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sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Poço




Rodrigo é só um menino e olha para dentro do poço. Ele sente a umidade no musgo que cresce sobre as pedras. Ele observa a escuridão plácida da água sempre fresca. Ele tenta em vão enxergar o que há no fundo. Mas a água é negra - embora límpida.

O poço é profundo e antigo. Mais antigo que Rodrigo. Mais antigo que qualquer coisa na propriedade. Rodrigo olha para dentro do poço, mas o poço também o observa. E espera.

A paciência é infinita quando a fome é secular. Quando sua existência é medida em eras e não em anos.

Um instante se passa e Rodrigo é um homem adulto. E, sem muito esforço, sobe baldes e baldes de água todos os dias.

Um piscar de olhos e ele é um velho alquebrado, que se esforça para puxar a corda e fazer a roldana do poço girar. Para fazer subir o balde de água fria que mata a sede. Para gozar mais uma vez da dádiva que o poço provê.

Mas o velho Rodrigo já não tem mais forças e o piso de pedras já está gasto demais. Rodrigo escorrega e precipita-se para dentro da água escura.

Os gritos são abafados. A escuridão é densa. A água é fria demais.

Um minuto depois e há outro menino olhando para dentro do poço. Mas o poço é paciente. Ele sabe esperar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Carta



Diogo, sem ter muito o que fazer, resolveu ir à loja de livros usados. Folheava os livros da mesa onde eram vendidas as ofertas especiais por 1 real a unidade. Separou "A Ilha do Tesouro", "A Máquina" e "O Livro dos Mortos".

A leitura leve e divertida dos dois primeiros livros lhe distraiu por alguns dias. No domingo, começou a folhear o terceiro. Havia um espessamento entre algumas páginas que estavam coladas. Separou-as com uma faca e, para a sua surpresa, encontrou uma carta fechada e amarelecida. Não havia remetente ou destinatário no envelope.

Abriu o envelope e encontrou uma carta escrita à mão. A caligrafia era ruim, as letras inclinadas para à esquerda eram vagamente familiares.

"A quem possa interessar.

Escrevo porque sinto a necessidade de alertar. Sobre os perigos inesperados que residem em cada olhar apaixonado. Sobre a perda que é dolorosa demais para compensar os dias em que conheci a felicidade mais completa.

Lembro-me muito bem do dia 22 de setembro de 2009…"

Que louco! Pensou, Diogo. Hoje é 26 de abril de 2009! Deve ter escrito o ano errado, sei lá.

"Por alguma razão completamente improvável, encontrei naquele dia Joana, no centro da cidade, às 23:00 em ponto. Improvável, porque eu já havia ido para casa e só tinha ido ao centro por causa de um telefonema da empresa, solicitando meu suporte urgente. Improvável porque eu ainda não a conhecia e ela não morava no centro. E ainda improvável, porque ela não deveria dar atenção a um estranho que esperava à porta da empresa pelo vigia, num lugar extremamente mal-frequentado em tal horário.

Mas, ela escutou minhas gracinhas sem graça com bom-humor. Conversamos ali por minutos que pareceram horas e trocamos nomes e telefones.

Dizer que conheci a felicidade então, é impreciso. Não há como colocar nestas linhas o quanto minha vida mudou a partir daí.

Sobre quantos segredos compartilhamos, sobre as tantas vezes que rimos juntos e as poucas em que choramos.

Ela era tão transparente e sincera e eu tão esquivo. Eu a admirava, queria me integrar a ela, ser um só se possível. Passamos os anos seguintes sempre juntos, olhando nos olhos e se espantando com tanta felicidade.

Cada nova casa que habitamos, cada nova planta ou bicho de estimação tinham o seu toque; uma fração de sua alma.

Mas em 15 de novembro de 2015, ela resolveu visitar sua mãe e, ao atravessar a avenida distraída, o destino a veio roubar de mim.

