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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Yah-ik-tee: o jeito Apache



A palavra “tats-an” significa “morto” em Apache; embora eles nunca a empreguem quando falando de um amigo ou parente falecido, nestes casos eles dizem “yah-ik-tee”, o que significa que ele não está presente – que eles ainda o procuram, que foi a algum lugar. O mesmo termo pode ser usado ao se referir a alguém que efetivamente saiu e já volta. (A vida entre os Apaches – John C. Cremony – Applewood Books).

Theodore Jr.

Eu tinha sete anos quando vi meu pai pela última vez. A imagem jaz tatuada em fogo por detrás de meus olhos: eu, erguido alto, tão alto, sobre seus ombros, minhas mãos ao redor de seu pescoço, ou segurando suas orelhas, rindo e ignorando seus falsos protestos. Ao fundo, o sol já quase se pondo e fritando o mundo em laranja e carmim, iluminando os cactos saguaros, perfilados como uma procissão de mexicanos.

Não sei se por minha inocência de filho único criado em rancho, ele me parecia perfeito, um semideus dos livros de contos de fadas de minha futura meia-irmã, que eu ainda leria nos anos por vir.

Tinha os olhos cor de inverno sempre apertados, como se desconfiado perscrutasse o horizonte o tempo todo, íris essas que faziam forte contraste com o rosto invariavelmente queimado. A barba bem aparada, mas áspera como o agreste espinhoso. Seu queixo, quadrado e altivo, a voz, um trovão gentil, um vento que soprava morno com o vagar de seu sotaque carregado. O chapéu cowhat, que só saía da cabeça quando ele ia comer ou entrava na igreja, as sobrecalças fedorentas de lã de carneiro, as botas de couro de bisão, que ele mesmo cortara e costurara à mão com pontos grossos.

O homem era uma máquina de trabalho incansável, já de pé desde as quatro e meia, às vezes trabalhando até às oito da noite no verão. Ninguém era maior ou mais forte, mais hábil com o laço, ninguém domava um mustangue tão rapidamente e sem maltratar o animal, ninguém cuspia fumo tão distante, ou contava histórias tão engraçadas e fantasiosas nas noites frias pontilhadas de mil estrelas, ao redor da fogueira.

Lendas do Canadá de seus pais, sobre como o Grande Canyon fora criado numa luta entre o gigante Paul Bunyan e o touro azul Babe, sobre como depois Paul cavara os Grandes Lagos para que o seu novo amigo índigo pudesse ter um bebedouro adequado ao seu porte modesto, os dez mil lagos de Minnesota, resultantes de pegadas do formidável bovino, antes que ele e Paul fossem enfim viver no céu.

Theodore Calhoun, meu jovem pai só tinha vinte e seis: não houve um dia em que não sonhei sobre como ele foi atrás de uma rês perdida no fim daquela tarde e jamais voltou. Não houve noite em que não chorei lágrimas furtivas por não ter tido o gosto de crescer ao seu lado, em que não amaldiçoei os diabólicos Apaches.

Talvez os covardes pagãos tenham tirado seu escalpo e deixado seu corpo, debatendo-se ainda vivo, para ser devorado pelos cougars, ou pior; cortaram suas pálpebras e o soltaram no deserto para morrer cego, louco e com os olhos secos. As histórias das práticas dos selvagens corriam de boca em boca e insuflavam mais ódio em meu espírito, mais do que eu poderia guardar num coração ainda tenro de menino.

Mary Elizabeth, minha mãe – eu não a culpo mais, era tão moça, só tinha dezesseis quando nasci – esperou uns três anos desde o desaparecimento dele e finalmente abandonou o luto. Menos de seis meses depois, não tomando conhecimento de minhas contestações mais veementes, casou-se com o recém-chegado Pastor Joseph Cole.

No dia da cerimônia eu fugi de casa no lombo do meu corcel preferido, vaguei perdido por dois dias em pleno território Apache buscando pelo meu pai de verdade, gritando a plenos pulmões seu nome, imprudentemente. Enfim, o pessoal da cidade me encontrou e me trouxe de volta, faminto e desidratado, porém ainda berrando rouco e com os lábios rachados aquele nosso prenome em comum: “Theodore, Theodore!”.

