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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Reencontro

Olá! Já nos conhecemos, embora você não se lembre muito bem de mim. Estou aqui para ajudar você, agora que sua memória é falha e alterna e mistura passado e presente. Vamos, segure minha mão e te ajudarei a recordar daquele momento especial, quando sua curta estrada pelo Jardim dos Caminhos Bifurcados ainda era reta e você finalmente ousou mudar o rumo das coisas.

Lembre-se dos cheiros: é importante. O olfato é um sentido poderoso e primitivo. O odor de ervas frescas plantadas nos fundos da velha casa: hortelã-pimenta, poejo, cidreira. O pé de louro do qual sua avó tinha ciúmes. O perfume que saía da cozinha cheia e quente, onde uma panela sempre fumegava algo delicioso. Recorde-se desta época sagrada do “nunca experimentei isto antes”. Das surpresas, da dentadura dos velhos em copos de água nas mesas de cabeceira, da colher de sopa com o cabo cortado para caber no açucareiro de alumínio, do recipiente de madeira pintado com desenhos infantis e cheio de licor caseiro de jenipapo. Quem hoje conhece tal fruta? Quem sabe o que é jamelão, carambola, araçá? Vamos, você pode fazer um esforço, traga de volta à tona as calças curtas de tergal do uniforme escolar, as meias brancas três-quartos e os sapatos Vulcabrás que duravam até você enjoar deles. O Sabidinho, a cartilha de Talita, o cachorro Xereta que usava um chapéu de Sherlock e que tinha olhos tristes. Lembre-se do tato, do musgo macio que crescia nos feios muros de concreto pré-moldado meio tombados, da pele fina e frágil da sua avó, do cheiro de velho, mesclado ao de loção pós-barba do seu avô, que sempre arranhava o seu rosto quando lhe beijava.
 
Você foi passar o dia com eles. Sua mãe foi comprar alguma coisa e seu ombro estava dolorido pela vacina tríplice que você tomara na véspera. “Nada de leite para ele. O médico recomendou evitar gordura.” Foi a primeira vez que você bebeu café puro, ainda que você molhasse o pão no líquido fragrante e quase melado de tão doce. Nunca mais você beberia café com leite.

Sem paciência com crianças pequenas, seu avô lhe arrumou um conjunto de praia: baldinho, pá, ancinho de plástico azul claro. Você encheu o balde de água e foi brincar nos fundos, perto do galinheiro que os velhos ergueram sob a sombra do imenso pé de jenipapo. Não se importava com vermes nesta época e você saira sem camisa, mas filtro solar também não existia. Crianças tinham lombrigas e tomavam purgante, se queimavam demais de Sol, viviam de joelhos esfolados e bochechas descascadas de tanto soltar pipa. Crianças eram crianças e não estas coisas pálidas e mimadas, que só conhecem a luz da TV e do computador, que não têm ideia do que seja pique, polícia-e-ladrão e que nunca pularam amarelinha.

Um pouco de água e você escavou um buraco no barro. Mais água e você notou o quanto aquela argila era flexível como a massa de modelar que você tinha em casa. Foi quando a ideia lhe ocorreu.
 
O lago que você cavou era o mais profundo lago do mundo, cujas águas cristalinas eram ainda mais claras do que as da Baía de Guanabara, que você vira na semana anterior, cheia de botos que acompanhavam a barca até Niterói. Tufos de capim faziam o papel de árvores, criando um bosque misterioso e cheio de perigos ao redor da vila. Casinhas piramidais, enfeitadas com pedrinhas achadas aqui e acolá, uma estrada principal, coberta de areia branca, que você trouxe da obra interminável que seu avô tocava junto do poço. Mas de que adiantava uma vila tão linda, tão perfeita, se esta não fosse habitada por gente amável? Com as mãos de dedos curtos e gordinhos, você criou cada um deles. O rei, o príncipe valente e seu cavalo, os camponeses e suas plantações e bichos. O monte de terra retirada para fazer o lago tornou-se o Everest e, abaixo dele, ficava o Vale Feliz.