E eu, quase um ano passado desde a sua morte, olho para o vazio que ficou e penso que, embora vivo, já morri. Coloco então esta carta entre as páginas do "Livro dos Mortos" e espero que meu alerta sirva para todo aquele que ousar viver um amor como o que eu vivi. Que tudo é efêmero, que nada é garantido. E que apenas o vazio poderá te consolar no final.

Rio de Janeiro, 02 de novembro de 2016
Diogo Souza."

Diogo sentiu um arrepio repentino ao notar o porquê a letra lhe era familiar e o porquê das datas estarem localizadas no futuro. Não perdeu tempo em tentar entender o impossível, mas apenas encheu-se de dúvidas sobre como evitar a tragédia que lhe aguardava no futuro próximo.

Simplesmente deveria ignorar a ligação do trabalho no dia 22 de setembro? Deveria ir e apenas observar Joana de longe? Aquela que seria um dia o seu grande amor?

Os meses se passaram e, no dia 22 de setembro de 2009, Diogo estava lá às 23:00 em ponto, com um ramo de flores na mão, disposto a correr os riscos que fossem necessários…

terça-feira, 21 de abril de 2009

Presas e Predadores


Bem, eu sempre gostei de contos de terror. E, em especial, dos que mexem com nossos medos mais primitivos. Espero que este lhe perturbe o sono!





"A única certeza na vida é a morte. E a única certeza na morte é que ela não será indolor. Mesmo que na cama, durante uma noite de sono. Mesmo assim, certamente haverá a sensação de sufocamento, o aperto no peito, a sensação de queda súbita em direção ao vácuo escuro e infinito. Não há nada pior do que a morte. O fim de tudo, o esquecimento. Do pó ao pó".

Jonas sempre foi fascinado pela morte e a temia acima de todas as coisas. De família tradicional e abastada, vendeu tudo o que sua falecida mãe lhe deixou: propriedades, carros, ações, empresas. Só lhe interessava o dinheiro vivo, que pudesse financiar seu projeto.

Sua mãe, conhecia sua natureza e o controlava com mão-de-ferro. Mas ela não estava mais aqui e, agora era sua vez de fazer o que sempre quis.

Jonas tornou-se um serial-killer bem-sucedido. Extremamente organizado e paciente, jamais esteve sequer perto de ser surpreendido ou preso. Saía agora de sua terceira casa alugada em 3 anos, sob um terceiro nome falso. Com apenas 30 anos, tingiu os cabelos de branco e os raspou parcialmente para parecer calvo. Já fora louro, ruivo e moreno.

Havia deixado tudo preparado outra vez. O corpo comprado de um indigente no IML sentado no sofá da sala tinha seus documentos. No porão da casa, meticulosamente arrumados e dispostos, jaziam em freezers separados os corpos de dois meninos e duas meninas. Não crianças quaisquer, mas crianças que atendiam aos seus critérios restritos. Havia feito o mesmo em Santo André e São Bernardo e agora em São Caetano do Sul.

Tinha a necessidade extrema de ordem. Somente dois meninos e duas meninas por cidade. E, por capricho, resolvera seguir a ordem alfabética e dirigia-se agora à Diadema. Logo, logo o cano de gás deixado aberto explodiria tudo e apagaria suas pegadas mais uma vez.

Na estrada, um rapaz mulato de uns 16 anos e de extrema beleza e sua irmã sorridente pediam carona, mas eles os ignorou porque não lhe agradavam os escuros de pele ou os adolescentes.

Num semáforo na entrada de Diadema, um menino de feições asiáticas de uns 12 anos ofereceu-lhe balas para comprar. Estava acompanhado de sua irmã, linda e sorridente como um ícone nipônico. Novamente os dispensou pelas mesmas razões; muito velhos e da raça errada.

Ainda mobiliando a casa nova, esbarrou a caminho do shopping com um menino de uns 9 anos de mãos dadas com sua linda irmã mais nova. O menino pediu que lhes pagassem um sorvete. Morenos e de cabelos muito lisos, pareciam pequenos e lindos índios. A menina apenas sorria. Novamente os ignorou e seguiu adiante.

