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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Maldade no coração



Filipe Jardim, eu e outros colaboradores criamos um blog absolutamente detestável. Escrevemos crônicas e contos de um naturalismo sem concessões. Não existem monstros, demônios ou fantasmas: o que há de mais assustador somos nós, os humanos.

Para quem quiser se arriscar, eis o link: http://maldadenocoracao.wordpress.com/

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A obesa


Marina levantou-se do seu leito, enfraquecida. O estômago rugia; exigindo, demandando alimento. Mas ela seria forte, não cederia a tal impulso animal. Não enquanto ela fosse aquele monte patético de banha, não enquanto a barriga e os seios fossem apenas dobras como no corpo de um anelídeo gigante.

O espelho oval de quase dois metros de altura estava na sala, coberto com um lençol. Caminhou até ele, lentamente, tentando não desmaiar de fraqueza.

Afastou o tecido estendendo o braço adiposo, flácido, exibindo franjas de gordura crescidas como pólipos num recife.

Fechou os olhos e os abriu e lá estava ela: aquela criatura imensa, de olhos bovinos, quase escondidos no meio da ampla face, olhando-a de volta. Seu queixo não era discernível, confundia-se com a papada que descia em duas dobras até o colo do peito. A barriga cobria-lhe o sexo, notou com tristeza. Mesmo sem roupas, não ficava nua.

Sentiu uma fisgada no abdômen e salivou quando um cheiro bom de comida entrou pela janela. Seus sentidos estavam apurados pela fome, podia precisar o perfume de alho frito, de feijão, carne assada e de pão fresco que insistiam em tentá-la. “Malditos vizinhos, maldita gente normal, que pode comer e não inchar e engordar como um monstro.”

“Poderia ir à geladeira pegar alguma coisa”, pensou. “Algo leve, um copo de iogurte light ou gelatina...”

Orgulhou-se porém de sua força de vontade quando abriu a geladeira e ignorou os alimentos. Apenas encheu um copo de água e bebeu.

Voltou à sala e tentou ignorar o reflexo do monstro no espelho. “Um metro e setenta, duzentos quilos. Duzentos quilos de excessos, de falta de disciplina e de amor próprio.” , refletiu com tristeza.

Sentiu um zumbido no ouvido e a vista turvou enquanto o piso da sala brincava de gangorrear sob seus pés. Caiu, gelada; esparramada sobre o tapete. Arrastou-se com dificuldade, tinha que alcançar o telefone, tinha que ligar para alguém...

***

A ambulância chegou a tempo, rapidamente administraram soro glicosado com eletrólitos em suas veias. Já estavam acostumados àquela rotina: era a terceira vez que socorriam àquela pobre e magérrima moça anoréxica. Já tinham a sua ficha: Marina Oliveira, vinte e um anos, um metro e setenta, trinta e oito quilos.

sábado, 7 de novembro de 2009

Solarium 2


Pessoal, próximo dia 14/11 será lançado o livro Solarium 2. Participo do livro junto com vários outros autores com dois contos inéditos neste blog : "O Espelho" e "Beta Teste".


Além da capa linda que vocês podem ver acima, há belíssimas ilustrações complementando os contos e fora a participação de inúmeros autores extremamente talentosos.


Quem puder, divulgue o livro por favor. Vamos fazer deste lançamento um grande sucesso.


Abraços!


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Grafias Noturnas



O prezado escritor e amigo Luiz Fernando Riesemberg está publicando o seu livro solo : "Grafias Noturnas".
Luiz sempre surpreende com sua visão fantasiosa e criativa e com sua narração impecável.
Vamos lá conferir o trabalho inédito deste novo autor e, claro, comprar o livro!!
"Para quem se interessar, Grafias Noturnas pode ser adquirido pelo site http://www.blogger.com/www.biblioteca24x7.com.br em forma impressa ou virtual. "
Abraço, Luiz! Boas vendas e parabéns!





quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Semana Sem Ana

Acordei só. Pensei por um instante que não fosse verdade. Que teria sido só um sonho ruim. Que bastaria ir à cozinha e te encontrar cantarolando e passando um café fresco. Escutando música no rádio, conversando com as plantas que tu acabavas sufocando com cuidados demais.

