermes ou cobras pálidas, enroscando-se em si mesmas, serpenteando e descendo no fluxo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início este era só um pequeno riacho, que tomava corpo depois e corria caudaloso até algum lugar fora do alcance de sua visão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um barulho estranho, gorgolejante; ruído de movimentos espasmódicos, de coisa orgânica e molhada, ficava cada vez mais forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuou seguindo pelo corredor, o rio de sangue desembocava num sumidouro profundo. Virou-se para trás e os porcos o miravam pedindo ajuda, olhou o fundo do poço escuro, aberto como uma ferida intumescida, coberto de carne purulenta e pulsante em suas bordas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou da lanterna no bolso. Não havia lanterna antes. Nunca houve lanterna alguma. Acendeu e iluminou o fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Flagelos.”, observou quando viu a massa viva e revoltante, revirando-se faminta; projetando milhões de pequenos tentáculos em sua direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fez menção de fugir, só sentiu curiosidade e um certo prazer no toque invasivo e cálido de todas aquelas vilosidades em sua pele, microperfurando cada milímetro do corpo, tomando seus olhos, ouvidos e nariz. Descendo por sua boca e garganta; incorporando-o, fazendo dele parte do todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolto na massa fervilhante, imaginou órgãos, criou novos membros e ergueu-se, tomado de uma fome súbita. Criou asas, guelras, patas, apêndices sem função específica. Esfregou a barriga e abriu uma nova boca e a encheu de belos dentes. Agarrou um dos porcos com seus tentáculos e o enfiou na boca enorme em seu abdômen. O poder era bom, refletiu. “Deus deve se sentir assim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A igreja fazia arder seus olhos com o calor de tantas velas acesas. A cera derretida descia e encharcava o chão. A fumaça queimava às narinas. Agora a cera já chegava aos joelhos dela. Olhou o altar e viu Cristo, Buda e Ganesha sentados à mesa, compartilhando uma refeição de pão, figos e flores. “Aqui é o altar de todas as fés.”, escutou alguém sussurrar. “O que fazes aqui?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia, não sabia. A cera já chegava ao pescoço, o altar não estava mais lá. “A fé te salvaria”, escutou antes da cera invadir seus ouvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alisava a própria barriga, curioso. Havia um arranhão? Um corte? Explorou com o dedo e com delicadeza, começou a levantar cada camada, como se ele fosse uma cebola. Parou quando viu os intestinos. Lindos, enrolados, arrumados de forma perfeita. Segurou o duodeno e o destacou do estômago. Começou a enrolar no próprio braço, desarrumando, desaninhando a si mesmo. Com metros da corda grossa ao redor do braço, amarrou um gancho na ponta. O gancho que apareceu de repente no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lançou a corda, o gancho, a si mesmo sobre o muro que murmurava. Segurou firme nas tripas, apoiou bem os pés e subiu. “O que há do outro lado?”, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Pulou com dificuldade o vão alto do portal, enquanto caminhava pelo teto da sala. Olhou para cima e viu o tapete, o sofá, as plantas e a tv. Subiu no lustre e saltou. Agarrou-se aos braços do sofá, sentou-se e alcançou o controle remoto sobre a mesa de centro. Ligou a tv, mudou de canais, enfadou-se e desligou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saltou de volta para o chão-teto, abriu a porta da varanda e escorregou. Tentou agarrar-se no toldo, mas ele estava roto de tanto tomar sol e chuva. Caiu no céu, assustado, vendo a Terra ficar cada vez mais distante. Sentiu o frio e a escuridão chegando. Com certo assombro viu as estrelas e o pálido ponto azul desaparecendo. Tinha medo de altura, lembrou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;br /&gt;A nave movia-se a grande velocidade em piloto automático. Um décimo da velocidade da luz. Em cerca de quarenta e sete anos alcançaria Alfa Centauro-4, um planeta habitável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tripulação dormia nas câmaras de hibernação. A nova droga era fantástica, não precisariam de alimentos, não envelheceriam na jornada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém alguém deveria ter pensado nos pesadelos da tripulação. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-6816499914891680335?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/6816499914891680335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=6816499914891680335' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/6816499914891680335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/6816499914891680335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/09/longa-jornada.html' title='A longa jornada'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-1262034193162135209</id><published>2009-08-12T23:00:00.006+02:00</published><updated>2010-01-29T09:39:50.704+01:00</updated><title type='text'>Semana Sem Ana</title><content type='html'>Acordei só. Pensei por um instante que não fosse verdade. Que teria sido só um sonho ruim. Que bastaria ir à cozinha e te encontrar cantarolando e passando um café fresco. Escutando música no rádio, conversando com as plantas que tu acabavas sufocando com cuidados demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em geral esta esperança era o que havia de mais cruel. Quase tão cruel quanto te esquecer. É uma vergonha, mas já não lembrava direito da cor dos teus olhos. Não conseguia lembrar do perfume que tu mais gostavas. Não recordava de tanta coisa tua e não te tinha aqui para me lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joguei o braço para o lado e ele caiu sobre o teu travesseiro; frio. "Nunca mais", pensei. Nunca mais fugir do mundo com a cabeça entre teus seios. Sentir tuas mãos em meus cabelos, escutar que está tudo bem, que vai passar, que vai regredir. Se Deus quiser, vai regredir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o mundo lá fora continuou a girar, o sol nasceu brilhante e o céu zombeiro; azul. Como ousam? Como ousam cuspir em meu rosto alegria e felicidade que me são negadas? Que direito têm?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que morram e sequem todas as flores, que dos céus caiam todos os pássaros, que se fechem todas as portas e janelas. Que os dias sejam frios, chuvosos e cinzas. Que não se ria, que não se sinta nada a não ser este vazio que machuca, esta certeza de morte em vida, este desespero paralítico e covarde que não me permite terminar com tudo de vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ousem rir de minha dor. Me respeitem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma semana sem Ana. A primeira de muitas da minha vida. Que vida?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-1262034193162135209?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/1262034193162135209/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=1262034193162135209' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/1262034193162135209'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/1262034193162135209'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/08/semana-sem-ana.html' title='Semana Sem Ana'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4264349797335574675</id><published>2009-08-11T20:41:00.005+02:00</published><updated>2010-01-29T09:40:01.600+01:00</updated><title type='text'>Outra vez</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.esrl.noaa.gov/news/2007/img/talltower1.s.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 299px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://www.esrl.noaa.gov/news/2007/img/talltower1.s.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;É só saltar. Não precisa pensar. Pula, fecha os olhos, aguarda o beijo bruto do chão, abraça o vácuo que vem depois.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que eu possa sumir e ser menos que pó. Que o vento possa soprar minhas cinzas, que não fiquem marcas, pegadas, digitais de minha existência. Que eu possa somente conhecer a paz, a escuridão. Que não se chore por mim, que não se reze por mim. Apenas apaguem, ignorem. Rasgem as fotos, queimem as cartas, não falem sobre mim. Façam de conta que nunca existi.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Respiro fundo, dou um passo e me lanço. Quisera poder voar. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sinto o sopro glacial, vejo as nuvens de fumaça espessa que meu hálito provoca, enquanto corro do tigre dentes-de-sabre que vem em meu encalço. Paro, giro o corpo, faço pontaria e atiro a lança que voa certeira e o atinge no peito. Mas não adianta, o animal é forte demais, a lança não foi fundo como eu pensei. O tigre, de mais de quinhentos quilos, se agiganta junto de mim e ergue a pata imensa, que ao cair me presenteia com a paz.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A paz é boa. Eu apenas quero a paz. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O chicote de meu senhor estala em minhas costas mutiladas que não tiveram tempo de cicatrizar. Empurro junto com dezenas de outros escravos o bloco de pedra sobre os troncos roliços. Distante dali podemos ver os túmulos dos reis que estamos ajudando a construir. O reis que serão deuses e que nunca morrerão. Que conhecerão Anúbis e Hórus. Que verão o esplendor de Amon-rá.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Uma corda se rompe e o bloco de muitas toneladas vem em nossa direção. Todos correm, menos eu. Descubro que é isso o que eu quero. Abro os braços e dou as boas-vindas à morte. Desejo outra vez mergulhar no limbo plácido, no poço escuro do olvidar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O vento lambe meus cabelos, aperto os olhos, não quero ver, não quero. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Bradando em uma só voz, sob a proteção de Alá e sob a liderança de Saladino, marchamos em encontro ao exército de infiéis. Eles não terão chance, pois Alá está conosco e ele não é um tolo pálido e esquálido que se deixaria pregar numa cruz.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O sol quase se esconde por um segundo quando a nuvem de flechas lançadas de uma só vez cruza o firmamento. Quase todos fazem a formação padrão, erguendo os escudos sobre as cabeças. Eu, por alguma razão, não. Não tenho medo do enxame furioso como mil abelhas rútilas. Que perfurem meu peito, que atravessem minhas costas, que matizem o solo de rubro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Esbarro de leve num vaso de plantas secas e esquecidas num parapeito. Esquecidas como eu gostaria de ser. Mortas como outra vez serei. O mergulho deve estar quase no fim.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu sou uma menina pequena que brinca com os bolinhos de arroz com alga no prato. Minha mãe ralha comigo e não ganharei o doce de feijão azuki se não comer tudo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Através da janela, eu vejo quando o grande cogumelo ruge e brilha como mil sóis. Logo eu sou só uma sombra, uma litogravura estampada a fogo na parede, envolvida pelo abraço de minha mãe.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Se fosse possível notar, alguém repararia nos braços erguidos da menina, quase festejando o cálido toque da energia que fomenta as estrelas. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O concreto vem súbito e quebra meu esterno. O impacto esmaga meu coração e as costelas perfuram meus pulmões. Meus braços se abrem numa posição não natural. Sou como uma marionete largada, escorrendo pela sarjeta, distraindo a multidão por alguns instantes.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Expiro pela última vez. A paz, enfim. O véu escuro...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em algum lugar na colônia humana localizada no subterrâneo, junto à calota polar que fica no extremo sul de Marte, uma criança nasce.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ela chora, grita estridente quando é levada junto do seio da mãe. Há uma certa decepção em seu olhar, um certo desespero por ter sido amaldiçoada pela vida.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Vida para quê, quando apenas morte é o que se quer?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4264349797335574675?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4264349797335574675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4264349797335574675' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4264349797335574675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4264349797335574675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/08/outra-vez.html' title='Outra vez'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-8195275067053568454</id><published>2009-07-22T19:55:00.006+02:00</published><updated>2010-01-29T09:40:10.425+01:00</updated><title type='text'>Vivendo no Exterior 2 - Ambiente e Alimentação</title><content type='html'>O quanto de você depende do ambiente onde você vive?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu afirmo: você é arroz e feijão, calor e umidade, água leve e clorada. E sol, muito sol!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, desloque você daí onde você está. Venha morar num lugar mais alto, mais seco, onde a água é tão alcalina que deixa marcas brancas nos lugares onde secou. Coma coisas que você nunca comeu e pare de comer o que você estava habituado a comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado? Mudanças! Algumas para melhor e outras para pior. Ha, ha, ha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pele fica seca, o nariz sangra, você fica cheio de meleca (ugh). A água te dá caspa nos primeiros meses. A comida te enche de gases.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois o corpo se ajusta: minha rinite brasileira de muitos anos acabou, a caspa foi embora também. Os gases, bem, deixa este assunto pra lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você começa ganhando peso e depois emagrece. Ganha peso porque chocolate, queijo e presunto são maravilhosos aqui. Perde peso depois porque se acostuma e porque carne aqui deveria ser vendida em joalheria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um quilo de carne de boi de 1a custa, em média, 64 francos. Uns 115 reais! Frango e porco são mais baratos, mas custam o triplo ou mais do que no Brasil. Você só vê porções pequenas embaladas nos mercados: um bife, dois bifinhos, duas coxas de frango, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comem habitualmente muitos outros bichos aqui: javali, ganso, gamo, carneiro, avestruz, bisão e cavalo. Como eu almoço no restaurante da empresa e, nos primeiros meses, meu alemão mal servia para cumprimentar, provavelmente devo ter comido cavalo sem saber. Mas no mercado eu passo longe! Tenho pena!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma grande mania de produtos "bio" também. Ovos de galinha "bio", pão "bio", iogurte "bio". Tudo sem agrotóxico, com os bichos criados livres, tratados com homeopatia (não podem receber hormônios ou tomar antibióticos). O sabor é igualzinho e é mais caro. Mas como tô sozinho até agosto, compro por achar mais saudável e eticamente correto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, é só isso por hoje. Se vocês tiverem alguma curiosidade sobre algum assunto é só perguntar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abração!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-8195275067053568454?