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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Atomicamente falando

Escrever não deveria ser possível sob certos estados mentais, feito quando temos insônia ou enquanto bêbados. Ou pior: quando esvaziamos algumas garrafas de bom vinho junto com amigos até bem tarde e depois da festa não conseguimos pregar os olhos. Ébrios e insones. A cabeça rodando, ideias malucas, engraçadas, geniais, cochichando em nossos ouvidos.

Nossos pensamentos normalmente sempre presos à razão, ao juízo que a duras penas conquistamos com os anos, ao passarmos a vida sufocando com espessas camadas de argamassa moral os velhos devaneios infantis... Os pensamentos, eles ficam soltos, burilando como crianças com o que não se deve perguntar ou contestar. Metendo o bedelho aonde não são chamados.

(Mas era essa, a grande graça de ser criança, não? Perguntar sem medo. Por que o vovô não tem dentes? Por que a gente chora? De onde a gente vem?).


E então me surpreendo pensando nos átomos, no universo, na caspa, nos cabelos, em minha operação amanhã e como me encaixo nisso tudo. Como tudo isso faz sentido agora. De uma forma tão clara que me assombra.


A foto muito ampliada e que ilustra este texto, tirada por algum telescópio XYZ cujo nome não me recordo, exibe uma cicatriz, uma deformação no espaço, um lugar tremendamente frio e distante, o ponto onde talvez o Big Bang possa ter iniciado ou o que restou da lesão que o universo sofreu ao colidir com outro.

Na foto há também estrelas brilhando, este monte de pontos claros espalhados pelo breu.

Imagino que nada faça sentido ainda, mas fará, tenha paciência.

O ouro da aliança que tenho no anelar esquerdo; ele não foi criado pela tal famosa explosão inicial. Apenas hidrogênio, hélio e lítio foram forjados quando o universo começou a esfriar.

(Sim, eu gosto de ler revistas científicas).

Estrelas, em seus âmagos ferventes, estas sim cozinharam quase todos os elementos, feito panelas de pressão monstruosas e ultra quentes, num processo chamado nucleossíntese.

Primeiro transformaram todo o hidrogênio em hélio, depois – não me lembro bem em que ordem – em oxigênio, nitrogênio, carbono... Viraram gigantes vermelhas e ejetaram a maior parte de suas massas, então encolheram-se se não fossem suficientemente pesadas. Pouco a pouco foram subindo os degraus da tabela periódica por sua necessidade de produzir energia e de equilibrarem suas massas, para que não desabassem sobre si mesmas. Até que finalmente produziram ferro, a linha de chegada, o elemento mais pesado que elas poderiam criar durante a chamada Sequência Principal.

No entanto, se a estrela fosse grande o suficiente, ao invés de então encolher e esfriar de forma comportada, sob forma de anã branca, ela poderia virar um buraco negro ou estrela de nêutrons e, no processo, explodir de forma monumental.

Uma supernova, uma explosão que faz da estrela sozinha a maior exibicionista de sua galáxia, brilhando por alguns dias com mais força que a soma de todas suas outras colegas. E é aí, durante este evento cataclísmico, que os outros elementos pesados são criados; todos os que têm massa superior ao ferro. O urânio das usinas nucleares, o ouro que levamos em nossos dedos, o mercúrio dos termômetros, a platina nos ossos quebrados.

Num momento distante no passado estes átomos, estes mesmos átomos, estiveram no coração de uma estrela gigante que explodiu talvez do outro lado do universo.

Ora, a matéria não se cria ou destrói. Ela apenas pode se transformar. Portanto, tudo o que vemos ao nosso redor, ao menos se pensarmos em escala microscópica, é tão antigo como o próprio universo. São os mesmos velhos prótons, elétrons, nêutrons de sempre.

Pensar nisso tudo me dá fome. Enquanto como um pedaço de queijo reflito sobre os átomos daquele naco; a maior parte deles compunha o leite usado em sua confecção, leite que uma vaca gerou ao digerir grama, que por sua vez cresceu a partir de minerais do solo, água e luz solar. Consigo enxergar o fluxo das diminutas partículas.

E ainda assim, estes átomos não eram originais, no sentido de que não tivessem sido coisa alguma antes. Eles eram os mesmos das plantas que secaram e apodreceram naqueles pastos, de dejetos das próprias vacas, de insetos, vermes, pássaros cujos elementos foram retornados àquela mistura. E assim antes, antes, muito antes. Desde o inicio dos tempos.

