quarta-feira, 27 de abril de 2011
Narrativas
Como sabemos, a narração é a base de todo texto em prosa. Estamos portanto acostumados a alguns tipos de narrador: ao narrador-personagem, a narração em primeira pessoa, narrador com opinião, etc.
Permitam-me então tentar sugerir algumas variações narrativas a partir de alguns exemplos:
“Neste momento Carla bate à porta de Felipe. Ele não sabe, mas ela comeu um pacote de salgadinhos de alho e cebola no caminho e ainda assim planeja beijá-lo passionalmente. Carla também desconhece que Felipe acabou de ir ao banheiro e não lavou as mãos, tampouco escovou os dentes hoje. Mas nada disso realmente importa: já que Carla morrerá no meio do quinto capítulo, atropelada por uma bicicleta em frente a uma casa xadrez. Felipe acabará por conhecer Luíza antes do epílogo e se casará com ela, sem notar que esta é na verdade sua mãe biológica, que o concebeu depois da operação de mudança de sexo. Antes que eu continue com a narração, você pode atender o telefone que eu espero: a propósito, é Marineide Freitas, a insistente moça do telemarketing daquele cartão de crédito que você não sabia que queria, mas que ela insiste que você necessita feito o ar que respira. Você desligará o telefone de propósito depois do quarto estaremos transferindo sua ligação.” (Narrador super-onisciente)
“Chovia copiosamente sobre o casebre de madeira que mal mantinha-se de pé no alto do barranco. Aliás, não! Fazia um sol de rachar naquele dia e tratava-se de uma mansão de trinta cômodos e não um casebre! Ou será que nevava copiosamente sob um sol de rachar e o casarão, carcomido feito um casebre, ameaçava desabar? Um instante, eu, eu... Ah, aproveitei sua distração e transferi quinhentos reais da sua conta para a minha, ok? Fui!” (Narrador absolutamente não confiável)
“Um estranhíssimo cenário descortinou-se diante dos olhos incrédulos de Lorena Bobbitt. Bem, hoje não estou com muito saco de descrever. Então façamos o seguinte: imagine você seu cenário esquisito. Sei lá, faça um esforço! Flamingos com máscaras gregas interpretando aquelas tragédias chatíssimas sobre carros alegóricos no Rio de Janeiro, dançando na boquinha da garrafa; seiscentos executivos trajando camisas listradas e suspensórios de couro, formando fractais com suas valises perfeitamente alinhadas; pterodáctilos mulçumanos desenhando símbolos cabalísticos nos céus de Pindamonhogaba. É estranho o bastante pra você?! É? E não adianta torrar minha paciência e querer saber o que Lorena fizera, o que vestia ou como se sentia! Não é tudo responsabilidade minha, falou?! Procura no Google!”. (Narrador über mal-humorado)
“O horrendo nascer de outro dia ensolarado anunciava através da janela a cruel extinção de qualquer possibilidade de alegria, por mais remota e efêmera que fosse. A pobre Maria da Lapa ganhou na Megasena acumulada, encontrou seu amor perdido e salvou sua mãe de uma doença incurável pela quinta vez, porém não poderia se sentir mais miserável, destituída de esperança e tomada da mais paralisante melancolia suicida.” (Narrador corno-depressivo)
“Lorenzo casar-se-iria-á se soubera-sse que Maria Eduarda finalmente voltara-ia-á-ando hoje/amanhã/há sete anos/se ela ao menos existisse.” (Narrador viajante do tempo, causador de terríveis paradoxos temporais)
“Jaqueline soltou os cabelos, macios, sedosos e cheios, graças à ação das pérolas nacaradas de DNA vegetal do novo condicionador Nadura – um toque de natureza no seu dia a dia. Carlos Otávio, que passava defronte de seu escritório, não pôde deixar de sorrir. Galante, exibindo belos dentes brancos. Faça como Carlos Otávio! Clareamento a laser? Só nas Clínicas Dr. White. Facilitamos seu tratamento em até seis prestações sem juros. Dr. White: seu melhor cartão de visitas é seu sorriso.” (Narrador de livro custeado pela iniciativa privada)