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/8195275067053568454/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=8195275067053568454' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8195275067053568454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8195275067053568454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/07/vivendo-no-exterior-2-ambiente-e.html' title='Vivendo no Exterior 2 - Ambiente e Alimentação'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2413586299206068692</id><published>2009-07-19T18:12:00.009+02:00</published><updated>2010-01-29T09:40:21.028+01:00</updated><title type='text'>Vivendo no exterior</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNQdtpqi0I/AAAAAAAAAEI/dUkAf8Ac6ds/s1600-h/DSC00060.JPG"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360216452901800770" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNQdtpqi0I/AAAAAAAAAEI/dUkAf8Ac6ds/s400/DSC00060.JPG" /&gt;&lt;/a&gt; Vista da minha varanda, agora no verão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNP0G-Sm2I/AAAAAAAAAEA/dapA-a5nb4Y/s1600-h/vista+apto2.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360215738144693090" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNP0G-Sm2I/AAAAAAAAAEA/dapA-a5nb4Y/s400/vista+apto2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNPZSdu8LI/AAAAAAAAAD4/reMBPKK3zds/s1600-h/vista+apto1.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5360215277372895410" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNPZSdu8LI/AAAAAAAAAD4/reMBPKK3zds/s400/vista+apto1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;As mesmas vistas em janeiro/2009. A segunda foto mostra parte do bosque que tem aqui perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Opa! Não é conto desta vez! &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Fiz uma entrevista em maio do ano passado aqui em Zurique. Gostaram do meu CV e fui contratado em julho/08. Tive que aguardar até meiados de setembro até a permissão de trabalho sair. O duro disto tudo foi que a empresa não pagaria a mudança, somente um frete de 100kg, minha passagem aérea em classe executiva, minha hospedagem por um mês em um apartamento temporário e uma verba de ajuda de custo para eu me consolidar aqui.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tinha apartamento próprio, carro, móveis, eletrodomésticos e etc. Vendi tudo. Dei uma sorte tremenda, anunciei para os amigos e amigos de amigos e logo minha casa tinha virado um bazar, com as pessoas me perguntando o preço de tudo e querendo levar até o que não estava à venda. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não sou materialista, mas rolou um sentimento de perda muito grande nesta época. Eu meio que me senti violentado e sem lugar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Talvez porque dei sorte, em menos de um mês anunciando, vendi meu apartamento, pelo preço de mercado mesmo. Meu carro eu coloquei em consignação na loja do tio de um amigo meu e logo eu estava dentro do avião, deixando toda uma vida para trás.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Os primeiros meses foram bem duros. Cheguei em outubro e já fazia bastante frio. Na minha segunda semana aqui, começou a nevar. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Depois de muito pesquisar e já apertado no meu prazo de entregar o apartamento temporário, achei um bom apartamento, num bairro próximo do trabalho. Lá se foi a verba que a empresa deu, foi tudo no depósito de garantia ao alugar o apartamento. Só receberei o valor integral de volta, ao entregar o imóvel nas mesmas condições que o achei.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Vim cheio de idéias e conceitos sobre a Suíça. Pensava que todos falavam inglês, mas, de fato, só nos centros das cidades é fácil encontrar quem fale inglês. No meu prédio mesmo, ninguém fala.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pensava que as pessoas seriam desagradáveis e mal-educadas com estrangeiros. Me enganei! Os suíços são reservados, mas são muito gentis e educados em geral.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Achava também que teria que me esfolar de trabalhar para justificar o salário em minha empresa. Ledo engano também: trabalha-se num ritmo muito mais suave e organizado do que no Brasil. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Os colegas de trabalho são de toda parte do mundo: sul-africanos, mexicanos, brasileiros, espanhóis, tailandeses, chineses, indianos e, até, suíços.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No meu departamento, em especial, todos são extremamente simpáticos. Passo o dia fazendo piadas com o suíço-francês grandalhão e com meu ex-chefe mexicano. Já saí pra jogar sinuca e beber cerveja com ambos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nós brasileiros sempre levamos um pouco do Brasil conosco e aqui é fácil de comprar guaraná, goiabada, feijão preto e tudo mais. Tenho cortado o cabelo no salão de uma baiana e, quando houve a festa latina aqui, o que mais bombava era uma barraca de comida brasileira onde rolava um show de uma cantora que cantava sucessos de Ivete Sangalo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Difícil mesmo foi lidar com o inverno longo e rigoroso. Em especial entre o final de dezembro e as primeiras semanas de janeiro, a temperatura ficou sempre abaixo de zero. Chegou à uma mínima de -8°C aqui na cidade e a máxima não passava de -2°C.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não bastasse o frio, os dias eram curtíssimos e escuros. E, mesmo eu, que sou um sujeito naturalmente alegre, fiquei bastante triste neste período. Pensei várias vezes em desistir e voltar pro meu querido Brasil.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Felizmente, me adaptei. A vida aqui é muito, muito calma. Zurique é a maior cidade suíça, mas tem somente cerca de 450.000 habitantes. Pequena quando comparada à maioria das cidades brasileiras.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E também não é um caldeirão fervilhante de gente e cultura como Londres, Paris ou Madrid. Se muito, deve haver umas 40 salas de cinema, 3 shoppings medianos, uns 10 teatros. A maioria dos restaurantes estão concentrados na "cidade velha" no centro. Ou seja, muito diferente do que um carioca estava acostumado a ter na 2a maior metrópole do Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas há suas compensações: é ultra-segura, ninguém tem medo de nada. Não tem bairro perigoso, não tem favelas ou conjuntos habitacionais precários (em Paris ou Madrid, por exemplo, tem). E tudo é verde e limpo e muito organizado. Ser meticuloso e perfeccionista é uma espécie de mania nacional. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quando você pega um trem, é fácil, olhando a paisagem, saber se você ainda está na Suíça. Quando fui à Itália, por exemplo, você passa por Lugano que é uma cidade linda da suíça-italiana. Limpa, verdejante, parece um cartão postal. Você cruza a fronteira, e tudo muda. A Itália é bem mais suja e desorganizada. E olha que eu reparo o mesmo na Alemanha e na França também. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Não sei ainda quanto tempo viverei aqui. Certamente não será para sempre. Dei entrada na minha dupla cidadania portuguesa para garantir que eu não dependa de contrato de trabalho para viver na europa. Acho que seria bem mais fácil viver, por exemplo, em Lisboa ou Madrid que têm climas mais amenos e o povo mais parecido com o nosso. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Por enquanto, vou tocando a vidinha aqui. Estou me esforçando nas minhas aulas de alemão para me ajudar a adaptar também.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tem uma coisa curiosa que acontece comigo no trabalho. Passo o dia falando em inglês e, às vezes em espanhol. Quando vou às aulas de alemão, a professora fala em inglês também. E eu começo a misturar! Já respondi perguntas feitas em alemão em português!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Bem, é só isso por enquanto. Depois eu coloco mais impressões sobre esta minha experiência.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Abraços!&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2413586299206068692?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2413586299206068692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2413586299206068692' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2413586299206068692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2413586299206068692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/07/vivendo-no-exterior.html' title='Vivendo no exterior'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/SmNQdtpqi0I/AAAAAAAAAEI/dUkAf8Ac6ds/s72-c/DSC00060.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-966234679838066985</id><published>2009-06-24T22:22:00.010+02:00</published><updated>2010-01-29T09:40:39.451+01:00</updated><title type='text'>Balidos</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_gf1zyjUHlvI/R6tJjlTpGxI/AAAAAAAAAdU/PJkpm9SNoq8/s400/450px-Irish_Goat.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_gf1zyjUHlvI/R6tJjlTpGxI/AAAAAAAAAdU/PJkpm9SNoq8/s400/450px-Irish_Goat.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O dia começa abafado no sítio maltratado e quase falido. O grande pomar de laranjas e limões está carregado e as frutas praticamente imploram pela colheita enquanto outras já apodreceram nos pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto dali, um curral tosco de madeira, meio tombado pelas chuvas e pela falta de manutenção, abriga umas sete cabras. Seis, na verdade, pois o bode Duque, chifrudo e de porte ainda majestoso, se destaca dentre o restante do rebanho. Algumas das fêmeas estão com os úberes inchados, empedrados e doloridos pela falta de ordenha e outras cheias de carrapatos. Uma delas está redonda pela prenhez avançada e ainda uma outra manca por ter uma ferida infeccionada e tomada de larvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caseiro alcóolatra aparece dia sim, dia não. Troca a água, enche as manjedouras de capim e ração e se vai. Há uma camada espessa de fezes não recolhidas no chão. As pérolas negras como caviar já estão amassadas pelos pés fendidos e sujos. O cheiro acre e a nuvem de moscas e mutucas deixam o ambiente do curral completamente miserável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite chega e o rebanho mal-nutrido se organiza de maneira estranha dentro do cercado. Duque, com seus chifres espiralados e longos e seu pêlo abundante, posiciona-se no centro. As fêmeas, sentam-se ao seu redor, fazendo um círculo. Como se o respeitassem, como se ele contasse histórias. Ele bale grosso e seus olhos ambarinos de pupilas horizontais brilham com sabedoria. Ficam juntos assim a maior parte da noite até que se recolhem para dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, um carro esportivo e sem capota rasga a estrada de terra batida e seca, erguendo uma nuvem alaranjada que seca e sufoca os transeuntes.Roberto Kovalek, trincando os dentes por ter cheirado ainda pela manhã, estaciona o carro junto à casa. Eufórico, ele sai gritando pelo caseiro que, apressado, logo se apresenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Manoel, vendi o sítio! Finalmente me livrei deste traste que meu pai me deixou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Vendeu mesmo, seu Roberto? Ora, que bom! E o dono novo, quem é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Um citricultor grande que tem contratos com indústrias de suco. Só há um problema. Ele só tem interesse na plantação. Não quer nenhum dos animais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Como assim, seu Roberto? O que vamos fazer com este monte de cabras? O senhor vai vender?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_O Duque, por ser da raça irlandesa, talvez... Mas estas cabras magrelas mestiças e doentes não valem quase nada. E eu não tenho tempo a perder... Melhor abater todas elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Mas, seu dotô... Tem cabra prenha! É muita maldade matar um bicho assim. E vai matar e vender a carne?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto tira a carteira do bolso, conta três notas de cem e entrega nas mãos sujas e calejadas de Manoel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Mata tudo, Manoel. Mata e enterra. Quero amanhã levar o Duque para um criador de cabras avaliar. Quero entregar logo o sítio e receber a bufunfa. Eu te dou mais algum depois que me pagarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto entra na casa e abre as portas e janelas para arejar e livrar-se do cheiro de mofo. Vai até o bar e enche o copo de uísque. Senta-se no sofá com o copo numa mão e a garrafa na outra e liga a TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois, lá fora Manoel grita alguma coisa e Roberto, extremamente irritado, dirige-se ao quintal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_É o Duque, seu dotô! Ele ficou que nem doido logo que eu entrei no curral. Tá querendo me chifrar, tá xucro que nem o diabo. Não consigo segurar ele sozinho.Com má vontade, Roberto ajuda Manoel a segurar Duque pelos chifres. O bode é amarrado à uma estaca distante e fica balindo e esperneando desesperado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto volta para o sofá enquanto Manoel pega cada uma das cabras por vez, amarra-as pelas patas traseiras e as pendura numa goiabeira. Com um facão afiado, corta-lhes as gargantas e logo o chão seco se matiza de rubro.Quando a cabra prenha é suspensa, Duque dá saltos enlouquecidos tentando se soltar. Quando a faca finalmente fere a sua carne, ele bale de um modo que nenhum ser humano jamais escutou. É um misto de ódio, desespero e amor. Depois disto, Duque pára; misteriosamente calmo. Caminha, lentamente, esticando a corda que o segura e, de súbito, corre na direção contrária à toda velocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estaca que o segura é arrancada do chão. O bode corre na direção do carro esportivo e chifra a porta com força. Recua a volta a chifrar agora um dos faróis. Sobe o capô, caminha sobre os vidros e enfia os chifres nos assentos de couro, rasgando-os selvagemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Roberto novamente sai da casa, vê o bode agitando a cabeça para os dois lados e o recheio dos assentos flutuando no ar como sementes de dente-de-leão na vento. Seu caríssimo esportivo está sendo destroçado por um animal estúpido e furioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele corre para dentro de casa, abre uma gaveta e retorna ao quintal com uma arma em punho. Quase esvazia o pente de balas no bode que cai ensanguentado sobre os finíssimos bancos do carro. Chega junto da cabeça de Duque e dá mais um tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Manoel, limpa esta sujeira! Eu não quero nem pensar no prejuízo que este bicho filho-da-puta acabou de me causar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manoel tenta segurar o bode, mas este se agita e treme ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Tá vivo ainda, dotô! Como é que pode?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto manda Manoel segurar o bode pelas patas traseiras e o leva junto do tronco onde se corta lenha. Posiciona a cabeça do animal sobre o toco de madeira, eleva o machado e golpeia o pescoço. Com mais dois golpes, o animal está degolado e o corpo, por fim, pára de se debater.