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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O cheiro d'avó


Quando a missa de sétimo dia terminou, antes de deixar a igreja, meus tios e tias me cercaram e começaram a falar ao mesmo tempo; ainda com as vozes embargadas, os olhos vermelhos e os semblantes pesarosos. Tio Joãozinho não conseguia falar; apenas tinha a mão à frente da boca, para esconder os dentes falhos enquanto expirava e seus olhos pareciam fontes que teimavam em não secar.

“Ninguém tem coragem”, gemeu tia Orlandina. “É preciso limpar a casa de sua avó, dar as roupas para a Igreja, esvaziar a geladeira, tentar limpar a casa dela dela, entendeu?”

De nada adiantaram meus protestos, de que era doloroso demais para mim também, porém a fama de durão e de responsável não me dava opções. Era minha obrigação, eu, que fora o preferido de minha avó.

“Se você não for, terei que mandar algum estranho”, disse o tio Quincas falando grosso, quase me ameaçando com a ideia de ter alguém de fora revirando as coisas de vovó.

***

Empurrei o velho portão de ferro, que cheirava à ferrugem e infância perdida. Passei pelos canteiros maltratados; cheios de inodoras margaridas baldias e do limo que se acumulara depois daquela semana de chuvas constantes. Rex, o cachorro que ela tinha e não tinha, que entrava e saía quando bem queria, estava deitado junto à porta, talvez esperando ela voltar. O ar rescendia à minha avó, o mundo muito propriamente chorara sua ausência e chegara o momento de se seguir em frente.


A porta com a pintura descascada protestou e rangeu. Entrei pela cozinha e a fragrância dela estava em todo lugar: um misto de alfazema, leite de rosas e sabonete Alma de Flores. “Não me deixem enterrar direto na terra, Cicinho. Não quero ficar lá num caixão que vá se encher de água quando chover e eu lá parada, lá dentro; presa, me afogando. Quero ficar numa carneira, naquelas caixinhas de cimento bonitinhas, umas em cima das outras, arrumadinhas feito um edifício de apartamento. Se puder ter um pé de árvore perto, pra dar sombra e não ficar quente demais, tanto melhor.”

A cozinha ainda tinha um odor pungente de canela junto do fogão meio encardido. Parecia que fora outro dia que eu a visitara e ela se apressou em passar um café fraco e doce e fez bolinhos de chuva; cobertos de açúcar e canela, os meus preferidos. 
 
Abri a geladeira, puxando para baixo a alavanca que fazia as vezes de maçaneta; a velha Frigidaire vermelha, que suspirava e fazia ruídos borbulhantes e engraçados que me assustaram nas vezes em que pequeno dormi por lá. Não havia muito dentro; gelo em formas de alumínio, alguns ovos, margarina, cenouras murchas, batatas com brotos esverdeados na gaveta de legumes, alguns vidros de xarope na porta e aquele cheiro. O odor característico dela; aquela mistura engraçada do xampu de lanolina que mantinha seus cabelos finos escorridos demais. A lavanda ou Colônia Cristal da Avon, sabão em barra, suor da cútis frágil, fina, que se arranhava com facilidade, alho nos dedos que mais pareciam ter as pontas terminadas em almofadinhas de pele e carne.


“Cabelos de manga”, era como eu brincava de chamá-la secretamente quando ela me dava uma moeda para fazer cafuné nos seus cabelos enquanto me contava histórias. Eu tinha um boneco do Alf com os cabelos de um amarelo queimado, de um tom quase igual os dela. Vovó era um brinquedo melhor.

“Sabe, meu neto, quando eu morrer não quero que enfeitem meu caixão, que o encham de flores feito um bolo de noiva, feito fizeram no enterro de Dona Nini, quase cobrindo o rosto da coitada que devia estar com uma vontade danada de espirrar. Não quero que convidem também a filha de Cema; aquela é capaz até de roubar as coroas de flor e só iria para filar o café e pedir dinheiro emprestado.”

Esvaziei a geladeira e descartei tudo dentro de um saco para lixo, grande e preto. Desliguei a tomada, abri a porta e a escorei com uma cadeira, deixando um ventilador ligado para ajudar a descongelar.
 
Em seu quarto, a cama de casal estava coberta por uma colcha de chenille azul clara, bem esticada. O guarda-roupas alto, brilhava e ainda rescendia a óleo de peroba. Eu me lembrava bem do dia que a presenteei com o móvel novo; ela pulava feito criança.


“Ah, Cicinho, do jeito que eu queria.”, ela repetia, alisando as portas. “Duplex! Do tipo que tem que subir numa banqueta para alcançar a parte de cima, feito o que Betão deu pra Cema. Já era tempo, não é mesmo? Aquele antigo de fórmica tava todo descascado, todo fofo de umidade. Olha só; até espelho e prateleira pros meus perfumes este tem. É tão bonito, eu acho que nem vou dormir direito esta noite, de tanta felicidade. Vou ficar deitada aqui na minha cama, admirando esta belezura.”

Escancarei as portas do móvel; os vapores de naftalina, de algum mofo e dos perfumes de seus cremes, de suas loções, me abalaram um pouco. No entanto, a visão de tanta roupa colorida, tanta estampa de flor, tantas coisas de alguém que efetivamente gozou a vida, aquilo tudo foi forte demais para mim. Com as lágrimas rolando e o nariz escorrendo feito uma criança pequena, fui retirando o blazer de linho onde ela escondeu salgadinhos no bolso num casamento onde entramos de penetras, a blusa de seda toda decorada com pêssegos e ameixas bem maduras, a encharpe que ela enrolava no pescoço toda vez que brincávamos de teatrinho e ela fazia o papel de alguma madame. Fui colocando tudo em sacos para entregar no convento das freiras, feito meus tios instruíram.

“Vá que quando eu morrer, eu não morra direito? Você sabe, os médicos do SUS querem mais é enterrar os velhos, até inventaram esta campanha de vacinar contra gripe. Eu é que não tomo! Tão de olho na minha pensão, isto sim!

Meu neto querido, isto eu só vou pedir a você. Quando forem me enterrar, coloca meu celularzinho dentro do caixão. Bota crédito nele porque é de cartão, e bateria bem carregada, veja lá. Se eu não morrer de verdade, se foi algum engano, eu ligo e você vem me acudir. Lembra de levar um cobertor e uma garrafa de café, pois eu posso estar com frio.”


No fim do velório, escondi o celular entre as poucas flores que só iam até a altura dos ombros dela. Antes que fechassem o caixão, cochichei em seu ouvido.

Passei um pano úmido na casa, com Pinho-Sol de verdade, feito ela gostava de usar. Fechei as janelas, as portas e meu coração que insistia em bater descompassado. Deixei os cheiros; de cera líquida amarela, desinfetante, de xarope, de canela e colônia, de velho, de mofo, de avó.

Ao passar pelo portão, observando o Rex, que ainda estava deitado sobre o capacho junto à porta, escutei meu telefone tocar.

A lógica, a razão, estas insidiosas quiseram se intrometer no fio de esperança, na luz fraca que cintilou no breu de minha mente. Não dei direito para que elas se manifestassem! Fechei os olhos para não ver o painel, levei o fone ao ouvido e mais gani do que propriamente falei.

— Alô?

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