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terça-feira, 7 de abril de 2009

Percepções

Minha primeira lembrança? Bem, minha primeira lembrança foi algo que me confortou muito. Foi quando minha primeira faísca de coinsciência aflorou e, enquanto meus olhos não desenvolvidos ainda não viam e eu escutei. Escutei a batida do coração Dela. E descobri que eu não estava sozinho. E ele batia gentil. Não tão rápido quanto o meu. Tão pequeno, tão apressado. Mas num ritmo solene, calmo e grave que me embalava e me fazia feliz.

Cheguei ontem finalmente em São Paulo, depois de quatro dias na estrada desde o Piauí. Minha irmã me prometeu um cantinho na vaga onde ela mora e vai me apresentar pra umas madames que tão querendo os meus serviços de faixineira. Não vou conseguir muito, eu sei. Mas é muito difícil me virar sozinha neste mundo de meu Deus. Mal sei escrever meu nome, como conseguir coisa melhor? Sei lá, talvez pelo sacolejo da estrada ou porque só tive tempo pra comer porcarias, não paro de vomitar desde que cheguei na rodoviária.

E desde então eu respiro o líquido levemente salgado e morno no qual flutuo. Me movo como um astronauta, lentamente. Tocando e sentindo e explorando o universo que é para mim tão seguro, escuro e aconchegante. Toco meu próprio corpo com meus dedos ainda sem unhas e sinto a penugem que me cobre. Me estico e me espreguiço e esbarro no corpo Dela. E cheio de respeito, amor e encanto, sinto. Como talvez poderia se sentir, aquele que tocasse a face do Criador. Pois Ela é tudo. Ela é o mundo.

Um mês já se passou feito um corisco. Comecei a chorar quase sem motivo. Qualquer música, qualquer propaganda me emociona. Fiquei com a pulga atrás da orelha e acordei bem cedo e fui no posto de saúde. O médico lá me examinou e disse que tô grávida. Quase caí sentada quando escutei. O que eu ganho é tão pouco e me sinto tão burra. Só levando bronca por não saber usar o telefone direito, por ter medo de mexer na máquina de lavar. Que tipo de mãe eu poderia ser?

Mal consigo imaginar como ela seria. Que pessoa tão extraordinária seria capaz de criar vida? De gerir este imensamente complicado equilíbrio com tanta perfeição? Imagino seu rosto tão lindo, tão radiante... Como deve se parecer a encarnação da ternura? Com que leveza e arte deve se mover?

Perdi o trabalho das terças, depois que quebrei outro prato. Meu Deus, como sou estabanada! A barriga agora tá crescida e bicuda. Segundo minhas colegas deve ser um machinho que vem aí. Vou ter que batalhar algo novo pro dia que tenho vago agora. Eu mal tenho tempo de pensar neste bebê. Neste moleque sem nome que vou trazer pro mundo.

O mundo inteiro parece que encolheu. Estou apertado e agora de ponta-cabeça. Tudo convulsiona e se agita. Eu sinto medo, pela primeira vez. Mas lembro Dela e confio. Me acalmo quando sei que Ela não deixará que nada errado me aconteça.

Saindo da casa da Dona Lúcia, comecei a sentir muita dor. Peguei o primeiro ônibus, mas está tudo engarrafado. A dor piora e eu começo a suar de medo. Não posso ter este bebê agora! Não posso! Mas meu corpo não me obedece e eu começo a parir meu guri deitada no banco do ônibus, com minhas coisas espalhadas pelo chão, amparada por um policial que veio ajudar.

Me vejo envolvido num turbilhão enlouquecedor, meu mundo plácido e silencioso deu lugar a um outro cheio de ruído e dolorosamente iluminado que me cega. Eu choro forte e me agito e ... a vejo.

Eu grito mais uma vez e uso toda minha força pra conseguir. O menino nasce gritando forte e agitado! Trazem ele pra perto de mim e eu o olho nos olhos.

Você é tudo o que eu imaginei!

Você é tudo o que eu imaginei!

2 comentários:

Mena Tximeleta disse...

Que encontro (ou re-encontro) mais lindo!
Abs,
Mena

Miss Murderous disse...

Nossa muito lindo mesmo, me emocionou por vários acontecimentos ultimamente.
Obrigada por me fazer sentir melhor.