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Este desgraçado do Duque me deu um prejuízo duplo. O bicho valeria fácil mais de dois mil reais por ser de raça e ainda desgraçou o meu carro. Você tem noção do custo das peças? Da mão-de-obra? Filho-da-puta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irritado, Roberto mais uma vez entra em casa e afoga seu ódio no que restou da garrafa de uísque.Manoel, diligentemente, abre uma vala funda numa parte fofa do terreno e joga os corpos das cabras e de Duque. Cobre tudo com terra outra vez e limpa a sangueira que já estava juntando moscas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Roberto volta à cidade e, no fim de semana a seguir, já tendo assinado os papéis no cartório, vem à casa do sítio para transportar alguns pertences antes de entregar a propriedade.Depois de cheirar algumas carreiras de pó e beber cerca de meia garrafa de Jack Daniel’s, ele dorme esparramado sobre o sofá da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das três da manhã, acorda assustado. Há um som alto como um coral cantando desafinado que vem do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele acende todas as luzes e vê, arrastando-se a partir do fundo do quintal, os corpos putrefatos e acinzentados das cabras balindo em uníssono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto sente os intestinos revoltarem-se e o estômago embrulhar imediatamente. Corre até a sala, abre a gaveta e pega a arma e alguns pentes de balas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cabras agora estão mais próximas e o cheiro de podridão assalta os sentidos. A cabra prenha está à frente do grupo. Coberta de insetos e vibrante de larvas, ela arrasta o corpanzil roliço e pode-se ver claramente as cabeças dos três filhotes surgindo e desaparecendo dentre seus tecidos rasgados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto inutilmente esvazia o primeiro pente de balas na cabra prenha. Ela continua a avançar e, agora, os filhotes escapam pelos orifícios abertos e se arrastam junto com suas placentas podres sobre o solo poeirento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tiros, outro pente. Mais tiros. As balas se acabam. O rebanho morto cerca a porta da frente da casa, pára de súbito e começa a balir sincronizadamente. Roberto fica apavorado, fecha a porta e corre para dentro da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ao chegar à sala, a visão que ele tem faz finalmente seus intestinos desistirem. Um fluxo quente e fétido de fezes moles desce por suas pernas. Lágrimas afloram de seus olhos e sua sanidade parece que o abandonará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutuando, no meio da escuridão, envolta por um halo de fogo, a cabeça de Duque o olha fixamente. Os olhos amarelos e sem emoção e o pescoço com o pêlo empapado de sangue dão-lhe um aspecto medonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto não consegue se mexer. Lá fora os balidos cantados voltaram a se repetir. É como se elas cantassem para o seu líder e clamassem por justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabeça flutua e se aproxima. Coloca-se bem diante do rosto de Roberto e abre a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ocorre a seguir é inexplicável. A boca se expande, cresce e dilata. Domina todo o campo de visão. O mundo some ao redor de Roberto. Só há a escuridão diante de si. Repentinamente, ele cai no vazio escuro, debatendo-se sem entender. Escuta somente em sua mente uma voz não humana: “Existem infinitos mundos e realidades.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continua caindo e, finalmente, perde os sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto afinal acorda. Ele está nu sobre o chão imundo coberto por suas próprias fezes e as de outrem. Há outras pessoas nuas ao redor também. Tenta tirar alguns carrapatos agarrados à sua pele mas, suas mãos estão com os dedos selados como cascos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao redor de seu pescoço, há uma armação de madeira e uma de suas orelhas está inflamada e dolorida com um brinco de plástico numerado pendurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tenta se levantar mas não consegue. Só consegue andar de gatinhas dentro do perímetro cercado até as manjedouras de água barrenta e lavagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que lhe restou de sanidade por fim é destruído quando Roberto vê Duque. Ele caminha sobre as pernas traseiras e é alto como um homem. Está vestido com roupas e tem algo na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu Deus! Um alicate de castração.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao tentar gritar, Roberto consegue somente balir e todos os outros dentro do cercado assim o fazem também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe se Duque era, afinal, um sábio ou um pregador que consolava os seus fiéis com a sua visão particular do Paraíso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de sentir a justiça irrevogável sob a forma de metal frio junto a seus testículos, tudo o que Roberto pode fazer é balir...&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-966234679838066985?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/966234679838066985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=966234679838066985' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/966234679838066985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/966234679838066985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/06/balidos.html' title='Balidos'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_gf1zyjUHlvI/R6tJjlTpGxI/AAAAAAAAAdU/PJkpm9SNoq8/s72-c/450px-Irish_Goat.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-861968212270346624</id><published>2009-06-24T22:12:00.012+02:00</published><updated>2010-01-29T09:44:19.503+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dorzer'/><title type='text'>"Dorzer"</title><content type='html'>&lt;a href="http://tortura.files.wordpress.com/2006/08/pic-2010350.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 433px; DISPLAY: block; HEIGHT: 260px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://tortura.files.wordpress.com/2006/08/pic-2010350.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://tortura.files.wordpress.com/2006/08/pic-2010350.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A dor é apenas uma variação mais intensa e obscura do prazer. E, prazer é infligir a quem se ama a certeza da agonia mais intensa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mordi a língua e senti as pancadas do gato-de-nove-caudas em minhas costas. Mais um pouco do chicote e eu conseguiria. Mais forte e eu chegaria lá. Quase, quase...Mas foi a mesma decepção de sempre. Não foi forte o bastante. A dor não me excitou o necessário. Nem puxando com violência os piercings dos meus mamilos, nem tendo os testículos comprimidos pela cinta de couro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Me vesti irritado. Paguei o cachê não merecido àquela que se dizia uma dominatrix e fui embora, para jamais voltar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;*** &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sei bem como tudo começou. Algo da minha infância. Quando minha mãe me dava surras homéricas para compensar seus recalques de puritana falsa. Sovas de cinto, de cabo de vassoura, com as costas das mãos...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Com o passar dos anos, eu já fazia as bobagens de propósito. Tudo o que eu podia para torná-la mais furiosa e violenta. Para ser surrado enquanto, secretamente, tinha meu pinto duro dentro dos shorts.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Porém, depois de parar no hospital por umas duas vezes, a justiça a separou de mim. Fiquei então sob os cuidados de minha avó. Uma mulher impossivelmente paciente. E só vi minha mãe mais umas duas vezes antes dela morrer. E eu nunca pude explicá-la sobre o quanto eu a amava. O quanto de prazer ela me proveu. Sobre as quantas vezes que me masturbei depois, mentalizando o seu pulso forte e a sua franca vontade de maltratar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Cresci e tentei esquecer os prazeres da dor. Me anestesiei com um emprego bom, uma boa esposa. Filhos, carro, apartamento e cachorro. Viagens a hotéis-fazenda, à casa de praia. Sexo nos sábados. Sempre limpo, sem emoção, sem prazer. Sem posições de Kama Sutra, sem “dress codes”, sem “facials” ou “glory holes”. Sem graça.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;*** &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;As coisas mudaram quando conheci Cibele no escritório. Ela era uma temporária que veio cobrir a licença-maternidade de uma recepcionista. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Cruzei o olhar com ela naquela manhã . Os seus olhos verdes e meio rasgados e o cabelo desfiado e colorido me encantaram. Sua voz e seu jeito malicioso de passar a língua nos lábios eram convites velados para o prazer.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Resisti por um mês. Sexo era algo tão sem graça para mim que uma aventura extra-conjugal só significaria dor-de-cabeça. Mas, numa sexta-feira em que trabalhamos até mais tarde, bebemos alguns chopps depois do trabalho e, quando dei por mim, estava no apartamento dela. Deitado em sua cama enquanto a louca me rasgava as roupas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas a fúria com que Cibele se entregava era algo completamente novo para mim. Transar com ela significava acordar com a língua esfolada, as costas lanhadas e o pênis mordido.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Lembro-me como foi divertido quando fui à uma reunião no dia seguinte e tinha uma mancha de sangue seco atrás da orelha. Inventei uma desculpa boba, mas me lembrava muito bem de seus dentes nada gentis.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A brincadeira começou a esquentar quando Cibele comprou alguns brinquedos. Chicotes, roupas tachadas, máscaras e palmatórias. Bastava uma boa sessão de “spanking” e eu, com as nádegas em brasa, copulava por horas seguidas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O problema começou quando passei a não me contentar com pouco. Quando eu precisava cada vez de mais para conseguir ter prazer. Acho que a assustei quando comprei alguns metros de arame-farpado para fazer um açoite ou quando sugeri que ela me pisasse com uns novos sapatos cheios de travas metálicas que lhe presenteei.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Cibele sumiu de minha vida como apareceu: de repente. A recepcionista voltou da licença e Cibele não me ligou mais ou me retornou meus telefonemas. Após duas semanas sem vê-la, fui ao seu apartamento e ela havia se mudado. Não consegui encontrá-la mais.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;*** &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Minha vida virou um inferno então. Não conseguia ter relações com minha mulher ou com qualquer outra mulher. Minha necessidade pela dor e pela humilhação mais abjeta não me permitia sentir absolutamente nada nestes jogos sexuais comuns. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Saí então de férias e viajei a São Paulo atrás dos clubes que prometiam muito. Porém, logo descobri que, não importando a natureza do clube, não havia dor real.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Eu me perguntava: que graça havia em ser possuído num “sling” que tinha algo como uma buzina para avisar que a dor estava intensa demais? Eu precisava ser queimado, cortado, tratado como o animal podre que eu era. Como eu bem sabia que merecia ser tratado. Só isso. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Depois de quase uma semana buscando prazer sem sucesso, esbarrei num anúncio obscuro num jornal: “Sara, A Dominatrix – Seu prazer ou seu dinheiro de volta.” Fiquei curioso e liguei ainda naquela noite. Ela não podia me atender, disse-me que tinha a agenda cheia até três dias depois. Que eu deixasse o telefone e ela me retornaria se houvesse uma desistência. E que uma sessão de uma hora ficaria por quinhentos reais.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Realmente aquilo me impressionou. Ninguém cobrava tão caro, todos sempre estavam mais do que disponíveis e solícitos. Agendei para três dias depois e ela não me ligou antes. Aparentemente, não houve desistências.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Cheguei no apartamento bonito, arrumado e amplo. Sara veio receber-e e estrevistar-me primeiro. Queria saber o que eu realmente queria e quais eram minhas preferências. Não fez menção de espanto sobre minha necessidade extrema de dor. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Levou-me à uma sala grande, despi-me e fui algemado pelos pés e braços em uma mesa. Logo ela trouxe um carrinho de instrumentos completamente original. Queimou-me com velas, perfurou meu corpo com instrumentos pontiagudos e espancou-me brutalmente com uma espécie de raquete pesada de madeira. Experimentei outra vez o quase esquecido prazer. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Terminada a sessão, levantei exausto e satisfeito e paguei além do combinado. Cada novo dia era uma prova dura para o profissionalismo e a criatividade de Sara. Entretanto, após meras nove sessões, eu já pouco sentia prazer. Não conseguia mais gozar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Numa outra sessão, quase desesperada, Sara quebrou-me uma costela e deixou-me com um dente mole ao me atingir com um soco inglês. Eu bem que cheguei perto mais não consegui. Decepcionada, ela fez questão de não receber.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas, numa tarde da semana seguinte, resolvi dar mais uma chance àquela magnífica e única artista. E ela não deixou de surpreender. Esticou-me até que minhas articulações quase romperam, cortou-me com navalhas deixadas em baldes de gelo, queimou-me com ferro em brasa, espancou-me tão violentamente que eu tive que me esforçar para me manter coinsciente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Deitou-me nu com o abdômen voltado para cima e algemado firmemente pelos pés e mãos. Trouxe algo como uma lâmina curva posicionada na ponta de um cabo longo de madeira. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Golpeava-me e eu pedia mais. Sentia o orgasmo se aproximando enquanto eu era depreciado e destituído de todas as prerrogativas dos remotamente humanos. Enquanto os cortes profundos me redimiam de toda a minha culpa.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Senti o prazer se aproximando quando vi Sara, absolutamente suada e descontrolada, erger um machado brilhante, lindo e gótico no ar. Atingiu-me o pescoço tão pesadamente que só pude ver tudo girando e mudando de ângulo e... Finalmente, olhando para cima a partir do chão, pude observar, satisfeito, o meu corpo sobre a mesa distante e meu pênis ereto. Por fim, esguichando alto e abundantemente com o maior dos orgasmos.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-861968212270346624?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/861968212270346624/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=861968212270346624' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/861968212270346624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/861968212270346624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/06/dorzer.html' title='&quot;Dorzer&quot;'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-455305482746087966</id><published>2009-06-11T23:51:00.004+02:00</published><updated>2010-01-29T09:41:02.261+01:00</updated><title type='text'>Hocus Pocus</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.motmplus.com/portal/images/products/Magician.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 428px; DISPLAY: block; HEIGHT: 600px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://www.motmplus.com/portal/images/products/Magician.