Total de visualizações de página

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Paralelos


Motel Xanax, Avenida das Papoulas 1,12358 * 10^7, quarto BB-101: a Suíte Encarnada.


Chove lá fora, mas não é água o que o céu despeja. Algo espesso, translúcido e esverdeado, feito muco ou cola, cai em gotas geminadas como uvas em cachos, tamborilando pesado no telhado, escorrendo gelatinosamente pelo vidro muito sujo da janela, rebentando então de forma estrondosa na calçada do entorno. No interior da suíte, fazendo jus ao nome do cômodo, mesmo a água da banheira de hidromassagem borbulha na cor de refresco artificial de morango, iluminada por leds espalhados no fundo da banheira. As rosas artificiais e aveludadas, enfiadas numa cornucópia de vidro soprado, a cômoda laqueada, a colcha de pelúcia na cama redonda, o abajur de franjas; absolutamente tudo é de um vermelho-carne muito vivo.

Sentado à beira da cama, um jovem macérrimo e seminu, impossivelmente magro mesmo; esquelético, sim, talvez fosse este o adjetivo mais adequado. O tal careca tísico e de olhos saltados faz companhia a uma mulher grávida muito bonita. A beldade é jovem e tem um olho de cada tom – mel e verde furta-cor –, lábios como os de Angelina Jolie, cabelos escuros curtos e arrepiados, tez pálida e a orelha esquerda ligeiramente mais caída do que a outra. Ah, sim; há um corpo esquartejado e sem lábios no chão acarpetado, e a gestante tem pontos brilhantes muito bem cosidos, secos e prontos para serem removidos ao redor do pescoço. Já os pontos ao redor de seus lábios carnudos que sangram; estes estão seguramente mais frescos.

— Pô, aperta isso direito. Nem tô sentindo nada... – Ela reclama.

— Chime, meu docinho, se você se concentrasse um pouco que fosse sequer – ele diz, puxando com força a agulha curva com uma pinça e dando um nó agilmente, logrando finalmente arrancar um esgar de dor e prazer da amante. — Se ao menos parasse de roer esta droga de polegar de defunto e ficasse sem se mexer por uns segundos...

A tevê-bolha está ligada e há mais umas daquelas propagandas cíclicas da Parallax Turismo Inc. “Por que viver uma vida somente? Parallax: onde seus sonhos de viagem o aguardam em outras realidades”. Imagens de insetos gigantes do período Carbonífero, de dragões emplumados, de gente virada em fluidos e se misturando numa espécie de coito infinitamente íntimo, de mundos de fogo congelado, faíscam efêmeras pela membrana-tela.

— Hum, até que o velho Xanax continua mais ou menos igual, né? – Ela diz, olhando ao redor. — Acho romântica esta suíte brega – ela se recorda que foi ali, há sete anos, que eles transaram pela primeira vez. Chime já estava grávida então. Ela já não se recorda direito dos tempos de quando não esteve.

— Eu já acho que o motel agora tá meio caído. Na época tinha sangria de cortesia e lampreias na banheira, lembra? Ah, quem nunca ganhou um boquete de lampreia não sabe...

— Quieto! Pera aí, Ossos. O bebê; ele quer me contar alguma coisa.

— Ah, não, aí vem merda, merda...

A mulher ergue o vestidinho largo e florido de gestante, desnudando a barriga branca cheia de veias azuis e os seios pequenos e firmes que, em contraste, são da cor de chocolate amargo. Ela não veste peça alguma sob a roupa simples. Mãozinhas espalmam a carne pelo lado de dentro do abdome inchado e ela as toca com as pontas frias de seus dedos.

— O Camaleão – ela diz, aflita, depois de alguns segundos. — Ele nos localizou outra vez e vem com tudo: já cercou o motel. Aliás, já fechou mesmo todas as ruas ao redor com sua milícia. A presciência do bebê prevê que seremos capturados, com precisão na casa de 98% dos cenários possíveis.

— Não, não seremos presos tão fácil assim! Ao menos levarei uns vinte ou trinta deles comigo. Quando que isso vai acontecer?

— Calma, o bebê, ele traçou uma possível janela de fuga através de um atalho dimensional que ele tá tentando construir. Hã? Como?! Uma historinha em troca da fuga, meu amor?! Mas... Hum, quanto tempo eu tenho? Trezentos e oitenta e sete segundos? Tem que ser nova e com final irônico? Ai, ai, tá bom, tá bom!

