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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Palimpsesto

A ignorância pode ser preferível à loucura. A quem, afinal, realmente interessa a tal superestimada verdade?


Palimpsesto

(por Yazar Dupin Marple a.k.a. Dr. Sherlock Moriarty)



Capítulo I - Carnificina
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São José do Monte Acima, comunidade de quarenta mil habitantes, era pouco conhecida; verdadeira cidadezinha perdida nalgum lugar próximo às margens da Rodovia Presidente Dutra, no estado do Rio de Janeiro, mas por pouco já quase despencando em Minas ou São Paulo.

Praticamente toda cidade da região era famosa por alguma característica de destaque; pela produção de pinhão e de queijos, pelos festivais dos migrantes alemães e finlandeses, pelo ótimo clima ou hotéis-fazendas e fontes hidrotermais. No entanto, São José do Monte Acima não era popular por nada em especial, exceto por uma mácula em sua história recente de comunidade pacata; a chacina da família Mendes Martins.

Violência era coisa que em São José só se conhecia através da tevê, dos jornais da capital ou programas sensacionalistas do rádio. Certamente na delegacia local se registrava um ou outro caso de agressão, roubo de roupas, botijão de gás ou galinhas, bebedeira ou coisa do tipo, mas o município, caracterizado por ruas estreitas de paralelepípedos e casario colonial branco e de janelas azuis, costumava ser uma ilha de tranquilidade até então.

Numa noite fria de Junho, a ascendente família Mendes Martins, proprietária da lucrativa rede de supermercados Komprabem, jantava e comemorava o aniversário do seu primogênito; Maurício Alexandre, que completava vinte e dois. Xandão, como era chamado pelos amigos, herdara a lourice da mãe e era célebre pelo porte atlético, pela beleza talhada fanaticamente em academias e por desfilar em picapes de visual incrementado, invariavelmente com chapéu de caubói e com o som nas alturas. A fama de Don Juan, levando-se em conta que o moço namorava simultaneamente três garotas que sabiam e toleravam as concorrentes, não era de forma alguma imerecida. Era também sabido por alguns poucos que a polícia abafara uns dez flagrantes de posse de entorpecente, que jamais, jamais sujaram a ficha do bom rapaz bem-nascido, sonho de consumo das moças casadoiras e arroz-de-festa dos bailes estudantis.

Dona Maria do Carmo Mendes Martins, a matriarca, fora eleita a Rainha da Beleza Monteacimense em 1983, quando então emprestara o seu rosto emoldurado por cachos louros a embalagens de sabonete e talco. Superexigente, raramente mantinha os empregados por mais que alguns meses. “São todos uns inúteis, toscos, ignorantes, preguiçosos”, justificava-se. Gostava de usar luvas brancas e correr os dedos sobre a superfície dos móveis caros, de descontar do salário pratos ou copos quebrados, de gritar frases com seu mal disfarçado sotaque caipira ou em seu péssimo francês e, principalmente, humilhar, em especial quando na frente de visitas importantes. “É preciso mostrar a esta gente quem manda e qual é o seu lugar”. Não era preconceituosa, afirmava às amigas, era apenas higiênica.

Fernando Dutra Martins, o pai, era um senhor bem apessoado, de barba e bigode meio grisalhos e bem aparados, beirando os cinquenta anos. Os amigos relataram que ele gostava de fumar havanas, beber licor de cachaça e conversar sobre política e criação de gado. Mantinha em segredo um galpão de rinha de galos em Porto Real, tinha uma amante em Resende e com esta, dois filhos bastardos que ele nunca registrou em cartório. Confirmou-se depois que sua amante pensava que ele se chamava Olavo Guimarães e que ele seria representante comercial de uma fábrica de autopeças. De comerciante inicialmente modesto, logrou alavancar seus negócios através de amizades e alianças políticas, isso apesar dum escândalo nunca bem explicado sobre a venda de produtos superfaturados à Prefeitura, para a confecção da péssima merenda escolar oferecida nas escolas municipais da região. Ágil e escorregadio como peixe ensaboado, saiu incólume do imbróglio e continuava como fornecedor exclusivo do município e de outros próximos através de laranjas de laranjas de laranjas.