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;Em sua busca pelo truque perfeito, o Grande Dionisius correu o mundo inteiro. Na Turquia conheceu os mistérios dos truques de levitação, dos truques com espadas e de desaparecimento. Viajou ao México e conheceu outros novos com cartas, cartolas, fumaça e espelhos. No Japão aprendeu inúmeros outros sobre arcos metálicos, transmutação e sobre como parecer que voava com o auxílio de cabos quase invisíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu conhecimento de truques tornou-se enciclopédico e sua fama logo lhe trouxe riqueza e reconhecimento. O Grande Dionisius era convidado para participar dos principais eventos e shows e seu cachê tornara-se estratosférico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar disto tudo, Dionisius era infeliz. Frustava-se com cada novo truque que aprendia, cada novo engodo. Mais uma enganação, mais uma mentira! Estava farto de truques. Em seu íntimo, ardia o mais profundo desejo de conhecer a magia verdadeira. De ser capaz de fazer o impossível, o ilógico, o que incendiaria a mente de homens e mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desanimado, cancelou seus muitos shows e saiu, outra vez, em jornada pelo mundo para aprender mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, naquela manhã calorenta e abafada, ele caminhava sem rumo pelo interior da Índia quando algo o surpreendeu. Um homem velho, quase um faquir de tão magro e miserável, fazia truques na rua por esmolas. De uma cesta vazia de vime, retirou uma cobra. Um gesto, fechou a cesta e exibiu-a vazia outra vez. Retirou um coelho. Exibiu-a vazia e retirou, quase indefinidamente, pombas, flores, corujas, lenços coloridos, tochas acesas e espadas que não caberiam no cesto! Não havia portinholas no chão. Era só a calçada suja. Dionisius já estava impressionado por tudo que havia visto quando o homem simplesmente levitou no ar. Dionisius já havia executado inúmeros truques de levitação, mas é preciso um palco escuro, um fundo que esconda os fios, espelhos, fumaça, algo! Mas não havia nada e, aquele homem, praticamente um mendigo sujo, flutuava no meio do ar como se fosse a coisa mais normal do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu uma esmola mais que generosa e tentou conversar com o homem. Mas este não falava uma palavra de inglês e somente conversava no dialeto incompreensível da região. Frustado, Dionisius procurou nas lojas alguém que falasse inglês e voltou, com o intérprete pela mão, antes ainda do mendigo ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através do seu intérprete, convidou o pobre homem para almoçar e ele aceitou&lt;br /&gt;imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Meu nome é Dionisius. Como o senhor se chama?_Kabir. – respondeu o homem com a boca cheia.&lt;br /&gt;_Senhor Kabir, eu sou um ilusionista. Quantas rúpias o senhor quer para me ensinar seus truques?&lt;br /&gt;_Não faço truques. Faço mágica. E não posso ensinar a ninguém.&lt;br /&gt;_Deixe de brincadeiras, Kabir. Eu lhe ofereço cinco milhões de rúpias. É o suficiente para o senhor comprar uma casa, um carro, ter uma vida confortável.&lt;br /&gt;_Eu agradeço, Dionisius. – disse ele limpando a boca com a manga da camisa – Mas não posso aceitar! Não preciso de casa, carro ou nada assim. Eu tenho a mágica e ela me basta. Adeus e obrigado pela refeição!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheio de ódio e, sem ter como argumentar com o velho, Dionisius passou a assistir às apresentações de Kabir todos os dias nas calçadas. Fascinado por truques inexplicáveis feitos em plena luz do dia por apenas algumas moedas jogadas no chão sujo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após quatro dias e, sem conseguir convencer Kabir a aceitar nem uma fortuna que praticamente arruinaria suas finanças, Dionisius resolveu contratar gangsters locais.Os homens seguiram Kabir furtivamente após a sua apresentação diária nas calçadas e descobriram onde ele morava. Por alguns dias o observaram muito discretamente e viram quando ele retirou um livro grande e pesado de um esconderijo no chão do casebre miserável onde morava. Viram quando lia o livro e recitava palavras incompreensíveis realizando milagres sentado no chão do barraco. Flores surgiram no ar, cores dançavam um baile mágico nas paredes, criaturas fantásticas feitas de pura luz caminhavam sobre seus ombros e cabelos. O velho estava estudando o livro. Praticando novas mágicas ou algo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois de volta à sua casa, Dionisius sorria satisfeito com o livro em mãos. Por uma ninharia encomendara o roubo do livro e a morte do velho teimoso. Agora era só conseguir algum linguista para traduzir o livro e começar a estudá-lo a fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meses se passaram tão rapidamente que Dionisius não notara. Com enorme esforço e determinação quase fanática, conseguira realizar as primeiras mágicas reais do início do livro. Era agora capaz de fazer animais aparecerem e desaparecem em pleno ar. O tamanho não era importante. Mentalizava e poderia fazer aparecer um elefante se quisesse. Um mamute ou um centauro, se assim o desejasse. Naturalmente, num palco, não poderia fazer nada assim tão radical. Mas a descoberta penosa de cada nova mágica o fascinava e o surpreendia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mágicas de vôo e levitação, transformação, adivinhação. Cada novo capítulo revelava algo novo e mais avançado que o anterior. Depois de finalmente decifrar o último capítulo, Dionisius notou um espessamento estranho na contracapa. Com o auxílio de uma faca pequena, delicadamente, separou mais um capítulo escondido. Ficou impressionado porque este último capítulo estava impresso, não em papel, mas em pele. A impressão parecia tatuada na pele seca e envelhecida. Poros e pêlos podiam ser vistos no "papel".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era tarde e, de qualquer modo, teria que digitalizar e enviar aos tradutores. Resolveu dormir e teve uma noite de sonhos tranquilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Meses depois em um estádio de futebol lotado, Dionisius se apresenta no palco gigantesco no centro do gramado. As pessoas estão extasiadas com tigres que se transformam em elefantes que desaparecem no ar. Quando ele se eleva e voa ao redor do palco sem fios aparentes o publico delira e aplaude de pé. Chamas saem de seus dedos, serpentes de luzes de todas as cores correm pelos céus assustando e encantando o público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por demais confiante, Dionisius resolve experimentar algo que nunca tentou. Concentra-se e invoca um feitiço do último capítulo do livro. O que de miraculoso e maravilhoso poderia acontecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um rugido esganiçado e horrendo reverbera no estádio. Em pleno ar, abre-se um portal flamejante que cega com sua luz branca e quente. Através dele, um exército de criaturas fantásticas adentra nosso mundo. Uma colossal nuvem de insetos carnívoros alça aos céus, criaturas com tentáculos e centenas de olhos espalham-se pelo gramado, demônios disformes, dragões feitos de puro fogo, serpentes negras feitas de sombras. Há pânico e o público tenta escapar sem êxito. Animais feitos de espículas venenosas empalam, aranhas de gelo e cristal congelam, cães descarnados feitos de ódio e malícia despedaçam. Um vagalhão pútrido e vivo afoga e derrete como ácido dissolvendo os corpos. A mágica em estado bruto se manifesta e espalha toda sua loucura e brutalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundos antes de ser consumido, Dionisius, consciente de ter trazido o apocalipse ao mundo real, finalmente entende que o livro era apenas um portal discreto e controlado. Apenas uma janela para outro universo selvagem e irracional de delírio e destruição. Que era uma ferramenta correta nas mãos de um artesão competente e sábio. E que ele teria a eternidade para lamentar sua estupidez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-455305482746087966?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/455305482746087966/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=455305482746087966' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/455305482746087966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/455305482746087966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/06/hocus-pocus.html' title='Hocus Pocus'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2272760806767748062</id><published>2009-06-06T22:10:00.003+02:00</published><updated>2010-01-29T09:41:45.246+01:00</updated><title type='text'>Futuro do pretérito imperfeito</title><content type='html'>Se me fosse possível voltar no tempo, convenceria a mim mesmo a não fazer o que fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teriam porém que inventar. Novos, novos tempos verbais. Como expressar o que eu faria e fiz mas que jamais faria por minha própria intervenção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matarei-ia? Esfaquearei-ia? Chorarei-ia?&lt;br /&gt;Matei-ia? Esfaqueei-ia? Chorei-ia?&lt;br /&gt;Perdoaria-ei! Beijar-te-ia-ei!&lt;br /&gt;Perdoei-arei! Beijei-te-aria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltaria ao meu próprio tempo e te veria ao meu lado enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não suicidar-me-ei-ia e ou arrepender-me-ei-ia!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2272760806767748062?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2272760806767748062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2272760806767748062' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2272760806767748062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2272760806767748062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/06/futuro-do-preterito-imperfeito.html' title='Futuro do pretérito imperfeito'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-3623460244795270385</id><published>2009-06-04T11:16:00.005+02:00</published><updated>2010-01-29T09:43:37.709+01:00</updated><title type='text'>Pequenos Absurdos</title><content type='html'>Luiz Carlos e Carlos Luiz são irmãos gêmeos. Luiz tem um caso com a esposa de Carlos. Os irmãos vão ao parque de diversões e entram no Palácio dos Espelhos. Carlos Luiz tem uma faca e investe contra seu irmão. Com horror observa seu próprio braço enterrando a lâmina em seu peito. Nunca soube o que o atingiu. Tampouco eu ou você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao se afastar demais da praia caribenha, João começa a se afogar. Mergulha pela terceira vez engolindo água e vê os cardumes coloridos e os corais ondulando banhados pelo sol tropical no mar cor de esmeralda. Por não ter chances de se salvar, nada resoluto ao fundo. "Se tenho que morrer... Que seja de encantamento..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descendo em velocidade estonteante devido ao pára-quedas rasgado, Sandra pensa em Einstein. Se ela cai na Terra, a Terra também cai em Sandra. O que mata não é a queda. É a parada súb...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando para casa pela viela escura, Sérgio viu o demônio à espreita na esquina. "Não acredito em demônios", pensou. Infelizmente, o demônio acreditava em Sérgios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as chamas engolfaram seu corpo nu, o glutão, em seu último pensamento, apreciou o seu cheiro bom de rosbife e morreu com a boca cheia de saliva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem padre morreu e foi ao Inferno. Mas considerou tudo uma benção. Que maior desafio poderia existir? Ergueu então um altar e celebrou a primeira missa pelo perdão dos condenados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-3623460244795270385?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/3623460244795270385/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=3623460244795270385' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3623460244795270385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3623460244795270385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/06/pequenos-absurdos.html' title='Pequenos Absurdos'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-6219686689357677585</id><published>2009-04-24T00:03:00.011+02:00</published><updated>2010-07-16T10:02:05.515+02:00</updated><title type='text'>O Poço</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.mapadeportugal.net/.%5CLocalidades%5C18%5C1817%5Csoutodegolfar%5C386-poco.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 340px; CURSOR: hand; HEIGHT: 255px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://www.mapadeportugal.net/.%5CLocalidades%5C18%5C1817%5Csoutodegolfar%5C386-poco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://www.touregypt.net/featurestories/oxyrhynchus6.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Rodrigo é só um menino e olha para dentro do poço. Ele sente a umidade no musgo que cresce sobre as pedras. Ele observa a escuridão plácida da água sempre fresca. Ele tenta em vão enxergar o que há no fundo. Mas a água é negra - embora límpida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poço é profundo e antigo. Mais antigo que Rodrigo. Mais antigo que qualquer coisa na propriedade. Rodrigo olha para dentro do poço, mas o poço também o observa. E espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paciência é infinita quando a fome é secular. Quando sua existência é medida em eras e não em anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um instante se passa e Rodrigo é um homem adulto. E, sem muito esforço, sobe baldes e baldes de água todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um piscar de olhos e ele é um velho alquebrado, que se esforça para puxar a corda e fazer a roldana do poço girar. Para fazer subir o balde de água fria que mata a sede. Para gozar mais uma vez da dádiva que o poço provê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o velho Rodrigo já não tem mais forças e o piso de pedras já está gasto demais. Rodrigo escorrega e precipita-se para dentro da água escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gritos são abafados. A escuridão é densa. A água é fria demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um minuto depois e há outro menino olhando para dentro do poço. Mas o poço é paciente. Ele sabe esperar.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-6219686689357677585?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/6219686689357677585/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=6219686689357677585' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/6219686689357677585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/6219686689357677585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/04/o-poco.html' title='O Poço'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-7190263723200330095</id><published>2009-04-23T16:22:00.007+02:00</published><updated>2010-01-29T09:41:35.009+01:00</updated><title type='text'>Carta</title><content type='html'>&lt;a href="http://farm1.static.flickr.com/86/263422210_7a516160a0_m.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; DISPLAY: block; HEIGHT: 154px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://farm1.static.flickr.com/86/263422210_7a516160a0_m.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Diogo, sem ter muito o que fazer, resolveu ir à loja de livros usados. Folheava os livros da mesa onde eram vendidas as ofertas especiais por 1 real a unidade. Separou "A Ilha do Tesouro", "A Máquina" e "O Livro dos Mortos".