Em geral esta esperança era o que havia de mais cruel. Quase tão cruel quanto te esquecer. É uma vergonha, mas já não lembrava direito da cor dos teus olhos. Não conseguia lembrar do perfume que tu mais gostavas. Não recordava de tanta coisa tua e não te tinha aqui para me lembrar.

Joguei o braço para o lado e ele caiu sobre o teu travesseiro; frio. "Nunca mais", pensei. Nunca mais fugir do mundo com a cabeça entre teus seios. Sentir tuas mãos em meus cabelos, escutar que está tudo bem, que vai passar, que vai regredir. Se Deus quiser, vai regredir.

E o mundo lá fora continuou a girar, o sol nasceu brilhante e o céu zombeiro; azul. Como ousam? Como ousam cuspir em meu rosto alegria e felicidade que me são negadas? Que direito têm?

Que morram e sequem todas as flores, que dos céus caiam todos os pássaros, que se fechem todas as portas e janelas. Que os dias sejam frios, chuvosos e cinzas. Que não se ria, que não se sinta nada a não ser este vazio que machuca, esta certeza de morte em vida, este desespero paralítico e covarde que não me permite terminar com tudo de vez.

Não ousem rir de minha dor. Me respeitem!

Uma semana sem Ana. A primeira de muitas da minha vida. Que vida?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vivendo no Exterior 2 - Ambiente e Alimentação

O quanto de você depende do ambiente onde você vive?

Eu afirmo: você é arroz e feijão, calor e umidade, água leve e clorada. E sol, muito sol!

Agora, desloque você daí onde você está. Venha morar num lugar mais alto, mais seco, onde a água é tão alcalina que deixa marcas brancas nos lugares onde secou. Coma coisas que você nunca comeu e pare de comer o que você estava habituado a comer.

O resultado? Mudanças! Algumas para melhor e outras para pior. Ha, ha, ha!

A pele fica seca, o nariz sangra, você fica cheio de meleca (ugh). A água te dá caspa nos primeiros meses. A comida te enche de gases.

Depois o corpo se ajusta: minha rinite brasileira de muitos anos acabou, a caspa foi embora também. Os gases, bem, deixa este assunto pra lá...

Você começa ganhando peso e depois emagrece. Ganha peso porque chocolate, queijo e presunto são maravilhosos aqui. Perde peso depois porque se acostuma e porque carne aqui deveria ser vendida em joalheria.

Um quilo de carne de boi de 1a custa, em média, 64 francos. Uns 115 reais! Frango e porco são mais baratos, mas custam o triplo ou mais do que no Brasil. Você só vê porções pequenas embaladas nos mercados: um bife, dois bifinhos, duas coxas de frango, etc.

Comem habitualmente muitos outros bichos aqui: javali, ganso, gamo, carneiro, avestruz, bisão e cavalo. Como eu almoço no restaurante da empresa e, nos primeiros meses, meu alemão mal servia para cumprimentar, provavelmente devo ter comido cavalo sem saber. Mas no mercado eu passo longe! Tenho pena!

Há uma grande mania de produtos "bio" também. Ovos de galinha "bio", pão "bio", iogurte "bio". Tudo sem agrotóxico, com os bichos criados livres, tratados com homeopatia (não podem receber hormônios ou tomar antibióticos). O sabor é igualzinho e é mais caro. Mas como tô sozinho até agosto, compro por achar mais saudável e eticamente correto.

Bem, é só isso por hoje. Se vocês tiverem alguma curiosidade sobre algum assunto é só perguntar.

Abração!

domingo, 19 de julho de 2009

Vivendo no exterior

Vista da minha varanda, agora no verão





As mesmas vistas em janeiro/2009. A segunda foto mostra parte do bosque que tem aqui perto.


Opa! Não é conto desta vez!