Ossos protestaria, mas o bebê já os salvara várias vezes naqueles anos de fuga; era melhor não contrariá-lo. A gestante pensa um pouco e começa.

“Era uma vez um cercado bem grande de madeira branquinha, lá na montanha, com grama tenra e molhada de orvalho, muito boa de comer. Onde até anteontem viviam cinquenta e duas ovelhas e carneiros, que até ontem abrigava cinquenta e um e onde hoje há cinquenta destes bichinhos de pelo fofo como algodão.

Ora, um lobo chamado Kapital andava atacando as pobrezinhas à noite e todos os dias levava alguém, o malvado! Um carneiro mais inteligente e de nome... Hum, Lênin Prestes Trótski, discursou então aos companheiros:

— Camaradas, não podemos permitir a nossa opressão pelo Kapital. É certo que ele é mais forte que uma ovelha, que tem dentes e é feroz, entretanto nós somos muitos. Nós temos cascos, temos chifres, lã grossa que nos protege à pele. Hoje à noite, quando ele aparecer, nós os desafiaremos e o enfrentaremos. E se ele ousar ir contra nós, contra o povo unido, ai do pobre tolo!

Todas as ovelhinhas e carneirinhos anuíram e baliram muito contentes. Seria então o fim do reinado de terror daquele pulguento e o princípio de uma nova era do Comovelhismo!

A noite logo chegou e a lua cheia deixava o campo todo prateado, quando o lobo, um animal robusto e bem-alimentado, vestido com fraque e cartola, de olhos amarelos e de pelo denso e escovado, saltou para dentro do curral e uivou.

Prontamente todas as ovelhas juntaram-se no canto oposto. Lênin tomou a frente e gritou mais palavras de ordem.

— Pelo povo unido! Avante, provelhariado! – Ele bramiu, e todos os pacíficos bichinhos marcharam, pisando forte os cascos, balançando as cabeças e dando chifradas no ar.

Apesar da surpresa, o lobo não se assustou. Arrepiou o pelo, arreganhou os dentes e rosnou e babou, mas o exército ovino continuou, e o lobo esticou-se nas patas, nas pontas das garras, para parecer mais alto e ameaçador, porém nossas amiguinhas seguiram, confiantes, balindo “Pelo povo unido-o-o-o-o”.

Quando estavam a menos de três metros do lobo Kapital, Lênin conseguiu finalmente ver o medo estampado nos olhos dele; aquela criatura nefasta – algo que quer dizer muito, muito malvada - não podia mesmo com todas elas.

Sem pensar duas vezes, Lênin abaixou a cabeça e investiu contra o lobo indefeso, enquanto o chão tremia com a sincronia do trovejar dos cascos.”

— Hã? Qual a ironia desta porcaria de história com final feliz? Ora, mas eu não acabei!

“Lênin deu uma cabeçada no lobo, e caiu de lado, meio tonto. Ao virar-se, nosso corajoso amigo descobriu-se sozinho; todo o seu exército havia batido em retirada, fora este o som de cascos que ele escutara, quando todos os demais fugiram e o sacrificaram, talvez comprados por agentes infiltrados do Kapital.

Já antecipando o cerrar dos dentes em sua garganta, o pobre Lênin fechou os olhos e morreu até conformado; por preferir não ter que viver com a vergonha da traição dos seus falsos e covardes amigos, e para não ver destruído o seu sonho de uma sociedade mais justa e igualitária“.

Um gargalhar borbulhante meio afogado de líquido amniótico, naquela vozinha fina de bebê, se escuta por todo o quarto. Chime toca as mãozinhas outra vez e fala:

— Ossos, você terá que dar conta de três Não-Lineares cabeça-de-ponte, enquanto o bebê prepara algo. Você tem vinte e seis segundos antes que eles arrombem a porta.

O homem magro afasta-se, despe a camisa de malha e a cueca, fecha os olhos e os punhos, concentrado. Por todo o corpo, a pele parece rachar e depois se abrir, em valas profundas de carne, expondo o branco dos ossos que afloram rapidamente. O crânio logo se sobrepõe à carne do rosto que afunda pelas órbitas e outros orifícios, as costelas saltam, fragmentos pontiagudos começam a crescer sobre os ombros, nos cotovelos, joelhos, mãos e pés. Logo um corpo invertido - osso forte por fora, carne mole e frágil por dentro -, toma posição de ataque, ao lado da porta que então voa pelos ares.