Dias depois, passando de carro em frente a uma escola municipal, viu um menino ruivo de uns 7 anos de mãos dadas com sua irmãzinha loura e sorridente. Os uniformes estavam impecáveis e as crianças acenavam quando ele passou.

Deu três voltas pelo quarteirão até ter certeza que as crianças estavam sozinhas e ofereceu brinquedos e doces em sua casa. O menino era tagarela e inteligente. Mas falava de um modo estranho, misturando expressões e gírias atuais com outras muito mais antigas. A menina apenas sorria. Não disse uma palavra sequer.

Levou-os ao porão de sua nova casa e trancou a porta.

Aproximou-se e olhou para o rosto da menina que sorria imutável. As bochechas rosadas, os dentes pequenos, perfeitos e brancos. As pequenas sardas claras nas faces e sobre o nariz. O cabelo cor-de-palha-de-trigo. Os olhos como olhos de boneca. Azuis brilhantes, com uma miríade de sub-padrões de cores que variavam do âmbar ao verde.

Olhou outra vez e não acreditou. Como o ar superaquecido que tremula nas estradas nos dias mais quentes, as figuras da menina e do menino ondulavam e se derretiam diante dos seus olhos. Piscou e esfregou os olhos e quando olhou de novo, não havia nada que lembrasse remotamente às crianças que trouxera à sua casa. A criatura que fora a menina, olhava-o fixamente com seus novos olhos caprinos e amarelos. A pele couriácea e marrom era translúcida e estava esticada sobre o pequeno corpo como o couro de um tambor. As mãos e os pés eram uma coleção de protuberâncias ósseas sem sentido. Os joelhos estavam agora voltados para trás, dando as pernas o aspecto de patas de inseto. Não havia boca, mas algo que lembrava um tubo no lugar.

Ele ia gritar o mais alto que podia mas, com um movimento absolutamente inumano, a criatura saltou, deu uma pirueta em pleno ar e posou sobre seus ombros, cravando os esporões que tinha nas laterais dos pés. O grito morreu em sua garganta. Uma sensação de frio e dormência se espalhou por seu corpo. Não conseguia se mexer mais. Mal conseguia respirar ou piscar os olhos. Ficou lá observando apavorado sem nada poder fazer. Uma estátua viva. De predador, passou à presa.

A criatura que fora a menina saltou de seus ombros e ficou agachada observando-o afastada. O menino, que até agora tinha permanecido parado, aproximava-se lentamente. Observou-o e viu muitas diferenças com relação à outra criatura. O crânio era vagamente piramidal e, a boca enorme, era como um dos seus vértices. As mãos pareciam uma coleção de instrumentos de corte negros e de diferentes tamanhos. Chegou junto a seu rosto e o cheirou longamente com suas narinas nuas. Aparentemente muito satisfeito, abriu a boca que exibia três arcadas de dentes triangulares e serrilhados tanto na parte superior quanto na inferior. Uma língua áspera e arroxeada lambeu sua face e o olho que não conseguia fechar.

Escutou dentro de sua mente, a voz áspera da criatura, que parecia recitar uma litania. “É chegada a hora do gozo dilatado e febril. É chegado o momento de hastear as carnes rasgadas ao vento. É hora do padecer servil, de transformação viscosa e pujante."

Ele tentou argumentar em sua mente por perdão e clemência, mas a criatura o ignorou e continuou.

"Há muito que esperamos por ti. Teu antecessor não resistiu mais que parcos 70 anos. Mesmo com toda a nossa atenção e carinho, parou de prover. Mesmo com todas as enzimas, todos os hormônios... Somos um pouco como você; não nos serve qualquer um. Apreciamos os verdadeiramente cruéis. Somos predadores de predadores."