Por fim, a última vítima do massacre, Neide Aparecida dos Santos Almeida, empregada doméstica, excelente cozinheira, moça bonita, parda, de dezenove anos, que a autópsia revelou estar grávida – supostamente do garanhão Maurício Alexandre, conforme confessou em depoimento um primo do rapaz que soube do relacionamento secreto dos dois. Os familiares da garota revelaram que Neide tinha o secundário incompleto e que sonhava em fazer novelas na capital. Fazia seis meses que trabalhava para os Mendes Martins e constantemente reclamava de maus tratos e exigências absurdas da família. Não raro tinha que trabalhar até mais tarde ou nos fins-de-semana, quando havia alguma festa. Segredou à irmã que chegou a pensar mais de uma vez em colocar veneno de rato no chá que a patroa fazia questão de beber pontualmente e com toda pompa e circunstância às cinco da tarde todos os dias. No dia fatídico, comprara uma caixa de raticida num armazém próximo a sua casa. A nota fiscal e o produto foram encontrados em sua bolsa, assim como uma caixa de remédio para úlcera de estômago, de efeito reconhecidamente abortivo.

A polícia chegou ao casarão dos Mendes Martins precisamente a zero hora e trinta e sete, segundo o Boletim de Ocorrência. Foram chamados pelos vizinhos, alertados por gritos ensandecidos, palavras desconexas e pelo ladrar incessante dos cães. Tocaram initerruptamente a campainha e depois bateram forte no portão, sem serem atendidos. Como todas as portas e janelas encontravam-se fechadas por dentro, a bela porta principal, talhada com capricho em jacarandá-da-bahia, teve que ser arrombada.

O rechonchudo inspetor Heitor Magalhães, velha raposa, quarenta e poucos anos, acostumado a trabalhar quando moço em delegacias da perigosa Baixada Fluminense ainda na época dos grupos de extermínio, que costumava dizer que já tinha visto de tudo, arregalou os olhos em choque, ajoelhou-se e vomitou copiosamente diante da cena do crime. Numa entrevista privada posterior, confessou ter se esforçado para não desmaiar ou covardemente fugir para longe dali.

A sala cheirava como um abatedouro. Todos os corpos jaziam seminus, retorcidos, destroçados e empilhados sobre o enorme tapete persa que enfeitava a elegante sala de música ao lado da de jantar, formando uma espécie de escultura grotesca. As roupas, rasgadas como por um animal selvagem, estavam espalhadas em trapos ensanguentados pelo bonito piso de faia.

Maurício foi eviscerado, havia um rombo – sim, foi essa a exata expressão que Heitor usou; um rombo enorme -, em sua barriga achatada, suja de sangue, fezes e bile. Adicionalmente, seus genitais foram cortados; arrancados num naco de carne só, que destampou todo o púbis, explicitando desta forma a bexiga e o branco osso da bacia.

Neide Aparecida fora degolada grosseiramente, talvez com algum instrumento mal afiado feito uma faca de cortar pão ou um serrote desdentado, dado o aspecto estraçalhado do corte. Sua cabeça foi encontrada dentro da cavidade aberta na barriga do rapaz; unidos num grau de intimidade que eles nunca experimentaram em vida.

Já os genitais desaparecidos foram forçados, garganta abaixo, da senhora Maria do Carmo, que aparentemente morreu sufocada, entalada com as inquietas partes pudentes do filho. As unhas bem tratadas da senhora estavam todas quebradas, assim muito a maioria de seus dedos, virados para trás em ângulos desconcertantes. Um talho que ia de sua nuca até o cóccix permitia a visualização da coluna vertebral, que por alguma razão tentaram arrancar ou deslocar do lugar. Havia uma seta desenhada com o sangue da poça que se formara, apontando para a biblioteca.

O senhor Fernando tivera a perna direita seccionada na altura da coxa e, o fêmur foi exposto e descarnado, afiado como uma imprecisa lâmina de marfim. Inacreditavelmente, utilizaram o membro como se fosse lança em inúmeras perfurações no abdômen e, finalmente, sua perna foi plantada em seu peito; um mastro de bandeira, transpassando o coração.

Grandes felinos, feito tigres ou leões, podem causar enormes mutilações em corpos humanos, mas não brincariam tão macabramente com estes, feito se observou. Talvez um grupo de homens muito fortes, todos mentalmente instáveis, verdadeiros sádicos, loucos furiosos, munidos de facões e porretes, poderia causar tamanho estrago.

No entanto, a ausência de impressões digitais de estranhos à família e seus empregados, o fato de todas as portas e janelas estarem trancadas por dentro, e a não observância da subtração de joias ou dinheiro, tudo apontava para algum misterioso crime de vingança, assassinato por encomenda talvez, executado com imensa crueldade e profissionalismo.



∞∞∞



Capítulo II – Quebra-cabeça

1,1,2,3,5,8,13

Três dias após o acontecido na propriedade dos Mendes Martins, Matias Albuquerque, pacato proprietário de uma papelaria; um homem pequeno, mulato, beirando os sessenta, com cabelos grisalhos escovados para trás e óculos espessos, adentrou a antessala da delegacia de São José. Eram nove da manhã, mas o movimento de gente entrando e saindo, o ruído de telefones tocando ininterruptamente, de vozes gritadas, dava a entender que algo muito sério se passava ali.

