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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Carta



Diogo, sem ter muito o que fazer, resolveu ir à loja de livros usados. Folheava os livros da mesa onde eram vendidas as ofertas especiais por 1 real a unidade. Separou "A Ilha do Tesouro", "A Máquina" e "O Livro dos Mortos".

A leitura leve e divertida dos dois primeiros livros lhe distraiu por alguns dias. No domingo, começou a folhear o terceiro. Havia um espessamento entre algumas páginas que estavam coladas. Separou-as com uma faca e, para a sua surpresa, encontrou uma carta fechada e amarelecida. Não havia remetente ou destinatário no envelope.

Abriu o envelope e encontrou uma carta escrita à mão. A caligrafia era ruim, as letras inclinadas para à esquerda eram vagamente familiares.

"A quem possa interessar.

Escrevo porque sinto a necessidade de alertar. Sobre os perigos inesperados que residem em cada olhar apaixonado. Sobre a perda que é dolorosa demais para compensar os dias em que conheci a felicidade mais completa.

Lembro-me muito bem do dia 22 de setembro de 2009…"

Que louco! Pensou, Diogo. Hoje é 26 de abril de 2009! Deve ter escrito o ano errado, sei lá.

"Por alguma razão completamente improvável, encontrei naquele dia Joana, no centro da cidade, às 23:00 em ponto. Improvável, porque eu já havia ido para casa e só tinha ido ao centro por causa de um telefonema da empresa, solicitando meu suporte urgente. Improvável porque eu ainda não a conhecia e ela não morava no centro. E ainda improvável, porque ela não deveria dar atenção a um estranho que esperava à porta da empresa pelo vigia, num lugar extremamente mal-frequentado em tal horário.

Mas, ela escutou minhas gracinhas sem graça com bom-humor. Conversamos ali por minutos que pareceram horas e trocamos nomes e telefones.

Dizer que conheci a felicidade então, é impreciso. Não há como colocar nestas linhas o quanto minha vida mudou a partir daí.

Sobre quantos segredos compartilhamos, sobre as tantas vezes que rimos juntos e as poucas em que choramos.

Ela era tão transparente e sincera e eu tão esquivo. Eu a admirava, queria me integrar a ela, ser um só se possível. Passamos os anos seguintes sempre juntos, olhando nos olhos e se espantando com tanta felicidade.

Cada nova casa que habitamos, cada nova planta ou bicho de estimação tinham o seu toque; uma fração de sua alma.

Mas em 15 de novembro de 2015, ela resolveu visitar sua mãe e, ao atravessar a avenida distraída, o destino a veio roubar de mim.

E eu, quase um ano passado desde a sua morte, olho para o vazio que ficou e penso que, embora vivo, já morri. Coloco então esta carta entre as páginas do "Livro dos Mortos" e espero que meu alerta sirva para todo aquele que ousar viver um amor como o que eu vivi. Que tudo é efêmero, que nada é garantido. E que apenas o vazio poderá te consolar no final.

Rio de Janeiro, 02 de novembro de 2016
Diogo Souza."

Diogo sentiu um arrepio repentino ao notar o porquê a letra lhe era familiar e o porquê das datas estarem localizadas no futuro. Não perdeu tempo em tentar entender o impossível, mas apenas encheu-se de dúvidas sobre como evitar a tragédia que lhe aguardava no futuro próximo.

Simplesmente deveria ignorar a ligação do trabalho no dia 22 de setembro? Deveria ir e apenas observar Joana de longe? Aquela que seria um dia o seu grande amor?

Os meses se passaram e, no dia 22 de setembro de 2009, Diogo estava lá às 23:00 em ponto, com um ramo de flores na mão, disposto a correr os riscos que fossem necessários…

2 comentários:

Mena Tximeleta disse...

Lindo!!!!!!
Ainda mais sabendo que o dia internacional do livro é hoje.
Data também de Sant Jordi - aquele do dragão e da espada. Conta a lenda que ao vencer o dragão ele a oferece uma rosa a sua princesa em sinal de seu amor e ela em troca lhe dá um livro - celebrando-se assim dia do livro....
Bjs com abs
Mena

L.F. Riesemberg disse...

Olá, tudo bem. Achei seus textos muito legais, e inclusive lembram um pouco os meus. Veja se este seu conto não é parecido com esta história que realmente aconteceu comigo: http://grafiasnoturnas.blogspot.com/2009/05/um-livro-que-viajou-no-tempo-para-ser.html