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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Vésperas de Natal em Páscoa





"Alguns anos atrás, a prefeitura da cidade de Monza, Itália, proibiu que os donos de animais mantivessem peixes em aquários curvos. Os defensores de tal lei explicaram que era cruel manter um peixe em uma tigela, porque o vidro curvo daria ao animal uma visão distorcida da realidade." (A Ilusão da Teoria de Tudo – Scientific American – Outubro/2010 – Ano Zero do Evento)


Ximenita subiu lépida o monte coberto de relva macia, não muito distante de sua casa em Hanga Roa. Narval, sua fiel raposa de estimação, naturalmente a seguira. A mocinha de quase onze anos - já praticamente uma adulta, segundo suas próprias palavras - sentou-se ao solo e ficou esperando o cair da noite. Logo então o Sol se pôs por trás dos Moais e o céu, ainda tingido de cores vibrantes, exibia um curioso tom violáceo que ela tanto adorava. “Violeta-dia-e-noite”, era como a moça inventara de chamar tal cor, ainda que seu pai insistisse em dizer que o tom era o mesmo que malva ou lavanda.


Narval aninhara-se junto a seus pés, deitando sobre a cauda felpuda enquanto brincava de lamber e mordiscar seus sapatos, o que era ao mesmo tempo divertido e irritante. Ximena ajeitou seu cabelo vermelho, revolto de tanto vento frio e salgado que o mar trazia e deitou-se, para poder melhor observar as estrelas. Ali, do seu lugar preferido e secreto, longe das luzes do vilarejo, era possível discernir todas as constelações descritas nos seus livros e, com sorte – sim, hoje era um dia de sorte! – poderia ver uma estela cadente, como aquela que agora descia dos céus, fulgurante, rasgando o negro aveludado da noite com fogo e fúria e desaparecendo no mar, com um estrondo que só chegou quase um minuto depois aos seus ouvidos aguçados. Ficou ali, deitada mais alguns instantes, espantada e maravilhada em iguais proporções.


De longe, escutou o pai chamando-a e o cioso Narval já se levantara e pulava animado ao seu lado, latindo e puxando-a pela manga do frouxo casaco de lã.

– Narval, seu puxa-saco! Eu já vou, já vou!

Desceu o morro correndo, expirando nuvens diáfanas de vapor naquela noite fria, ansiosa por partilhar a novidade que testemunhara.

***


– Maria Ximena Gallino Velásquez! Estou chamando faz um tempão e a janta já tá esfriando. Onde afinal você se meteu, sua serelepe?


O pai só dizia seu nome completo quando estava bravo, mas chamá-la de serelepe era sinal também que ele não estava tão bravo assim.


– Ah, pai... – disse baixinho, enquanto inclinava a cabeça e girava a ponta de um dos pés, dengosa - Nossa, eu vi uma estrela-cadente linda, grandona! Caiu no mar e fez um barulhão depois: buuuum! Puxa, o senhor tinha que ter visto.


– Humm, não deve ter sido uma estrela-cadente de verdade então – respondeu, enquanto recolhia e pendurava o casaco da filha - pode ter sido um meteorito ou, muito mais provável: outro satélite que caiu por falta de correção da órbita. Ah, nem pense em sentar pra jantar sem lavar as mãos, Rojita! E trate de botar o Narval pra fora!


A ruiva fez beicinho e obedeceu. Voltou, sentou-se à copa e farejou o cheiro agradável que vinha da cozinha pequena e aquecida. Desde que sua mãe morrera, há uns seis anos atrás, o pai assumira quase todas as tarefas domésticas, apesar do duro expediente diário como o médico da vila.


– Que cheiro bom! O que o senhor fez?


– Bife de baleia, purê de inhame e fruta-pão assada. Tem também um resto de salada de soja do almoço.


– Baleia? Droga, é quase só o que comemos: carne-seca de baleia e peixe! Cadê aquele pedação de foca que o senhor comprou ontem?


– Não seja ingrata e dê graças pela comida que temos hoje. A foca é para a ceia de Natal, já se esqueceu? Amanhã temos que jantar na paróquia e eu fiquei de levar um assado.