Agachada sobre a cama, Chime geme e “dá a luz” a algo bizarro e pequeno como uma bola de bilhar. Parece um tumor de carne e gordura, com algum cabelo, um olho e um dente. Há milhares de cílios esbranquiçados e molhados ao redor da coisa.

Três homens de terno e chapéus de feltro entram no quarto caminhando de costas desde o corredor. Balas ricocheteiam pelas paredes e entram nos canos fumegantes de seus revólveres.

!es-meugertnE — Eles dizem ao mesmo tempo.

Com um rápido girar do corpo, Ossos atravessa as costas do primeiro com seus punhos, derruba os outros dois e ajoelha-se e perfura seus tórax seguidamente. Mais balas saem a esmo das paredes do quarto rubro e voltam aos seus canos, desenhando rastros de fumaça invertidos.

!gnaB – reverbera o ruído seco por todo o cômodo.

— Rápido! O bebê conseguiu criar um portal temporário no fundo da banheira. Vá na frente, Ossos! Só preciso preparar o presente do Camaleão.

Sem mais pensar, o homem-esqueleto salta e desaparece nas águas vermelhas. Chime beija de leve a coisa que o bebê preparou e isso faz com que todos os filamentos – nervos – se arrepiem feito espinhos muito finos e compridos. Agilmente ela pula e encontra Ossos no outro lado, segundos antes do portal desabar sob si mesmo. Perto dali, um luminoso verde, típico das lojas da Parallax Turismo, brilha na esquina da rua lambuzada pela chuva recente.

— Isso também fazia parte do plano, Chime? Outra, outra e mais outra vez? – Ele reclama.

No motel, centenas de Não-Lineares invasores se surpreendem ao ter seus sistemas nervosos conectados como num organismo só, ligados aos tais filamentos quase invisíveis; presos feito insetos numa teia. Quando a coisa finalmente decide que chegou o momento correto, explode em dor; pura e insana dor, de uma intensidade indescritível, obliterante. O grito de morte dos agentes do Camaleão pode ser escutado do outro lado da cidade. Poderia ter sido escutado em outro continente, se não houvessem todos rompido as cordas vocais.

***
Rio de Janeiro, Ilha Nova Barra da Tijuca VII, 31 de Outubro de 2296.

Folheando um memocristal carregado com milhões de fotos, Roberta suspirou ante a perspectiva de novas férias sem graça. Tailândia, Mongólia, Antártida, Tanzânia, Groenlândia? Lapônia, Mykonos, Galápagos, Atacama... Conhecia de cor cada canto do planeta, já provara mais de uma vez de todo tipo de comida e bebida concebível, já dançara ao ritmo de pandeiros esquimós, de flautas de ossos dos Massai, dos tambores de metal guianenses. Participara de safaris, de ritos secretos indígenas embalados por ayahuasca e veneno de dendrobata.  Já comprara tudo o que pareceu exótico ou raro ou especial. De lenços de seda de aranhas a peles de quimeras albinas. Depois de tantas viagens, o mundo lhe parecia somente uma interminável e requentada reprise de tudo o que vira ou podia imaginar. O tédio, afinal, parecia o destino certo de todos os quase-imortais, em especial para os congelados em corpos de dez anos feito ela.

Claro, havia a possiblidade de se ir a Titã, de se navegar pelos mares de hidrocarbonetos nas costas muito recortadas de Xanadu, explorar as cavernas de parafina e os gêiseres de alcatrão, de se ir a Marte, escalar o Olympus Mons, praticamente se expondo ao vácuo a mais de vinte e sete mil metros de altitude, ou de descer às profundezas nevoentas e cheias de afloramentos de gelo seco do Valles Marineris. Mas tudo isso custava muito, tomava também muito tempo. Esquiar na lua Europa observando Io relampejando, jorrando lava no espaço e Júpiter tomando oitenta por cento do firmamento? Infelizmente tais opções estavam além do seu modesto orçamento de funcionária pública.

O daschund-robô de estimação entrou em seu quarto pela portinhola destinada à sua passagem. Seu pai, um sósia perfeito de Douglas Fairbanks após várias cineplásticas, requisitava sua presença para o jantar.

— Mas tem que ser agora, Totó?

— Você sabe como o Mestre Douglas é, Bebeta – disse a máquina, com entonação humanamente natural.

— Você senta do meu lado? Ele é tão chato com estes jantares... Vai querer falar de política, talvez...

— Claro, meu docinho, tudo o que lhe fizer feliz. – Um sorriso se desenhou em luzes vermelhas no focinho de titânio, enquanto a cauda fina se agitava alegremente. O cão era mais que um amigo fiel; a I.A. avançada fazia dele um conselheiro confiável e o software de personalidade o tornava adorável e protetor.

