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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aquisição do Livro A Linha Tênue



Para comprar o livro:








Contato com o autor: rudam@msn.com
 





A Linha Tênue 

É uma compilação de 34 contos de temática fantástica.

Gênero dos contos: ficção científica, fantasia, terror, erotismo fantástico, steampunk, sátira, dentre muitos outros temas.

Uma característica interessante do livro é seu aspecto "4D", isto é, o uso frequente de recursos metalinguísticos: histórias em camadas, personagens que sabem que são personagens, a apropriação do leitor como personagem, frases que podem ser lidas de trás para frente, easter-eggs, narrativas não usuais, etc. 

Rubem Cabral

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, atua como Engenheiro de Software e é radicado na cidade de Zurique, Suíça.

Há cerca de quatro anos iniciou-se no mundo literário, participando de várias antologias já publicadas.
Premiado em primeiro lugar na categoria "conto" no Concurso Literário Raízes, em Genebra, na Suíça.
Seus textos caracterizam-se pela constante busca do novo, do inesperado; seja através da forma escrita ou através de abordagens muitas vezes radicais. 


O autor gosta de experimentalismos e de surpreender o leitor. 


Embora seu modo de escrever seja muito acessível, há sempre certo verniz sofisticado, algo escondido entre as linhas, para o deleite dos mais argutos.


O autor também mantém o blog Contos Agridoces.


Recentemente foi um dos selecionados para a prestigiosa antologia anual FC do B (Tarja Editorial)  e também para a antologia Erótica Fantástica (Editora Draco).

Rubem é proprietário da comunidade literária Contos Fantásticos onde organiza concursos mensais de contos.

Obras do Autor:

Livros:

  • A Linha Tênue (Ed. Livronovo)
  • Contos Agridoces (Ed. Livronovo)

Antologias:

  • Erótica Fantastica (Ed. Draco)
  • O Grimoire dos Vampiros (Ed. Literata)
  • FC do B – Ficção Cientifica Brasileira - Panorama (Tarja Ed.)
  • Metamorfose – A Fúria dos Lobisomens (All Print Ed.)
  • Solarium 2 – Contos de FC (Ed. Multifoco)
  • O Lado Sombrio (Ed. BRVCom)
  • Zumbis. Quem disse que eles estão mortos? (All Print Ed.)

Concursos Literários:

  • Premiado em primeiro lugar na categoria “contos” no concurso literário Raízes em Genebra na Suiça.
  • Premiado em diversos concursos promovidos pelas comunidades de escritores de redes sociais.










quinta-feira, 17 de maio de 2012

Charla na campanha


Bah! Mas bem capaz, tchê! Imagina! Tem sempre espaço pra mais um; é tal qual coração de mãe, ha, ha. Ê, deixa de frescura, vivente: toma assento e compartilha um amargo com os companheiro.

Que tal? Meu nome é Juvêncio.

Ô, Getúlio, num vê que a gente tem visita? Larga a gaita e me alcança a cuia e a chaleira aí.

Entonces, índio velho, vamo, te aprochega do fogo; o Minuano tá soprando uma barbaridade hoje e tá fazendo um frio de renguear cusco! É hora também de ficar de orelha em pé; já tá quase meia-noite, quando as assombrações ganham os pampas, tanto pra fazer o bem quanto o mal da mesma forma.

Bah, mas tu não acredita nessas coisa? Ora, mas na campanha sem fim do Patrão-Velho tem tanta coisa rara, que todo mundo já mirou ou ouviu falar de algum causo. Dão mais que pereba em moleque!

Entonces vou te contar um assucedido meu mui antigo. Não repara tanta charla; é que ontem nasceu minha bisneta, cria da minha neta mais velha, e hoje tô mais faceiro que gordo de camisa nova.

Pues, quando piá, sesteei quando não devia e eis que me sumiram uns quatro terneiros xucros, uns bezerrões que gostavam de cabecear e manotear feito eles só. Campeei a estância de ponta a ponta e nem sombra; extraviados que nem chinelo de bêbado, ha, ha! Já dava tudo como perdido; sabia que meu pai ia me sentar o braço pelo feito. Por isso, resolvi fazer promessa pro Negrinho do Pastoreio. Pedi com vontade mesmo, pra ele me ajudar. Quando a tardinha chegou, justo na hora de encerrar, os animal apareceram do nada; num upa, he, he, com jeito que tivesse visto fantasma; cada baita olho assustado...

Desde aquela época me apeguei ao guri santinho; que sofreu como joelho de freira na Semana Santa ao deixarem o pobrezito pra morrer num formigueiro. Toda vez que posso acendo uma vela pra Nossa Senhora, a madrinha do piazito, pra ele nunca me desamparar.

Getúlio, meu filho, me alcança um destes seus cigarros de maricas! Laite, onde já se viu?

Oigalê! Como que teu vô tá velho demais pra fumar, seu lasqueado?! Dá aqui ou te passo o relho.