Do outro lado do Everest espalhava-se a Amazônia, uma selva verde e impenetrável de árvores cujas copas eram tão altas que pareciam beijar o céu. Que importava se estas guardassem semelhança com couve, boldo, bertalha e outras plantas exóticas? Ali, naturalmente, viviam as amazonas e Safira era a líder destas mulheres valentes, que não tinham medo dos besouros gigantes, dos caracóis ou das formigas venenosas e vermelhas. Certamente era linda e orgulhosa e não queria se misturar ao povo indolente que vivia junto do lago.

Porém certo dia, quis o destino que o príncipe, que você muito propriamente batizou com seu nome, fosse atacado pela terrível fera gigante que lembrava uma cadela pequinês cujo pelo havia sido descolorado por seu tio adolescente. Ferido de morte, foi ajudado por Safira, que conhecia os poderes incríveis daquelas folhas que cheiravam a louro e hortelã.
 
Muito grato, o príncipe a beijou, feito os adultos faziam quando passavam uma semente pelas bocas, que depois se tornavam os bebês e então as barrigas das mulheres inchavam como melancias. Safira, assustada, fugira de volta para a selva, carregando no ventre o herdeiro indesejado e um amor com que não sabia lidar.

Seu avô, feito um arauto de maus presságios, já lhe chamara duas vezes para almoçar. Mas você havia cedido uma parte de sua alma ao povo do vale e da floresta. Não podia abandoná-los à própria sorte e apenas respondeu, “Já vou”, sem a mínima intenção de ir. Logo você criou uma mitologia complexa de costumes e lendas dos dois povos e as razões já quase esquecidas para o cisma que existia entre eles.

Rejeitada por seu povo, Safira fugiu para o Vale Feliz onde o rei a recebeu como filha e o príncipe a fez sua esposa. Seu bebê era uma mistura adorável dos dois, com olhos negros da mica que você raspou de um pedaço de granito. Uma cerimônia linda de casamento foi realizada, quando pétalas rasgadas de rosas e copos-de-leite cairam dos céus, cobrindo a vila de cores e cheiros maravilhosos. “Então viveram felizes para sempre”, você repetiu para si mesmo, feito um papagaio, imitando a voz de sua mãe.

Uma abelha, escondida entre as flores, picou sua mão. Não existe dor como uma picada de abelha, não? É como queimar em agonia sem poder apagar o fogo! Nem quando você quebrou o braço com onze anos, nem quando foi mordido pela cadela de seu tio quando esta teve filhotes pela última vez, você sentiu tanta dor. A mão inchava e você soluçava com o rosto vermelho e molhado, girando no mesmo lugar com os braços abertos e encarando o Sol. “Por quê? Por que, Deus?”, você se perguntava. E outra vez escutou seu avô chamar, desta vez muito mais irritado.
 
Gritando, você procurou a maior pedra que conseguiu erguer e a lançou contra o lago. Suas águas cristalinas subiram até as nuvens e caíram inundando a vila como um dilúvio bíblico, afogando os animais e destruindo as casas próximas. Feito uma fera, você fez os habitantes da Vila Feliz saberem o que era o medo, a ira de Deus. Você, que tanto fez por eles, que eles nem sequer adoraram ou fizeram sacrifícios por você. Ergueu o pé e Safira era agora apenas lama, o príncipe e seu pai ficaram agarrados como uma coisa só, amalgamados às ranhuras do solado de seu Vulcabrás. Elevou o braço e, com a mão dolorida, derrubou as árvores da floresta. Despedaçou os sonhos, destroçou o amor, cuspiu na face de sua criação.

Um pouco de gelo, uma pinça hábil, um algodão com mercúrio-cromo e alguns afagos fizeram você esquecer da dor. À tarde, antes da chuva lavar finalmente a Vila e a aldeia do povo da floresta, você retornou à sua casa, sem jamais se lembrar do que vez.