Dito isto, mordeu-lhe suavemente a face e arrancou um pequeno naco com seus dentes muito afiados. Mastigou por alguns instantes com uma expressão de aprovação e cuspiu no chão. Sua irmã apressou-se em sugar a massa rósea semilíquida. Aparentemente agiam simbioticamente. Ele mastigava para ela que não possuia dentes e ela paralisava as vítimas.

"Uma refeição tão refinada não deve ser desperdiçada pela pressa".

Lambeu a ferida aberta e sua saliva estancou o sangue e provocou um formigar de cicatrização. Fez um sinal à sua irmã, que se aproximou. Ela enfiou um dos braços cheio de apêndices no abdômen de Jonas. A dor foi tamanha, que ele apenas viu borrões e luzes nas próximas horas, sob intensa agonia.
Vísceras e órgãos foram deslocados, reconectados, transformados. Seu corpo estava sendo reprogramado, inchava e se estendia para prover novas funções desconhecidas. Para ser devorado aos poucos e regenerado depois.

Existem coisas muito piores que a morte, pensou. Há a certeza da dor infinita, da deformidade e do sofrimento sem esperanças de redenção. E, acima de tudo, há a esperança de que tudo acabe um dia, debelada diariamente, fatia por fatia.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Percepções

Minha primeira lembrança? Bem, minha primeira lembrança foi algo que me confortou muito. Foi quando minha primeira faísca de coinsciência aflorou e, enquanto meus olhos não desenvolvidos ainda não viam e eu escutei. Escutei a batida do coração Dela. E descobri que eu não estava sozinho. E ele batia gentil. Não tão rápido quanto o meu. Tão pequeno, tão apressado. Mas num ritmo solene, calmo e grave que me embalava e me fazia feliz.

Cheguei ontem finalmente em São Paulo, depois de quatro dias na estrada desde o Piauí. Minha irmã me prometeu um cantinho na vaga onde ela mora e vai me apresentar pra umas madames que tão querendo os meus serviços de faixineira. Não vou conseguir muito, eu sei. Mas é muito difícil me virar sozinha neste mundo de meu Deus. Mal sei escrever meu nome, como conseguir coisa melhor? Sei lá, talvez pelo sacolejo da estrada ou porque só tive tempo pra comer porcarias, não paro de vomitar desde que cheguei na rodoviária.

E desde então eu respiro o líquido levemente salgado e morno no qual flutuo. Me movo como um astronauta, lentamente. Tocando e sentindo e explorando o universo que é para mim tão seguro, escuro e aconchegante. Toco meu próprio corpo com meus dedos ainda sem unhas e sinto a penugem que me cobre. Me estico e me espreguiço e esbarro no corpo Dela. E cheio de respeito, amor e encanto, sinto. Como talvez poderia se sentir, aquele que tocasse a face do Criador. Pois Ela é tudo. Ela é o mundo.

Um mês já se passou feito um corisco. Comecei a chorar quase sem motivo. Qualquer música, qualquer propaganda me emociona. Fiquei com a pulga atrás da orelha e acordei bem cedo e fui no posto de saúde. O médico lá me examinou e disse que tô grávida. Quase caí sentada quando escutei. O que eu ganho é tão pouco e me sinto tão burra. Só levando bronca por não saber usar o telefone direito, por ter medo de mexer na máquina de lavar. Que tipo de mãe eu poderia ser?

Mal consigo imaginar como ela seria. Que pessoa tão extraordinária seria capaz de criar vida? De gerir este imensamente complicado equilíbrio com tanta perfeição? Imagino seu rosto tão lindo, tão radiante... Como deve se parecer a encarnação da ternura? Com que leveza e arte deve se mover?

Perdi o trabalho das terças, depois que quebrei outro prato. Meu Deus, como sou estabanada! A barriga agora tá crescida e bicuda. Segundo minhas colegas deve ser um machinho que vem aí. Vou ter que batalhar algo novo pro dia que tenho vago agora. Eu mal tenho tempo de pensar neste bebê. Neste moleque sem nome que vou trazer pro mundo.

