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terça-feira, 21 de abril de 2009

Presas e Predadores


Bem, eu sempre gostei de contos de terror. E, em especial, dos que mexem com nossos medos mais primitivos. Espero que este lhe perturbe o sono!





"A única certeza na vida é a morte. E a única certeza na morte é que ela não será indolor. Mesmo que na cama, durante uma noite de sono. Mesmo assim, certamente haverá a sensação de sufocamento, o aperto no peito, a sensação de queda súbita em direção ao vácuo escuro e infinito. Não há nada pior do que a morte. O fim de tudo, o esquecimento. Do pó ao pó".

Jonas sempre foi fascinado pela morte e a temia acima de todas as coisas. De família tradicional e abastada, vendeu tudo o que sua falecida mãe lhe deixou: propriedades, carros, ações, empresas. Só lhe interessava o dinheiro vivo, que pudesse financiar seu projeto.

Sua mãe, conhecia sua natureza e o controlava com mão-de-ferro. Mas ela não estava mais aqui e, agora era sua vez de fazer o que sempre quis.

Jonas tornou-se um serial-killer bem-sucedido. Extremamente organizado e paciente, jamais esteve sequer perto de ser surpreendido ou preso. Saía agora de sua terceira casa alugada em 3 anos, sob um terceiro nome falso. Com apenas 30 anos, tingiu os cabelos de branco e os raspou parcialmente para parecer calvo. Já fora louro, ruivo e moreno.

Havia deixado tudo preparado outra vez. O corpo comprado de um indigente no IML sentado no sofá da sala tinha seus documentos. No porão da casa, meticulosamente arrumados e dispostos, jaziam em freezers separados os corpos de dois meninos e duas meninas. Não crianças quaisquer, mas crianças que atendiam aos seus critérios restritos. Havia feito o mesmo em Santo André e São Bernardo e agora em São Caetano do Sul.

Tinha a necessidade extrema de ordem. Somente dois meninos e duas meninas por cidade. E, por capricho, resolvera seguir a ordem alfabética e dirigia-se agora à Diadema. Logo, logo o cano de gás deixado aberto explodiria tudo e apagaria suas pegadas mais uma vez.

Na estrada, um rapaz mulato de uns 16 anos e de extrema beleza e sua irmã sorridente pediam carona, mas eles os ignorou porque não lhe agradavam os escuros de pele ou os adolescentes.

Num semáforo na entrada de Diadema, um menino de feições asiáticas de uns 12 anos ofereceu-lhe balas para comprar. Estava acompanhado de sua irmã, linda e sorridente como um ícone nipônico. Novamente os dispensou pelas mesmas razões; muito velhos e da raça errada.

Ainda mobiliando a casa nova, esbarrou a caminho do shopping com um menino de uns 9 anos de mãos dadas com sua linda irmã mais nova. O menino pediu que lhes pagassem um sorvete. Morenos e de cabelos muito lisos, pareciam pequenos e lindos índios. A menina apenas sorria. Novamente os ignorou e seguiu adiante.

Dias depois, passando de carro em frente a uma escola municipal, viu um menino ruivo de uns 7 anos de mãos dadas com sua irmãzinha loura e sorridente. Os uniformes estavam impecáveis e as crianças acenavam quando ele passou.

Deu três voltas pelo quarteirão até ter certeza que as crianças estavam sozinhas e ofereceu brinquedos e doces em sua casa. O menino era tagarela e inteligente. Mas falava de um modo estranho, misturando expressões e gírias atuais com outras muito mais antigas. A menina apenas sorria. Não disse uma palavra sequer.

Levou-os ao porão de sua nova casa e trancou a porta.

Aproximou-se e olhou para o rosto da menina que sorria imutável. As bochechas rosadas, os dentes pequenos, perfeitos e brancos. As pequenas sardas claras nas faces e sobre o nariz. O cabelo cor-de-palha-de-trigo. Os olhos como olhos de boneca. Azuis brilhantes, com uma miríade de sub-padrões de cores que variavam do âmbar ao verde.

Olhou outra vez e não acreditou. Como o ar superaquecido que tremula nas estradas nos dias mais quentes, as figuras da menina e do menino ondulavam e se derretiam diante dos seus olhos. Piscou e esfregou os olhos e quando olhou de novo, não havia nada que lembrasse remotamente às crianças que trouxera à sua casa. A criatura que fora a menina, olhava-o fixamente com seus novos olhos caprinos e amarelos. A pele couriácea e marrom era translúcida e estava esticada sobre o pequeno corpo como o couro de um tambor. As mãos e os pés eram uma coleção de protuberâncias ósseas sem sentido. Os joelhos estavam agora voltados para trás, dando as pernas o aspecto de patas de inseto. Não havia boca, mas algo que lembrava um tubo no lugar.

