quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
De açúcar
Minha mãe gostava de doce, já lhe contei alguma vez? Quando engravidou não conseguia comer nada, exceto doce. Pudim, bolo, gelatina, sorvete. Bastava o cheiro de comida de panela pra ela enjoar. Então, foram nove meses de panquecas com geleia, de compotas e melado de cana com farinha, quando nada mais em casa havia. E, lá dentro, da barriga dela, enrolado feito uma fatia de rocambole, vermelho que nem goiaba em calda, e formado a partir de tudo o que ela digeria e transformava, eu crescia. Eu-manjar-de-coco-com-ameixa, eu-algodão-doce, eu-bananada. Uma criança de xarope, depois um rapaz de chantilly e um homem cristalizado, que cresceu rápido feito um bolo bem feito com a dose certa de fermento. Talvez seja esta a razão de tudo, da diferença, do por que de não me entenderem. Por esta minha pureza morna e perfumada de flor de laranjeira, este meu humor que se dissolve fácil, este meu corpo frágil que quase se derrete sob o sol quente. Eu sou de açúcar.
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2 comentários:
Adorei esse post :)
Algumas vezes me senti assim, prestes a derreter na chuva, que tanto amo.
Não sei se sou de açucar, mas certamente existem dias em que ser doce é tudo que preciso ;)
Já eu sou água, sob o calor fervo e evaporo... Deslizo por dentre as frestas das barreiras pelas quais quero transpassar... Adorei o texto! Parabéns.
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