Pouco depois, já sentada à mesa de jantar, enquanto servo-robôs traziam bandejas fumegantes da cozinha, lamentou-se com o pai:

— Estou tão desanimada... Amanhã começam minhas férias e já vi que vamos acabar visitando as pirâmides do Egito pela terceira vez ou indo às festas do Día de los Muertos no México, pela quinta vez. Não foram estas as suas sugestões? Ou o senhor ainda pensa naquele cruzeiro até a foz do Amazonas? Feito fizemos em 93 e 72?

O senhor Douglas, um homem bronzeado, eternamente conservado em seus trinta e poucos anos, respondeu jovial:

— Nada disso, Bebeta; há uma novidade no mercado agora – ele comentou, soprando displicentemente a sopa na colher. — Uma ótima franchising de turismo criada nos Estados Unidos da Coreia, que abriu escritório aqui no Rio.

— Hum, é de turismo virtual? Não, obrigada! Não quero ficar conectada a coisa alguma e nem tomar drogas de imersão só porque é barato.

— Não, filha. Turismo interdimensional. É razoavelmente econômico e é pra valer: em carne e osso ou o que seja equivalente em mundos paralelos. Olha só este folheto de R.A.

A menina sacou os óculos de Realidade Aumentada do bolso da blusa e o folheto da Paralaxe S/A desdobrou-se em animações tridimensionais e multissensoriais. O cheiro e a umidade do borrifo de uma onda colossal, coalhada de surfistas, conduzida pela gravidade de uma Lua próxima demais duma Terra alternativa, o canto triste do mergulho suicida de um hipogrifo de antimatéria num quasar, flores que falam uma linguagem odorífica-musical num mundo-jardim: tudo era fascinante e novo, sopro de brisa fresca naquele mundo enfadonho do “vale-a-pena-ver-de-novo”.

— Paralaxe vem do Grego: παραλλαγή, que significa alteração. É a alteração da posição angular de dois pontos estacionários relativos um ao outro como vistos por um observador em movimento. De forma simples, paralaxe é a alteração aparente de um objeto contra um fundo devido ao movimento do observador – recitou o cão. — É um bom nome, visto que também deva ser um trocadilho sobre os universos paralelos com que a empresa trabalha.

— Me parece ótimo, pai. Quando podemos ir?

— Amanhã pela manhã. Já marquei um horário, pois tinha certeza que você iria gostar – ele completou, servindo-se gulosamente de cuscuz marroquino com tâmaras e de costeletas de carneiro.

***

Avenida Ópio, número √-x dx, escritório da Parallax Turismo Inc.


            — Como ousam? – O Cameleão, um homem vestido de verde-metálico, digo, uma menina loura em tutu rosa, digo, uma preguiça-gigante com chapéu panamá e um colar de flores havaiano, hã, isso tudo ao mesmo tempo e mais um tanto, ergue-se da cadeira, indignado, ao ver Ossos e Chime adentrando a porta sem maior cerimônia, distribuindo golpes de kung-fu nos funcionários que os abordam.

            — Cansamos, Camaleão, meu bem. Estou até aqui – a gestante passa a mão uns vinte centímetros por sobre a cabeça – de viver fugindo dos seus capangas.

            — Suponho então que vieram se entregar e pagar sua dívida? – Três ou quatro criaturas diferentes aparecem e desparecem, exibindo expressões esperançosas nos muitos olhos distintos.

            — Ahã – diz Ossos – depois de praticamente exterminar todo o seu exército, entramos aqui armados até os dentes para nos render e pagar nossa dívida. Vai sonhando!

            — Mas, mas, então...

            — Abra o portal agora, seu verme capitalista ou... – Chime saca dos bolsos do vestido uma massa amorfa e vibrante de neurônios, recém-montada pelo bebê. — Ou enfiarei isto no seu ouvido e sua mente ficará tão fragmentada e torturada que você será incapaz de um pensamento coerente sequer nos próximos mil anos. Tô de saco cheio desta realidade.

            Três Não-Lineares materializam-se no lado de fora da loja, porém o Camaleão faz um gesto e eles se afastam caminhando lentamente e para frente, como pessoas comuns. Chime ri ao pensar que eles na verdade caminham de costas.

            — Tudo bem. Tudo certo. Não sejamos precipitados ou desnecessariamente violentos. Para onde vocês querem ir?