Fiz uma entrevista em maio do ano passado aqui em Zurique. Gostaram do meu CV e fui contratado em julho/08. Tive que aguardar até meiados de setembro até a permissão de trabalho sair. O duro disto tudo foi que a empresa não pagaria a mudança, somente um frete de 100kg, minha passagem aérea em classe executiva, minha hospedagem por um mês em um apartamento temporário e uma verba de ajuda de custo para eu me consolidar aqui.

Tinha apartamento próprio, carro, móveis, eletrodomésticos e etc. Vendi tudo. Dei uma sorte tremenda, anunciei para os amigos e amigos de amigos e logo minha casa tinha virado um bazar, com as pessoas me perguntando o preço de tudo e querendo levar até o que não estava à venda.

Não sou materialista, mas rolou um sentimento de perda muito grande nesta época. Eu meio que me senti violentado e sem lugar.

Talvez porque dei sorte, em menos de um mês anunciando, vendi meu apartamento, pelo preço de mercado mesmo. Meu carro eu coloquei em consignação na loja do tio de um amigo meu e logo eu estava dentro do avião, deixando toda uma vida para trás.

Os primeiros meses foram bem duros. Cheguei em outubro e já fazia bastante frio. Na minha segunda semana aqui, começou a nevar.

Depois de muito pesquisar e já apertado no meu prazo de entregar o apartamento temporário, achei um bom apartamento, num bairro próximo do trabalho. Lá se foi a verba que a empresa deu, foi tudo no depósito de garantia ao alugar o apartamento. Só receberei o valor integral de volta, ao entregar o imóvel nas mesmas condições que o achei.

Vim cheio de idéias e conceitos sobre a Suíça. Pensava que todos falavam inglês, mas, de fato, só nos centros das cidades é fácil encontrar quem fale inglês. No meu prédio mesmo, ninguém fala.

Pensava que as pessoas seriam desagradáveis e mal-educadas com estrangeiros. Me enganei! Os suíços são reservados, mas são muito gentis e educados em geral.

Achava também que teria que me esfolar de trabalhar para justificar o salário em minha empresa. Ledo engano também: trabalha-se num ritmo muito mais suave e organizado do que no Brasil.

Os colegas de trabalho são de toda parte do mundo: sul-africanos, mexicanos, brasileiros, espanhóis, tailandeses, chineses, indianos e, até, suíços.

No meu departamento, em especial, todos são extremamente simpáticos. Passo o dia fazendo piadas com o suíço-francês grandalhão e com meu ex-chefe mexicano. Já saí pra jogar sinuca e beber cerveja com ambos.

Nós brasileiros sempre levamos um pouco do Brasil conosco e aqui é fácil de comprar guaraná, goiabada, feijão preto e tudo mais. Tenho cortado o cabelo no salão de uma baiana e, quando houve a festa latina aqui, o que mais bombava era uma barraca de comida brasileira onde rolava um show de uma cantora que cantava sucessos de Ivete Sangalo.

Difícil mesmo foi lidar com o inverno longo e rigoroso. Em especial entre o final de dezembro e as primeiras semanas de janeiro, a temperatura ficou sempre abaixo de zero. Chegou à uma mínima de -8°C aqui na cidade e a máxima não passava de -2°C.

Não bastasse o frio, os dias eram curtíssimos e escuros. E, mesmo eu, que sou um sujeito naturalmente alegre, fiquei bastante triste neste período. Pensei várias vezes em desistir e voltar pro meu querido Brasil.

Felizmente, me adaptei. A vida aqui é muito, muito calma. Zurique é a maior cidade suíça, mas tem somente cerca de 450.000 habitantes. Pequena quando comparada à maioria das cidades brasileiras.

E também não é um caldeirão fervilhante de gente e cultura como Londres, Paris ou Madrid. Se muito, deve haver umas 40 salas de cinema, 3 shoppings medianos, uns 10 teatros. A maioria dos restaurantes estão concentrados na "cidade velha" no centro. Ou seja, muito diferente do que um carioca estava acostumado a ter na 2a maior metrópole do Brasil.

