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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dona Lucinda

Dona Lucinda era viúva, carola e fofoqueira. Nos seus oitenta e três anos de vida, fez o que pode para atazanar o falecido Seu Everaldo, seu marido. Fazia-o comer os mesmos pratos nos mesmos dias da semana, dia após dia. E sempre sua comida era insossa, cozida demais e imutável. Não havia espaço para invencionices ou arroubos de criatividade. Carne-moída com purê, fígado e salada de maionese, frango com batatas, carne-seca com quibebe e peixe ensopado. Sempre.

À mesa, sempre coberta por plástico transparente imaculado, vigiava enquanto Seu Everaldo comia. Não admitia que houvesse restos no prato ou migalhas sobre a mesa. Não admitia ruídos, boca aberta, garfo na mão direita, beber durante a refeição. Em seus últimos dias no hospital, o pobre Everaldo devorava a comida de lá como se estivesse almoçando em algum restaurante cinco estrelas.

Nas missas, às quais não faltava nem quando doente, ficava reparando nos vestidos mais curtos do que a boa moral recomendava, nos divorciados que comungavam e no pobre Flavinho, neto de Dona Sofia, tão novinho e tão afeminado!

Ela sabia de cor todos os salmos, chamava a atenção do padre quando a homilia lhe parecia avançada demais e distribuía beliscões nas crianças mal-educadas as quais ensinava nas aulas de catecismo.

Foi, portanto, um grande choque para ela, quando, depois de morrer, foi parar no Inferno.

Viu-se sentada numa cadeira em um enorme salão antiquado, como em uma repartição pública. Vestida com seu melhor vestido, maquiada e ainda cheirando a cravo-de-defunto. Tirou as bolinhas de algodão do nariz e foi tomar satisfações com o encarregado da triagem dos recém-chegados.

__ Meu filho, já fazem 20 minutos que estou sentada nesta cadeira, está fazendo um calor senegalesco (ela gostava de usar esta expressão, sentia-se meio racista sempre que a usava) e eu já sou uma senhora idosa e doente e...

O pequeno demônio, que aparentava ser um jovem bem arrumado, muito pálido e de olhos e cabelos escuros, estava sentado atrás de pilhas e mais pilhas de formulários e fichários. Revirou os olhos como numa prece, contou 50 carneiros pulando para dentro de uma cratera de lava fervente (ele sempre fazia isto para dormir e se acalmar) e respondeu:

__ Minha senhora, aqui é o Inferno e não um bingo de caridade. Tem gente esperando na fila há anos e quase todos eram doentes ou velhos que nem a senhora. Tem mais de mil pessoas na sua frente ainda.

O choque de saber que estava no Inferno não a abalou. Ela sabia dos seus direitos, sabia que era prerrogativa que alguns devem prevalecer sobre os outros.

__ A mim não importa se estou no Inferno ou não. Eu não vou ser desrespeitada e tratada feito qualquer uma. Ou você me atende agora ou eu vou começar a cantar meus hinos e tornar a vida de vocês ainda mais miserável!

O pequeno demônio que agora contava 100 carneiros decapitados e saltando alegremente para dentro de mandíbulas de crocodilos, ia falar alguma coisa, quando o telefone sobre sua mesa tocou.

__ Ah, sim, chefe! Sim, claro! Sem dúvidas, certamente! Imediatamente!

Curiosa, Dona Lucinda perguntou:

__ E então? Vai me atender agora?

__ Sim, claro! Veja bem, a senhora mal chegou e foi promovida! Eu tive que passar quase cinquenta anos nos poços de excrementos para conseguir esta posição. Mas não há o que discutir quando a gente esbarra com algum talento nato como a senhora.

Dito isto, entregou-lhe um pergaminho enrolado e deu-lhe instruções sobre que caminho seguir após passar o portão.

Desde este dia, Dona Lucinda tem trabalhado com afinco, utilizando as técnicas que ela desenvolveu no curso de seus oitenta e três anos, como chefe do Círculo dos Torturadores.

Frequentemente recebe alguma nomeação por desempenho extraordinário e chorou bastante ao receber seu terceiro prêmio consecutivo de "empregado do mês".

Um comentário:

Raito disse...

Eu estou rindo até agora com o "pequeno demônio" e seus carneirinhos!!! Outra coisa é a Dona Lucinda!!! Vei a minha lembrança umonte de Lucindas que se encaixariam direitinho no cargo assumido por ela Lá naquele lugar vc sabe qual é..INFEEEERNO!!!