Pai... Soa quase como um gemido de dor...

Hoje, muito mais maduro, afinal já tenho quase vinte e dois, reconheço que o pastor, um tipo conservador, ranzinza, magro e feio e fraco, não fora de todo mau. Garantira-nos um teto, comida abundante, era respeitoso, nunca nos bateu ou maltratou – nem poderia, pois logo herdei o porte de papai e com catorze já era mais alto que o papa-bíblias – e até presenteou-me com duas irmãs lindas, pois sabiamente Deus as fez saírem à minha mãe.

Só me sobrou do meu velho uma cicatriz na memória, um vulto de rosto obscuro nos sonhos, uma nódoa descolorada que só machuca se eu a pressiono, mas que cegamente não consigo evitar cutucar e novamente fazer sangrar. Restou também a incerteza inconfessa se sou bom o suficiente, se faço jus por ser filho de quem eu sou, se estou à sua altura como homem. Assim como a necessidade de um dia talvez vingá-lo, de fazer os índios sem alma pagarem muito caro por me terem roubado o que eu tinha de mais valioso na vida: meu ídolo, meu herói.

***

Setembro anunciara-se luminoso, chegara a época da procriação dos antilocapras e naquela manhã eu fazia pontaria na cabeça do maior exemplar de um bando que pastava unido junto do rio, quando um dos animais caiu ao solo balindo e o grupo dispersou-se aos saltos, tão rapidamente quanto somente aqueles bichos ariscos eram capazes de fazer.

Atônito, refiz a mira e quando ia atirar no único animal que estranhamente não fugira, um adolescente munido de uma faca ensanguentada saiu sob o disfarce de uma pele perfeitamente preservada, com cabeça e chifres, e gritou em mau espanhol:

— No tiras, no tiras!

Meu sangue ferveu quando reconheci o típico rosto redondo como a Lua, os olhos escuros rasgados e as duas penas inclinadas, espetadas em “V” no topo da cabeleira lisa. Um diabo Apache! O ladino devia ter dormido com aquela pele imunda por dias, para ter o cheiro certo e poder se aproximar da caça tão furtivamente. Se fosse um homem adulto, eu não pensaria duas vezes, todavia, o garoto miúdo de uns treze anos – talvez fosse mais velho, afinal quase todos eles são pequenos – ajoelhou-se, abaixou a faca com cuidado e a depositou sobre o solo. Olhava para baixo e tinha as mãos abertas, submissamente, mas não tremia ou demonstrava medo. Como eu odiava aqueles comedores de carne crua! Contudo, não era cristão matar de forma tão covarde um filhote ainda cheirando a leite.

No matar! Go! – Abaixei a arma e o enxotei com um gesto.

Nah-tanh – ele riu, aliviado, apontando para si mesmo, traduzindo quando notou que não entendi: — Mim, Flor del Maíz.

Era praxe entre os guerreiros se apresentarem a amigos e inimigos, pois seus nomes eram motivo de orgulho, sempre mérito de algum evento de valentia em suas histórias de vida: Forte Nadador, Olho Arguto, Sempre Disposto. Em função disso, somente as mulheres que caçavam tinham direito a nomes, todas as outras eram apenas “mulher”: ish-tia-nay.

Conheça seu inimigo, era a minha máxima, já lera muito sobre os selvagens.

— Theodore Junior – respondi, apontando para mim com o polegar.

Pindah-Lickoyee! – Ele exclamou com os olhos saltados, sem que eu entendesse.

O garoto retomou a faca e se pôs de pé, inclinou para trás a cabeça do antilocapra abatido, e com destreza cortou seu pescoço, dispondo a seguir sobre o solo a cabeça envolta num pedaço de tecido que ele retirou da cintura. Lambeu das mãos o tanto de sangue que pingou, sem esconder certa satisfação. Os olhos, miolos e língua eram considerados partes nobres, recordei-me. Aquilo era um presente, uma gentileza por eu não haver atirado.