“Nuvens maliciosas roçavam lúbricas os topos túrgidos das montanhas lascivas. Um vento morno, que cheirava a sexo, levantava folhas solícitas e lubrificava a grama num vai-e-vem que acelerava e acelerava, de forma rítmica e constante. Abelhas sodomitas e borboletas impudicas defloravam os botões voluptuosos ainda virgens, num zum-zum indecente, que causava o mais abundante jorrar do néctar, numa luxúria devassa, de proporções orgásmicas.” (Narrador completamente “atrasado”)
“O almoço do funeral deve ser minuciosamente preparado: numa terça-feira, dia doze, quando a Lua estiver na fase minguante. Além da futura morta que será servida à francesa conforme manda a tradição, serão oferecidos barquetes de cannabis para os Sionistas Sino-Nipônicos de Ogum. Pois, como todos sabemos, em anos bissextos, nas terças de Luas minguantes, esta é sua única alimentação possível. Isto claro, salvo quando da época do acasalamento dos sagrados besouros rutilantes coprófagos, quando leite de llama e sementes de girassóis almiscarados do Tibet são a outra única opção. Não se esquecer de convidar os Elementais do Sétimo Dia e os Concretistas da TFP. Saudar os primeiros com a mão esquerda, enquanto deve-se dirigir o olhar em direção a Meca e a Reykjavik ao mesmo tempo, saudar o segundo grupo cuspindo em seus olhos, para afastar os maus espíritos. Não permitir que os Anarquistas Marxistas do Mercado Livre ocupem o mesmo salão dos Gregos Ortodoxos Budistas Vegans, ou poder-se-á causar o inicio do sétimo jihad do politiburo-cosanostra. Entoar a Internacional para os Asgardianos e o hino do Vasco da Gama para os Mamoetanos Lusitanos dos Sagrados Últimos Dias.” (Narrador que leu Burroughs demais).
“— Gostaria de matá-lo, Ferry Vicious. Meu dedo treme junto do gatilho, porém não ouso disparar: além de protagonista e herói, infelizmente sou plano feito o tampo de uma mesa. Quisera eu ser redondo como a esbelta Mary McHeavens, sua ex-ajudante em todos seus planos nefastos: salvou-me de sua emboscada, ainda que ela soubesse que você a mataria, como realmente acabou fazendo. Seu maldito antagonista igualmente plano!
— Já que não pode atirar, honrado, justo e bondoso Jeffrey. O que me impede de fugir pela porta? Seus inocentes olhos azuis? – riu o vilão, cheio de escárnio.
— Little George está lá fora, armado com uma calibre 12. Embora ele seja o alívio cômico da história, seria bom que você se lembrasse de suas ações típicas e cínicas de anti-herói. Ele não hesitaria em mandá-lo comer capim pela raiz, ir para a terra dos pé-juntos ou lhe conceder um paletó de madeira!
Do lado de fora, no corredor, Little George praguejou baixinho pelo roubo de suas linhas de diálogos e possíveis tiradas de efeito cômico.
Resignado, Ferry Vicious deixou-se algemar e deixou a sala, cabisbaixo. Talvez o juiz seria de alguma forma condescedente, já que ele apenas agira o tempo todo conforme fora desenhado.” (Narrador professor de literatura aposentado)
“— Vossa alteza! Vossa alteza! O Principado Aliterático e o Ducado Hiperbólico acabaram de declarar guerra à nossa amada Sinestesópolis! – gritou o mensageiro esbaforido, cheio de desespero nos olhos.
— Mas como? Por qual razão? – exclamou o gorducho rei, já prevendo o gosto barulhento dos metais em sua boca.
— O Ducado jurou arrastar montanhas e, nem que demore um milhão de anos, irá nos fazer chorar rios de lágrimas! Príncipe Prinius proferiu profusas pragas pródigas em pruridos purulentos! Nosso reino já escuta o cheiro da morte vindoura, já tateia o clamor dos tambores terríveis!
— Que se escrevam cartas aos reinos amigos! À Onomatocity, Paradoxis, Eufemística.