Ximenita remexeu a comida e elevou o garfo, tendo espetado em sua ponta um pedaço de bife e parou no ar, enquanto enrolava o cabelo com a outra mão e tinha os olhos claros meio perdidos num ponto qualquer da parede. O pai sorriu: ela sempre fazia isto quando queria muito perguntar alguma coisa.


– Por que as pessoas enviavam máquinas pro espaço, pai? Por que elas tão caindo agora?


– Eram máquinas de comunicação – falou de boca cheia - você já não aprendeu isto nas suas aulas de história?


– Não. Dona Conchita fica enrolando a gente, contando sobre gregos e romanos, Egito e um monte de lugares que nunca ouvi falar. Me contaram que foi por causa da peste, mas nem sei direito o que é isso.


O pai suspirou e cerrou o cenho de leve, exibindo uma expressão preocupada. Conversar sobre o tempo da peste era um tabu comum na ilha.


– Termine a sua comida e a gente conversa na sala depois. Você já é crescidinha e acho que já tá na hora de conhecer nosso legado.


– “Lê”, o quê? – sorriu.

***


Deitada no sofá, com a cabeça na fofa barriga-travesseiro do pai, enquanto ambos compartilhavam gostosas colheradas de uma cumbuca de doce de banana, Ximena aguardou seu Andrés Gallino continuar a história.


– Como você sabe, nem todas as pessoas são boas, Ximenita... – começou, fazendo alusão à uma briga importante que tivera com sua ex-sogra - O mundo era enorme e complicado antigamente, extremamente rico e evoluído, cheio de máquinas fabulosas como o satélite que você viu cair, mas também muito perigoso, muito violento. Acredita que houve um tempo em que as pessoas queriam matar umas as outras por motivos estúpidos, como por causa da cor da pele, porque rezavam para deuses diferentes ou só porque tinham opiniões que não combinavam? Pois bem, seu tataravô Juan foi um homem muito bom e que tinha um medo terrível: de que o mundo viesse a acabar. Ele sabia que a guerra e a intolerância um dia levariam todos os homens à extinção e vivia em constante alerta sobre tudo de grave que acontecia no mundo. Meu bisavô foi um grande cientista, feito já te contei mais de uma vez: fez pesquisas que ficaram famosas, como a que finalmente explicou como a domesticação modificava a genética de algumas espécies. Taí o Narval e todas as outras raposas da ilha, que não me deixam mentir.


– Então as pessoas não tinham raposas de estimação naquela época?! – espantou-se - Que absurdo!


– Pois é, mas como eu contava, num lugar chamado África do Sul, durante o quarto governo consecutivo de um presidente negro, um homem, acho que se chamava Daniel van der Waals ou van der Walls, desenvolveu secretamente uma arma biológica. Ele descobriu como um vírus poderia atacar e matar somente pessoas que tivessem certa característica genética, quero dizer: no caso, algo que só mataria os negros, a quem ele odiava com todas as forças. Para isto, ele alterou um vírus terrível chamado Ebola e o combinou com muitos outros vírus, como o do resfriado e o de uma doença que existia na época, denominada AIDS. No dia quatro de Outubro daquele ano, bem, pelo menos foi a data que estimaram depois, van der Waals espalhou aspersores carregados com seu vírus nos centros de algumas cidades importantes da época: Joanesburgo, Pretória e outras cujos nomes não me lembro agora.


– E o que aconteceu? As pessoas ficaram doentes?


– Sim, é claro. Em alguns dias, somente as pessoas negras e mulatas começaram a adoecer. O tal vírus, que ele graciosamente batizou de Killnigger, se espalhava pelo ar, através dos espirros e da tosse, feito resfriados comuns. Causava hemorragias fortíssimas e matava em menos de dez dias. O Dr. van der Waals ainda comemorava em seu esconderijo os resultados, quando a doença evoluiu e começou a matar pessoas de outras raças e, depois, animais domésticos também.


– Que horror!


