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quarta-feira, 24 de junho de 2009

"Dorzer"





A dor é apenas uma variação mais intensa e obscura do prazer. E, prazer é infligir a quem se ama a certeza da agonia mais intensa.

“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.

Mordi a língua e senti as pancadas do gato-de-nove-caudas em minhas costas. Mais um pouco do chicote e eu conseguiria. Mais forte e eu chegaria lá. Quase, quase...Mas foi a mesma decepção de sempre. Não foi forte o bastante. A dor não me excitou o necessário. Nem puxando com violência os piercings dos meus mamilos, nem tendo os testículos comprimidos pela cinta de couro.

Me vesti irritado. Paguei o cachê não merecido àquela que se dizia uma dominatrix e fui embora, para jamais voltar.

***

Sei bem como tudo começou. Algo da minha infância. Quando minha mãe me dava surras homéricas para compensar seus recalques de puritana falsa. Sovas de cinto, de cabo de vassoura, com as costas das mãos...

Com o passar dos anos, eu já fazia as bobagens de propósito. Tudo o que eu podia para torná-la mais furiosa e violenta. Para ser surrado enquanto, secretamente, tinha meu pinto duro dentro dos shorts.

Porém, depois de parar no hospital por umas duas vezes, a justiça a separou de mim. Fiquei então sob os cuidados de minha avó. Uma mulher impossivelmente paciente. E só vi minha mãe mais umas duas vezes antes dela morrer. E eu nunca pude explicá-la sobre o quanto eu a amava. O quanto de prazer ela me proveu. Sobre as quantas vezes que me masturbei depois, mentalizando o seu pulso forte e a sua franca vontade de maltratar.

Cresci e tentei esquecer os prazeres da dor. Me anestesiei com um emprego bom, uma boa esposa. Filhos, carro, apartamento e cachorro. Viagens a hotéis-fazenda, à casa de praia. Sexo nos sábados. Sempre limpo, sem emoção, sem prazer. Sem posições de Kama Sutra, sem “dress codes”, sem “facials” ou “glory holes”. Sem graça.

***

As coisas mudaram quando conheci Cibele no escritório. Ela era uma temporária que veio cobrir a licença-maternidade de uma recepcionista.

Cruzei o olhar com ela naquela manhã . Os seus olhos verdes e meio rasgados e o cabelo desfiado e colorido me encantaram. Sua voz e seu jeito malicioso de passar a língua nos lábios eram convites velados para o prazer.

Resisti por um mês. Sexo era algo tão sem graça para mim que uma aventura extra-conjugal só significaria dor-de-cabeça. Mas, numa sexta-feira em que trabalhamos até mais tarde, bebemos alguns chopps depois do trabalho e, quando dei por mim, estava no apartamento dela. Deitado em sua cama enquanto a louca me rasgava as roupas.

Mas a fúria com que Cibele se entregava era algo completamente novo para mim. Transar com ela significava acordar com a língua esfolada, as costas lanhadas e o pênis mordido.

Lembro-me como foi divertido quando fui à uma reunião no dia seguinte e tinha uma mancha de sangue seco atrás da orelha. Inventei uma desculpa boba, mas me lembrava muito bem de seus dentes nada gentis.

A brincadeira começou a esquentar quando Cibele comprou alguns brinquedos. Chicotes, roupas tachadas, máscaras e palmatórias. Bastava uma boa sessão de “spanking” e eu, com as nádegas em brasa, copulava por horas seguidas.

O problema começou quando passei a não me contentar com pouco. Quando eu precisava cada vez de mais para conseguir ter prazer. Acho que a assustei quando comprei alguns metros de arame-farpado para fazer um açoite ou quando sugeri que ela me pisasse com uns novos sapatos cheios de travas metálicas que lhe presenteei.

Cibele sumiu de minha vida como apareceu: de repente. A recepcionista voltou da licença e Cibele não me ligou mais ou me retornou meus telefonemas. Após duas semanas sem vê-la, fui ao seu apartamento e ela havia se mudado. Não consegui encontrá-la mais.

