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domingo, 19 de julho de 2009

Vivendo no exterior

Vista da minha varanda, agora no verão





As mesmas vistas em janeiro/2009. A segunda foto mostra parte do bosque que tem aqui perto.


Opa! Não é conto desta vez!

Fiz uma entrevista em maio do ano passado aqui em Zurique. Gostaram do meu CV e fui contratado em julho/08. Tive que aguardar até meiados de setembro até a permissão de trabalho sair. O duro disto tudo foi que a empresa não pagaria a mudança, somente um frete de 100kg, minha passagem aérea em classe executiva, minha hospedagem por um mês em um apartamento temporário e uma verba de ajuda de custo para eu me consolidar aqui.

Tinha apartamento próprio, carro, móveis, eletrodomésticos e etc. Vendi tudo. Dei uma sorte tremenda, anunciei para os amigos e amigos de amigos e logo minha casa tinha virado um bazar, com as pessoas me perguntando o preço de tudo e querendo levar até o que não estava à venda.

Não sou materialista, mas rolou um sentimento de perda muito grande nesta época. Eu meio que me senti violentado e sem lugar.

Talvez porque dei sorte, em menos de um mês anunciando, vendi meu apartamento, pelo preço de mercado mesmo. Meu carro eu coloquei em consignação na loja do tio de um amigo meu e logo eu estava dentro do avião, deixando toda uma vida para trás.

Os primeiros meses foram bem duros. Cheguei em outubro e já fazia bastante frio. Na minha segunda semana aqui, começou a nevar.

Depois de muito pesquisar e já apertado no meu prazo de entregar o apartamento temporário, achei um bom apartamento, num bairro próximo do trabalho. Lá se foi a verba que a empresa deu, foi tudo no depósito de garantia ao alugar o apartamento. Só receberei o valor integral de volta, ao entregar o imóvel nas mesmas condições que o achei.

Vim cheio de idéias e conceitos sobre a Suíça. Pensava que todos falavam inglês, mas, de fato, só nos centros das cidades é fácil encontrar quem fale inglês. No meu prédio mesmo, ninguém fala.

Pensava que as pessoas seriam desagradáveis e mal-educadas com estrangeiros. Me enganei! Os suíços são reservados, mas são muito gentis e educados em geral.

Achava também que teria que me esfolar de trabalhar para justificar o salário em minha empresa. Ledo engano também: trabalha-se num ritmo muito mais suave e organizado do que no Brasil.

Os colegas de trabalho são de toda parte do mundo: sul-africanos, mexicanos, brasileiros, espanhóis, tailandeses, chineses, indianos e, até, suíços.

No meu departamento, em especial, todos são extremamente simpáticos. Passo o dia fazendo piadas com o suíço-francês grandalhão e com meu ex-chefe mexicano. Já saí pra jogar sinuca e beber cerveja com ambos.

Nós brasileiros sempre levamos um pouco do Brasil conosco e aqui é fácil de comprar guaraná, goiabada, feijão preto e tudo mais. Tenho cortado o cabelo no salão de uma baiana e, quando houve a festa latina aqui, o que mais bombava era uma barraca de comida brasileira onde rolava um show de uma cantora que cantava sucessos de Ivete Sangalo.

Difícil mesmo foi lidar com o inverno longo e rigoroso. Em especial entre o final de dezembro e as primeiras semanas de janeiro, a temperatura ficou sempre abaixo de zero. Chegou à uma mínima de -8°C aqui na cidade e a máxima não passava de -2°C.

Não bastasse o frio, os dias eram curtíssimos e escuros. E, mesmo eu, que sou um sujeito naturalmente alegre, fiquei bastante triste neste período. Pensei várias vezes em desistir e voltar pro meu querido Brasil.

Felizmente, me adaptei. A vida aqui é muito, muito calma. Zurique é a maior cidade suíça, mas tem somente cerca de 450.000 habitantes. Pequena quando comparada à maioria das cidades brasileiras.

E também não é um caldeirão fervilhante de gente e cultura como Londres, Paris ou Madrid. Se muito, deve haver umas 40 salas de cinema, 3 shoppings medianos, uns 10 teatros. A maioria dos restaurantes estão concentrados na "cidade velha" no centro. Ou seja, muito diferente do que um carioca estava acostumado a ter na 2a maior metrópole do Brasil.

Mas há suas compensações: é ultra-segura, ninguém tem medo de nada. Não tem bairro perigoso, não tem favelas ou conjuntos habitacionais precários (em Paris ou Madrid, por exemplo, tem). E tudo é verde e limpo e muito organizado. Ser meticuloso e perfeccionista é uma espécie de mania nacional.

Quando você pega um trem, é fácil, olhando a paisagem, saber se você ainda está na Suíça. Quando fui à Itália, por exemplo, você passa por Lugano que é uma cidade linda da suíça-italiana. Limpa, verdejante, parece um cartão postal. Você cruza a fronteira, e tudo muda. A Itália é bem mais suja e desorganizada. E olha que eu reparo o mesmo na Alemanha e na França também.

Não sei ainda quanto tempo viverei aqui. Certamente não será para sempre. Dei entrada na minha dupla cidadania portuguesa para garantir que eu não dependa de contrato de trabalho para viver na europa. Acho que seria bem mais fácil viver, por exemplo, em Lisboa ou Madrid que têm climas mais amenos e o povo mais parecido com o nosso.

Por enquanto, vou tocando a vidinha aqui. Estou me esforçando nas minhas aulas de alemão para me ajudar a adaptar também.

Tem uma coisa curiosa que acontece comigo no trabalho. Passo o dia falando em inglês e, às vezes em espanhol. Quando vou às aulas de alemão, a professora fala em inglês também. E eu começo a misturar! Já respondi perguntas feitas em alemão em português!
Bem, é só isso por enquanto. Depois eu coloco mais impressões sobre esta minha experiência.

Abraços!

2 comentários:

L.F. Riesemberg disse...

Tenho certeza de que esse período será inesquecível para você durante toda sua vida. Tenho muita inveja das paisagens que você visita e das cervejas encorpadas que deve beber, rs. Entendo que a saudade da terrinha deve ser grande, mas o bom da internet (e da literatura - ha!) é justamente o poder de nos transportar para outros lugares e fazer com que fiquemos estranhamente próximos de alguém que está a milhares de quilômetros de distância e que nunca se encontrou pessoalmente conosco. Abraço! E mais uma vez obrigado.

Caio Tadeu de Moraes disse...

Ohhh Rubem, você fala com tanta paixão da despedida do Brasil, de como se sentiu incompleto ao vender a casa, abandonar seus amigos, desincorpora o povo, tirar a comida típica da dieta, e abrir mão do clima caloroso (que, sinto dizer, acredito que não exista mais, por causa das mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global, só falta nevar... Logo os ursos polares, com suas geleiras derretidas, se mudam para a fauna brasileira); eu até me sinto mal por nunca ter sido muito patriota e criticar o Brasil mesmo na raiz de sua história. Mas é muito bom saber que tu encontrou algumas dosagens da terra natal por aí, só para equilibrar a saudade; O “jeitinho” é algo que nunca vai morrer, mesmo se bombardearem ogivas nucleares aqui, nós nos proliferamos pelo mundo todo!

Firme na luta rapaz... ainda volto para ler seus contos...
Abraços do Brasil!