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domingo, 15 de março de 2009

Fragmentos

Quando criança, não sabia o que significava "mudança". Pensava que era nome de pessoa e, quando a mudança aconteceu, perguntei à primeira pessoa que nos recebeu: "Você é a mudança?".

Quando criança eu tinha sonhos com morcegos-vampiros que viviam nas mangueiras do meu quintal . E, quando acordava no meio da noite apavorado, ia dormir com os cachorros na varanda. Por tudo isso, uma vez fui ao colégio com um carrapato agarrado na orelha...

Lembro-me que tinha uma avó muito dura e brigona e que me assustava. E a melhor amiga da minha avó, era nossa vizinha e senhoria. Ela era a avó que todo menino gostaria de ter. E a mãe que minha mãe precisava ter. E com ela li os quadrinhos que a ninguém mais eram emprestados e montei cidades com os blocos de madeira secretos. E comi frutas que não existem mais e ganhei pardais "cantores" e camundongos de estimação.

E no quintal, no meu aniversário de 6 anos, minha amiga Márcia, me ensinou a andar de bicicleta sem usar as rodinhas. Ela já havia soltado a bicicleta e eu não tinha percebido e dava voltas ao redor da goiabeira. Quando reparei que ela me observava de longe, caí...

No verão os coqueiros se enchiam de larvas gordas e amarelas de besouros e, por isso até hoje, eu tenho nojo de comer a gordura dos bifes.

E quando Helena, a moça que trabalhava lá em casa, trouxe uns cachorrinhos que ela tinha achado na linha do trem. Pequenos, marrons, de olhinhos fechados. E que demos leite de conta-gotas e que ficamos com a marrom e ela com a malhada.

Não sei o porquê de escrever fragmentos de memórias que mesmo eu já quase tinha esquecido. Mas sinto que ainda tenho medo do escuro e não tenho mais meus cachorros na varanda. E que não sei tanta coisa e não tenho a Márcia para me ensinar aqui. Que tudo o que sou é reflexo daquele tempo em que eu corria pelo quintal, voando com uma capa de lençol velho e meias nas mãos como se fosem luvas.
Sinto saudades de comer carambola e araçá.

terça-feira, 10 de março de 2009

Amor big-bang

Em meio do caos primordial, enquanto o próprio espaço-tempo hiperinflacionava e as partículas mais básicas zuniam formando dimensões compactas que se aniquilavam em jorros de energia e radiação, ele a viu a primeira vez.
Por um nanosegundo, vislumbrou um encontro que poderia gerar toda uma nova gama de subpartículas.
Mas, engolfado pelo plasma fervente de bilhões de graus Kelvin e tomado como parte do núcleo de uma das primeiras estrelas, eles foram separados e ele esperou.
E eons depois, lançou-se novamente ao espaço mais profundo ejetado após cada supernova que fez parte. Percorreu os grandes vazios de matéria e energia escura, na esperança de de novo um dia vê-la.
Mas somente quando o tempo já estava gasto, quando tudo o que restava era o vácuo e o zero absoluto pairava paralisando todo movimento e enquanto o universo, de forma cada vez mais acelerada, se expandia e se perdia em direção à entropia total, ele a viu uma outra vez.
E ela não havia perdido o viço de sua subestrutura única e nem o spin que lhe caracterizava.
E, num acontecimento infinitamente improvável, seus vetores alinhados os colocaram em rota de colisão.
E talvez, porque nunca deveriam se encontrar ou porque tanto esperaram por este encontro, destroçaram o próprio tecido do espaço e sua energia brilhou e se espalhou onidirecionalmente.
E abalaram as fundações de toda a criação e rugiram seu amor com a força de bilhões de galáxias.
Que se faça a luz!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ivo

O tempo havia passado para Ivo.

Quando este ainda era seu amigo, escorregava preguiçosamente e parecia-lhe que sempre podia adiar o que não queria enfrentar. Ivo não era uma criatura do "agora", mas alguém "algum-dia". Não era um homem de atos, mas de sonhos e devaneios.

E viveu então uma vida sem riscos e sem cor. Nunca roubou um beijo. Nunca se meteu numa briga. Não sentiu ou fez-se sentir.

Mas o tempo foi traiçoeiro e foi acelerando o seu ritmo. E o que era um trotar calmo, tornou-se caudaloso e feroz.

E, naquele dia de outubro, observando as folhas marrons rodopiando no vento frio, Ivo sentiu um calafrio quando olhou para dentro de si e não encontrou luz. Não encontrou nada.

E, como de hábito, refletiu e pesou o que poderia fazer. E embora, uma parte de si gritasse por alguma ação, ele calou-se e continuou sua jornada rumo à mediocridade.

Quem sabe, em outra vida ou ... depois?

sábado, 7 de março de 2009

Dedos

E a casa, de repente, se viu vazia... Sem as mãos pequenas e de unhas roídas que de tudo cuidavam. Não se escutava mais música alegre que tanto incomodava os vizinhos e já não se pulava nos braços e se girava quando eles se encontravam no fim de cada dia.

E logo, tudo cobriu-se de pó, e as frutas mofaram na geladeira e o pão esquecido sobre a mesa virou pedra. Não se fez mais pudim ou tiramisu.

E as roupas sujas se acumulavam, e o aquário se coloria de verde e somente alguém pálido e soturno, movia-se para cá e para lá. Sem destino ou objetivo. Vivia cada dia apenas esperando o dia passar.

E levantava-se toda manhã e caminhava pelas ruas cinzentas penosamente. E reclamava do frio, e xingava os corvos. E, em casa, tentava limpar a neve dos seus sapatos e de sua alma.

Deitava-se então mais uma vez no enorme leito vazio e lembrava e sonhava com os dedos pequenos das mãozinhas vermelhas e quentes e com os olhos que não se decidiam em serem verdes ou castanhos.

Rezava então baixinho, para que aquele dia passasse e que, novamente completo, com sua metade melhor, voltasse a ser feliz.