&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A leitura leve e divertida dos dois primeiros livros lhe distraiu por alguns dias. No domingo, começou a folhear o terceiro. Havia um espessamento entre algumas páginas que estavam coladas. Separou-as com uma faca e, para a sua surpresa, encontrou uma carta fechada e amarelecida. Não havia remetente ou destinatário no envelope.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Abriu o envelope e encontrou uma carta escrita à mão. A caligrafia era ruim, as letras inclinadas para à esquerda eram vagamente familiares.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;"A quem possa interessar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Escrevo porque sinto a necessidade de alertar. Sobre os perigos inesperados que residem em cada olhar apaixonado. Sobre a perda que é dolorosa demais para compensar os dias em que conheci a felicidade mais completa.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me muito bem do dia 22 de setembro de 2009…"&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que louco!&lt;/em&gt; Pensou, Diogo. &lt;em&gt;Hoje é 26 de abril de 2009! Deve ter escrito o ano errado, sei lá.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;"Por alguma razão completamente improvável, encontrei naquele dia Joana, no centro da cidade, às 23:00 em ponto. Improvável, porque eu já havia ido para casa e só tinha ido ao centro por causa de um telefonema da empresa, solicitando meu suporte urgente. Improvável porque eu ainda não a conhecia e ela não morava no centro. E ainda improvável, porque ela não deveria dar atenção a um estranho que esperava à porta da empresa pelo vigia, num lugar extremamente mal-frequentado em tal horário.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Mas, ela escutou minhas gracinhas sem graça com bom-humor. Conversamos ali por minutos que pareceram horas e trocamos nomes e telefones.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Dizer que conheci a felicidade então, é impreciso. Não há como colocar nestas linhas o quanto minha vida mudou a partir daí.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Sobre quantos segredos compartilhamos, sobre as tantas vezes que rimos juntos e as poucas em que choramos. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Ela era tão transparente e sincera e eu tão esquivo. Eu a admirava, queria me integrar a ela, ser um só se possível. Passamos os anos seguintes sempre juntos, olhando nos olhos e se espantando com tanta felicidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Cada nova casa que habitamos, cada nova planta ou bicho de estimação tinham o seu toque; uma fração de sua alma.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Mas em 15 de novembro de 2015, ela resolveu visitar sua mãe e, ao atravessar a avenida distraída, o destino a veio roubar de mim.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;E eu, quase um ano passado desde a sua morte, olho para o vazio que ficou e penso que, embora vivo, já morri. Coloco então esta carta entre as páginas do "Livro dos Mortos" e espero que meu alerta sirva para todo aquele que ousar viver um amor como o que eu vivi. Que tudo é efêmero, que nada é garantido. E que apenas o vazio poderá te consolar no final.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, 02 de novembro de 2016&lt;br /&gt;Diogo Souza."&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Diogo sentiu um arrepio repentino ao notar o porquê a letra lhe era familiar e o porquê das datas estarem localizadas no futuro. Não perdeu tempo em tentar entender o impossível, mas apenas encheu-se de dúvidas sobre como evitar a tragédia que lhe aguardava no futuro próximo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Simplesmente deveria ignorar a ligação do trabalho no dia 22 de setembro? Deveria ir e apenas observar Joana de longe? Aquela que seria um dia o seu grande amor?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Os meses se passaram e, no dia 22 de setembro de 2009, Diogo estava lá às 23:00 em ponto, com um ramo de flores na mão, disposto a correr os riscos que fossem necessários…&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-7190263723200330095?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/7190263723200330095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=7190263723200330095' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/7190263723200330095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/7190263723200330095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/04/carta.html' title='Carta'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://farm1.static.flickr.com/86/263422210_7a516160a0_t.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-5471450943114632538</id><published>2009-04-21T21:25:00.013+02:00</published><updated>2010-01-29T09:41:59.585+01:00</updated><title type='text'>Presas e Predadores</title><content type='html'>&lt;a href="http://cache.gizmodo.com/assets/resources/2007/03/othe-lamprey.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 198px; DISPLAY: block; HEIGHT: 180px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://cache.gizmodo.com/assets/resources/2007/03/othe-lamprey.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Bem, eu sempre gostei de contos de terror. E, em especial, dos que mexem com nossos medos mais primitivos. Espero que este lhe &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-corrected"&gt;perturbe&lt;/span&gt; o sono!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A única certeza na vida é a morte. E a única certeza na morte é que ela não será indolor. Mesmo que na cama, durante uma noite de sono. Mesmo assim, certamente haverá a sensação de sufocamento, o aperto no peito, a sensação de queda súbita em &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;direção&lt;/span&gt; ao vácuo escuro e infinito. Não há nada pior do que a morte. O fim de tudo, o esquecimento. Do pó ao pó".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonas sempre foi fascinado pela morte e a temia acima de todas as coisas. De família tradicional e abastada, vendeu tudo o que sua falecida mãe lhe deixou: propriedades, carros, &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-error"&gt;ações&lt;/span&gt;, empresas. Só lhe interessava o dinheiro vivo, que pudesse financiar seu &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;projeto&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua mãe, conhecia sua natureza e o controlava com mão-de-ferro. Mas ela não estava mais aqui e, agora era sua vez de fazer o que sempre quis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonas tornou-se um serial-killer bem-sucedido. Extremamente organizado e paciente, jamais esteve sequer perto de ser surpreendido ou preso. Saía agora de sua terceira casa alugada em 3 anos, sob um terceiro nome falso. Com apenas 30 anos, tingiu os cabelos de branco e os raspou parcialmente para parecer calvo. Já fora louro, ruivo e moreno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia deixado tudo preparado outra vez. O corpo comprado de um indigente no &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;IML&lt;/span&gt; sentado no sofá da sala tinha seus documentos. No porão da casa, meticulosamente arrumados e dispostos, jaziam em &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-error"&gt;freezers&lt;/span&gt; separados os corpos de dois meninos e duas meninas. Não crianças quaisquer, mas crianças que atendiam aos seus critérios restritos. Havia feito o mesmo em Santo André e São Bernardo e agora em São Caetano do Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha a necessidade extrema de ordem. Somente dois meninos e duas meninas por cidade. E, por capricho, resolvera seguir a ordem alfabética e dirigia-se agora à &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;Diadema&lt;/span&gt;. Logo, logo o cano de gás deixado aberto explodiria tudo e apagaria suas pegadas mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estrada, um rapaz mulato de uns 16 anos e de extrema beleza e sua irmã sorridente pediam &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;carona&lt;/span&gt;, mas eles os ignorou porque não lhe agradavam os escuros de pele ou os adolescentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num semáforo na entrada de &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;Diadema&lt;/span&gt;, um menino de feições asiáticas de uns 12 anos ofereceu-lhe balas para comprar. Estava acompanhado de sua irmã, linda e sorridente como um ícone &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;nipônico&lt;/span&gt;. Novamente os dispensou pelas mesmas razões; muito velhos e da raça errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;mobiliando&lt;/span&gt; a casa nova, esbarrou a caminho do &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;shopping&lt;/span&gt; com um menino de uns 9 anos de mãos dadas com sua linda irmã mais nova. O menino pediu que lhes pagassem um sorvete. Morenos e de cabelos muito lisos, pareciam pequenos e lindos índios. A menina apenas sorria. Novamente os ignorou e seguiu adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois, passando de carro em frente a uma escola municipal, viu um menino ruivo de uns 7 anos de mãos dadas com sua &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;irmãzinha&lt;/span&gt; loura e sorridente. Os uniformes estavam impecáveis e as crianças acenavam quando ele passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu três voltas pelo quarteirão até ter certeza que as crianças estavam sozinhas e ofereceu brinquedos e doces em sua casa. O menino era tagarela e inteligente. Mas falava de um modo estranho, misturando expressões e &lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;gírias&lt;/span&gt; &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;atuais&lt;/span&gt; com outras muito mais antigas. A menina apenas sorria. Não disse uma palavra sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levou-os ao porão de sua nova casa e trancou a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximou-se e olhou para o rosto da menina que sorria imutável. As bochechas rosadas, os dentes pequenos, perfeitos e brancos. As pequenas sardas claras nas faces e sobre o nariz. O cabelo cor-de-palha-de-trigo. Os olhos como olhos de boneca. Azuis brilhantes, com uma miríade de &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;sub-padrões&lt;/span&gt; de cores que variavam do âmbar ao verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou outra vez e não acreditou. Como o ar superaquecido que tremula nas estradas nos dias mais quentes, as figuras da menina e do menino ondulavam e se derretiam diante dos seus olhos. Piscou e esfregou os olhos e quando olhou de novo, não havia nada que lembrasse remotamente às crianças que trouxera à sua casa. A criatura que fora a menina, olhava-o fixamente com seus novos olhos caprinos e amarelos. A pele &lt;span id="SPELLING_ERROR_16" class="blsp-spelling-error"&gt;couriácea&lt;/span&gt; e &lt;span id="SPELLING_ERROR_17" class="blsp-spelling-error"&gt;marrom era translúcida e&lt;/span&gt; estava esticada sobre o pequeno corpo como o couro de um tambor. As mãos e os pés eram uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_18" class="blsp-spelling-error"&gt;coleção&lt;/span&gt; de protuberâncias ósseas sem sentido. Os joelhos estavam agora voltados para trás, dando as pernas o aspecto de patas de &lt;span id="SPELLING_ERROR_19" class="blsp-spelling-error"&gt;inseto&lt;/span&gt;. Não havia boca, mas algo que lembrava um tubo no lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ia gritar o mais alto que podia mas, com um movimento absolutamente inumano, a criatura saltou, deu uma pirueta em pleno ar e posou sobre seus ombros, cravando os esporões que tinha nas laterais dos pés. O grito morreu em sua garganta. Uma sensação de frio e dormência se espalhou por seu corpo. Não conseguia se mexer mais. Mal conseguia respirar ou piscar os olhos. Ficou lá observando apavorado sem nada poder fazer. Uma estátua viva. De predador, passou à presa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criatura que fora a menina saltou de seus ombros e ficou agachada observando-o afastada. O menino, que até agora tinha permanecido parado, aproximava-se lentamente. Observou-o e viu muitas diferenças com relação à outra criatura. O crânio era vagamente piramidal e, a boca enorme, era como um dos seus vértices. As mãos pareciam uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_20" class="blsp-spelling-error"&gt;coleção&lt;/span&gt; de instrumentos de corte negros e de diferentes tamanhos. Chegou junto a seu rosto e o cheirou longamente com suas narinas nuas. Aparentemente muito satisfeito, abriu a boca que exibia três arcadas de dentes triangulares e &lt;span id="SPELLING_ERROR_21" class="blsp-spelling-error"&gt;serrilhados&lt;/span&gt; tanto na parte superior quanto na inferior. Uma língua áspera e arroxeada lambeu sua face e o olho que não conseguia fechar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutou dentro de sua mente, a voz áspera da criatura, que parecia recitar uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_22" class="blsp-spelling-error"&gt;litania&lt;/span&gt;. “É chegada a hora do gozo dilatado e febril. É chegado o momento de hastear as carnes rasgadas ao vento. É hora do padecer servil, de transformação viscosa e pujante."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tentou argumentar em sua mente por perdão e clemência, mas a criatura o ignorou e continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Há muito que esperamos por ti. Teu antecessor não resistiu mais que parcos 70 anos. Mesmo com toda a nossa atenção e carinho, parou de prover. Mesmo com todas as enzimas, todos os &lt;span id="SPELLING_ERROR_23" class="blsp-spelling-error"&gt;hormônios&lt;/span&gt;... Somos um pouco como você; não nos serve qualquer um. Apreciamos os verdadeiramente cruéis. Somos predadores de predadores."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isto, mordeu-lhe suavemente a face e arrancou um pequeno naco com seus dentes muito afiados. Mastigou por alguns instantes com uma expressão de aprovação e cuspiu no chão. Sua irmã apressou-se em sugar a massa rósea &lt;span id="SPELLING_ERROR_24" class="blsp-spelling-error"&gt;semilíquida&lt;/span&gt;. Aparentemente agiam &lt;span id="SPELLING_ERROR_25" class="blsp-spelling-error"&gt;simbioticamente&lt;/span&gt;. Ele mastigava para ela que não &lt;span id="SPELLING_ERROR_26" class="blsp-spelling-error"&gt;possuia&lt;/span&gt; dentes e ela paralisava as vítimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Uma refeição tão refinada não deve ser desperdiçada pela pressa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lambeu a ferida aberta e sua saliva estancou o sangue e provocou um formigar de cicatrização. &lt;span id="SPELLING_ERROR_27" class="blsp-spelling-error"&gt;Fez&lt;/span&gt; um sinal à sua irmã, que se aproximou. Ela enfiou um dos braços cheio de apêndices no &lt;span id="SPELLING_ERROR_28" class="blsp-spelling-error"&gt;abdômen&lt;/span&gt; de Jonas. A dor foi tamanha, que ele apenas viu &lt;span id="SPELLING_ERROR_29" class="blsp-spelling-error"&gt;borrões&lt;/span&gt; e luzes nas próximas horas, sob intensa agonia.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Vísceras e órgãos foram deslocados, &lt;span id="SPELLING_ERROR_30" class="blsp-spelling-error"&gt;reconectados&lt;/span&gt;, transformados. Seu corpo estava sendo reprogramado, inchava e se estendia para prover novas funções desconhecidas. Para ser devorado aos poucos e regenerado depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem coisas muito piores que a morte, pensou. Há a certeza da dor infinita, da deformidade e do sofrimento sem esperanças de redenção. E, acima de tudo, há a esperança de que tudo acabe um dia, debelada diariamente, fatia por fatia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-5471450943114632538?