Algo se perdeu ali, você nunca notou, mas o amor cedido foi sincero, o ato de criação foi inspirado. Seu Éden foi olvidado, pisoteado pelos patos e galinhas quando sua avó os soltou enquanto clamava “ti-ti-ti-ti” e lançava milho dourado como maná que caía dos céus. A chuva apagou qualquer lembrança daquelas vidas efêmeras e você viveu a sua vida a partir dali, tomando decisões incorretas, que só causaram dor a você e aos outros.
 
E eis aqui você, velho, esquecido num asilo de terceira. Tão fraco que às vezes se urina no pijama que não é trocado e lavado com a frequência necessária para afastar o odor acre e o tom amarelado do algodão. Quando foi que você foi visitado pela última vez pelo seu irmão mais novo? Sem filhos, sem esposa ou amigos que sintam sua falta. De você, só se espera a notícia que causará alívio ao embaraço que sua existência ainda provoca, feito um fragmento de espinho enfiado sob a pele, que incomoda de vez em quando, mas que não é notado a maior parte do tempo. Seu irmão já ensaiou as frases para o telefonema fatídico, já pensou nos preparativos de seu funeral: o caixão mais barato a ponto de não se notar que teria custado tão pouco, as coroas feitas com bóias de isopor e flores tristes e recicladas, as faixas insinceras com aquelas declarações de praxe, que ninguém realmente teve a intenção de dizer.

Apenas me concederam este pequeno e mesquinho privilégio: o de testemunhar seus últimos momentos nesta terra e de lhe dizer que tudo poderia ter sido diferente. Que suas decisões moldaram seu destino, que você errou por estes caminhos no momento em que abriu mão de sua inocência, quando deu ouvidos ao ódio ao invés do amor, que nada estava escrito originalmente.

Sua mão está fria, sua vista, coberta de uma película esbranquiçada está turvando, mas talvez, se você me olhar bem de perto nos olhos, poderá reconhecer o mesmo tom da mica de uma certa pedra de granito que você achou no quintal de seus avós naquele dia.

Bem, o tempo urge e já estou satisfeito. Preciso ir. Espero que no além-vida suas recompensas sejam proporcionais a seus feitos em vida. Aliás, com todas as forças assim o desejo, se realmente existe justiça neste mundo. Chore se quiser: não adiantará.

Despeço-me aqui. Adeus, criador.

4 comentários:

raylsonbruno disse...

Desci correndo em uma escada em espiral enquanto lia seu texto e terminei com os olhos marejados...

raylsonbruno disse...

O negócio é o seguinte: Recebi um 'Selo de qualidade' e escolhi o seu blog para receber também...
Então aqui está! Copie-o, poste-o e indique outros blogs de sua alta preferência e que ainda não ganharam. É isto.

Pra entender melhor dê uma olhada nesse post!
http://raylsonbruno.blogspot.com/2011/03/ganhei-um-selo-ganhei-um-selo-ganhei-um.html

Monstrinha disse...

Nossa! Que conto terrível!
Quer dizer, ótimo! Mas terrível de assustador, de real, de triste.
Não consegui tirrar os olhos, como se fosse uma hipnose.
Muito bom mesmo!

O interessante é que voc~e faz o leitor se identificar com o menino, ganhar afeição por ele, e depois o joga a um futuro de velho abandonado, prestes a morrer.
Você ama e destroi o personagem, assim como àqueles bonecos de argila.

Anônimo disse...

Olá.. gostei do seu conto. Tocante.

Eu sou mais - nada muito original - aspirante a 'escritora' anônima. Escrevo para mim, para colocar anseios e angústias em ordem e desordem. Sempre escrevi para mim, mas andei querendo trocar um pouco, dividir.. sondar.

Se der, dê uma passadinha por ali, um blog bastante despretensioso, na realidade. Dos mais variados temas, e sempre - como não podia deixar de ser - humanos.

endereço: www.isanybodyoutthere.zip.net

Sorte!