Com força impressionante para seu porte, elevou o corpo do animal de uns trinta e poucos quilos por sobre o ombro, assoviou com os dedos na boca e um cavalo malhado branco e preto surgiu do nada, em pouco mais de um minuto.

Já montado em pelo, com o bicho abatido deitado sobre a dianteira do cavalo, o pequeno caçador com o pouco másculo nome de Flor de Milho puxou a crina e cutucou as ancas do mustangue com os calcanhares nus, saindo em disparada, sem sequer olhar para trás.

***

Três dias depois do encontro com o garoto Apache, quando voltando de outra caçada bem mais ao sul do rio, vi-me de repente cercado por um grupo de uns trinta índios. Aquele que se apresentara como Flor de Milho estava junto do bando e apontou para mim. Matraqueou exclusivamente em seu idioma nativo e não tive noção do que disse.

Não ofereci resistência. Os selvagens vendaram meus olhos, amarraram minhas mãos e por vários dias dormimos em acampamentos e continuávamos na manhã seguinte.

De inicio entreguei meu espírito e fiz as pazes com o Senhor. Depois, confiante por não terem me matado ou maltratado, mantive acesa a esperança que por alguma razão haviam decidido capturar-me. Talvez para trocar por algum guerreiro ou feiticeiro aprisionados no povoado.

Na manhã do quarto dia, embora vendado, notei o ruído de vozes femininas, o cheiro de fumaça, de algo defumando, talvez. Quando finalmente me permitiram ver, descobri-me no meio da maior aldeia Apache que já ouvira falar.

As casas em forma de funil invertido, feitas de galhos entrelaçados e adobe, cobertas por mantas. Havia quiçá uma centena delas! Cavalos aos montes, crianças correndo, cães ladrando, gente cantando alguma ladainha monótona.

Logo me desceram do cavalo, empurraram-me sem muito cuidado através da aldeia, ainda com as mãos atadas. Rasgaram minha camisa e a retiraram. As mulheres e crianças riam e me estapeavam, alguns me tocavam e esfregavam os dedos contra minha pele, como se a conferir se esta não estaria pintada com alguma tinta clara.

De dentro de uma cabana, um índio excepcionalmente alto, a pele muito vermelha, os cabelos compridos trançados e de um tom cinza-dourado, veio em minha direção, acompanhado de duas mulheres e algumas crianças, dentre as quais o tal garoto Flor de Milho.

— Seja bem-vindo, Theodore! – Ele disse em inglês com um sotaque engraçado e gutural, oferecendo a mão para eu apertar. — Creio que fui seu pai na vida anterior. Agora sou Tata Pindah-Lickoyee, o Olho Branco.

Meu queixo caiu, senti frio e uma moleza nas pernas que me envergonhariam em outra situação qualquer. Minha vista escureceu, alguma coisa zunia dentro de meus ouvidos, e não me recordo se eu disse alguma coisa.

***

Theodore Sr.

— Não fale nada, garoto. Você está cansado. Continue deitado.

— Eu não sou um maldito garoto, como ousa?

— Cale-se ou farei com que o calem! Escute-me primeiro... Fale depois se quiser...

Como tudo aconteceu? Lembro-me como se fora ontem. Um garrote fujão escapou do curral e te deixei com a Beth. Um servicinho de merda, eu pensei. Depois de uma hora seguindo o maldito animal, finalmente o encontrei embrenhado numa enorme moita espinhosa. Apeei do meu cavalo, saquei um facão que eu levava sempre atrelado à sela, e comecei a abrir caminho para soltá-lo.

— Como se meteu aí, seu bicho burro duma figa?! – Eu falei, como se o estúpido pudesse compreender.