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/5471450943114632538/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=5471450943114632538' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5471450943114632538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5471450943114632538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/04/presas-e-predadores.html' title='Presas e Predadores'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-3734741310896764021</id><published>2009-04-07T17:55:00.011+02:00</published><updated>2010-01-29T09:44:00.970+01:00</updated><title type='text'>Percepções</title><content type='html'>&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Minha primeira lembrança? Bem, minha primeira lembrança foi algo que me confortou muito. Foi quando minha primeira faísca de coinsciência aflorou e, enquanto meus olhos não desenvolvidos ainda não viam e eu escutei. Escutei a batida do coração Dela. E descobri que eu não estava sozinho. E ele batia gentil. Não tão rápido quanto o meu. Tão pequeno, tão apressado. Mas num ritmo solene, calmo e grave que me embalava e me fazia feliz.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Cheguei ontem finalmente em São Paulo, depois de quatro dias na estrada desde o Piauí. Minha irmã me prometeu um cantinho na vaga onde ela mora e vai me apresentar pra umas madames que tão querendo os meus serviços de faixineira. Não vou conseguir muito, eu sei. Mas é muito difícil me virar sozinha neste mundo de meu Deus. Mal sei escrever meu nome, como conseguir coisa melhor? Sei lá, talvez pelo sacolejo da estrada ou porque só tive tempo pra comer porcarias, não paro de vomitar desde que cheguei na rodoviária.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;E desde então eu respiro o líquido levemente salgado e morno no qual flutuo. Me movo como um astronauta, lentamente. Tocando e sentindo e explorando o universo que é para mim tão seguro, escuro e aconchegante. Toco meu próprio corpo com meus dedos ainda sem unhas e sinto a penugem que me cobre. Me estico e me espreguiço e esbarro no corpo Dela. E cheio de respeito, amor e encanto, sinto. Como talvez poderia se sentir, aquele que tocasse a face do Criador. Pois Ela é tudo. Ela é o mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Um mês já se passou feito um corisco. Comecei a chorar quase sem motivo. Qualquer música, qualquer propaganda me emociona. Fiquei com a pulga atrás da orelha e acordei bem cedo e fui no posto de saúde. O médico lá me examinou e disse que tô grávida. Quase caí sentada quando escutei. O que eu ganho é tão pouco e me sinto tão burra. Só levando bronca por não saber usar o telefone direito, por ter medo de mexer na máquina de lavar. Que tipo de mãe eu poderia ser?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Mal consigo imaginar como ela seria. Que pessoa tão extraordinária seria capaz de criar vida? De gerir este imensamente complicado equilíbrio com tanta perfeição? Imagino seu rosto tão lindo, tão radiante... Como deve se parecer a encarnação da ternura? Com que leveza e arte deve se mover?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#ff6666;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Perdi o trabalho das terças, depois que quebrei outro prato. Meu Deus, como sou estabanada! A barriga agora tá crescida e bicuda. Segundo minhas colegas deve ser um machinho que vem aí. Vou ter que batalhar algo novo pro dia que tenho vago agora. Eu mal tenho tempo de pensar neste bebê. Neste moleque sem nome que vou trazer pro mundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;O mundo inteiro parece que encolheu. Estou apertado e agora de ponta-cabeça. Tudo convulsiona e se agita. Eu sinto medo, pela primeira vez. Mas lembro Dela e confio. Me acalmo quando sei que Ela não deixará que nada errado me aconteça.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Saindo da casa da Dona Lúcia, comecei a sentir muita dor. Peguei o primeiro ônibus, mas está tudo engarrafado. A dor piora e eu começo a suar de medo. Não posso ter este bebê agora! Não posso! Mas meu corpo não me obedece e eu começo a parir meu guri deitada no banco do ônibus, com minhas coisas espalhadas pelo chão, amparada por um policial que veio ajudar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Me vejo envolvido num turbilhão enlouquecedor, meu mundo plácido e silencioso deu lugar a um outro cheio de ruído e dolorosamente iluminado que me cega. Eu choro forte e me agito e ... a vejo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Eu grito mais uma vez e uso toda minha força pra conseguir. O menino nasce gritando forte e agitado! Trazem ele pra perto de mim e eu o olho nos olhos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Você é tudo o que eu imaginei!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Você é tudo o que eu imaginei!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-3734741310896764021?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/3734741310896764021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=3734741310896764021' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3734741310896764021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/3734741310896764021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/04/percepcoes.html' title='Percepções'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-8082450765300959902</id><published>2009-04-05T14:53:00.008+02:00</published><updated>2010-01-29T09:42:08.423+01:00</updated><title type='text'>Nômade</title><content type='html'>Eu já estava desperto, mas hesitava em abrir um olho sequer. Não tinha certeza sobre onde estaria ou quem eu seria nas próximas 24 horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu corpo, melhor seria dizer, meu corpo original, está em algum hospital. Cheio de tubos, ligado a muitos aparelhos. Meu corpo está lá, mas eu não estou. Por algum capricho, vago de corpo em corpo, todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que já se passou mais de um ano desde o acidente. Minha percepção do tempo não é perfeita. Enquanto meu corpo se atrofia e se enche de escaras, minha mente se expande e amadurece, vivendo vidas e realidades que jamais conheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste período, fui homem, mulher, criança, velho, rico, mendigo. Creio que escrever estas linhas seja uma forma de expressar meu desespero, meu desamparo e minha necessidade de encontrar um sentido ou uma missão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início eu apenas tentava ferir aos meus hospedeiros, cujas coinsciências adormecidas não tinham controle nenhum sobre minhas ações. Tentava puni-los porque queria que conhecessem minha dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, talvez por minha natureza, ou por considerar que deve haver algum objetivo em passar pelo que estou passando, tento entendê-los, amá-los e, neste curto espaço de tempo que disponho, consertar um pouco suas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já reconciliei pais e filhos que não se falavam há anos e que, já haviam quase esquecido a razão do seu ódio. Já doei quase todo o meu dinheiro a obras e instituições quando estive rico e poderoso. Dei carinho e atenção a uma esposa que, após as minhas inúmeras traições, ainda conseguia amar-me mesmo sem ser correspondida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também tive os dias difíceis quando apenas o cheiro da cola me entorpecia a fome e o medo e o frio eram meus companheiros à noite. Ou quando no corpo de uma velha senhora, senti o peso da solidão. Os filhos distantes, os telefonemas não retornados. Os mil subterfúgios para esconder de si mesmo a realidade. Os cães, as plantas, os bordados, as novelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia padre, no outro puta. Um dia a menina gordinha que lancha sozinha durante o recreio, no outro o garotão cheio de grana e pó, que maltrata o porteiro e assedia a empregada. Um dia participando de reuniões importantes sobre assuntos que ignoro por completo, no outro chorando sob a chuva, deitado sobre uma cama de papelão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não sei quem sou. Minha alma é um caleidoscópio. Está esparramada e multifacetada. Encharcada demais por vidas demais, por mortes em vida demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hesito mais uma vez, abro o olho e espero a imagem entrar em foco e ver o que de surpreendente ou mundano o destino me reservou hoje.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-8082450765300959902?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/8082450765300959902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=8082450765300959902' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8082450765300959902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/8082450765300959902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/04/nomade.html' title='Nômade'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-5504772716045353030</id><published>2009-04-01T21:53:00.008+02:00</published><updated>2010-01-29T09:33:02.948+01:00</updated><title type='text'>Dona Lucinda</title><content type='html'>Dona Lucinda era viúva, carola e fofoqueira. Nos seus oitenta e três anos de vida, fez o que pode para atazanar o falecido Seu Everaldo, seu marido. Fazia-o comer os mesmos pratos nos mesmos dias da semana, dia após dia. E sempre sua comida era insossa, cozida demais e imutável. Não havia espaço para invencionices ou arroubos de criatividade. Carne-moída com purê, fígado e salada de maionese, frango com batatas, carne-seca com quibebe e peixe ensopado. Sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mesa, sempre coberta por plástico transparente imaculado, vigiava enquanto Seu Everaldo comia. Não admitia que houvesse restos no prato ou migalhas sobre a mesa. Não admitia ruídos, boca aberta, garfo na mão direita, beber durante a refeição. Em seus últimos dias no hospital, o pobre Everaldo devorava a comida de lá como se estivesse almoçando em algum restaurante cinco estrelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas missas, às quais não faltava nem quando doente, ficava reparando nos vestidos mais curtos do que a boa moral recomendava, nos divorciados que comungavam e no pobre Flavinho, neto de Dona Sofia, tão novinho e tão afeminado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sabia de cor todos os salmos, chamava a atenção do padre quando a homilia lhe parecia avançada demais e distribuía beliscões nas crianças mal-educadas as quais ensinava nas aulas de catecismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi, portanto, um grande choque para ela, quando, depois de morrer, foi parar no Inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu-se sentada numa cadeira em um enorme salão antiquado, como em uma repartição pública. Vestida com seu melhor vestido, maquiada e ainda cheirando a cravo-de-defunto. Tirou as bolinhas de algodão do nariz e foi tomar satisfações com o encarregado da triagem dos recém-chegados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Meu filho, já fazem 20 minutos que estou sentada nesta cadeira, está fazendo um calor senegalesco (ela gostava de usar esta expressão, sentia-se meio racista sempre que a usava) e eu já sou uma senhora idosa e doente e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno demônio, que aparentava ser um jovem bem arrumado, muito pálido e de olhos e cabelos escuros, estava sentado atrás de pilhas e mais pilhas de formulários e fichários. Revirou os olhos como numa prece, contou 50 carneiros pulando para dentro de uma cratera de lava fervente (ele sempre fazia isto para dormir e se acalmar) e respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Minha senhora, aqui é o Inferno e não um bingo de caridade. Tem gente esperando na fila há anos e quase todos eram doentes ou velhos que nem a senhora. Tem mais de mil pessoas na sua frente ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O choque de saber que estava no Inferno não a abalou. Ela sabia dos seus direitos, sabia que era prerrogativa que alguns devem prevalecer sobre os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ A mim não importa se estou no Inferno ou não. Eu não vou ser desrespeitada e tratada feito qualquer uma. Ou você me atende agora ou eu vou começar a cantar meus hinos e tornar a vida de vocês ainda mais miserável!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno demônio que agora contava 100 carneiros decapitados e saltando alegremente para dentro de mandíbulas de crocodilos, ia falar alguma coisa, quando o telefone sobre sua mesa tocou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Ah, sim, chefe! Sim, claro! Sem dúvidas, certamente! Imediatamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosa, Dona Lucinda perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ E então? Vai me atender agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Sim, claro! Veja bem, a senhora mal chegou e foi promovida! Eu tive que passar quase cinquenta anos nos poços de excrementos para conseguir esta posição. Mas não há o que discutir quando a gente esbarra com algum talento nato como a senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isto, entregou-lhe um pergaminho enrolado e deu-lhe instruções sobre que caminho seguir após passar o portão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde este dia, Dona Lucinda tem trabalhado com afinco, utilizando as técnicas que ela desenvolveu no curso de seus oitenta e três anos, como chefe do Círculo dos Torturadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frequentemente recebe alguma nomeação por desempenho extraordinário e chorou bastante ao receber seu terceiro prêmio consecutivo de "empregado do mês".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-5504772716045353030?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/5504772716045353030/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=5504772716045353030' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5504772716045353030'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/5504772716045353030'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/04/dona-lucinda.html' title='Dona Lucinda'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2560319746463081191</id><published>2009-03-15T12:23:00.010+01:00</published><updated>2010-01-29T09:44:10.348+01:00</updated><title type='text'>Fragmentos</title><content type='html'>Quando criança, não sabia o que significava "mudança". Pensava que era nome de pessoa e, quando a mudança aconteceu, perguntei à primeira pessoa que nos recebeu: "Você é a mudança?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando criança eu tinha sonhos com morcegos-vampiros que viviam nas mangueiras do meu quintal . E, quando acordava no meio da noite apavorado, ia dormir com os cachorros na varanda. Por tudo isso, uma vez fui ao colégio com um carrapato agarrado na orelha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me que tinha uma avó muito dura e brigona e que me assustava. E a melhor amiga da minha avó, era nossa vizinha e senhoria. Ela era a avó que todo menino gostaria de ter. E a mãe que minha mãe precisava ter. E com ela li os quadrinhos que a ninguém mais eram emprestados e montei cidades com os blocos de madeira secretos. E comi frutas que não existem mais e ganhei pardais "cantores" e camundongos de estimação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no quintal, no meu aniversário de 6 anos, minha amiga Márcia, me ensinou a andar de bicicleta sem usar as rodinhas. Ela já havia soltado a bicicleta e eu não tinha percebido e dava voltas ao redor da goiabeira. Quando reparei que ela me observava de longe, caí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No verão os coqueiros se enchiam de larvas gordas e amarelas de besouros e, por isso até hoje, eu tenho nojo de comer a gordura dos bifes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando Helena, a moça que trabalhava lá em casa, trouxe uns cachorrinhos que ela tinha achado na linha do trem. Pequenos, marrons, de olhinhos fechados. E que demos leite de conta-gotas e que ficamos com a marrom e ela com a malhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o porquê de escrever fragmentos de memórias que mesmo eu já quase tinha esquecido. Mas sinto que ainda tenho medo do escuro e não tenho mais meus cachorros na varanda. E que não sei tanta coisa e não tenho a Márcia para me ensinar aqui. Que tudo o que sou é reflexo daquele tempo em que eu corria pelo quintal, voando com uma capa de lençol velho e meias nas mãos como se fosem luvas.