Bueno, aonde a gente tava? E de onde mesmo tu vem, gaudério? Oras, São Chico de Paula? Tá longe de casa, não é mesmo? Ah, é novito lá na Estância da Moeda? Ê, deste sorte, guri. Eita lugar tri, bagual mesmo! Cheio dos gado de raça premiado, dos pingo de lei da melhor qualidade! Antigamente, quando moço e guapo, eu trabalhei por lá e, onde hoje tem aquelas invernadas tudo verdinhas, aquilo era um baita alagadão de perder de vista, cheio de mosquinha e mutuca, quando o sítio inda era chamado Estância São Félix de Nola. Os donos eram uns italianos que tinham herdado as terras dos tios velhos que migraram pro Brasil. Os falecidos eram gente tri boníssima, sal da terra mesmo, segundo me contou meu pai. Mas esses irmãos Guiseppe e Enzo, esses gringos apotraram-se logo que chegaram por aqui, e tratavam a todo mundo como se a gente fosse coberto de bicheira.

Hum, ah, já tinha esquecido como era bom fumar. Mesmo esta merda de erva-lavada, que nem engrossa o ranho no peito!

Pues, os Guaranis que viveram por estas bandas achavam que o charco era sagrado, contavam que lá tinha uma cova onde morava o Mbaê-Tata, a sucuri gigante que de tanto se regalar com olho de bicho depois dum dilúvio, virou um talho na noite, de tanta luz; uma cobra de fogo.

Mal os caudilho italiano apearam na estância miraram naquelas léguas de terra sem função e logo mandaram desviar os ribeirão para secar o alagado. Teve muito empregado meio índio que ficou aporreado, mas não adiantou; os gringo tocaram tudo a laço e espora...

Daí, teve uma noite que a indiada se juntou e foi quebrar as barreira, escondido dos patrão. No dia seguinte, quando viram o pântano cheio de novo, bah, os carcamano ficaram com o diabo no corpo! Queriam saber quem foi e tudo mais. Me recordo que tinha um gaudério maleva, flaco e amargo feito erva queimada: um tal de Bastião. Eu vi quando aquele joão-grande lambe-esporas foi contar pros patrão o assucedido. Minha vontade foi de arrastar o imprestável pela cola e fazer ele sentir o fio da minha daga no lombo, mas o papudo me ameaçou, disse que ia me fazer perder a lida feito os índio também iam perder, logo eu; que era mais eficiente que japonês na roça!

Engoli o meu orgulho; já tinha as cria, dois guris e três gurias, tudo potrilho ainda, não podia me dar o luxo de negacear, mas quando tivesse chance, bah, o tramposo iria me pagar.

Então, os patrão demitiram um monte de gente e promoveram o Bastião pra capataz da estância. Judiados feito filhote de passarinho na mão de piá, nós voltou a desviar as sangas e ribeirões e, depois de umas semanas de muito calor, quando tudo estava bem seco, mandaram capinar ao redor da mata e eu mais o Bastião fomos tocar fogo pra preparar o terreno.

Era final de tarde e o Sol já encarnava o topo azulado da serra e, quando começamos a deitar as tochas no mato, o Bastião puxou uma garrucha do bolso e disse que ia me matar e botar fogo em tudo depois. Ia contar que se perdeu de mim e todo mundo ia pensar que morri queimado...

Bah, mas fiquei furioso que nem gato embretado em cano de bota. Saquei a daga da bainha e falei; vem, vivente, vem pelear comigo que nem gaúcho colhudo, coisa que tu não é, seu lombo de sem-vergonha!

Num upa, escutei um barulho feito um trovão, fechei os olho e quase senti o tiro e o cheiro da pólvora. Daí, escutei o Bastião gritar feito loco e, ainda sem abrir os olhos, reparei num monte de luz azul e verde e um chiadão de cobra misturado com som de fogo em folha seca. Era o Mbaê-Tata dos índios! O Boitatá! Eu tinha certeza!

Dizem que não pode mirar essa assombração ou se fica loco, eu lembrava bem das histórias que desde guri eu escutava. Senti o bafo da cobra na minha cara, um fedor de coisa velha, de charco bem molhado, de folha podre e bicho morto. Acho que a língua dela encostou no meu queixo: queimou que nem urtiga em boca de burro, mas continuei de olho fechado. Rezei bem forte pro Negrinho, pra ele me acudir, contei que era inocente, que tava ali no cabresto, que os carcamano e o Bastião é que queriam queimar aquilo tudo. Prometi até dar um jeito de arrumar uma tapera nova pra cobra.

Não sei quanto tempo o Negrinho levou pra trovar com o Boitatá, pra convencer o baita cobrão a não me descer o rebenque. Assombração charlando com outra, já pensou? Só sei que abri os olhos de novo quando o luzeiro sumiu e vi o Bastião morto, de boca escancarada feito porteira em dia de festa, sem os dois olho. Reparei num rastro de luz voando no escuro, na direção do casarão. Saí fedendo dali, mais apressado que cavalo de carteiro, enquanto o fogo na mata aumentava barbaridade. No dia seguinte, soube que os milico tavam na estância e encontram os irmão Giuseppe e Enzo morto, e também sem os olho.
Bah, mas entonces tu continua a não acreditar, vivente? Pues, olha só a cicatriz da queimadura aqui no meu queixo: regalito do Boitatá, tem ou não tem jeito de língua de cobra?

Bueno, tchê, a charla tá boa, mas ficou tarde e minha chinoca velha me espera. Getúlio, seu imprestável: não vá esquecê o saco com as comida dos bicho!

Capaz! Tu me pergunta que bicho, guri?! Oras, um que foi morar no laguinho nos fundos do nosso ranchito e hoje deve tá gordo e lustroso feito gato de bolicheiro. Mira só, trouxe de graça do matadouro: tá cheio de olho de boi.