O filhotão mugia, assustado com alguma coisa, seus olhos grandes giravam e exibiam o pouco branco dos cantos. Quando o bicho inspirou para voltar a se lamentar, reconheci talvez o ruído mais desagradável de todo o deserto: o chocalhar do guizo de uma cascavel, próximo, próximo demais. Caminhei lentamente de costas, sobre meus próprios passos, quando senti algo como uma facada de lâmina de fogo na coxa. Mal tive tempo de agarrar a cobra desgraçada pela cauda, girá-la e atirá-la ao chão. Pisoteei-a com vontade, até escutar um ruído de osso quebrado e seu sibilar de chaleira finalmente se calar.

“Pro inferno com o boi!”, refleti. Não era possível fazer um corte e chupar o veneno, não tão alto na perna. Retirei o cinto e improvisei um torniquete. Rasguei o tecido da calça, fiz um talho no lugar da picada e tentei espremer o sangue envenenado.

A noite caía, minha cabeça girava e uma sensação de dormência e frio subia da perna até a barriga e o peito. De súbito vomitei sobre minhas botas, já sem muito controle do meu próprio corpo. Não sei como ainda consegui montar o cavalo, guiei-me pela direção do sol poente e tentei retornar ao rancho.

Daí, tudo ficou confuso. Veio uma febre intensa, vieram os calafrios e tive visões. Uma serpente emplumada cruzava os céus cor de brasa, bailando de leste a oeste. Um leão-da-montanha, seu pelo de um dourado que não era desse mundo, seus olhos dum negrume intenso, a cavalgava. Uma águia-careca, as penas pareciam de ferro e o bico seria de ouro, posou nas costas do leão. Um lobo cinzento sobre as asas da águia, uma coruja com olhos de lua cheia sobre o lobo. E um urso pardo, e um corvo, e um bisão.

Houve escuridão e então através de alguns lampejos vi o rosto redondo, enrugado e moreno de um índio. Dava-me alguma coisa que cheirava a urina para beber, minha cabeça doía como se fora mergulhada em água fervente e eu trinquei os dentes. O ancião soprou fumaça em minha cara e me fez comer algo amaríssimo que ele mascava na boca meio banguela, a coisa mais amarga que jamais provei.

As visões voltaram, mais intensas então. O mesmo leão-da-montanha, grande como as Montanhas Rochosas, me devorava, começou pelos meus pés e me engoliu inteiro. Seu ventre era escuro e amplo como o Texas. Percebi a presença de muitos espíritos naquela escuridão, que me confidenciaram que tiveram o meu mesmo destino milênios antes. Éramos os escolhidos.

De repente eu não estava mais lá, voava e observava então tudo de fora. Os olhos do cougar, de negros se tornaram azuis. Ele rugiu e se levantou sobre as patas traseiras. Seu peito se abriu e eu saí de suas entranhas, vestindo sua pele como um poncho mexicano com um capuz ornado por seus dentes. Não eu, outro, melhor, mais forte, livre das responsabilidades da vida anterior. Os espíritos ancestrais combinaram-se ao meu e me senti renascido.

Acordei e não temi por minha segurança. Estava dentro de uma tenda e uma mulher muito bonita cuidava de mim. Tentei falar em inglês e disse alguma coisa que eu sabia de espanhol, mas ela apenas sorriu e saiu para chamar alguém.

O Tata da tribo entrou, fora ele que cuidara de mim, reconheci o seu rosto de couro encarquilhado e o sorriso de poucos dentes. Tinha um ar sábio e devia ser velho como a própria América. Ele me perguntou em espanhol:

Qué has visto?

Eu não sabia nada de Apache e pouco da língua dos chicanos, mas arrisquei:

Un león, un cougar – e gesticulei com os braços, para dar ideia do tamanho, pois não sabia dizer gigante ou colossal em espanhol.

O velho riu e balançou a cabeça. Salivou o polegar gorducho, o esfregou em cinzas de uma fogueira apagada no centro da tenda e passou a mistura em minha testa, fazendo um desenho.

Ahora es un Shis-Inday. Hace mucho que esperávamos.

