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sexta-feira, 24 de maio de 2013

A expulsão


O relato que se segue foi real. Para proteger às identidades dos envolvidos, indivíduos de enorme poder e influência, seus prenomes foram substituídos por outros mais comuns, embora até discretamente relacionados às suas alcunhas reais. Os eventos descritos ocorreram à época da Inquisição na Espanha, conquanto não tenham se passado exatamente por lá.

 ***

— Mestre Lucas! Mestre Lucas! – Berrou o emissário, batendo vigorosamente à porta do mais luxuoso quarto do palácio, depois de ter passado por inúmeros portões e guardas, ao exibir em mãos um documento ornamentado com um escarlate selo de alta patente.

Repentinamente, as portas pesadas se abriram, num estrondo seco como um tiro. No corredor, alguns guardas chegaram a ensaiar alguns passos em fuga.

— Que exista uma boa razão para que me acordes desta forma, mensageiro! Ah, que exista uma excelente, incrível razão! – Vociferou a autoridade, nitidamente contrariada.

O jovem vacilou, tremeu e abaixou a cabeça, quase se urinando em submissão.  Em sua ânsia por bem cumprir sua tarefa, tolamente se esquecera do óbvio, do estrito respeito à hierarquia.

— Mil perdões, milorde – gaguejou, num tom agora muito mais respeitoso. Inspirou profundamente, buscando algum fôlego, e completou num crescente de pavor: — O Marquês... Uma possessão, senhor! Uma horrível, hedionda possessão! – A palavra parecia que chibatava a língua do pobre. Seus olhos, assustadiços como os de um coelho preso a alguma armadilha dilacerante, buscavam talvez consolo paternal.

A expressão carrancuda do recém-desperto se dissolveu primeiro em incredulidade, depois, em medo e raiva.

Aqui?! Isso, isso é sem precedentes! – Ganiu. — Vamos, pequeno, conduza-me sem demoras até o infeliz! Dá-me os detalhes durante o percurso – ordenou, enquanto mais que celeremente se vestiu.

***

Havia uma multidão barulhenta e curiosa pisoteando os bem cuidados jardins do casarão do Marquês André. Ante a aproximação duma luxuosa carruagem negra, esta se dispersou rapidamente, numa espécie de mal disfarçada retirada ordeira.

— Cocheiro! – Gritou Mestre Lucas através duma portinhola. — Envie alguns batedores no encalço dessas hienas intrometidas e recomende quinze chibatadas como castigo aos que forem presos. O marquês é um cidadão mais que honrado, cumpridor de seus deveres. Não merece tamanha desfeita desse populacho.

Ainda à distância, luzes azuladas e bruxuleantes como relâmpagos podiam ser notadas através das janelas da mansão. Urros, ruídos de objetos sendo atirados, cheiro de eletricidade, davam noção do caos que reinava por detrás das paredes.

Mestre Lucas fez um sinal com a mão e beijou os dedos. Ao adentrar uma antessala onde se deixavam chapéus e casacos, foi recebido pela idosa esposa do Marquês.

Ela fez uma mesura, inclinando-se bravamente para alguém de sua idade, numa atitude de surpreendente humildade para alguém de sua posição. Enfraquecida, terminou por ajoelhar-se e beijar o manto do visitante.

— Salva-o, Mestre! Não sabemos o que fazer, não entendo o que fizemos de errado, como foi que fraquejamos e permitimos tamanha vergonha a nosso honrado nome...

Os olhos da senhora estavam inchados e havia um feio corte que começava a inflamar em sua testa.

— Farei o possível e o impossível, senhora. Tenho certeza que hoje mesmo esta afronta será apagada, feito nódoa num tecido após ser bem lavado. As areias do tempo se encarregarão de trazer o esquecimento sobre o ocorrido, não te desesperes! Leva-me sem mais delongas até o quarto do Marquês André.

Quando a porta do enorme quarto se abriu, Mestre Lucas não pôde deixar de sentir um calafrio desagradável e um arrepiar dos cabelos de sua nuca. O Marquês, seminu, com o camisolão em farrapos, e amarrado à cama por grossas cordas, fazia com o corpo uma impressionante curva em “U” invertido sobre o colchão. Gritava heresias, agitava a cabeça para os lados e espumava como um cão raivoso. Objetos diversos levitavam e eram atirados. Palavras proibidas escritas como que rasgadas à faca, queimavam no teto e nas paredes.

A esposa do Marquês começou a chorar. Mestre Lucas pediu para ficar sozinho e, corajosamente, entrou no quarto e fechou a porta com a chave.

— Isso terminará nesta noite! Diga teu nome, maldito! Maledictus omnis qui credit in Domino. Ego te expelle, spiritus purus!! Amen!1

Uma expectorada repugnante, que resvalou o supercílio do Mestre e molhou parcialmente seus cabelos e a orelha esquerda, foi esta a resposta que ele obteve.

— Não obedecemos a ti, não te diremos nada, não tens autoridade sobre nós!

Recitando de cor trechos de seu livro sagrado, Lucas iniciou o ritual, crescendo aos poucos em carga e importância, torturando o espírito invasor, sem dó.

— Eas tartarus, et igne tenebris peccatorum. Dicite nomini tuo!2

O conhecimento do nome, forçar a coisa a dizer seu nome, esse era o caminho para obter o controle e forçá-la a fugir.

— Teus irmãos. Eles estão aqui conosco e te desprezam, riem de ti! – Gargalhou o Marquês, com uma voz terrível, que fez os ouvidos do mestre sangrarem e os cristais do lustre explodirem em fragmentos pequenos.

Algumas horas se passaram e então o Marquês tremia como um moribundo; suado e pálido, com os olhos voltados para dentro, somente exibindo o branco das escleróticas. Parecia finalmente exausto; quase que somente gemia e não tinha mais forças para vomitar suas abominações. O mestre continuava inabalável com sua ladainha de furiosas frases em latim, com vigor ainda maior do que começara.

Enfim, muito sagazmente, Lucas inspirou fundo e gritou, como um gladiador, ao dar o golpe de misericórdia num oponente praticamente abatido.

— Ab inferno in infinitum dolor. In nomine lucis dator. per praeuaricatores angeli. Dic nomen tuum!3

— Meu nome?! – Choramingou o Marquês como um filhote ferido, expirando nuvens geladas pela boca cheia de cortes. — Meu nome é Falange Celestial! Porque somos muitos!

Ao perceber que cedera o controle à autoridade, os espíritos invasores cometeram uma última afronta. Antes de finalmente retirarem-se, atiraram o pesado criado-mudo sobre Mestre Lucas, logrando assim quebrar a ponta de um de seus chifres.


Tradução dos trechos em latim:

1 = Maldito seja aquele que crê no Senhor! Eu te expulso, espírito puro! Amém.

2 = Pelo abismo, pelo fogo e escuridão, pelo pecado. Diz teu nome!

3 = Pelo inferno, pela dor infinita. Em nome do Portador da Luz, em nome dos caídos. Diz teu nome!

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