&lt;br /&gt;Sinto saudades de comer carambola e araçá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2560319746463081191?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2560319746463081191/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2560319746463081191' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2560319746463081191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2560319746463081191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/03/fragmentos.html' title='Fragmentos'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-1775654970743582341</id><published>2009-03-10T21:48:00.008+01:00</published><updated>2010-01-29T09:43:09.533+01:00</updated><title type='text'>Amor big-bang</title><content type='html'>Em meio do caos primordial, enquanto o próprio espaço-tempo hiperinflacionava e as partículas mais básicas zuniam formando dimensões compactas que se aniquilavam em jorros de energia e radiação, ele a viu a primeira vez.&lt;br /&gt;Por um nanosegundo, vislumbrou um encontro que poderia gerar toda uma nova gama de subpartículas.&lt;br /&gt;Mas, engolfado pelo plasma fervente de bilhões de graus Kelvin e tomado como parte do núcleo de uma das primeiras estrelas, eles foram separados e ele esperou.&lt;br /&gt;E eons depois, lançou-se novamente ao espaço mais profundo ejetado após cada supernova que fez parte. Percorreu os grandes vazios de matéria e energia escura, na esperança de de novo um dia vê-la.&lt;br /&gt;Mas somente quando o tempo já estava gasto, quando tudo o que restava era o vácuo e o zero absoluto pairava paralisando todo movimento e enquanto o universo, de forma cada vez mais acelerada, se expandia e se perdia em direção à entropia total, ele a viu uma outra vez.&lt;br /&gt;E ela não havia perdido o viço de sua subestrutura única e nem o spin que lhe caracterizava.&lt;br /&gt;E, num acontecimento infinitamente improvável, seus vetores alinhados os colocaram em rota de colisão.&lt;br /&gt;E talvez, porque nunca deveriam se encontrar ou porque tanto esperaram por este encontro, destroçaram o próprio tecido do espaço e sua energia brilhou e se espalhou onidirecionalmente.&lt;br /&gt;E abalaram as fundações de toda a criação e rugiram seu amor com a força de bilhões de galáxias.&lt;br /&gt;Que se faça a luz!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-1775654970743582341?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/1775654970743582341/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=1775654970743582341' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/1775654970743582341'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/1775654970743582341'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/03/amor-big-bang.html' title='Amor big-bang'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4487385004346918632</id><published>2009-03-09T21:34:00.006+01:00</published><updated>2010-01-29T09:43:50.844+01:00</updated><title type='text'>Ivo</title><content type='html'>O tempo havia passado para Ivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando este ainda era seu amigo, escorregava preguiçosamente e parecia-lhe que sempre podia adiar o que não queria enfrentar. Ivo não era uma criatura do "agora", mas alguém "algum-dia". Não era um homem de atos, mas de sonhos e devaneios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E viveu então uma vida sem riscos e sem cor. Nunca roubou um beijo. Nunca se meteu numa briga. Não sentiu ou fez-se sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o tempo foi traiçoeiro e foi acelerando o seu ritmo. E o que era um trotar calmo, tornou-se caudaloso e feroz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, naquele dia de outubro, observando as folhas marrons rodopiando no vento frio, Ivo sentiu um calafrio quando olhou para dentro de si e não encontrou luz. Não encontrou nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;E, como de hábito, refletiu e pesou o que poderia fazer. E embora, uma parte de si gritasse por alguma ação, ele calou-se e continuou sua jornada rumo à mediocridade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quem sabe, em outra vida ou ... depois?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4487385004346918632?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4487385004346918632/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4487385004346918632' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4487385004346918632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4487385004346918632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/03/ivo.html' title='Ivo'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4770199310111337309</id><published>2009-03-07T22:41:00.007+01:00</published><updated>2010-01-29T09:42:53.542+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='metade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='saudades'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><title type='text'>Dedos</title><content type='html'>E a casa, de repente, se viu vazia... Sem as mãos pequenas e de unhas roídas que de tudo cuidavam. Não se escutava mais música alegre que tanto incomodava os vizinhos e já não se pulava nos braços e se girava quando eles se encontravam no fim de cada dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo, tudo cobriu-se de pó, e as frutas mofaram na geladeira e o pão esquecido sobre a mesa virou pedra. Não se fez mais pudim ou tiramisu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as roupas sujas se acumulavam, e o aquário se coloria de verde e somente alguém pálido e soturno, movia-se para cá e para lá. Sem destino ou objetivo. Vivia cada dia apenas esperando o dia passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E levantava-se toda manhã e caminhava pelas ruas cinzentas penosamente. E reclamava do frio, e xingava os corvos. E, em casa, tentava limpar a neve dos seus sapatos e de sua alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitava-se então mais uma vez no enorme leito vazio e lembrava e sonhava com os dedos pequenos das mãozinhas vermelhas e quentes e com os olhos que não se decidiam em serem verdes ou castanhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rezava então baixinho, para que aquele dia passasse e que, novamente completo, com sua metade melhor, voltasse a ser feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4770199310111337309?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4770199310111337309/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4770199310111337309' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4770199310111337309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4770199310111337309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2009/03/dedos.html' title='Dedos'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4279173047839213566</id><published>2007-11-27T18:25:00.002+01:00</published><updated>2010-01-29T09:43:18.362+01:00</updated><title type='text'>Voltando a ser criança</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0xVSjxwdqI/AAAAAAAAAAw/r5hBUcKEnXo/s1600-h/niver.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; FLOAT: left; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5137575052252837538" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0xVSjxwdqI/AAAAAAAAAAw/r5hBUcKEnXo/s400/niver.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aniversário-surpresa para um grande amigo em Niterói. Este amigo (Wagner Trindade), faz um personagem que é criança (Gabriel Afonso) no teatro na peça Pout PourRir. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para brincar com Wagner, eu e alguns outros amigos fomos caracterizados de "Gabiel".&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como toda festa infantil que se preza, teve muito doce, bolo e guaraná.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4279173047839213566?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4279173047839213566/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4279173047839213566' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4279173047839213566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4279173047839213566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2007/11/voltando-ser-criana.html' title='Voltando a ser criança'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0xVSjxwdqI/AAAAAAAAAAw/r5hBUcKEnXo/s72-c/niver.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-2833102430775039398</id><published>2007-11-26T23:14:00.002+01:00</published><updated>2010-01-29T09:42:42.634+01:00</updated><title type='text'>Ultimate - Comédia</title><content type='html'>Segue abaixo uma brincadeira que escrevi, baseada numa idéia que rolou num bate-papo via MSN.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;ULTIMATE&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sexta-feira à noite. Três amigos conversam sentados a uma mesa de bar. Bar dos antigos: azulejos, conservas suspeitas em vidros, garçons idosos e mal-humorados e cerveja estupidamente gelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;César, nerd de carteirinha, cinéfilo, devorador de quadrinhos. Gordinho, uns trinta anos, óculos e rabo-de-cavalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Michael, estagiário, uns dezenove anos, cabeludo e roqueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo, analista de sistemas, vigoréxico, explosivo, pavio-curto de plantão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa que havia iniciado por amenidades e fofocas de escritório, ficou mais séria quando César provocou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Acho que todos os bons filmes e bons livros já foram feitos e escritos. Deveríamos parar de produzir. Não haverá nunca algo que supere um “Guerra e Paz” ou um “Cidadão Kane”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mike, já meio bêbado com dois chopps, reflete:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Ah, bobagem! É sempre possível se fazer algo melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Eu penso o mesmo – completou Ricardo – Afinal, fazer melhor do que estas velharias do passado é moleza. Com os recursos e orçamentos de hoje em dia é fichinha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Vocês não têm noção do que estão falando. Uma obra-prima é um ponto final. Não se segue adiante depois disto. Quando algo assim é feito, você ganha uma nova referência e esta referência aborta qualquer projeto de quem quer que tenha qualquer noção de ridículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mike, olhava para alto fazendo uma expressão de prece. Ricardo já estava pensando em chutar algo ou alguém, quando veio a idéia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Imaginem que não há limites. Técnicos, logísticos, orçamentários ou lógicos. Como seria fazer um filme “ultimate”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Filme “ultimate”? Que idéia legal! – completou Mike.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Isto é a maior bobagem que já escutei. Beira a heresia! – ria César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Como seria o “ultimate” drama, terror, comédia e pornô? – provocava Ricardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mike ria a ponto de encher os olhos de lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ “Ultimate” pornô teria que ter uma orgia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Ah, isso qualquer pornô de médio orçamento tem! Teria que ser algo nunca visto, insuperável. Milhares de figurantes filmados em 3D! Tomadas aéreas como em um campo de batalha, um épico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Plantada a semente, todos começaram a “viajar” na idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Se não há limites – continuou César – Teria a Linda Lovelace jovem no elenco. John Holmes também! Vanessa del Rio e Cicciolina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Ah, vocês não tem imaginação? Só reciclar coisas do passado? Precisaríamos de freiras, enfermeiras, entregadores de pizza, encanadores, strippers. Teríamos que explorar todos os clichês possíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bebida parecia ter subido à cabeça de Mike, que acrescentava à lista:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Máquinas de lavar, batedeiras, enguias, jumentos, anões, xifópagos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Nossa! Isto tá ficando escatológico demais – ria César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Hum, já um “ultimate” de terror, teria que ter demônios! – pensava um mórbido Mike.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Mas, demônios assustariam os ateus? E os não cristãos? – indagava Ricardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Mas alguns medos são universais: medo de escuro, de espaços fechados, de monstros, da dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Teria que ser algo filmado em primeira pessoa. Com a câmera à mão. O expectador se sentiria enterrado no escuro com monstros que o torturariam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ E haveria uma equipe médica de plantão a postos em cada exibição do filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ E como seria um “ultimate” drama? – perguntou Ricardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Fácil! Algo como um órfão, com uma doença terminal que é adotado e rejeitado várias vezes. Ele teria que ter um bicho de estimação que seria sacrificado no decorrer da história. – disse César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Putz! Que coisa horrível! Teriam que botar antidepressivos na pipoca ou distribuir kit-suicídio pra platéia. – comentou Mike.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Já um “ultimate” de comédia é coisa complicada. Não há receita certa para se fazer rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Talvez o filme só devesse ter uma piada. Algo que seria composto aos poucos no decorrer da história. E deflagrada em um único golpe-baixo sobre o expectador surpreso. O impacto seria tão colossal que o cinema viria abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ O filme teria que ser proibido às pessoas com problemas cardíacos e os expectadores teriam que assinar um termo de compromisso para não revelar a piada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mike ria e se engasgava. Ricardo tinha a expressão de ter descoberto a cura de todos os males. César tinha no olhar o brilho de um homem-santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa evoluía até que Mike observou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ No entanto, a obra-prima “ultimate” seria algo apocalíptico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ E como seria este filme? – perguntou César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Algo imenso e dispendioso? Ou minimalista? Seis horas de projeção ou quinze minutos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Não importa. A simples realização de tal coisa seria como a explosão de uma supernova. Brilharia mais que todas as estrelas da galáxia juntas. Redefiniria todos os conceitos. Destruiria todas as certezas. Em suma, mataria todos nós. – resumiu César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Melhor então esquecer tal coisa. – ponderou Ricardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Sim, não estamos preparados pra isso. – observou Mike.