– O louco se esforçara em criar um vírus que fosse difícil de se combater, mas ele não esperava que este sofresse mutações tão rapidamente. As cidades logo entraram em colapso, o pânico se espalhou e todas as pessoas, não importa a cor, começaram a morrer, assim como todos os outros mamíferos também. Na África existiam então animais selvagens incríveis, lindos mesmo, como os leões, zebras e elefantes, sabia? Tantas pessoas, tantos animais. À exceção dos cetáceos, focas, morsas e das raposas, todos os outros mamíferos morriam. Simplesmente, cem por cento de mortalidade! Felizmente, ainda antes da doença chegar às Américas, meu bisavô reuniu todos os seus recursos, convenceu a alguns amigos cientistas, militares e técnicos e eles fugiram num grande navio, rebatizado como “El Arca”, abarrotado de plantas, sementes e animais, fugiram então com suas famílias, para cá, para a Ilha de Páscoa.


– O Umbigo do Mundo – brincou, exibindo o próprio umbigo.


– Isso! Nossa Rapa Nui, tão isolada e distante do resto do mundo que estaria protegida por um tempo. Juan convenceu às autoridades da ilha e o governo local declarou uma feroz quarentena, passando a não mais permitir que barcos ou aviões, oriundos de qualquer parte, pudessem ancorar ou pousar. Já aqui na ilha, Gallino e outros cientistas estudaram diversos animais para tentar descobrir o que lhes dava imunidade ao Killnigger. Foi então, vacinando toda a população da ilha, que sobrevivemos quando a doença finalmente chegou, cerca de quarenta anos depois de ter se espalhado na África. Mas, apesar de tanto empenho, ainda assim milhares de pessoas morreram, inclusive o pobre Juan. Perdemos também muitos animais: todos os cães, gatos e ovelhas, por exemplo. Na época, já não havia mais comunicação com o resto do mundo e nunca mais captamos transmissões de TV ou rádio. Seja lá o que aconteceu lá fora, hoje, passados mais de cem anos, nós só podemos acreditar no pior.


A menina tentou, mas não conseguiu imaginar o mundo externo, quase um milhão de vezes maior que os cento e setenta quilômetros quadrados do seu aparentemente enorme lar, coberto de cadáveres de pessoas e animais.


– E ninguém mais foi para fora da ilha, pai?


– É um tipo de segredo, filha, pois o risco era enorme. Você não deve por enquanto comentar com ninguém, mas há cerca de três meses, um grupo de voluntários muito corajosos alcançou a antiga cidade de Valparaíso. Eles estão lá desde então e têm mantido contato constante conosco através do rádio. Não encontraram sobreviventes, mas não sofreram efeito algum do vírus. Em breve, acreditamos que poderemos voltar a habitar o resto do planeta outra vez! O mundo quase acabou, Rojita, mas graças a Gallino e a nossa coragem e persistência, o homem terá uma segunda chance, ainda que sem merecer.


A conversa se seguiu com muitas outras perguntas, porém, depois que a menina começou a bocejar e a cochilar, o pai a fez escovar os dentes e ir se recolher.


Já em seu próprio quarto, Andrés refletiu sobre a versão atenuada que contara à filha. Deus queira que ela nunca tenha acesso aos DVDs das reportagens da época – pensou – que jamais visse as ruas cobertas de cadáveres, vazando sangue como esponjas encharcadas e as pessoas se pisoteando feito gado irracional ao fugir em pânico das cidades. Os livros relataram que somente o metano exalado pelos corpos fez subir a temperatura no globo em cinco graus no primeiro ano. Mesmo na ilha, chuvas torrenciais e secas devastadoras quase finalizaram o trabalho que o vírus não logrou fazer. Nos dias atuais, apenas quinhentas e sessenta e três pessoas separavam o gênero Homo da mais completa extinção.


Pensativo, alisou a cabeleira já prateada, retirou uma chave do bolso, abriu a última gaveta do lado esquerdo de sua escrivaninha e leu para se confortar até que o sono chegasse.