O homenzinho apertou a dentadura e a deslocou para frente e para trás, fazendo um estalido com a língua, cacoete que adquirira com o tempo, que fazia toda vez que se punha nervoso. Heitor Magalhães logo surgiu e o convidou para se sentar numa saleta bem distante daquela balbúrdia.

— Obrigado por ter vindo tão rápido, Matias! Te devo esta, irmão; pra toda a vida! – Heitor tinha os olhos sinceramente marejados, perdidos numa escuridão de olheiras. Tinha o cabelo empastado e a voz rouca. Seu hálito rescendia a um misto desagradável de noites insones, nicotina e café velho.

— Que isso! Vamos, me conta lá o que vocês acharam, pra ver se eu posso ajudar mesmo – respondeu afável.

— Sei que nem preciso te dizer, meu velho; mas fica longe da imprensa. A última coisa que eu iria querer é que eles saibam que eu chamei um sensitivo pra me ajudar. Não conta nem pra tua mulher!

— Da minha boca ninguém vai saber de nada. Ainda te devo aquele lance do sequestro do meu filho em Sampa; amigos são pra isso. Me conta, Heitor.

O inspetor tirou um bloco cheio de garranchos do bolso.

— Você já deve estar à parte de quase tudo o que foi publicado, não? Deixa eu contar o que não vazou ainda, as mil pistas sem sentido... Vejamos a lista: junto do corpo da senhora havia uma longa, longa seta desenhada em sangue. Aparentemente, feita com o decepado dedo indicador dela que, a propósito, sumiu. A seta dá direto na estante, talvez nos livros “O Falcão Maltês” e “A ratoeira e outras histórias” na 3ª prateleira, ou numa versão ilustrada do Alcorão ao lado destes primeiros, ou nos volumes do Mahabharata na 1ª prateleira, ou ainda numa caixa com uma coleção de escaravelhos secos e envernizados na 2ª. Está me acompanhando?

— Ahã.

— Dentro do Corão achei uma página solta, manuscrita, que segundo nosso consultor o Dr. Müller, o maior rato de biblioteca que eu conheço, está cheia de linhas escritas em grego e copta, isso fora uma palavra escrita usando nosso alfabeto mesmo: “lukija”. O coroa não sabe ainda o que significa. Achou certo poeta sérvio chamado Lukijan Mušicki – sei lá como isso se pronuncia - na Wikipédia, que foi frade e era considerado um gênio, mas pode e não deve ter nada a ver. Ele não lê grego, mas encontrou a palavra “Ατλαντίδα” (Atlântida). Em copta, ele disse que não é especialista, mas chutou que poderia ser citação de um texto apócrifo ao reconhecer a palavra Caim.

— Apócrifo?

— Texto bíblico não reconhecido pela Igreja. Não faz parte da Bíblia “oficial”, feito o “Evangelho de Judas” dos Cainitas.

— Algo mais?

— Tá brincando? Há uma série de Fibonacci rabiscada na margem esquerda da tal página, com os números 1, 1, 2, 3, 5, 8 e 13. Tem também um desenho de nove círculos concêntricos no canto inferior direito, com um PI como pedestal, que aparece como palimpsesto.

— Que diabos é isso?

— Palimpsesto? Marca no papel. Foi desenhado em alguma página anterior e deixou uma marca. Passando o grafite do lápis dá pra ver. Segundo o Müller, nove círculos têm a ver com a Divina Comédia; os nove círculos do Paraíso ou do Inferno.

— Sei.

— No livro d’O Falcão Maltês foram arrancadas as páginas 13, 17, 19, 23 e 29. Encomendei um exemplar do livro para ler as páginas faltantes.

— Números primos.

— Hã?

— As páginas. Números que só podem ser divididos por si mesmos e um. Matemática do 1° grau. Isso até eu sei.

— Vê alguma ligação?

— Não. Nem perto. Há algum primo com razões pra matar a porra da família toda e mais a empregada?

— Difícil é dizer quem não teria razões: políticos, pais de moças de família, ex-empregados. Ah, na caixa dos besouros havia um escaravelho de ouro. Ao apertar uma pedra de jade incrustada acima das asas, ele abriu. Achamos um papelzinho dobrado e algumas sementes.

— Alguma escrita no papel?

— A palavra “Rosebud”.

— Não fode!

— A tal dita pelo ricaço moribundo do filme “Cidadão Kane”... O nome de um trenó ou algo assim.