O mundo inteiro parece que encolheu. Estou apertado e agora de ponta-cabeça. Tudo convulsiona e se agita. Eu sinto medo, pela primeira vez. Mas lembro Dela e confio. Me acalmo quando sei que Ela não deixará que nada errado me aconteça.

Saindo da casa da Dona Lúcia, comecei a sentir muita dor. Peguei o primeiro ônibus, mas está tudo engarrafado. A dor piora e eu começo a suar de medo. Não posso ter este bebê agora! Não posso! Mas meu corpo não me obedece e eu começo a parir meu guri deitada no banco do ônibus, com minhas coisas espalhadas pelo chão, amparada por um policial que veio ajudar.

Me vejo envolvido num turbilhão enlouquecedor, meu mundo plácido e silencioso deu lugar a um outro cheio de ruído e dolorosamente iluminado que me cega. Eu choro forte e me agito e ... a vejo.

Eu grito mais uma vez e uso toda minha força pra conseguir. O menino nasce gritando forte e agitado! Trazem ele pra perto de mim e eu o olho nos olhos.

Você é tudo o que eu imaginei!

Você é tudo o que eu imaginei!

domingo, 5 de abril de 2009

Nômade

Eu já estava desperto, mas hesitava em abrir um olho sequer. Não tinha certeza sobre onde estaria ou quem eu seria nas próximas 24 horas.

Meu corpo, melhor seria dizer, meu corpo original, está em algum hospital. Cheio de tubos, ligado a muitos aparelhos. Meu corpo está lá, mas eu não estou. Por algum capricho, vago de corpo em corpo, todos os dias.

Creio que já se passou mais de um ano desde o acidente. Minha percepção do tempo não é perfeita. Enquanto meu corpo se atrofia e se enche de escaras, minha mente se expande e amadurece, vivendo vidas e realidades que jamais conheci.

Neste período, fui homem, mulher, criança, velho, rico, mendigo. Creio que escrever estas linhas seja uma forma de expressar meu desespero, meu desamparo e minha necessidade de encontrar um sentido ou uma missão.

De início eu apenas tentava ferir aos meus hospedeiros, cujas coinsciências adormecidas não tinham controle nenhum sobre minhas ações. Tentava puni-los porque queria que conhecessem minha dor.

Depois, talvez por minha natureza, ou por considerar que deve haver algum objetivo em passar pelo que estou passando, tento entendê-los, amá-los e, neste curto espaço de tempo que disponho, consertar um pouco suas vidas.

Já reconciliei pais e filhos que não se falavam há anos e que, já haviam quase esquecido a razão do seu ódio. Já doei quase todo o meu dinheiro a obras e instituições quando estive rico e poderoso. Dei carinho e atenção a uma esposa que, após as minhas inúmeras traições, ainda conseguia amar-me mesmo sem ser correspondida.

Mas também tive os dias difíceis quando apenas o cheiro da cola me entorpecia a fome e o medo e o frio eram meus companheiros à noite. Ou quando no corpo de uma velha senhora, senti o peso da solidão. Os filhos distantes, os telefonemas não retornados. Os mil subterfúgios para esconder de si mesmo a realidade. Os cães, as plantas, os bordados, as novelas.

Um dia padre, no outro puta. Um dia a menina gordinha que lancha sozinha durante o recreio, no outro o garotão cheio de grana e pó, que maltrata o porteiro e assedia a empregada. Um dia participando de reuniões importantes sobre assuntos que ignoro por completo, no outro chorando sob a chuva, deitado sobre uma cama de papelão.

Já não sei quem sou. Minha alma é um caleidoscópio. Está esparramada e multifacetada. Encharcada demais por vidas demais, por mortes em vida demais.