Mas há suas compensações: é ultra-segura, ninguém tem medo de nada. Não tem bairro perigoso, não tem favelas ou conjuntos habitacionais precários (em Paris ou Madrid, por exemplo, tem). E tudo é verde e limpo e muito organizado. Ser meticuloso e perfeccionista é uma espécie de mania nacional.

Quando você pega um trem, é fácil, olhando a paisagem, saber se você ainda está na Suíça. Quando fui à Itália, por exemplo, você passa por Lugano que é uma cidade linda da suíça-italiana. Limpa, verdejante, parece um cartão postal. Você cruza a fronteira, e tudo muda. A Itália é bem mais suja e desorganizada. E olha que eu reparo o mesmo na Alemanha e na França também.

Não sei ainda quanto tempo viverei aqui. Certamente não será para sempre. Dei entrada na minha dupla cidadania portuguesa para garantir que eu não dependa de contrato de trabalho para viver na europa. Acho que seria bem mais fácil viver, por exemplo, em Lisboa ou Madrid que têm climas mais amenos e o povo mais parecido com o nosso.

Por enquanto, vou tocando a vidinha aqui. Estou me esforçando nas minhas aulas de alemão para me ajudar a adaptar também.

Tem uma coisa curiosa que acontece comigo no trabalho. Passo o dia falando em inglês e, às vezes em espanhol. Quando vou às aulas de alemão, a professora fala em inglês também. E eu começo a misturar! Já respondi perguntas feitas em alemão em português!
Bem, é só isso por enquanto. Depois eu coloco mais impressões sobre esta minha experiência.

Abraços!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"Dorzer"





A dor é apenas uma variação mais intensa e obscura do prazer. E, prazer é infligir a quem se ama a certeza da agonia mais intensa.

“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.

Mordi a língua e senti as pancadas do gato-de-nove-caudas em minhas costas. Mais um pouco do chicote e eu conseguiria. Mais forte e eu chegaria lá. Quase, quase...Mas foi a mesma decepção de sempre. Não foi forte o bastante. A dor não me excitou o necessário. Nem puxando com violência os piercings dos meus mamilos, nem tendo os testículos comprimidos pela cinta de couro.

Me vesti irritado. Paguei o cachê não merecido àquela que se dizia uma dominatrix e fui embora, para jamais voltar.

***

Sei bem como tudo começou. Algo da minha infância. Quando minha mãe me dava surras homéricas para compensar seus recalques de puritana falsa. Sovas de cinto, de cabo de vassoura, com as costas das mãos...

Com o passar dos anos, eu já fazia as bobagens de propósito. Tudo o que eu podia para torná-la mais furiosa e violenta. Para ser surrado enquanto, secretamente, tinha meu pinto duro dentro dos shorts.

Porém, depois de parar no hospital por umas duas vezes, a justiça a separou de mim. Fiquei então sob os cuidados de minha avó. Uma mulher impossivelmente paciente. E só vi minha mãe mais umas duas vezes antes dela morrer. E eu nunca pude explicá-la sobre o quanto eu a amava. O quanto de prazer ela me proveu. Sobre as quantas vezes que me masturbei depois, mentalizando o seu pulso forte e a sua franca vontade de maltratar.

Cresci e tentei esquecer os prazeres da dor. Me anestesiei com um emprego bom, uma boa esposa. Filhos, carro, apartamento e cachorro. Viagens a hotéis-fazenda, à casa de praia. Sexo nos sábados. Sempre limpo, sem emoção, sem prazer. Sem posições de Kama Sutra, sem “dress codes”, sem “facials” ou “glory holes”. Sem graça.

***

As coisas mudaram quando conheci Cibele no escritório. Ela era uma temporária que veio cobrir a licença-maternidade de uma recepcionista.

Cruzei o olhar com ela naquela manhã . Os seus olhos verdes e meio rasgados e o cabelo desfiado e colorido me encantaram. Sua voz e seu jeito malicioso de passar a língua nos lábios eram convites velados para o prazer.