Eu como queijo, mas indiretamente também como componentes da vaca, do capim e das plantas e dos bichos que morreram ali. Talvez inclusive pessoas em algum cemitério próximo ou cujas cinzas foram espalhadas nos campos; o cálcio de seus ossos enriquecendo o leite que foi usado na produção daquele laticínio, depositando-se em meus ossos também.

Eu coço a cabeça e flocos de caspa e pele seca caem sobre o tapete e se juntam ali aos meus outros restos, aos cabelos, aos pelos de minhas pernas.

Repentinamente eu me recordo que meus átomos, que me compõem num equilíbrio precário, que os ciganos vivem entrando e saindo. Se eu perco peso, se eu engordo, se eu como, se defeco, se respiro.

Eu já não sou mais aquela criança original, com as mesmas partículas que minha mãe laboriosamente juntou por nove meses, transformando sorvete, lasanha e muito mais em minhas células. Em verdade, eu sou um mosaico em constante mutação.

Ainda mais: eu troquei partículas com todas as pessoas que já abracei, beijei ou tive sexo. Mesmo as que apenas toquei de leve, ou quando sentei no mesmo banco de ônibus...

Em meus ossos está o cálcio forjado em alguma estrela, mas que já foi leite, pedra, verme, trilobita no período cambriano, ossos de muitos... Eu sou, todos nós somos, quimeras imensas, com pedacinhos minúsculos de tudo o que houve antes.

Todos interligados, misturados de uma forma quase indecente, quase incestuosa. Há partes de mim que já fizeram parte de outras pessoas, em sua grande maioria completamente desconhecida.

Há certa graça em pensar que os que dizem que foram em outra encarnação algum personagem histórico famoso podem até ter alguma razão. Talvez haja átomos de Cleópatra o suficiente para todos os que dizem descender da Rainha do Nilo.

Somos de certa forma imortais, já que nossos átomos não perecerão. Somos também como o monstro de Frankstein elevado à décima potência.

E é com esta ideia enlouquecedora em mente que eu finalmente consigo dormir...

***

Na manhã seguinte retorno do consultório médico. Operação simples, com anestesia local. Retirada de um cisto sebáceo das costas, até grande: 1,5cm x 1,2cm. Três pontinhos pretos atravessando a malha da minha camisa e uma dor meio chatinha. Tylenol, descanso. Nada demais.

Eu rio ao pensar que posso ter perdido ao extirpar o pobre cisto uma parte de minhas partículas originais, de quando eu ainda era um bebê. Mas é bobagem, eu sei, mesmo os primeiros humanos já eram mosaicos, se não de outros hominídeos, ao menos de animais, plantas e minerais que os precederam.

Atomicamente falando, ninguém é original.

Duas semanas depois, retiro os pontos.

Em casa peço a minha esposa para tirar uma foto de minhas costas, para eu poder ver a cicatriz com nitidez, o pequeno inchaço, a minha recente perda de células de sebo malcheiroso...

A foto está visível abaixo. Mas sua interpretação é algo que pedirá alguma outra noite insone e ébria; eu simplesmente não tenho a energia necessária agora.



Há uma cicatriz avermelhada em minhas costas, há também uma cicatriz no universo, a bilhões de anos-luz daqui. Minhas sardas são como estrelas ou as estrelas são sardas nas costas de alguém muito maior.

Interprete você, leitor amigo, se possível, ou não durma também. Sim, talvez seja esta a solução! Por favor, não durma e conte-me depois o que você descobriu.

2 comentários:

improvaveisdevaneios disse...

Espero que vc não se transforme em uma supernova tão cedo.

Gostei bastante da viagem.

Abraços.

Fanzine Episódio Cultural disse...

“IX CONCURSO PLÍNIO MOTTA DE POESIAS”

A Academia Machadense de Letras (Machado-MG / Brasil) comunica a realização em novembro de 2013 de seu IX Concurso de Poesias. As inscrições encerram-se no dia 14 de outubro (2013). Para receber gratuitamente o regulamento em arquivo PDF, entre outras informações, favor entrar em contato através do e-mail: machadocultural@gmail.com

Obs (PS): O tema é livre e aberto a todos de Língua Portuguesa e Espanhola e a taxa de inscrição é de R$5,00

Favor verificar o recebimento do regulamento em pdf e jpeg.