— Eu sei. Nunca vi o filme, mas eu sei... E as sementes?

— Segundo o Müller são de lótus, deixa eu ler aqui no bloquinho: Nelumbo nucifera. O velho é fera mesmo!

— Algum significado?

— Segundo ele a lótus representa as virtudes da pureza sexual e o desapego aos bens materiais.

— He, he he, he. Que piada! Até onde sei o que mais se fazia nesta família era foder os outros, tanto sexualmente quanto materialmente.

— Pois é.

— Tenho medo de perguntar, mas tem alguma outra pista?

— Na prateleira do topo, ainda seguindo a direção da seta, há uma escultura de bronze de um poço, com um pêndulo pendurado acima. No pêndulo está escrito “Berenice, nunca mais”. Achamos também um esquadro e um compasso enfiados no vão da espessa capa de couro do Alcorão...

— Os Mendes Martins eram Maçons?

— Não que eu saiba. Hã, tinha também uma iluminura de um cavaleiro templário mal escondida no meio de duas folhas de compensado duma das prateleiras. Ah, sim: riscado na madeira da estante, sob um dos pesados volumes do Mahabharata, alguém escreveu à faca, em letras de forma bem impessoais: “LMASBLB”.

— O seu senhor Müller tem alguma ideia do que seja?

— Você não vai gostar.

— Desembucha.

— Ele acha que são as primeiras letras de Lúcifer, Mamon, Asmodeus, Satã, Belzebu, Leviatã e Belphgor.

— Caraca, demônios!?

— Sim, dos grandes, só a patota antiga e perigosa. Só os chefões, os Sete Príncipes do Inferno. Segundo o velho cada um corresponde a um dos sete pecados capitais. Na ordem: Orgulho, Avareza, Luxúria, Ira, Gula, Inveja e Preguiça.

— Isso tá me dando uma dor de cabeça fora do comum. Tem café decente em algum lugar por aqui?

— Não, só porcaria requentada de café de terceira, ralo, morno e doce. Vou ligar e pedir um expresso especial pra gente lá do Shopping Estrada. Leite ou puro com açúcar?

— Puro. Você já parou pra pensar por um segundo nesse lixo todo? Tem material aí para se escrever uns trinta livros policiais.

— E ainda assim querem os culpados presos em no máximo quinze dias ou...

— Ou?

— Ou vou ser transferido por “mérito” pra trabalhar outra vez em alguma das delegacias consideradas mais problemáticas da Baixada Fluminense. O prefeito pessoalmente me ameaçou. Matias, eu tô muito velho pra isso! Como vou deixar minha mulher e as meninas aqui em São José e ir pra Belford Roxo ou Queimados todos os dias? Não tenho mais fôlego pra subir favela, pra invadir boca-de-fumo...

— Tá bom, Heitor, relaxa. Depois que o café chegar, me leva pra cena do crime. Pra eu matutar sozinho, sentir a atmosfera do lugar. Tá na cara que gente com um senso de humor doentio andou plantando pistas pra nos distrair. Jamais vi algo assim na minha vida.

— Besteira! Você já desbaratou muito mistério casca-grossa!

— Sabe, eu mesmo nunca entendi direito como descobri os culpados naquele caso em Itatiaia, da menina enterrada no poço pela avó falsa paraplégica, nem naquele outro do sumiço das urnas eletrônicas em Penedo, quando aquele padre as queimou com o auxílio do irmão gêmeo, só porque o candidato favorito nas pesquisas era ateu. Ninguém sabia do tal irmão, ele morava em outro estado. O sujeito concordou em ajudar, mas não quis cometer o crime do roubo. Daí concordou em rezar a missa apesar de não sacar nada de liturgia, arrumando assim um álibi perfeito pro padreco. Ainda assim, a solução de repente apareceu na minha cabeça. Era lógica, era correta, tudo se encaixava. Eu conseguia ver todas as ligações, feito os fios de uma teia de aranha. Eu sou meio burro, tenho cultura de almanaque da Reader’s Digest, mas há alguma coisa no meu circuito que é diferente do resto das pessoas. É dádiva e maldição. Eu vou conseguir, Heitor, fica tranquilo.

∞∞∞



Capítulo III – Primeiras descobertas

Ατλαντίδα

Matias, Heitor e alguns agentes estacionaram os carros na rua em frente ao casarão. Matias parecia pálido, na verdade começou a ter palpitações e a suar frio algumas ruas antes, ao enxergar uma aura arroxeada no céu.

Apoiou-se no braço do amigo para sair da viatura, fingindo estar somente cansado ou velho. Tentava disfarçar, mas suas pernas tremiam loucamente.

