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domingo, 5 de abril de 2009

Nômade

Eu já estava desperto, mas hesitava em abrir um olho sequer. Não tinha certeza sobre onde estaria ou quem eu seria nas próximas 24 horas.

Meu corpo, melhor seria dizer, meu corpo original, está em algum hospital. Cheio de tubos, ligado a muitos aparelhos. Meu corpo está lá, mas eu não estou. Por algum capricho, vago de corpo em corpo, todos os dias.

Creio que já se passou mais de um ano desde o acidente. Minha percepção do tempo não é perfeita. Enquanto meu corpo se atrofia e se enche de escaras, minha mente se expande e amadurece, vivendo vidas e realidades que jamais conheci.

Neste período, fui homem, mulher, criança, velho, rico, mendigo. Creio que escrever estas linhas seja uma forma de expressar meu desespero, meu desamparo e minha necessidade de encontrar um sentido ou uma missão.

De início eu apenas tentava ferir aos meus hospedeiros, cujas coinsciências adormecidas não tinham controle nenhum sobre minhas ações. Tentava puni-los porque queria que conhecessem minha dor.

Depois, talvez por minha natureza, ou por considerar que deve haver algum objetivo em passar pelo que estou passando, tento entendê-los, amá-los e, neste curto espaço de tempo que disponho, consertar um pouco suas vidas.

Já reconciliei pais e filhos que não se falavam há anos e que, já haviam quase esquecido a razão do seu ódio. Já doei quase todo o meu dinheiro a obras e instituições quando estive rico e poderoso. Dei carinho e atenção a uma esposa que, após as minhas inúmeras traições, ainda conseguia amar-me mesmo sem ser correspondida.

Mas também tive os dias difíceis quando apenas o cheiro da cola me entorpecia a fome e o medo e o frio eram meus companheiros à noite. Ou quando no corpo de uma velha senhora, senti o peso da solidão. Os filhos distantes, os telefonemas não retornados. Os mil subterfúgios para esconder de si mesmo a realidade. Os cães, as plantas, os bordados, as novelas.

Um dia padre, no outro puta. Um dia a menina gordinha que lancha sozinha durante o recreio, no outro o garotão cheio de grana e pó, que maltrata o porteiro e assedia a empregada. Um dia participando de reuniões importantes sobre assuntos que ignoro por completo, no outro chorando sob a chuva, deitado sobre uma cama de papelão.

Já não sei quem sou. Minha alma é um caleidoscópio. Está esparramada e multifacetada. Encharcada demais por vidas demais, por mortes em vida demais.

Hesito mais uma vez, abro o olho e espero a imagem entrar em foco e ver o que de surpreendente ou mundano o destino me reservou hoje.

4 comentários:

Mena Tximeleta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mena Tximeleta disse...

Estimado Rubem,
bem legal a crônica, gostei muito!
Não sei se já viu um filme chamado Dark City - por alguma, vi lapsos do outro lado da história.
Abs desde a terra de Neruda,
Mena
ps: publiquei e exclui - continha erros - sorry!

Rubem Cabral disse...

Obrigado, Mena! Já vi Dark City sim. As pessoas assumiam novas identidades e ganhavam novas memórias.

Eu só imaginei nesta crônica algo como alguém que vagasse de corpo em corpo todos os dias. O corpo original vazio, em coma em algum hospital.

Abçs da terra do chocolate e dos relógios!

Mena Tximeleta disse...

Original mesmo são as suas idéias.
Estou gostando muito de acompanhar o seu blog!

Por supuesto, os melhores chocolates do mundo!

Abraços desde o outro lado do Atlantico,

Mena