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terça-feira, 9 de abril de 2013

Conto de Fadas Moderno


Tarde de sábado com as crianças. Alessandrinha está linda hoje; toda vaidosa, com uma blusa nova da Hello Kitty. Já está com uns nove anos, eu acho, naquela fase em que as meninas gostam de se vestir de rosa e colecionar canetas coloridas e perfumadas. Pedroca completou cinco no mês passado, disto pelo menos eu tenho certeza, afinal estive na festinha. Como não lembrar daquela festa chique, cheia de animadores e do mágico profissional? De Nádia, linda, desfilando o corpo torneado em academia num vestido que não me deixava desgrudar os olhos dela...

Ué, Alê agora está usando aparelho nos dentes? Desde quando? Parece caro! Pedroca tá descascado feito uma barata e com o cabelo cheio de reflexos alourados, seguramente por ter pego sol demais nestas férias. Ora, eu sou moreno e a mãe é morena, de onde o guri puxou este cabelo castanho-claro? Será que foi do Roberto? Doutor Roberto Müller – meio gringo desgraçado! – o fedepê já estaria frequentando a minha patroa ainda antes da separação?

— Pai, tá no mundo da Lua? Terra para o astronauta José Ricardo, câmbio!

— Pai! Eu, eu, eu quero pizza sem queijo e sem tomate e sem cebolha!

Eu olho para as crianças e rio, sem graça. Pelo menos ainda me chamam de pai e não pelo nome, feito muitos filhos de pais divorciados.

— Ah, papai tem trabalhado muito e por isso tá distraído. Alê então quer pizza de muçarela e Pepê só a massa sem nada em cima, não é isto? O que vocês querem beber?

— Coca-cola! – dizem ao mesmo tempo. Bem que eu gostaria de afogar minhas mágoas em cerveja, mas a danada da lei seca e a responsabilidade de levar as crianças pra minha casa, não me permitiriam. Faço um sinal pro garçom e logo as minipizzas chegam bem quentes, junto com três cocas. Corto tudo em pedaços pequenos nos pratos dos dois, apesar do protesto das crianças, que dizem já saber comer de garfo e faca, e fico lá, embevecido, admirando os filhos que não vou criar, tão independentes e espertos, comendo e rindo feito miniaturas de gente.

Levo-os para casa, ligo a tevê no Cartoon Network e eles ficam quietinhos, gargalhando hipnotizados por horas. Depois, é só fazê-los escovar os dentes e deitar.

Cansado, digo boa noite e já ia apagar a luz, quando Pedroca me pede:

— Conta uma história!

— Hum, papai é ruim pra contar histórias. Não tenho nem um livro aqui também, só tem livro de informática!

— Tio Beto sempre conta histórias... – ele diz, fazendo um muxoxo.

— Deixa pra lá, Pedrinho. Amanhã o tio conta!

— Tudo bem – eu digo, ofendido  – eu posso contar aquela do Joãozinho Feio e o pé de feijão ou da Bela Adormecida e a Fera.

— Não! – protestam os dois. — A gente tá careca de escutar estas!

— Sempre, sempre, começa “era uma vez”, aí a gente só fica esperando pelo “e viveram felizes para sempre” – diz Alê, revirando os olhinhos.

— É um saco!

Eu olho meu filho com a cara feia e ele ri, mostrando um dentão junto de outro muito menor e arredondado, que ele cobre meio envergonhado com a ponta do cobertor.

— Tá bom! Tá bom!
 

§§§


O que eu vou contar aconteceu há muito tempo, aconteceu há tanto tempo que a avó de Deus usava maria-chiquinha, um vestido curto com estampa de pato Donald e ainda brincava de amarelinha! Se Deus tem avó? Ué, claro que tinha, que pergunta! Então, tudo se passou há três universos atrás!

ZéRicardius, era um grande herói. Ele era...

— Careca! – exclama Pedrinho.

— Que nem o Edward do Crepúsculo! – completa  Alessandra.

Igualzinho ao Edward careca, e brilhava como se sua pele fosse coberta de diamantes. Ele já enfrentara os Milkshakianos numa batalha mortal, derrotara os Sarampianos e os Cataporenses com uma nave gigante que disparava vacinas, acabou com os Vegantarianos e seu exército de nabos assassinos!