Ele ia gritar o mais alto que podia mas, com um movimento absolutamente inumano, a criatura saltou, deu uma pirueta em pleno ar e posou sobre seus ombros, cravando os esporões que tinha nas laterais dos pés. O grito morreu em sua garganta. Uma sensação de frio e dormência se espalhou por seu corpo. Não conseguia se mexer mais. Mal conseguia respirar ou piscar os olhos. Ficou lá observando apavorado sem nada poder fazer. Uma estátua viva. De predador, passou à presa.

A criatura que fora a menina saltou de seus ombros e ficou agachada observando-o afastada. O menino, que até agora tinha permanecido parado, aproximava-se lentamente. Observou-o e viu muitas diferenças com relação à outra criatura. O crânio era vagamente piramidal e, a boca enorme, era como um dos seus vértices. As mãos pareciam uma coleção de instrumentos de corte negros e de diferentes tamanhos. Chegou junto a seu rosto e o cheirou longamente com suas narinas nuas. Aparentemente muito satisfeito, abriu a boca que exibia três arcadas de dentes triangulares e serrilhados tanto na parte superior quanto na inferior. Uma língua áspera e arroxeada lambeu sua face e o olho que não conseguia fechar.

Escutou dentro de sua mente, a voz áspera da criatura, que parecia recitar uma litania. “É chegada a hora do gozo dilatado e febril. É chegado o momento de hastear as carnes rasgadas ao vento. É hora do padecer servil, de transformação viscosa e pujante."

Ele tentou argumentar em sua mente por perdão e clemência, mas a criatura o ignorou e continuou.

"Há muito que esperamos por ti. Teu antecessor não resistiu mais que parcos 70 anos. Mesmo com toda a nossa atenção e carinho, parou de prover. Mesmo com todas as enzimas, todos os hormônios... Somos um pouco como você; não nos serve qualquer um. Apreciamos os verdadeiramente cruéis. Somos predadores de predadores."

Dito isto, mordeu-lhe suavemente a face e arrancou um pequeno naco com seus dentes muito afiados. Mastigou por alguns instantes com uma expressão de aprovação e cuspiu no chão. Sua irmã apressou-se em sugar a massa rósea semilíquida. Aparentemente agiam simbioticamente. Ele mastigava para ela que não possuia dentes e ela paralisava as vítimas.

"Uma refeição tão refinada não deve ser desperdiçada pela pressa".

Lambeu a ferida aberta e sua saliva estancou o sangue e provocou um formigar de cicatrização. Fez um sinal à sua irmã, que se aproximou. Ela enfiou um dos braços cheio de apêndices no abdômen de Jonas. A dor foi tamanha, que ele apenas viu borrões e luzes nas próximas horas, sob intensa agonia.
Vísceras e órgãos foram deslocados, reconectados, transformados. Seu corpo estava sendo reprogramado, inchava e se estendia para prover novas funções desconhecidas. Para ser devorado aos poucos e regenerado depois.

Existem coisas muito piores que a morte, pensou. Há a certeza da dor infinita, da deformidade e do sofrimento sem esperanças de redenção. E, acima de tudo, há a esperança de que tudo acabe um dia, debelada diariamente, fatia por fatia.

4 comentários:

Tito Jr. disse...

Isso sim é um conto BAUMMM.
Eu figurei, imaginei, realizei, fantasiei cada cena descrita.

"Existem coisas muito piores que a morte..... Há a certeza da dor infinita"

Fechou certinho ai!!! Ponto !!!

Mena Tximeleta disse...

Oi Rubem!
Li ontem e esperei pela noite para saber que reações teria....
Efetivamente me deram escalafrios a imagem de uma menina inocente se transformando em monstro para acabar com outro monstro e torturando-o para sempre. Por outro lado, fez-me sentir, curiosamente, mais segura. Dormi feliz imanginando a possibilidade de tão assombrosa existência vingando as dores de pais e mães.

Ah sim, queria saber se Diadema é por causalidade? (jejeje)

bjs com abs.
mt

Rubem Cabral disse...

Sim foi por acaso. É que os serial-killers costumam seguir padrões. Daí escolher cidades que começam por A, B, C e D.

Ya estás empiezando a mesclar el español y el portugués? "escalafrios"!? (jejeje)

Edgar Braga Buchara disse...

Gostei, muito criativo. Tive a velha sensação de medo. Tem tudo que um conto de terror precisa. Muito bom!