Ao abrirem as portas pesadas da sala, pobre homem, sentiu uma vertigem ao ver um negrume espesso por detrás da estante. O cheiro de sangue ainda era onipresente, o que lhe revoltou o estômago.

— A estante, Heitor. Quero que arrastem a estante. Tem algo lá atrás.

Com muito esforço, os agentes moveram o móvel pesado do lugar, até abrirem um espaço suficiente para um homem passar entre a parede e as prateleiras.

Uma mancha negra, profunda como um abismo, gélida ao toque feito um iceberg, foi o que Matias viu na parede. Um símbolo em vermelho-fogo, feito um oito deitado na horizontal, estava desenhado exatamente no centro.

— Você vê, Heitor? A mancha e o símbolo? Minha nossa, emana tanta energia negativa, é quase insuportável ficar aqui.

— Não enxergo nada, meu velho, mas se você diz que vê, eu acredito. Que símbolo você tá vendo?

— Parece o símbolo matemático do infinito. Pera aí, acho que tem um buraquinho em cada um dos laços...

Olhe através dos orifícios, agora.

O sessentão sentiu seu corpo pequeno ser empurrado contra a parede. O frio do reboco parecia queimar seu rosto. Só escuridão, a princípio não enxergou coisa alguma através do buraco.

— Heitor, você tá maluco? Quem me empurrou? Caralho, me solta! Me sol...

Você vai calar a boca agora e vai olhar. Não conseguirá sair até que eu permita.

Luz, primeiro Matias enxergou muita luz, que aos poucos foi diminuindo e fazendo foco. Sons de vozes, de talheres, cheiros, foram captados por seus sentidos.

Quem? Permitirei que você saiba quem foi...

Uma sala de jantar decorada à antiga, com lustre clássico de cristal, alguns candelabros com velas acesas na enorme mesa de madeira. A família Mendes Martins jantava reunida. O relógio-carrilhão começou a bater a primeira de doze badaladas.

— Vamos fazer um brinde! Ao Xandão, que ele possa sempre continuar sendo nosso motivo de orgulho! Neide! Où est la chienne? – indagou Dona Maria do Carmo. — Traga o champanhe!

A moça surgiu apressada, vestindo uniforme preto com avental branco e com os cabelos presos numa toca. Carregava um balde de gelo com algumas garrafas que transpiravam de tão frias.

Maurício Alexandre levantou-se, dirigiu um olhar até carinhoso para a empregada, depois disfarçou, alcançando uma das garrafas e começando a retirar o papel de alumínio que recobria a rolha. Sem muito esforço, retirou a armação de arame, fez a rolha espocar e um pouco de espuma prateada caiu sobre a toalha.

Repentinamente, o rapagão derrubou a garrafa sobre a mesa e sentou-se como se fosse empurrado de forma brutal. Champanha se derramou, Neide tentou mover-se para ajudar, mas não saiu do lugar. Todos à mesa fizeram menção de sair de suas cadeiras, sem sucesso.

— O que está acontecendo? – arguiu Xandão. — Quem me empurrou?

— Porra, alguém levante a garrafa! Isso é Dom Pérignon! Mandei vir uma caixa da capital! – Reclamou o senhor Fernando, meio bêbado, sem noção do que estava acontecendo.

O relógio bateu a última badalada. Um estrondo ecoou, quando todas as janelas se fecharam. Escutou-se aquele ruído inconfundível de chave girando e de descer trincos junto da porta da sala. Algo invisível ergueu o moço no ar. Seria necessária uma força impressionante; Maurício Alexandre tinha cerca de um metro e noventa e cinco e noventa quilos.

A família começou a gritar, Neide desmaiou, no entanto permaneceu de pé, firme como uma estátua, sustentada por alguma coisa sobrenatural.

Garras invisíveis rasgaram as roupas de Xandão, levando um tanto de pele lacerada junto. O moço se debatia e gritava, mas a coisa progredia sem se importar.

Imóvel, a mãe tentou fechar os olhos diante da nudez do filho, porém os abriu de novo quando o escutou berrar como um leitão no abatedouro.

— Ai, tem alguma coisa me mordendo! Não, não!

O púbis fora arrancado num tranco; um pedaço grande de carne, encimado por pelos pubianos. Pênis e escroto subtraídos numa bocada só e jogados ao chão feito um bife cru. Um jorro expressivo de sangue vazava até o tapete enquanto o rapaz flutuava, sacudindo-se em espasmos. Um corte se desenhou em sua barriga e se escancarou a seguir, expondo intestinos acinzentados.

