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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A obesa


Marina levantou-se do seu leito, enfraquecida. O estômago rugia; exigindo, demandando alimento. Mas ela seria forte, não cederia a tal impulso animal. Não enquanto ela fosse aquele monte patético de banha, não enquanto a barriga e os seios fossem apenas dobras como no corpo de um anelídeo gigante.

O espelho oval de quase dois metros de altura estava na sala, coberto com um lençol. Caminhou até ele, lentamente, tentando não desmaiar de fraqueza.

Afastou o tecido estendendo o braço adiposo, flácido, exibindo franjas de gordura crescidas como pólipos num recife.

Fechou os olhos e os abriu e lá estava ela: aquela criatura imensa, de olhos bovinos, quase escondidos no meio da ampla face, olhando-a de volta. Seu queixo não era discernível, confundia-se com a papada que descia em duas dobras até o colo do peito. A barriga cobria-lhe o sexo, notou com tristeza. Mesmo sem roupas, não ficava nua.

Sentiu uma fisgada no abdômen e salivou quando um cheiro bom de comida entrou pela janela. Seus sentidos estavam apurados pela fome, podia precisar o perfume de alho frito, de feijão, carne assada e de pão fresco que insistiam em tentá-la. “Malditos vizinhos, maldita gente normal, que pode comer e não inchar e engordar como um monstro.”

“Poderia ir à geladeira pegar alguma coisa”, pensou. “Algo leve, um copo de iogurte light ou gelatina...”

Orgulhou-se porém de sua força de vontade quando abriu a geladeira e ignorou os alimentos. Apenas encheu um copo de água e bebeu.

Voltou à sala e tentou ignorar o reflexo do monstro no espelho. “Um metro e setenta, duzentos quilos. Duzentos quilos de excessos, de falta de disciplina e de amor próprio.” , refletiu com tristeza.

Sentiu um zumbido no ouvido e a vista turvou enquanto o piso da sala brincava de gangorrear sob seus pés. Caiu, gelada; esparramada sobre o tapete. Arrastou-se com dificuldade, tinha que alcançar o telefone, tinha que ligar para alguém...

***

A ambulância chegou a tempo, rapidamente administraram soro glicosado com eletrólitos em suas veias. Já estavam acostumados àquela rotina: era a terceira vez que socorriam àquela pobre e magérrima moça anoréxica. Já tinham a sua ficha: Marina Oliveira, vinte e um anos, um metro e setenta, trinta e oito quilos.

sábado, 7 de novembro de 2009

Solarium 2


Pessoal, próximo dia 14/11 será lançado o livro Solarium 2. Participo do livro junto com vários outros autores com dois contos inéditos neste blog : "O Espelho" e "Beta Teste".


Além da capa linda que vocês podem ver acima, há belíssimas ilustrações complementando os contos e fora a participação de inúmeros autores extremamente talentosos.


Quem puder, divulgue o livro por favor. Vamos fazer deste lançamento um grande sucesso.


Abraços!