***

Ele tratou-me como um filho. Explicou-me que Shis-Inday significava Povo da Floresta, que era como eles preferiam se referir a si mesmos. Comentou também que havia profetizado nosso encontro, que ele viria a ser o responsável pelo meu parto para este mundo, e que ninguém da tribo se importaria se meu espírito de luz vestia o corpo errado, já que fora essa a vontade dos deuses.

O leão dourado tinha escolhido alguém que empunhasse suas cores devidas. O que poderia ser mais devido?

Por mais uma semana fiquei prostrado aos cuidados da filha do Tata. Uma moça que descobri depois que se chamava Sons-ee-ah-ray, a Estrela da Manhã. Numa noite especialmente fria, ela veio deitar-se ao meu lado, sob a mesma coberta, para me aquecer, pois eu estava tremendo. Acabamos por fazer mais do que simplesmente dormir.

Ficamos íntimos, ela me ensinava o Apache com a gentileza de quem instrui uma criança pequena. Quando melhorei, o Tata apresentou-me à tribo e cada homem, mulher e criança me abraçou. Batizaram-me Pindah-Lickoyee, Olho Branco.

Se eu senti falta da minha vida anterior? Se não me preocupei com minha família branca? É claro que sim! Mas uma coisa leva à outra, Sons-ee-ah-ray é a pessoa mais doce e amorosa que jamais conheci. Logo ela ficou grávida, nasceu Nah-tanh, o meu primogênito dessa nova vida, o menino valente que ganhou o nome ao matar um pistoleiro mexicano aos nove anos, camuflado com palha de milho e flores numa plantação. Depois chegaram Ish-kay-nay e Klo-sem, as minhas meninas gêmeas, exímias caçadoras de coelhos. Há seis meses nasceu o meu caçula, Para-ah-dee-ah-tran, de minha outra esposa.

Aprendi o ofício de Tata, o uso das ervas, os ritos, as danças, as viagens astrais com o peiote. Eu sou amado e respeitado aqui. Falo o Apache tão fluentemente que às vezes me esqueço da palavra ou expressão correspondente em inglês. Sou tão eficiente com o arco e flecha quanto fui com um dia com o rifle, atiro a machadinha e não erro um alvo a mais de cem metros.

Sabe quantos guerreiros eu curei de feridas aparentemente mortais? Quantos eventos eu adivinhei com precisão ao consultar os deuses? Quantas vezes invoquei a chuva e irriguei nossas plantações? O antigo Tata morreu há seis anos e eu tenho minhas responsabilidades aqui. Nós, os Shis-Inday, nós nunca olhamos para trás. Você, Junior, você é filho de um homem que morreu no deserto, picado por uma cascavel. Mandei trazê-lo aqui porque penso que lhe devia uma explicação. Eu sou Apache, e tenho orgulho disso. Você pensava que seu pai pudesse ser yah-ik-tee, mas ele é tats-an. Ele não existe mais.

***
Theodore Jr.

Eu não consegui dizer uma palavra sequer. Envergonhado, não logrei nem reter as lágrimas, que desceram abundantes, desenhando linhas em meu rosto empoeirado. Meu pai então se despediu secamente e comandou que me levassem de volta. O homem, o desalmado Tata Apache, virou-me as costas e nunca olhou outra vez, enquanto os outros me arrastavam dali.

Não contei a ninguém o ocorrido, era por demais vergonhoso. Todos no povoado tinham conhecimento de meu ódio sem concessões quanto àqueles selvagens diabólicos.

Gostaria de esquecê-lo, no entanto, ainda hoje às vezes sonho com o jovem caubói me levando sobre os ombros. Eu, saltando, estapeando meu cavalo imaginário, segurando-o pelas orelhas, fazendo o lenço de seu pescoço de rédeas. E alguma parte de minha consciência então sussurra a verdade, e sempre azeda àquela fantasia, àquela lembrança terna de um tempo que não voltará jamais.


Talvez ele tenha realmente razão. Theodore Calhoun morreu. Só existe hoje Pindah-Lickoyee e, sinceramente, eu odeio ainda amá-lo tanto.