Tudo então seguiu aquele roteiro conhecido; a cabeça arrancada de Neide, ainda semiconsciente quando enfiada na barriga do amante, o sufocamento de Maria do Carmo, a amputação de Fernando, sua artéria femoral seccionada, projetando um jato a mais de um metro e meio de altura, os corpos voando no ar um a um, a pilha resultante de cadáveres, feito brinquedos quebrados juntados no chão.

A ponta do indicador da senhora foi mordida por dentes invisíveis, a seta desenhada e depois um ruído de mastigação. Livros foram deslocados de lugar, objetos voaram e foram inseridos na estante, surgidos de lugar nenhum.

Agora talvez você já saiba, Matias. Quem. Você dirá as palavras que colocarei em sua boca e depois se calará, por exatos dez anos. Não escreverá sobre o assunto tampouco, ou eu visitarei você e sua família.

O idoso descolou o rosto da parede e caiu sentado, diante do olhar atônito de Heitor. Sua língua enrolou, a boca ameaçou se encher de espuma, mas ele falou:

— Há duas portas do sono. Uma é feita de chifre, que dá passagem fácil às sombras da verdade; a outra, de marfim refulgente de alvura, permite que os falsos sonhos ascendam aos céus. Há poucas pistas plantadas passadas pela porta de chifre, definindo “quem”. O porquê, Heitor, sobre este você encontrará algumas respostas num livro escondido sob o piso atrás da estante, ainda seguindo o sentido da seta que desenhei.

— Matias, o que está acontecendo?

— Agatha Christie, Dashiel Hammet, Edgar Allan Poe... Ugh... Três ratos cegos... – A frase foi interrompida, a boca do pobre se fechou tão rapidamente que rachou o céu de acrílico da dentadura.

O homenzinho sofreu uma convulsão, murmurava coisas sem sentido e ameaçou engolir a língua. Seus olhos entreabertos giraram para cima, expondo somente as escleróticas brancas.

— Alguém me chama uma ambulância! Lorenço, me ajuda aqui a segurar ele. Tira a dentadura e puxa a língua pra fora da boca, vai, vai!



∞∞∞

Capítulo IV – Loop

lukija

A ambulância não tardou; chegou em menos de quinze minutos, removendo o pobre sexagenário. Heitor pediu a um dos inspetores que acompanhasse o amigo. Ainda em choque, com o auxílio de outros policiais, a velha raposa começou a chutar o chão atrás da estante até escutar um som oco.

— Aqui, quebrem o piso aqui.

A coisa toda não fazia muito sentido. O piso de tábua corrida não tinha marcas de ter sido removido para esconder algum objeto. No entanto, conforme dito por Matias, embrulhado numa caixa e em plástico, havia um livro; capa escura com um símbolo matemático do infinito em vermelho-fogo. Não havia informação sobre a editora ou o ano de publicação.

— “Palimpsesto”, por Yazar Dupin Marple, que diabos?

“Capítulo I – Carnificina”, “São José do Monte Acima, comunidade de quarenta mil habitantes, era pouco conhecida...”, começou a ler.

Seu espanto foi tamanho que sentiu uma vertigem repentina. Sentou-se no chão, avançou até o segundo capítulo e reconheceu suas palavras exatas em sua conversa com Matias na delegacia horas antes. Adiantou algumas páginas e no quarto capítulo tudo começou a girar, as letras formando um redemoinho, que parecia querer tragá-lo para suas profundezas. Fechou o livro, abriu outra vez e notou as primeiras páginas se apagando progressivamente. O preto das letras virando cinza e depois branco.

Desesperado, correu os dedos atrás de respostas: “Capítulo V – Visita ao Hospital Psiquiátrico”, aparentemente falava de sua visita a Matias, que não abriu a boca e parecia ausente de tudo, absolutamente catatônico. “Capítulo VI – Bode expiatório”, contava sobre a prisão que ele e outros policiais fizeram do “culpado” confesso; um morador de rua que, por sorte, alguns vizinhos dos Mendes Martins reconheceram que rondava a região dias antes. Uma fuga facilitada do coitado na delegacia, acompanhada do abate do fugitivo, colocou uma pá de cal sobre o caso. Um criativo curriculum foi inventado sobre o açougueiro de São José complementou a curiosidade pública, e algumas ameaças veladas foram feitas a certos repórteres ousados demais. “Capítulo VII – Promoções e o mérito dos não envolvidos”, “Capítulo VIII – Herança e Politicagem”. Avançou vários capítulos sem ler. O capítulo XXI descrevia uma ligação telefônica entre ele e Matias, quando então Heitor comentou sobre o achado sob o piso. Tremendo muito, o inspetor saltou para as últimas páginas do livro, enquanto as letras seguiam celeremente seu caminho para o limbo. “Capítulo XXII – Reencontrando um velho amigo”.

