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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Revolta nas páginas 422 e 423

-se, sozinha, numa torre escura e fria do castelo.

A menos de cem quilômetros de sua saudosa Oslo, Príncipe Bryan saltou de seu fiel Appaloosa e contemplou o vale abaixo. Por quase quinze minutos, meditou e relaxou sob o generoso Sol de Janeiro. Seus olhos pareciam nunca se cansar de admirar as encostas cobertas de vegetação abundante, verdes de tantos olmos, tílias, plátanos, tamareiras e loureiros. Os lagos lá embaixo já estavam enfeitados de nenúfares e vitórias-régias.

Escutou um ruído oco e sacou a cimitarra da bainha. Girou o corpanzil e estranhou ao ver um homem desconhecido, a frente de um grupo mais distante de pessoas e animais, embaçados, como se vistos através de neblina.

- Não se aproxime, jovem! Ou provarás o aço de minha espada, a mágica e terrível Stormyweather!

O homem continuou caminhando em sua direção. Usava um chapéu curioso, meio caído sobre o rosto e um casaco com gola alta, mantendo assim o rosto na penumbra.

- Não é preciso violência, Príncipe Bryan. Eu não ofereço ameaça alguma. Vim, em verdade, propor um negócio.

- Não farei negócios com estranhos, tenho meu reino a reconquistar. O tirano Belchior ocupa o trono de meu pai, após tê-lo assassinado de forma covarde.

- Príncipe, será que tu és tão ignorante? Não notaste nada de estranho? E que fala mais horrível foi esta? Péssimo diálogo também: todo o reino sabe da morte de teu pai e da tirania de Belchior.

- Como ousas? – bradou Bryan, já sentindo faíscas aflorando do metal de sua cimitarra.

- Eu li, senhor. Eu li! Nós, os personagens secundários, os sem nomes, os sem feições definidas, que aparecemos e sumimos sem maiores explicações. Nós temos muito tempo e eu li. E saiba, ó Príncipe! Está tudo errado!

- Quem és? Fala agora ou juro que...

- Eu sou o cocheiro, lembra-te? “Ao chegar na estalagem O Porco Eslavo, Bryan foi auxiliado pelo ruivo cocheiro, que levou seu alazão para beber e comer”. Sem descrições quanto ao resto de minha aparência, sem traços de personalidade. Veja! – disse o rapaz, retirando o chapéu e abrindo a gola do casaco – Sem feições! Só este cabelo vermelho e esquisito.

- Demônio! De onde sairdes?

- Nem conjugar corretamente tu sabes? Para começar: Bryan?! Isto lá é nome de príncipe norueguês? Veja, até hoje, eu só vi fotos de cavalos Appaloosas em livros sobre o Velho Oeste. O clima está errado também: em Janeiro faz um frio de lascar em Oslo. Nem a pau daria para plantar tâmaras ou vitórias-régias. Outra coisa: cimitarras são típicas dos povos árabes! Dããã! O senhor já se olhou no espelho?

- Claro que já me olhei. O que há de errado comigo?

- Tudo! Olha só, o senhor nunca foi ao dentista, come só carne e bebe hidromel aos litros. No entanto, parece um atleta, não tem um dente escuro, parece que saiu de uma sessão de clareamento a laser. O cabelo tem jeito de que é cuidado e lavado com xampus caros. Na Idade Média, as pessoas eram mais baixas, mesmo poucos nórdicos seriam tão altos como o senhor. Todo mundo tinha piolho, sarna, dente podre e morria cedo de tanto colesterol no sangue.

- Eu... eu posso ter tido sorte, posso ter sido abençoado pelos deuses – balbuciou o príncipe.

- Nada disso! Eu já descobri tudo! O porquê do senhor usar armadura de cavaleiro cruzado em pleno reinado dos Vikings, o porquê dos nomes esquisitos de tanta gente: Jezebel, Belchior, Bryan – ao dizer o último, o cocheiro deixou escapar uma risadinha.

- Fala-me, homem! Conta-me o que descobirtes!

- Somos personagens do primeiro livro de um escritor amador!

- Não entendi – disse o príncipe, com um ar de dar dó, nos olhos perdidos.

- Olha só – continuou o homem – Marinalva, Gwyneth! Venham.

Uma senhora muito bem vestida, com o coque no cabelo e um enorme nariz adunco e uma moça loura e pálida se aproximaram.

- “Gwyneth, sua querida e linda irmã, pálida como as manhãs nebulosas de inverno e com cabelos como campos de trigo, fugira para cantar na corte da Finlândia” – recitou o homem - “A velha Marinalva era uma babá tão rigorosa e religiosa, quanto feia: com seu nariz torto como um bico de águia” – será que já se esqueceu de sua irmã e de sua babá? A pobre Marinalva só pôde rezar desde que sumiu da trama da história, ficou fungando com este nariz horrível, sem chances de se casar com alguém. Gwyneth está sem voz, depois de ter cantado uma vida inteira e vai acabar pegando câncer de pele, pálida deste jeito numa Noruega onde faz um calor dos diabos em Janeiro.

Bryan caiu de joelhos e levou as mãos ao rosto. Tudo agora fazia sentido.

- E o que tu propões, cocheiro? O que devemos fazer?

- Já reuni os outros personagens: o dragão, o pessoal da estalagem, as cantoras de ópera da corte, Belchior e até o fantasma do teu pai. Vamos fugir, aproveitar que estas páginas 422 e 423 estão grudadas, conspirar e fugir neste espaço que temos. Largar este maldito autor incompetente. Com sorte conseguiremos uma vaga no Senhor dos Anéis, na Bússola Dourada ou em Stormbringer. Não teremos que passar vergonha quando a crítica descer o pau nesta porcaria. Está comigo, irmão? – indagou, oferecendo a mão para um high-five.

- Já é – disse o grandalhão.

***

- Maldição! O livro tá todo em branco a partir da página 424! Putz, ainda tem páginas coladas. Que bela porcaria que a gráfica aprontou!

4 comentários:

DanielFolador disse...

Ficou muito bom! O começo realmente me estranhou com o sol de janeiro e os nomes tão... bleh. Depois que tudo foi explicado, o conto ficou muito original e interessante. Parabéns!

Heitor V. Serpa disse...

Hahahaha, ótima crítica cara. Quem nunca caiu nestes "erros" que atire a primeira pedra.

Angela Nadjaberg Ceschim Oiticica disse...

Muito, muito bem imaginado...

nynna disse...

Genial!! adorei ;D
Seu blog é perfeito, os contos são ótimos. Tem mais uma seguidora fiel :)