Horas depois, chegaram as respostas:
“Tic-tac, tic-tac, aha, ha, ha! Glup! Oops, zummmm!”
“Se o auxiliássemos, iríamos contra nosso princípio pacífico. No entanto, se não o ajudarmos, iremos contra nossas leis altruístas. Por Deus, estamos paralisados!”
“Penso que em breve todos vós ireis viver junto da luz do Senhor. De qualquer forma, temo que a ausência de coragem de nossos guerreiros não seria lá de grande auxílio para evitar o fim da infeliz existência terrena de todos vós.”
O pobre monarca já farejava o escarlate e o negro dos uniformes dos exércitos inimigos quando o velho Pleonasmus, o rico comerciante de armas, apresentou-se e fez uma mesura.
— Não precisamos agir como cadáveres de um defunto morto que já morreu! – disse ele. Permita-me apresentar meu novo catálogo de armas táticas que fará o inimigo entrar para dentro de suas covas e nunca mais sair para fora!
A seguir, abriu folhetos coloridos sobre a mesa do salão.
— Bombas de antíteses: capazes de encher de vazio e calor o mais frio dos inimigos. Flechas envenenadas de ironia, escudos de ambiguidades, causadores de confusão e discórdia. Catapultas carregadas de anáforas, silepses, oximoros e cacofonias de todo tipo. Eles não terão chance! Fugirão como medrosos ratos covardes sem coragem que temem a própria sombra!
Antevendo o trovejar em fuga dos exércitos inimigos e já degustando o sabor macio da vitória, o rei fechou negócio numa compra que praticamente arruinaria os cofres de Sinestesópolis." (Narrador professor de português de pré-vestibular)
"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado numa banana gigante. E pior: alguém certamente o havia caluniado, pois naquela mesma manhã, ele foi detido sem ter feito mal algum.
Berenice, sua empregada desdentada, adentrou o quarto com seu café da manhã numa bandeja e acompanhada de dois homens vestidos em ternos pretos. Nenhum deles fez menção de espanto à sua nova condição de alimento funcional, como se nada houvesse mudado com ele. Na janela do quarto, um corvo crocitava "nunca mais".
Percebeu o estrado da cama ferindo sua nova carne amarela e macia enquanto tentava subir as costas, empilhando os travesseiros. Sentia-se ridículo, vestindo o seu pijama listrado azul, tal qual personagens de um péssimo e antigo programa infantil.
Os homens começaram a beliscar de seu café, sem cerimônia alguma. Um era idoso, obeso e tinha um olhar determinado e cruel, como uma ave de rapina. O segundo era muito alto e magro, tinha um rosto comprido, queixo enorme, boca pequena e desgostosa e olhos nervosos.
– Chamo-me O’Brian – disse o gordo – e este é Howard – comentou apontando para o homem magro – estamos aqui para comunicá-lo do processo que está sendo movido contra o senhor.
– Apressa-te, O’Brian – falou o magro, com voz anasalada – não suporto mais pisar nesta fossa cheia de pitecantropóides viscosos e monstruosidades inomináveis e degeneradas.
– Processado? – indagou Gregório – Por quê? O que fiz? Quem está me processando?
O’Brian não exibiu expressão alguma no rosto, Howard continuou olhando para todos os lados, nervoso, preocupado em não tocar em nada.
O gordo foi até a cama, retirou a carteira do bolso e pôs um cartão sobre o lençol.
– Vá até o Castelo – disse ele – eles conhecem bem a realidade do partido. Podem te ajudar. Sua situação é dupliplusimboa, você corre o risco de se tornar uma impessoa.
– Realidade do partido? Como assim?
– A realidade corresponde aos desígnios do partido – respondeu o homem rotundo, de forma enigmática. Nos encontraremos outra vez num lugar onde não há escuridão.
Os dois colocaram os chapéus e saíram sem maiores explicações. Por alguma razão, Gregório teve a nítida impressão de que O'Brian flutuava no ar." (Narrador fã incondicional de Orwell, Kafka, Poe e Lovecraft)
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