∞∞∞

Capítulo XXII – Reencontrando um velho amigo

Três ratos cegos

Dez anos passaram-se até de forma indolor. Ninguém mais falava do caso famoso; o assunto até virou tabu pelas memórias ruins que este evocava.

Matias Albuquerque finalmente recebera alta, fora acolhido pelo filho mais velho e passava os dias sentado na varanda, cuidando dos passarinhos e tratando do jardim bonito da casa.

— O tempo não foi muito generoso com você, Heitor – foi a primeira coisa que o velho falou ao ver o amigo, muito mais gordo e grisalho, abrindo o portão de ferro.

— Seu sacana! Como se você ainda fosse um garoto!

Abraçaram-se.

— Por que não veio antes? Quando soube que eu tive alta?

— Há umas duas semanas, mas o tempo anda curto. Você sabe, vida de delegado não é fácil. Como você está?

— Sinto-me como se tivesse dormido um sono sem sonhos por dez anos. Se me alimentaram, banharam, levaram ao banheiro; eu não me lembro de nada!

— Bem, fico feliz em ter você de volta!

— Ahã. Imagino o porquê de você estar aqui. Não sei se você vai querer as respostas. A verdade às vezes parece mais mentirosa e falsa que a mentira. E esse nosso apreço por verdade, é no final uma grande bobagem. Ignorância pode ser preferível em alguns casos.

— Você sabe quem foi?

— Agora sei, e acho que também entendi o porquê.

— Desembucha, vai!

— Algo invisível matou os Mendes Martins, eu testemunhei a cena toda, fui obrigado, na verdade... Não vi pessoa alguma os matando!

— Então lidamos com algo sobrenatural? Demônios? Feito as letras riscadas sugeriam?

— Penso que não. Humm, tive tempo pra brincar com o computador do meu filho. O filho da mãe tem internet a cabo; mais de cem megabits, acredita?! Bem, a maior parte foi bobagem, coisa plantada pra nos distrair. Corão, Atlântida, Mahabharata, Fibonacci, Evangelho Apócrifo, demônios. He, he, he. Todos sonhos passados pelos portões de marfim feito ele citou; tudo falso. Depois vêm pistas mais bobas, feito os escritores de livros policiais. Os números primos têm este nome porque são distintos, diferentes, incomuns. Tínhamos um criminoso incomum em ação. “Rosebud” significava que buscávamos algo que afinal não era o mais importante saber; a trama criada seria mais interessante. O louco chegou a fazer piadas com Edgar Allan Poe: “Berenice, nunca mais” numa escultura de um poço e um pêndulo, he, he, he, que tosco!

— Tem algo errado com você? Algumas palavras soaram falhadas...

— Ele não quer que eu conte... Tenho que me apressar! “Três ratos cegos” era o título original em inglês da peça “A ratoeira”, de Agatha Christie. A peça fala de uma investigação em que se descobre que o assassino é a pessoa mais improvável do mundo; o próprio investigador! Nosso matador é o mais improvável possível!

Rápido, rápido!

— A resposta estava em nossas caras. O nome do autor do livro que você achou, Yazar. Joguei o nome no Google e esbarrei em sites turcos, procurei por imagens e encontrei desenhos de gente escrevendo. Fui ao tradutor e encontrei: autor, escritor. Pensei na outra palavra esquisita e busquei por “lukija”, “Lukijan” foi sugerido, mas ignorei o tal poeta sérvio, busquei imagens e havia uma de um menino louro lendo um livro. Reparei que os sites com a palavra eram finlandeses. Fui ao tradutor e achei: leitor. Heitor, acho que estamos numa porra de livro, de história policial. Não há demônios, somos marionetes, porcarias de personagens. O assassino é o autor desta nossa história que é estória. Ele matou para entreter alguém; o leitor!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Reunião Executiva



Oito e trinta da manhã. Pedro estava inquieto na cadeira, mordia os lábios e batia com os pés ritmicamente no linóleo muito bem encerado. Amanda estava ao seu lado, mas apenas olhava o teto, distraída e absolutamente tranquila. Marcos e Cassandra, sentados um tanto mais afastados, não exibiam emoção perceptível em seus semblantes.

Pontualmente o presidente e a vice-presidente entraram na sala e caminharam até o púlpito. O primeiro tinha um bigode farto, escuro, e vestia um terno sóbrio e gravata azul-marinho, a segunda trajava um belo tailleur cor de pêssego e tinha óculos de armação dourada pendurados por uma corrente de ouro, apoiados sobre os seios. Ambos exalavam confiança e serenidade.