            A grávida toca a barriga por dentro do vestido, folheia e aponta a seguir para uma página dum catálogo R.A.

            — Aqui. Passaremos férias merecidas e longe de vocês na Terra Média. O bebê será Smaug, eu serei Frodo Bolseiro e Ossos, Samwise Gamgee.

            — Docinho! – Protesta Ossos.

            — Ô, deixa de besteira! Afinal, aqueles dois se amavam de verdade! Fora que Aragorn e Arwen eram um casal muito sem sal... Ou você prefere ser o Tom Bombadil? Cantando aquelas musiquinhas irritantes? – Ameaça ela.

***

Torre Rio Sul III, Aterro da Baía de Guanabara, 567° andar, Paralaxe S/A.


O escritório daquela empresa de turismo beirava o mau gosto de tão acintosamente luxuoso. Rococó e exagerado como o interior de um transatlântico ou dum cassino de Las Vegas: paredes acarpetadas com motivos orientais, em tons de vermelho e dourado, candelabros, lustres de cristal, cortinas pesadas de tecido aveludado, projeções multissensoriais por toda parte. Se a intenção fosse impressionar, dera certo: todos estavam muito impressionados.

— Bom dia, sou Carlos Camilo, seu piloto-gerente. Sejam bem-vindos! – Apresentou-se um homem sorridente que trajava um paletó salmão, que aos poucos se tornava roxo e depois azul. — Vocês aceitam café, água, refrigerante, champanha? Um bombom, talvez?

— Não, obrigado! Bom dia. Como o senhor sabe, meu nome é Douglas Fairbanks. Esta lindinha é a Roberta e o pequeno é sua mascote, Totó. Gostaríamos de conhecer detalhadamente os serviços de viagens da sua empresa.

O homem se espreguiçou, talvez meio cansado; certamente repetia a mesma ladainha várias vezes por dia.

— Bom, seria complicado e maçante realmente pormenorizar como tudo funciona, mas colocarei de forma simples: há uns cem anos confirmou-se a existência de infinitas realidades previstas somente em teorias; universos independentes, com suas próprias leis e lógicas, espalhados pelo tecido do continuum espaço-tempo. Como falamos dum número infinito, podemos afirmar que existem, portanto, realidades específicas para qualquer loucura bizarra imaginável e mais além. Nossa empresa mapeia e localiza tais universos, abre uma ponte até tal realidade, onde vocês ocuparão alguma contraparte local para passarem suas férias. Note bem: isto é absolutamente necessário, não podemos garantir o equilíbrio do multiverso ou a saúde de nossos viajantes salvo utilizando tal recurso. Afinal, podemos ser densos demais num lugar, rarefeitos em demasia em outros. O que é matéria aqui pode ser antimatéria acolá e assim por diante.

— Saquei – disse Roberta. — Então podemos viajar para qualquer tipo de realidade que imaginemos?

— Sim, sim, mesmo algumas aparentemente impossíveis e absolutamente delirantes. Até hoje todos os nossos clientes ficaram sempre muito satisfeitos. Por exemplo, houve certa senhora cujo sonho de infância era conhecer o Mundo de Oz e nós o encontramos: com tornado, homem de lata, leão, espantalho e estrada de tijolos dourados. Na verdade, tivemos que escolher um dos também infinitamente variantes Mundos de Oz. Houve um grupo de rapazes que queria ir ao Mundo dos Homens Raros, uma espécie de realidade onde lindas mulheres selvagens disputam seus escravos sexuais usando espadas e escudos. Alguns matemáticos viajaram para o Universo Fractal, outros para o Topológico, onde o idioma é falado sob a forma de equações complicadíssimas. Como disse, digam-me o que anseiam e ficaremos felizes em satisfazê-los. E o melhor: tudo isso por um preço justo e em até trezentas e sessenta vezes sem juros. Não é incrível?

— No caminho pra cá pensei numa versão do Paraíso – disse Douglas. — Um mundo-jardim cheio de flores e árvores frutíferas, jamais frio ou quente em demasia, com animais todos mansos, pastando lado a lado. Leões e zebras. Lobos e carneiros. Rios de leite e mel, anjos. Sabe como é? Coberto de relva macia, cheio de lagos cristalinos...

— Ah, sim. Como a realidade ZOX-9898331-B. É muito visitada por religiosos e anciões que não optaram pela quase-imortalidade.

Roberta e Totó protestaram imediatamente. Que graça havia em passar férias num lugar assim?
— Queremos aventura! Perigos de verdade, gângsteres! Feito uma Chicago nos tempos da Lei Seca. Ou, quem sabe, espiões aliados infiltrados na Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra!