Hesito mais uma vez, abro o olho e espero a imagem entrar em foco e ver o que de surpreendente ou mundano o destino me reservou hoje.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dona Lucinda

Dona Lucinda era viúva, carola e fofoqueira. Nos seus oitenta e três anos de vida, fez o que pode para atazanar o falecido Seu Everaldo, seu marido. Fazia-o comer os mesmos pratos nos mesmos dias da semana, dia após dia. E sempre sua comida era insossa, cozida demais e imutável. Não havia espaço para invencionices ou arroubos de criatividade. Carne-moída com purê, fígado e salada de maionese, frango com batatas, carne-seca com quibebe e peixe ensopado. Sempre.

À mesa, sempre coberta por plástico transparente imaculado, vigiava enquanto Seu Everaldo comia. Não admitia que houvesse restos no prato ou migalhas sobre a mesa. Não admitia ruídos, boca aberta, garfo na mão direita, beber durante a refeição. Em seus últimos dias no hospital, o pobre Everaldo devorava a comida de lá como se estivesse almoçando em algum restaurante cinco estrelas.

Nas missas, às quais não faltava nem quando doente, ficava reparando nos vestidos mais curtos do que a boa moral recomendava, nos divorciados que comungavam e no pobre Flavinho, neto de Dona Sofia, tão novinho e tão afeminado!

Ela sabia de cor todos os salmos, chamava a atenção do padre quando a homilia lhe parecia avançada demais e distribuía beliscões nas crianças mal-educadas as quais ensinava nas aulas de catecismo.

Foi, portanto, um grande choque para ela, quando, depois de morrer, foi parar no Inferno.

Viu-se sentada numa cadeira em um enorme salão antiquado, como em uma repartição pública. Vestida com seu melhor vestido, maquiada e ainda cheirando a cravo-de-defunto. Tirou as bolinhas de algodão do nariz e foi tomar satisfações com o encarregado da triagem dos recém-chegados.

__ Meu filho, já fazem 20 minutos que estou sentada nesta cadeira, está fazendo um calor senegalesco (ela gostava de usar esta expressão, sentia-se meio racista sempre que a usava) e eu já sou uma senhora idosa e doente e...

O pequeno demônio, que aparentava ser um jovem bem arrumado, muito pálido e de olhos e cabelos escuros, estava sentado atrás de pilhas e mais pilhas de formulários e fichários. Revirou os olhos como numa prece, contou 50 carneiros pulando para dentro de uma cratera de lava fervente (ele sempre fazia isto para dormir e se acalmar) e respondeu:

__ Minha senhora, aqui é o Inferno e não um bingo de caridade. Tem gente esperando na fila há anos e quase todos eram doentes ou velhos que nem a senhora. Tem mais de mil pessoas na sua frente ainda.

O choque de saber que estava no Inferno não a abalou. Ela sabia dos seus direitos, sabia que era prerrogativa que alguns devem prevalecer sobre os outros.

__ A mim não importa se estou no Inferno ou não. Eu não vou ser desrespeitada e tratada feito qualquer uma. Ou você me atende agora ou eu vou começar a cantar meus hinos e tornar a vida de vocês ainda mais miserável!

O pequeno demônio que agora contava 100 carneiros decapitados e saltando alegremente para dentro de mandíbulas de crocodilos, ia falar alguma coisa, quando o telefone sobre sua mesa tocou.

__ Ah, sim, chefe! Sim, claro! Sem dúvidas, certamente! Imediatamente!

Curiosa, Dona Lucinda perguntou:

__ E então? Vai me atender agora?

__ Sim, claro! Veja bem, a senhora mal chegou e foi promovida! Eu tive que passar quase cinquenta anos nos poços de excrementos para conseguir esta posição. Mas não há o que discutir quando a gente esbarra com algum talento nato como a senhora.

Dito isto, entregou-lhe um pergaminho enrolado e deu-lhe instruções sobre que caminho seguir após passar o portão.

Desde este dia, Dona Lucinda tem trabalhado com afinco, utilizando as técnicas que ela desenvolveu no curso de seus oitenta e três anos, como chefe do Círculo dos Torturadores.

Frequentemente recebe alguma nomeação por desempenho extraordinário e chorou bastante ao receber seu terceiro prêmio consecutivo de "empregado do mês".