Todos se levantaram e aplaudiram o casal com respeito e educação. Sentaram-se a seguir e Pedro começou, muito discretamente, a roer as unhas que já se encontravam no sabugo. Amanda continuava um tanto avoada. Marcos e Cassandra agora sorriam.

— Senhoras e senhores, sejam bem-vindos à nossa reunião semestral de apresentação de resultados e avaliação de desempenho – a voz do presidente era macia e cheia, como a de um locutor de rádio dos anos dourados.

— Iniciaremos com uma apresentação dos indicadores de performance num comparativo like-for-like dos valores médios do mercado contra nossos dados históricos dos últimos três anos, em níveis consolidados e também fazendo drill downs até unidades individuais – complementou a vice-presidente, agora com os óculos apoiados quase na ponta de seu nariz bem empoado.

Gráficos detalhados e coloridos foram então projetados, números baseados em sofisticadas fórmulas financeiras pipocavam em todos os slides.

— Desde a crise de 2008, devido a retração generalizada dos mercados, podemos observar a queda de nossa Liquidez Imediata e o aumento do Endividamento Futuro, resultando em expressivas perdas de VPA. Isto, vejam só, mesmo depois de medidas de redução do imobilizado e com o fechamento de unidades pouco produtivas na Espanha e na Rússia – a voz do presidente soava, apesar das notícias ruins, confiante e tinha certo tom amistoso.

— Mais especificamente, na unidade RJ-0034, houve avanços e retrocessos. Vejamos, os setores Marcos e Cassandra apresentaram considerável evolução; Marcos formou-se com louvor em Medicina, na prestigiosa UFRJ. Cassandra foi selecionada como Trainee na FGV; é a mais jovem economista da equipe! Excelentes Retornos sobre o Investimento! Palmas, palmas!

De imediato todos aplaudiram entusiasticamente.

— Infelizmente, o setor Pedro não evoluiu da mesma forma; recuperação em Matemática, Ciências e Estudos Sociais... Por um pouco não foi reprovado automaticamente! No ano anterior foi aprovado com média geral C+ somente. Seu único “A” foi em Educação Física. Ao avaliarmos o gráfico do Retorno sobre o Investimento, podemos observar resultados medíocres nos períodos contábeis anteriores e uma súbita queda no período corrente. Senhor Pedro, tem algo a dizer em sua defesa?

Pedro – o “Putuca”, conforme o conheciam no colégio – levantou-se muito pálido e gaguejou, com a voz já meio embargada pelo choro reprimido. As pernas finas e com joelhos esfolados tremiam.

— Desculpa, mas é claro que minha inteligência é do tipo físico, mam... Quer dizer, vice-presidente. Eu tinha que ter sido matriculado num centro de treinamento profissional de futebol. Tá na cara que teve erro na minha avaliação de perfil. Ficar numa sala de aula estudando que nem um mané não funciona comigo.

O casal no púlpito parecia entristecido. O presidente tomou à frente e respondeu.

— Em outro cenário econômico menos desfavorável, certamente investiríamos mais em seu setor. No entanto, como vamos justificar aos acionistas um desempenho tão pífio e nova injeção de recursos num ativo de tamanho risco? Não, senhor Pedro; fecharemos o seu setor, para evitar prejuízos ainda maiores.

— Papai, não! Eu prometo que meus resultados serão melhores, vou meter a cara nos livros, vocês vão ver! – Lágrimas começaram a descer dos olhos do menino, o nariz ameaçava molhar a boca com muco.

— Não me chame pelo título de parentesco numa reunião formal, senhor Pedro! Lamentamos, mas a decisão está tomada!

— E a Amandinha?! Com ela vocês não implicam, né? Ela já tem cinco anos e não faz nada da vida!

— Pedro, que absurdo! Você sabe muito bem que os estagiários não passam por avaliações formais em nossa empresa – respondeu a vice-presidente, com os olhos faiscando por detrás das lentes. — Seguranças! Retirem o senhor Pedro da sala, esvaziem seu escritório e coloquem-no na relação de Ativos Fixos completamente depreciados. No próximo mês ele irá a leilão junto com os desktops antigos e os aparelhos de fax.

— Mas, mas, e se ninguém me comprar? O que acontece se ninguém me comprar? – Gritou o menino, revirando os olhos enquanto era arrastado para fora.

O presidente e a vice-presidente entreolharam-se melancolicamente, deram as mãos e acenaram, despedindo-se do filho, sem responder a pergunta.

— Agora continuemos com a projeção do Orçamento dos anos fiscais 2013 a 2015, levando em conta as novas alterações previstas pelo Fisco - Falaram os dois, quase ao mesmo tempo, para a plateia muito, muito atenta.