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sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Poço




Rodrigo é só um menino e olha para dentro do poço. Ele sente a umidade no musgo que cresce sobre as pedras. Ele observa a escuridão plácida da água sempre fresca. Ele tenta em vão enxergar o que há no fundo. Mas a água é negra - embora límpida.

O poço é profundo e antigo. Mais antigo que Rodrigo. Mais antigo que qualquer coisa na propriedade. Rodrigo olha para dentro do poço, mas o poço também o observa. E espera.

A paciência é infinita quando a fome é secular. Quando sua existência é medida em eras e não em anos.

Um instante se passa e Rodrigo é um homem adulto. E, sem muito esforço, sobe baldes e baldes de água todos os dias.

Um piscar de olhos e ele é um velho alquebrado, que se esforça para puxar a corda e fazer a roldana do poço girar. Para fazer subir o balde de água fria que mata a sede. Para gozar mais uma vez da dádiva que o poço provê.

Mas o velho Rodrigo já não tem mais forças e o piso de pedras já está gasto demais. Rodrigo escorrega e precipita-se para dentro da água escura.

Os gritos são abafados. A escuridão é densa. A água é fria demais.

Um minuto depois e há outro menino olhando para dentro do poço. Mas o poço é paciente. Ele sabe esperar.

2 comentários:

Mena Tximeleta disse...

Um poço da juventude ao contrário... Como mulher, não gosto muito de pensar nisto, mas está mais próximo da realidade que o primeiro, né?

Teus contos são adoravelmente assombrosos e com um quê de Edgar Allan Poe, você já leu?

Sim, sim, o espanhol se me está entranhado nas veias, é verdade!
E o alemão, pega fácil? (jejeje)

bjs com abs
mtx

Magno Santana disse...

Cair no "Poço" do Rubem em pleno feriado do dia do trabalho foi uma surpresa bastante agradável. Uma escrita sublime, enxuta e ao mesmo tempo rica em imagens que provocam uma reflexão sobre o ciclo natural da vida e a eterna-humana busca do retorno ao lugar da plenitude.

Parabéns.