***

Minha vida virou um inferno então. Não conseguia ter relações com minha mulher ou com qualquer outra mulher. Minha necessidade pela dor e pela humilhação mais abjeta não me permitia sentir absolutamente nada nestes jogos sexuais comuns.

Saí então de férias e viajei a São Paulo atrás dos clubes que prometiam muito. Porém, logo descobri que, não importando a natureza do clube, não havia dor real.

Eu me perguntava: que graça havia em ser possuído num “sling” que tinha algo como uma buzina para avisar que a dor estava intensa demais? Eu precisava ser queimado, cortado, tratado como o animal podre que eu era. Como eu bem sabia que merecia ser tratado. Só isso.

Depois de quase uma semana buscando prazer sem sucesso, esbarrei num anúncio obscuro num jornal: “Sara, A Dominatrix – Seu prazer ou seu dinheiro de volta.” Fiquei curioso e liguei ainda naquela noite. Ela não podia me atender, disse-me que tinha a agenda cheia até três dias depois. Que eu deixasse o telefone e ela me retornaria se houvesse uma desistência. E que uma sessão de uma hora ficaria por quinhentos reais.

Realmente aquilo me impressionou. Ninguém cobrava tão caro, todos sempre estavam mais do que disponíveis e solícitos. Agendei para três dias depois e ela não me ligou antes. Aparentemente, não houve desistências.

Cheguei no apartamento bonito, arrumado e amplo. Sara veio receber-e e estrevistar-me primeiro. Queria saber o que eu realmente queria e quais eram minhas preferências. Não fez menção de espanto sobre minha necessidade extrema de dor.

Levou-me à uma sala grande, despi-me e fui algemado pelos pés e braços em uma mesa. Logo ela trouxe um carrinho de instrumentos completamente original. Queimou-me com velas, perfurou meu corpo com instrumentos pontiagudos e espancou-me brutalmente com uma espécie de raquete pesada de madeira. Experimentei outra vez o quase esquecido prazer.

Terminada a sessão, levantei exausto e satisfeito e paguei além do combinado. Cada novo dia era uma prova dura para o profissionalismo e a criatividade de Sara. Entretanto, após meras nove sessões, eu já pouco sentia prazer. Não conseguia mais gozar.

Numa outra sessão, quase desesperada, Sara quebrou-me uma costela e deixou-me com um dente mole ao me atingir com um soco inglês. Eu bem que cheguei perto mais não consegui. Decepcionada, ela fez questão de não receber.

Mas, numa tarde da semana seguinte, resolvi dar mais uma chance àquela magnífica e única artista. E ela não deixou de surpreender. Esticou-me até que minhas articulações quase romperam, cortou-me com navalhas deixadas em baldes de gelo, queimou-me com ferro em brasa, espancou-me tão violentamente que eu tive que me esforçar para me manter coinsciente.

Deitou-me nu com o abdômen voltado para cima e algemado firmemente pelos pés e mãos. Trouxe algo como uma lâmina curva posicionada na ponta de um cabo longo de madeira.

Golpeava-me e eu pedia mais. Sentia o orgasmo se aproximando enquanto eu era depreciado e destituído de todas as prerrogativas dos remotamente humanos. Enquanto os cortes profundos me redimiam de toda a minha culpa.

“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.

Senti o prazer se aproximando quando vi Sara, absolutamente suada e descontrolada, erger um machado brilhante, lindo e gótico no ar. Atingiu-me o pescoço tão pesadamente que só pude ver tudo girando e mudando de ângulo e... Finalmente, olhando para cima a partir do chão, pude observar, satisfeito, o meu corpo sobre a mesa distante e meu pênis ereto. Por fim, esguichando alto e abundantemente com o maior dos orgasmos.

2 comentários:

Mena Tximeleta disse...

uau!!!!
hot, sexy and sick!

PS: Gostei da nova formatação! E vejo que a produção está de vento em poupa. abs,
Mena.

Rubem Cabral disse...

Legal vc ter gostado! Fica mais fácil de ler assim. A inspiração tem andado forte mesmo!

abçs