— Eu odeio nabo!

— Ninguém normal gosta de nabo! – disse nosso herói, agitando a cabeleira negra.

— Mas...

Hunf! Certo dia, após o pôr do terceiro Sol e antes do nascer do quarto, ZéRicardius recebeu urgente uma mensagem trazida por...

— Um cavalo? Um robô?

— Um pombo-correio?

Um alado cavalo-robô do correio, todo azul e, ok, rosa também.

— O terrível Robertossaurus rex – começou a falar o cavalão -  aquele dragão amarelo e comprido, o maior larápio, hã, trapaceiro das galáxias, sequestrou, hã, levou embora a Princesa Nadialiça e os pequenos Petrus e Alexia.

Sem perder tempo, ZéRicardius pilotou sua nave para o covil do monstro; o planeta Dentisticus, um lugar horrível, cheio de dor e criaturas-brocas, furadoras de dentes!

— Robertossaurus? Que nome mais doido é este?

— Vai me deixar contar a história, Alê? Isto aconteceu há tanto tempo que estes nomes são apenas coincidências!

E esta incrível nave de nosso herói era enorme e, ok, minúscula também, Pedrinho, graças a avanços incríveis de informática. Tinha uns cinquenta quilômetros por dentro, mas por fora era do tamanho de um mosquito daqueles bem miudinhos.

Robertossaurus era um monstro, um feiticeiro poderoso e vivia num castelo de ouro. A Princesa Nadialícia revelou-se fraca e se deixou conquistar pelos encantos fáceis da criatura, perdendo seu coração. Mas ainda havia esperança com Potrus e Alexa! Eles não se venderiam assim.

ZéRicardius era valente e poderia acabar com o monstro mesmo com um braço amarrado e de olhos vendados, no entanto, a princesa, já dominada pela telepatia, hã, controle mental do dragão, invocou os poderosíssimos Juízes de Vara de Família, seres com poderes de alterar a realidade!

Receoso de causar algum mal aos pequenos, humilhado e muito triste, nosso herói voltou ao seu planeta natal, Computatus, onde viveu infeliz para sempre.


§§§


— Acabou! Podem dormir!

— Pai, você tá chorando?

— Não, Alê; imagina! É a lente de contato que tá irritando meu olho.

— Achei uma pocaria; a história não pode acabar assim! – reclamou Pedroca.

— Eu avisei que eu era ruim com histórias; agora você já pode dormir. Amanhã peça ao Tio Roberto que ele contará uma muito melhor.

Não, não! Hã, tudo tinha sido um faz-de-conta, criado pelos Juízes Vardefamília. ZéRicardius descobriu que Robertosauro não era mau de verdade. Ele era meio chato e fazia Alessandra e Pedro escovarem os dentes toda hora, mas era legal também. A princesa Nádia não ficou com raiva do Zé; ela gostava dele; até falava bem dele, “Comam o peixe todo, crianças. Comam pra serem inteligentes que nem o papai”.

Foi aí que o Zé, careca-cabeludo, resolveu fazer as pazes com o dagão. Pedrus e Alezia podia visitar ele sempre que eles tinham vontade.

E podia até ser melhor do que antes! Agora eles saíam mais, iam no cinema, no parque, conversavam mais.

E aí eles viveram feliz pra sempre!

Eu observo Alê rindo, já sei de onde esta guria puxou tanta esperteza! Olho a cara de moleque traquinas do Pedroca, que de alguma forma sacou tudo também, e abraço os dois; um abraço de família.

— Hum, mudei de ideia! Juntem os travesseiros e os cobertores! Vamos lá pro meu quarto que eu vou fazer pipoca com calda de chocolate no microondas. Hoje vocês merecem ver desenho até mais tarde!

— Mas, pai, a gente já escovou os dentes!

Se as crianças não fossem tão pequenas, falaria um palavrão, mas não quero que aprendam e repitam depois quando voltarem.

— Decreto que aqui em casa, a partir de hoje, por ordem do magnânimo ZéRicardius, está terminantemente proibido se escovar os dentes, usar fio dental ou até bochechar!

E então aquela noite se esvai, rápida como um sonho bom.

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