— Ora, temos até policiais-espiões-mafiosos durante a vigência da Lei Seca em certa...  Chicagostein na Segunda Guerra. Realidade UHJ-7667841-W, se não me engano – complementou o senhor Camilo.

Douglas suspirou, ligeiramente decepcionado, contudo conformou-se; fazer a filha feliz significava paz e, em última instância, sua felicidade também.

— Sim, podemos então viajar para alguma realidade assim.

— Os senhores então podem escolher a partir deste catálogo específico, enquanto eu trago os contratos. Há somente duas regras importantes a se seguir: (1) Não comentam crimes em outras realidades ou terão que pagar por seus erros. Nossos colegas de nossos outros escritórios além-realidade terão prazer em orientá-los sobre as leis locais, contudo também não hesitarão em denunciá-los às autoridades em caso de abuso. (2) Após o fim do período contratado, vocês terão até doze horas para se apresentarem ao escritório regional, para que retornem ao nosso mundo. Se excederem o prazo contratado, serão cobrados juros e mora, conforme especificado no parágrafo sete, página três.

***


Narrenstraße 7 - Chicagostein, Norte da Alemanha, 1940, Escritório da Parallaxe AG.

Eliot “Roberta” Deutschmann, Heinz “Totó” Capone e Hans “Douglas” Malone apresentaram-se no escritório, pontualmente, ao fim do período contratado. Karl Chamäleon, o piloto-gerente local, respirou aliviado. No mês passado tivera problemas terríveis com um casal que viajou para além da divisa russo-mexicana e teve que acionar os implacáveis e dispendiosos cossaco-mariachis, para seu profundo desgosto. Qual não foi a sua surpresa quando os três clientes sacaram submetralhadoras “latas-de-goiabada” dos sobretudos diante de seu rosto incrédulo.

            — Perdoe-nos a grosseria, mas gostamos muitíssimo desta aventura, senhor gerente. Não queremos voltar, nunca mais, pra aquela existência xexelenta onde vegetávamos antes – disse Eliot. — Na verdade, queremos mais! Muito mais, para sempre! Porém, como não podemos pagar...

            — Ora, mas isso não vai ficar assim! O que vocês estão pensando? Eu chamarei o FBI e a SS agora mesmo! Vão caçar vocês aonde quer que...

Heinz, de longe o mais entusiasmado, provavelmente devido à sua inédita condição orgânica, disparou uma saraivada de tiros que quase cortou o pobre burocrata ao meio.

— Totó, seu louco! Por que você fez isso? Como vamos operar o portal agora? – Reprovou Malone.

— A gente dá um jeito, pra tudo se pode dar um jeito! Agora, mais do que nunca, precisamos fugir!

Revirando uma gaveta e encontrando um catálogo cheio de códigos, Eliot perguntou aos outros:

— O que raios é new weird? Opa, olha só estas fotos: esta doideira me pareceu bem legal!

***

Terra Média, Mordor.


Enquanto observa o brilho ainda distante da Montanha da Perdição, Sam não pode deixar de conversar em particular com Frodo, aproveitando-se que o dragão Smaug, vestido com sua armadura de escamas de ouro, voa sobre suas cabeças derrubando os Nazgûl de suas montarias aladas.

            — O que está achando desta aventura, meu do... Senhor Frodo?

            — Incrível. Nunca pensei que fosse assim. Em pensar que papai originalmente queria nos levar pra passear na porcaria do Éden! Que falta de imaginação! Mas não posso reclamar... Afinal, ele foi impecável nos serviços quando foi o bebê.

            Ambos riem, até que a espada Ferroada começa a cintilar num tom fraco de azul.

            — Mais orcs, mais! Sabe, Sam? Tô começando a me cansar um pouco e pensar em algo novo, quase que o tempo todo... Por acaso você saberia como é “Paralaxe” na língua de Mordor? Aposto que a loja fica aqui perto.

            — Não sei não, pergunte ao Legolas no epílogo da história, pois sei que a escrita é derivada do élfico clássico. Nossa! Abaixe-se, meu docinho. O olho de Kamasauron está virando-se nesta direção agora.

            Eles se agacham e se escondem sob uma pedra grande enquanto o facho de luz vermelha da torre de Barad-dûr cruza a escuridão. Os dois aproveitam o momento de intimidade e trocam um beijo que faria Tolkien revirar-se no caixão.