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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

À espera do Mestre


O que relatarei foi testemunhado por mim, por puro acaso. Não intenciono trazer lições ou ensinar moral, pois não acredito em tais coisas. Talvez o que contarei poderá servir de alerta para que não cometamos nós mesmos erros iguais, ou nem para isto. Não confio em homens ou deuses, apenas acredito em meus sentidos e, acima de tudo, sou adepto da Igreja da Minha Santa Sobrevivência.

Vagava meio sem rumo pelo subúrbio da cidade de Manado; não tinha morada certa e já conhecia bastante àquela vizinhança, onde um casarão de muros amarelos e muito altos chamava atenção. Havia um jardim meio maltratado à frente do lugar e algumas colunas em espiral, de gosto francamente duvidoso. Nos fundos, se destacava somente um enorme quintal cimentado e liso; estéril como um deserto. Por motivos que logo ficarão claros, chamei tal horrível edificação de Castelo dos Sete Fanáticos ou Grande Prisão Amarela.

Foi numa manhã até bonita, que vi pela primeira vez os sete chorando após a despedida do Mestre.

— O Senhor irá em busca de mais conhecimento e logo voltará – dizia o maior deles aos outros seis. De imediato, identifiquei aquele indivíduo formidável, de cabeçorra poderosa e peito amplo, como Estúpido Otimista ou Grande Protetor.

— Ai de nós, o que seremos sem o Mestre? O que fizemos para ofendê-lo, para que decidisse nos abandonar? – falava a fêmea branca e bonita, a quem apelidei de Graciosa.

— O Amo nos testa, certamente. Ele espera que em sua ausência nos comportemos de forma ideal, que sejamos dignos de seus ensinamentos – gaguejou um magrelo pedante e de olhos nervosos, o Guardião da Moral.

Os outros quatro jovens e pequenos apenas observavam assustados. Somente um deles, o mais feio e fraco comentou:

— Não significamos nada para Ele. Não faria diferença para o maldito se morrêssemos todos – naturalmente, dei-lhe a alcunha de Pequeno Amargo, para separá-lo dos três outros sem nomes, que mudavam de opinião conforme os maiores se manifestavam.

Notei que as reservas de alimentos e água do grupo eram parcas e que, sem se importar com o dia seguinte, todos avidamente consumiram suas porções até ficarem satisfeitos, como se tudo estivesse normal. Quase que rezei pelo bem daqueles tolos; ao menos cheguei a desejar, sinceramente, que o tal Mestre logo retornasse.


Era então chegada a época das monções, e apesar do calor, chovia forte quase todas as tardes. Dois dias depois, voltei a observar o grupo, que recolhia ávido a água que descia pelas calhas do casarão após a tempestade.

— O sacrifício enobrece. O jejum de água e comida purifica. – Repetia o fraco Guardião aos outros, ainda conseguindo manter a cabeça elevada e um certo ar de superioridade.

— Em breve o Mestre irromperá através dos portões. Trará tanta comida, tantas iguarias, tanta água pura e fresca quando se é possível consumir, vocês verão. – Comentou com doçura o maior de todos.

— Eu afirmo, ora, eu afirmo e re-afirmo; o Mestre nos abandonou por causa dos pequenos! Ele não suportava mais estas criaturinhas sem modos e barulhentas.

— Não diga isto, querida! Os pequenos são inocentes e o Amo é bom, profundamente bom – insistia o Grande Protetor.

— O desgraçado nos deixou para morrer de fome! Sinto minha barriga doer tanto que nem consigo dormir! Seria mais justo se houvesse nos eliminado a tiros ou envenenados; ao menos seria rápido – refletiu o Pequeno Amargo.

Os outros três pequenos apenas sorviam a água e sacudiam as cabeças, concordando com os comentários díspares, sem se importar ou entender bem a situação.

O Guardião descobriu-me espionando-os e disparou, perdendo então toda aquela empáfia que o caracterizava:

— Desça aqui, infeliz. Desça, seu bastardo, e faremos você se arrepender por testemunhar nosso infortúnio!

Naturalmente abandonei meu posto de observação e escapei, enquanto todo o grupo gritava e xingava tão alto que poder-se-ia escutar a quase um quarteirão dali.

Passaram-se talvez mais cinco dias, quando curioso em demasia eu retornei. O Pequeno Amargo parecia agonizar de fome e estava caído, rodeado pelo grupo.


