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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Hocus Pocus

Em sua busca pelo truque perfeito, o Grande Dionisius correu o mundo inteiro. Na Turquia conheceu os mistérios dos truques de levitação, dos truques com espadas e de desaparecimento. Viajou ao México e conheceu outros novos com cartas, cartolas, fumaça e espelhos. No Japão aprendeu inúmeros outros sobre arcos metálicos, transmutação e sobre como parecer que voava com o auxílio de cabos quase invisíveis.

Seu conhecimento de truques tornou-se enciclopédico e sua fama logo lhe trouxe riqueza e reconhecimento. O Grande Dionisius era convidado para participar dos principais eventos e shows e seu cachê tornara-se estratosférico.

Apesar disto tudo, Dionisius era infeliz. Frustava-se com cada novo truque que aprendia, cada novo engodo. Mais uma enganação, mais uma mentira! Estava farto de truques. Em seu íntimo, ardia o mais profundo desejo de conhecer a magia verdadeira. De ser capaz de fazer o impossível, o ilógico, o que incendiaria a mente de homens e mulheres.

Desanimado, cancelou seus muitos shows e saiu, outra vez, em jornada pelo mundo para aprender mais.

***

E, naquela manhã calorenta e abafada, ele caminhava sem rumo pelo interior da Índia quando algo o surpreendeu. Um homem velho, quase um faquir de tão magro e miserável, fazia truques na rua por esmolas. De uma cesta vazia de vime, retirou uma cobra. Um gesto, fechou a cesta e exibiu-a vazia outra vez. Retirou um coelho. Exibiu-a vazia e retirou, quase indefinidamente, pombas, flores, corujas, lenços coloridos, tochas acesas e espadas que não caberiam no cesto! Não havia portinholas no chão. Era só a calçada suja. Dionisius já estava impressionado por tudo que havia visto quando o homem simplesmente levitou no ar. Dionisius já havia executado inúmeros truques de levitação, mas é preciso um palco escuro, um fundo que esconda os fios, espelhos, fumaça, algo! Mas não havia nada e, aquele homem, praticamente um mendigo sujo, flutuava no meio do ar como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Deu uma esmola mais que generosa e tentou conversar com o homem. Mas este não falava uma palavra de inglês e somente conversava no dialeto incompreensível da região. Frustado, Dionisius procurou nas lojas alguém que falasse inglês e voltou, com o intérprete pela mão, antes ainda do mendigo ir embora.

Através do seu intérprete, convidou o pobre homem para almoçar e ele aceitou
imediatamente.

_Meu nome é Dionisius. Como o senhor se chama?_Kabir. – respondeu o homem com a boca cheia.
_Senhor Kabir, eu sou um ilusionista. Quantas rúpias o senhor quer para me ensinar seus truques?
_Não faço truques. Faço mágica. E não posso ensinar a ninguém.
_Deixe de brincadeiras, Kabir. Eu lhe ofereço cinco milhões de rúpias. É o suficiente para o senhor comprar uma casa, um carro, ter uma vida confortável.
_Eu agradeço, Dionisius. – disse ele limpando a boca com a manga da camisa – Mas não posso aceitar! Não preciso de casa, carro ou nada assim. Eu tenho a mágica e ela me basta. Adeus e obrigado pela refeição!

Cheio de ódio e, sem ter como argumentar com o velho, Dionisius passou a assistir às apresentações de Kabir todos os dias nas calçadas. Fascinado por truques inexplicáveis feitos em plena luz do dia por apenas algumas moedas jogadas no chão sujo.

Após quatro dias e, sem conseguir convencer Kabir a aceitar nem uma fortuna que praticamente arruinaria suas finanças, Dionisius resolveu contratar gangsters locais.Os homens seguiram Kabir furtivamente após a sua apresentação diária nas calçadas e descobriram onde ele morava. Por alguns dias o observaram muito discretamente e viram quando ele retirou um livro grande e pesado de um esconderijo no chão do casebre miserável onde morava. Viram quando lia o livro e recitava palavras incompreensíveis realizando milagres sentado no chão do barraco. Flores surgiram no ar, cores dançavam um baile mágico nas paredes, criaturas fantásticas feitas de pura luz caminhavam sobre seus ombros e cabelos. O velho estava estudando o livro. Praticando novas mágicas ou algo assim.

***

Dias depois de volta à sua casa, Dionisius sorria satisfeito com o livro em mãos. Por uma ninharia encomendara o roubo do livro e a morte do velho teimoso. Agora era só conseguir algum linguista para traduzir o livro e começar a estudá-lo a fundo.

Os meses se passaram tão rapidamente que Dionisius não notara. Com enorme esforço e determinação quase fanática, conseguira realizar as primeiras mágicas reais do início do livro. Era agora capaz de fazer animais aparecerem e desaparecem em pleno ar. O tamanho não era importante. Mentalizava e poderia fazer aparecer um elefante se quisesse. Um mamute ou um centauro, se assim o desejasse. Naturalmente, num palco, não poderia fazer nada assim tão radical. Mas a descoberta penosa de cada nova mágica o fascinava e o surpreendia.

Mágicas de vôo e levitação, transformação, adivinhação. Cada novo capítulo revelava algo novo e mais avançado que o anterior. Depois de finalmente decifrar o último capítulo, Dionisius notou um espessamento estranho na contracapa. Com o auxílio de uma faca pequena, delicadamente, separou mais um capítulo escondido. Ficou impressionado porque este último capítulo estava impresso, não em papel, mas em pele. A impressão parecia tatuada na pele seca e envelhecida. Poros e pêlos podiam ser vistos no "papel".

Já era tarde e, de qualquer modo, teria que digitalizar e enviar aos tradutores. Resolveu dormir e teve uma noite de sonhos tranquilos.

***
Meses depois em um estádio de futebol lotado, Dionisius se apresenta no palco gigantesco no centro do gramado. As pessoas estão extasiadas com tigres que se transformam em elefantes que desaparecem no ar. Quando ele se eleva e voa ao redor do palco sem fios aparentes o publico delira e aplaude de pé. Chamas saem de seus dedos, serpentes de luzes de todas as cores correm pelos céus assustando e encantando o público.

Por demais confiante, Dionisius resolve experimentar algo que nunca tentou. Concentra-se e invoca um feitiço do último capítulo do livro. O que de miraculoso e maravilhoso poderia acontecer?

Um rugido esganiçado e horrendo reverbera no estádio. Em pleno ar, abre-se um portal flamejante que cega com sua luz branca e quente. Através dele, um exército de criaturas fantásticas adentra nosso mundo. Uma colossal nuvem de insetos carnívoros alça aos céus, criaturas com tentáculos e centenas de olhos espalham-se pelo gramado, demônios disformes, dragões feitos de puro fogo, serpentes negras feitas de sombras. Há pânico e o público tenta escapar sem êxito. Animais feitos de espículas venenosas empalam, aranhas de gelo e cristal congelam, cães descarnados feitos de ódio e malícia despedaçam. Um vagalhão pútrido e vivo afoga e derrete como ácido dissolvendo os corpos. A mágica em estado bruto se manifesta e espalha toda sua loucura e brutalidade.

Segundos antes de ser consumido, Dionisius, consciente de ter trazido o apocalipse ao mundo real, finalmente entende que o livro era apenas um portal discreto e controlado. Apenas uma janela para outro universo selvagem e irracional de delírio e destruição. Que era uma ferramenta correta nas mãos de um artesão competente e sábio. E que ele teria a eternidade para lamentar sua estupidez.

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