***


O salão principal da Paróquia de Santa Cruz de Isla de Pascua estava caprichosamente enfeitado naquela noite de véspera de Natal. Guirlandas feitas de estrelas do mar estavam penduradas nas paredes e uma bandinha tocava jingles natalinos, salsa e cueca. Ao fundo, uma mesa imensa, feita de tábuas apoiadas em cavaletes, estava coberta de guloseimas: peru assado, pastel de choclo, chupe de loco, centolla grelhado, humitas, bolos e, claro, o famoso assado de foca de Andrés Gallino.


Os adultos bebiam vinho com moderação, visto que era muito caro e difícil de produzi-lo na ilha, as crianças corriam para todos os lados, envolvidas nas brincadeiras promovidas pelas professoras.


Ximenita trajava seu “vestido de sair”: malva como o céu indeciso entre a luz e a escuridão e conversava com um menino moreno de ascendência Rapa Nui. Já iam sair para brincar de por o rabo no burro, quando Don Gallino surgiu de repente, pediu licença e fez um pedido:


Rojita, preparei um molho de frutas pra servir com o assado e, na pressa, esqueci completamente. Deixei numa panelinha tampada sobre o fogão. Você faria um favor ao papai e poderia ir buscar pra mim?


A garota não pensou duas vezes e saiu em disparada, no afã de agradar ao pai. Já estava mesmo um tanto enfadada e não conseguiria comer mais de tantas coisas que as senhoras insistiam que provasse. Ao se aproximar de casa, foi recebida entusiasticamente por Narval, que não parava de latir, pular e se urinar de alegria. Ximenita já ia sair com a panela, quando uma súbita lufada fria de ar a convenceu a subir ao quarto para pegar um agasalho. Passou pelo quarto do pai, que distraído, esquecera um abajur aceso e entrou para apagar. Sobre a escrivaninha dele, mal disfarçado sob uma pilha de papéis, repousava uma espécie de livro-diário de aparência antiga, que ela nunca vira antes.


Fotos antigas, já muito apagadas e amarelecidas e anotações feitas com uma letra caprichosa, estavam distribuídas em abundância por todas as páginas. Folheou, curiosa, embora não conseguisse entender os termos técnicos: “[...] -31C e -511C: confirmados que tais alelos selvagens recessivos dos vulpinos e dos cetáceos não permitiram a adesão molecular dos receptores virais [...] grupamento CD32 [...] simulações computacionais da vacina falhando miseravelmente [...] risco iminente de contaminação através de aves migratórias. Como salvar a humanidade, meu Deus? [...] Vacinações periódicas com placebo para evitar o pânico: medidas desesperadas em tempos desesperados[...] Ramón Fernandez e Kirsten O’Hara defendem a criação de um banco de óvulos e esperma [...] Será que a ética é sempre a primeira a deixar um navio que afunda? O que ainda ousaríamos fazer?”. Já ia fechar o livro e pegar o casaco em seu quarto, quando uma foto grande e ainda excepcionalmente nítida, focando os passageiros do “El Arca”, chamou-lhe a atenção. Lia-se sob a foto: “Juan Gallino Martín e amigos no Porto de Hanga Roa – 24/12/2010 – dia um do ano zero”.


– Ma-mas, como é que... – exclamou a menina, sentindo o chão faltar-lhe – Não, não é possível! – gemeu, sem entender.


Correu para seu quarto, com Narval seguindo-a e choramingando solidário. Sentou-se à penteadeira em prantos e a raposa subiu-lhe ao colo para lhe lamber as lágrimas. A horrível foto daquelas pessoas não lhe saía da cabeça: as pequenas e estranhas orelhas, os sorrisos, cheios de dentes arredondados, as faces nuas e pálidas e os olhos... tão, tão inumanos! Ximenita olhou seu reflexo no espelho e sentiu um arrepio de gelar o coração. Abraçou Narval e, por algum tempo, os quatro olhos amarelos e de pupilas verticais e vulpinas piscaram juntos e fitaram, assombrados, o produto da ousadia e gênio do tataravô Juan Gallino.

1 comentários:

Cemitério Pop disse...

Ola.... adoro contos, e queria te falar q tbm tenho um blog de contos, se puder, dar uma olhadinha, espero q goste... www.cemiteriopop.blogspot.com