— Sonhei com o Mestre ou delirei, não sei – choramingou. — Talvez afinal ele fosse bom, talvez tenha viajado para limpar o grupo dos dissidentes da fé; de gente como eu. Eu não merecia o amor do Amo! Eu sou o culpado por tudo que estamos passando.

— Não diga isto, pequeno – respondeu a Graciosa, estranhamente gentil e compreensiva. — Eu também comecei a pensar que ele não nos merece, que não foi justo ou correto, como você sempre tão sabiamente nos avisou. Você e os outros pequenos são inocentes, eu estive errada, desde sempre.

— Pode ser – continou o pequeno – pode ser que o Amo me perdoe se eu fizer um sacrifício. Talvez até minha alma poderá ser salva assim!

De longe, notei um brilho estranho naqueles olhos que começavam a embaçar.

— Matem-me e devorem meu corpo! O Mestre queria uma prova de fé, só pode ser. Sejam gentis e dêem-me um fim rápido e salvem-se também. Minha carne é pouca, mas fará vocês resistirem alguns dias a mais.

O Guardião da Moral, cabisbaixo, nem sombra do indivíduo orgulhoso de dias atrás, nem pensou duas vezes, certamente empolgado pela possibilidade de forrar o estômago.

— Não! – gemeu a Graciosa. — Isto não está certo!



Mas já era tarde; o pequeno, com pescoço partido e rubro, agitou um pouco os membros e por fim ficou estático. O Grande Protetor foi o primeiro a provar da carne, enquanto selvagemente afastava os outros. Chocada, a Graciosa havia se retirado e deitara desconsolada sob uma das poucas sombras do local.

— Não há o suficiente para todos! Primeiro os mais velhos e os mais fiéis ao Mestre.

— Fui eu que o matei – contestou o magrelo. — É direito meu ter o maior quinhão.

— Ousa me enfrentar, seu verme? Quer ser o próximo? Você não é páreo para mim. É magro, mas seguramente tem mais carne que esta coisinha desprezível.
Acuado, o esquálido se afastou e só retornou quando o Protetor saiu e os pequenos tentaram comer também.


— Fora! É minha vez! Fora ou devoro vocês também. Pensando melhor, quase não há mais carne nesta carcaça...

Fechei os olhos e tentei ignorar os gritos, enquanto o Guardião da Moral abatia um dos pequenos sem dó.

Uma outra semana se passou e, quando retornei ao meu posto de observação, só vi os três. A Graciosa muito abatida, o Estúpido Otimista e o Guardião feridos e cansados demais. Nem ossos dos quatro pequenos podiam ser vistos pelo chão.

Neste momento; uma surpresa! Um ruído nos portões, um barulho de arrastar malas pesadas, de abrir as portas da frente, de passos duros pelos cômodos e na cozinha, seguidos do roçar de chaves girando na porta que dava para os fundos.

— O Mestre! – Gemeram todos os três, quase em uníssono.

No entanto, não havia mais aquela adoração fanática, não havia mais dúvidas sobre o amor ou a santidade do amo. Unindo suas forças combalidas, os três atacaram o homem gorducho e de meia idade, que gritou e tentou fugir.

A Graciosa, ah, ela saltou com agilidade e cravou os dentes no pescoço gordo e odioso. O Guardião e o Otimista flanqueram o Mestre, atacando suas pernas e braços, dilacerando seus membros facilmente. Quando o homem caiu, numa união de objetivos que chegou a me emocionar, eles se concentraram no pescoço e destacaram a cabeça, que finalmente parou de berrar. Arrastaram o corpo até o quintal acimentado e coberto de fezes e o devoraram, ávidos, por várias horas depois.

— A carne do Mestre é apenas carne; nem melhor ou pior – foi a última coisa que escutei, ao abandonar o topo do arbusto que ficava junto do muro da Grande Prisão Amarela.

Mais tarde, enrodilhado e aquecido num pedaço de pano numa varanda que invadi, refleti sobre a fé e sobre os homens e os cães. Depois, me esqueci daquela bobagem e, escutando o ruído reconfortante de meu próprio ronronar, dormi um sono tranquilo sem pensar mais no destino daqueles infelizes.

3 comentários:

raylsonbruno disse...

Perfeito. Me prendeu do início ao fim... bela metáfora! Belíssima!

Rubem Cabral disse...

Obrigado, Raylson. O conto foi inspirado num acontecimento real.

Abraços!

Monstrinha disse...

Uma combinação pereita de metáfora e ironia!
Eu prefiro nem observar o que acontece dentro desses muros, pra não morrer de raiva, ou de pena, ou de mandar irem todos pra PQP!