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__ Bem, mas então como seria uma “ultimate” história em quadrinhos? – perguntou César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mike e Ricardo o fulminaram com o olhar. César olhou amuado para o teto e depois comentou alguma coisa sobre o brilho singular da cerveja quando observada a partir do fundo do copo. A conversa voltou às amenidades de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente, não se deve brincar com coisa séria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-2833102430775039398?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/2833102430775039398/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=2833102430775039398' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2833102430775039398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/2833102430775039398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2007/11/ultimate-comdia.html' title='Ultimate - Comédia'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-4255893079342362902</id><published>2007-11-23T22:36:00.004+01:00</published><updated>2010-01-29T09:42:31.724+01:00</updated><title type='text'>Inspirações</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0dJfjxwdpI/AAAAAAAAAAo/_tmc0zQRJL0/s1600-h/quinta.jpg"&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; DISPLAY: block; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5136154706568050322" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0dJfjxwdpI/AAAAAAAAAAo/_tmc0zQRJL0/s400/quinta.jpg" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Inspirações&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;É engraçado como às vezes é só bater-papo com um amigo ou escutar uma história pra se ter alguma idéia sobre um personagem ou um conto. Às vezes, basta visitar um lugar também. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Na foto acima, estou sentado em um dos jardins da Quinta da Regaleira, na cidade de Sintra em Portugal. Sintra é linda e é facilmente alcançada de trem a partir de Lisboa. O metrô da estação Oriente tem conexão com o trem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;A Quinta da Regaleira é um verdadeiro cenário de filme de terror. Daqueles antigos e góticos. Você pode imaginar que o Vicent Price vai aparecer de repente. Há estátuas sinistras de faunos, centauros e serpentes. E é tudo misturado: símbolos cristãos, cavaleiros templários, rosa-cruzes, etc. Cavernas, poços e torres dão o toque final para os assustados como eu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Descer o Poço Iniciático ou o Poço Imperfeito é uma experiência e tanto. Do fundo, você vê os nove círculos que formariam os planos do Céu ou Inferno. Tudo muito escuro e soturno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei porque até hoje nunca filmaram "A Queda da Casa de Usher" por lá ou ainda "O Corvo". &lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Para completar, conheça a Torre de Leda, o Lago das Pedras Flutuantes e a Sala da Caça. Esta última, cheia de troféis de javalis, cervos e outros animais. O teto todo de madeira talhada e o chão um imenso mosaico de uma cena de caça.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-4255893079342362902?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/4255893079342362902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=4255893079342362902' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4255893079342362902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/4255893079342362902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2007/11/inspiraes-engraado-como-s-vezes-s-bater.html' title='Inspirações'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0dJfjxwdpI/AAAAAAAAAAo/_tmc0zQRJL0/s72-c/quinta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4918248811788507408.post-6690156167879431868</id><published>2007-11-23T20:42:00.003+01:00</published><updated>2010-01-29T09:42:21.753+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='umbral'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terror'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='iniciático'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lobo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sinestesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='agridoce'/><title type='text'>Contos Agridoces</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0cyBDxwdnI/AAAAAAAAAAM/LSZ_dvFAdFg/s1600-h/poÃ§o.JPG"&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; DISPLAY: block; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5136128893814601330" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0cyBDxwdnI/AAAAAAAAAAM/LSZ_dvFAdFg/s320/po%C3%A7o.JPG" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Inicio hoje meu primeiro blog enquanto escrevo meu primeiro livro de crônicas. Por enquanto, o título provisório é "Contos Agridoces". &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Misturo um pouco de tudo. Depressão, sonho, sexo, loucura, religião, perversão, tortura. Os contos também se mesclam e complementam. Os personagens esbarram nas histórias dos outros. Uma ponta solta de um se fecha no outro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;A proposta inicial era escrever uma história de terror simplesmente. Mas a história principal cresceu, outras idéias afloraram e ... Vejam por si mesmos trechos dos contos escritos:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Círculos"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Ele tinha só dezenove anos e morava só. Após uma briga feia com seu ex-padrasto, sua mãe arrumou um pequeno apartamento onde ele morava já fazia uns seis meses. Não fazia o tipo adolescente-problema e tudo era novo, limpo e arrumado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi lavar o rosto, enquanto ao mesmo tempo tentava não se olhar no espelho. Nunca gostava do que via. Sempre evitava se olhar e não gostava de tirar fotos ou ser filmado. O corpo pequeno e magro, os cabelos meio compridos, finos e claros, o nariz pequeno e delicado demais, os grandes olhos verdes. Não havia nenhuma parte do seu corpo especialmente feia ou esquisita. Mas, havia algum estranhamento sobre como as partes se combinavam, ele pensava. Deus havia brincado de quebra-cabeças e juntou algumas partes que não deveriam ter sido unidas. Para muitos ele era só um garoto branquelo e baixinho, meio soturno e cabisbaixo. Comum; nem especialmente feio ou bonito. Mas, sob seu olhar supercrítico, ele era um esboço mal-feito de homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu o chuveiro e a torrente quente quase lhe perfurava o peito, esfregava o sabonete vigorosamente, como se quisesse limpar algo mais interno. Alisava, repetidamente, o abdômen, liso e sulcado; após centenas de abdominais diárias. Sentia uma espécie de auto-erotismo ao tocar o próprio abdômen, e envergonhava-se disto, como se alimentasse um tipo de desejo sexual por si mesmo."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;....&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Desceu as escadas estreitas rapidamente através do corrimão que acompanhava as paredes circulares. Era muito escuro e havia um cheiro muito ruim no ar. Continuou descendo e o cheiro somente piorava. O que havia lá embaixo? Lixo? Esgoto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou até um grande salão e havia uma espécie de grande poço escuro na base da torre. Uma corrente comprida descia desde o alto desta e desaparecia no poço. O cheiro era insuportável naquele ponto. Contornou o poço com cuidado e aproximou-se de uma porta enorme, quando escutou passos e vozes em sua direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em desespero, correu na direção do poço e observou que havia degraus em sua lateral. Desceu os degraus para se esconder. Os degraus eram estreitos e irregulares e havia muita umidade lá. Já havia descido uns três ou quatro metros quando viu luzes de lanternas iluminando o poço. Deu um passo em falso e precipitou-se na escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu-se tomado de pânico, mas, por reflexo, segurara a corrente que jazia pendurada desde a torre. Estava mergulhado até a cintura em algo espesso, morno e pútrido. Olhou para cima e ficou chocado com o que viu: escadas circulares desciam pelas laterais, em círculos concêntricos. Não precisava ou podia contar; mas tinha certeza que eram nove círculos de nove degraus. Do alto do poço os seguranças da mansão o iluminavam com suas lanternas. Logo, um velho conhecido juntou-se a eles."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Intercâmbio"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Chegado o vôo, éramos só expectativa. Um garoto alto, ruivo e de óculos saiu do portão. Exibi o cartaz, mas ele não ligou. Esperávamos, esperávamos. Para todo guri com cara de gringo eu levantava o cartaz. Por cerca de dez minutos, ninguém parou. Até que vi um garoto alto e magro de camisa de malha preta e jeans rasgados. Vestia por cima da camisa um enorme casaco de couro gasto. Tinha os olhos intensamente azuis, cabelos castanhos e arrepiados e um sorriso enorme. Ao me ver com o cartaz, veio arrastando as malas grandes e desajeitadas em minha direção. Quando íamos nos apresentar, estendi minha mão. Mas ele ignorou, abraçou-me e beijou-me na testa. Como um irmão faria com o irmão menor. Beijou e abraçou a todos. Dois beijos nas bochechas de mamãe e maninha! Talvez houvesse lido muito sobre nós brasileiros e entendido erradamente algumas coisas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá! Como “von” todos? “Mucho” prazer!”, dizia com um sotaque ianque divertido, misturando português e espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá, Arthur. Seja bem-vindo ao Brasil. Eu me chamo Carlos Nakamura.”, disse meu pai. “Esta é minha esposa, Eliza e meus filhos Thalassa e Rogério.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, porrr favorrrr. “Non” me chama de Arthur. Todos “mis” amigos chamam-me “Wolfie”.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Wolfie?”, perguntei. “Lobo?”. E minha mãe olhou furiosa pra mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Yeah, like the wolf.”, riu ele e fez uma careta imitando um cachorro, arregalando os olhos que eram realmente iguais aos de um lobo ou um husky siberiano. Eram azuis, porém claros demais. Nunca vi alguém com olhos daquela cor."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Figuras de linguagem"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Acordou já noitinha com uma dor lancinante na cabeça. Acendeu as luzes e sentiu-se muito estranha. Olhava as paredes do quarto pintadas de um verde-oliva e as sentia. O verde era macio como relva ou musgo. Cheirava a menta e tinha um sabor de ervas. O teto azul era áspero e gelado. Cheirava a gerânios, soava como uma canção triste e tinha um sabor de aniz. Fechava os olhos e as sensações passavam. Abria-os outra vez e era inundada por texturas, sons, odores e sabores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomou um analgésico e foi ao banheiro. Nunca havia reparado melhor na cortina amarela do box. Ela era agora absolutamente horrível. Mole e espessa. Fétida como cerume de ouvido, amarga como fel e incrivelmente dissonante. Tinha que fechar os olhos para não vomitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colocou um par de óculos-escuros e as sensações ficaram muito mais suaves. Muito mais suportáveis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Observou que as sensações eram parecidas, mas também distintas. O verde da colcha do beliche ao lado, era macio e fofo também. Mas cheirava a alfazema e tinha gosto de hortelã. Diferentes tons, sensações diferentes. Similares, mas únicas também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo mudou, no entanto, quando entrou na sala de TV, ao lado do quartinho e viu a cortina vermelho-carmim. Sentiu-se inebriada com odores de pitangas e groselhas. Um sabor picante em sua língua e uma sensação de seda cálida em sua pele. A cor parecia sussurrar ao ouvido. Era algo poderosamente erótico, que lhe provocava arrepios e que lhe era imensamente prazeroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não comentou com seus colegas de quarto sobre suas novas sensações. Passou a evitar sair de dia sem óculos-escuros e, em uma semana, voltou às ruas."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Instintos"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;"Às vezes os dias são quentes demais e somente durmo onde está fresco e espero a noite chegar. Saio então para comer e aprender com estes bichos singulares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo a família de humanos em sua caixa sobre rodas e farejo seu medo. Mas também farejo alguém dentre eles que tem muito em comum comigo e arrepio meu pêlo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo os humanos-machos vestidos como humanos-fêmeas nas ruas. Por que fazem isto? A quem pensam enganar? Não a mim. Uma cheirada e sei se é fêmea ou macho. Se está vazando o sangue-da-lua ou não. Se está na estação reprodutiva ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observo o humano-macho vestido de fêmea e nele sinto fome. Observo o pequeno humano-jovem de pêlo amarelo e sinto o cheiro de cio. Observo e não entendo seus rituais. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Canso-me por tanto caminhar e encontro um buraco seguro para dormir. Vejo a luz da lua cheia que me enche de ânimo e solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonho que eu não sou eu. Sou eu, mas sou muito maior. Tenho muito mais pêlo. Tenho belas orelhas eretas e uma cauda eriçada. Desço a montanha coberta de branco junto com meus companheiros. Eles assim como eu têm nos olhos a cor do céu das manhãs de inverno. Sinto frio, mas sinto-me muito bem. Mais vivo. Farejo a caça, o suor, o medo. Cercamos a presa. Algo enorme como um cavalo com chifres. Um bicho que nunca vi. Atiro-me sobre sua garganta e desfruto do gosto da carne quente em meus dentes. Delicio-me ao ver o medo em seus olhos revirados."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffcc66;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4918248811788507408-6690156167879431868?l=contosagridoces.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosagridoces.blogspot.com/feeds/6690156167879431868/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4918248811788507408&amp;postID=6690156167879431868' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/6690156167879431868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4918248811788507408/posts/default/6690156167879431868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosagridoces.blogspot.com/2007/11/contos-acre-doces.html' title='Contos Agridoces'/><author><name>rubem cabral</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-h5M4AT0cPvQ/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAI8/QM4b--kMrbk/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_wSEfRcHYQnU/R0cyBDxwdnI/AAAAAAAAAAM/LSZ_dvFAdFg/s72-c/po%C3%A7o.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