Resisti por um mês. Sexo era algo tão sem graça para mim que uma aventura extra-conjugal só significaria dor-de-cabeça. Mas, numa sexta-feira em que trabalhamos até mais tarde, bebemos alguns chopps depois do trabalho e, quando dei por mim, estava no apartamento dela. Deitado em sua cama enquanto a louca me rasgava as roupas.

Mas a fúria com que Cibele se entregava era algo completamente novo para mim. Transar com ela significava acordar com a língua esfolada, as costas lanhadas e o pênis mordido.

Lembro-me como foi divertido quando fui à uma reunião no dia seguinte e tinha uma mancha de sangue seco atrás da orelha. Inventei uma desculpa boba, mas me lembrava muito bem de seus dentes nada gentis.

A brincadeira começou a esquentar quando Cibele comprou alguns brinquedos. Chicotes, roupas tachadas, máscaras e palmatórias. Bastava uma boa sessão de “spanking” e eu, com as nádegas em brasa, copulava por horas seguidas.

O problema começou quando passei a não me contentar com pouco. Quando eu precisava cada vez de mais para conseguir ter prazer. Acho que a assustei quando comprei alguns metros de arame-farpado para fazer um açoite ou quando sugeri que ela me pisasse com uns novos sapatos cheios de travas metálicas que lhe presenteei.

Cibele sumiu de minha vida como apareceu: de repente. A recepcionista voltou da licença e Cibele não me ligou mais ou me retornou meus telefonemas. Após duas semanas sem vê-la, fui ao seu apartamento e ela havia se mudado. Não consegui encontrá-la mais.

***

Minha vida virou um inferno então. Não conseguia ter relações com minha mulher ou com qualquer outra mulher. Minha necessidade pela dor e pela humilhação mais abjeta não me permitia sentir absolutamente nada nestes jogos sexuais comuns.

Saí então de férias e viajei a São Paulo atrás dos clubes que prometiam muito. Porém, logo descobri que, não importando a natureza do clube, não havia dor real.

Eu me perguntava: que graça havia em ser possuído num “sling” que tinha algo como uma buzina para avisar que a dor estava intensa demais? Eu precisava ser queimado, cortado, tratado como o animal podre que eu era. Como eu bem sabia que merecia ser tratado. Só isso.

Depois de quase uma semana buscando prazer sem sucesso, esbarrei num anúncio obscuro num jornal: “Sara, A Dominatrix – Seu prazer ou seu dinheiro de volta.” Fiquei curioso e liguei ainda naquela noite. Ela não podia me atender, disse-me que tinha a agenda cheia até três dias depois. Que eu deixasse o telefone e ela me retornaria se houvesse uma desistência. E que uma sessão de uma hora ficaria por quinhentos reais.

Realmente aquilo me impressionou. Ninguém cobrava tão caro, todos sempre estavam mais do que disponíveis e solícitos. Agendei para três dias depois e ela não me ligou antes. Aparentemente, não houve desistências.

Cheguei no apartamento bonito, arrumado e amplo. Sara veio receber-e e estrevistar-me primeiro. Queria saber o que eu realmente queria e quais eram minhas preferências. Não fez menção de espanto sobre minha necessidade extrema de dor.

Levou-me à uma sala grande, despi-me e fui algemado pelos pés e braços em uma mesa. Logo ela trouxe um carrinho de instrumentos completamente original. Queimou-me com velas, perfurou meu corpo com instrumentos pontiagudos e espancou-me brutalmente com uma espécie de raquete pesada de madeira. Experimentei outra vez o quase esquecido prazer.

Terminada a sessão, levantei exausto e satisfeito e paguei além do combinado. Cada novo dia era uma prova dura para o profissionalismo e a criatividade de Sara. Entretanto, após meras nove sessões, eu já pouco sentia prazer. Não conseguia mais gozar.

Numa outra sessão, quase desesperada, Sara quebrou-me uma costela e deixou-me com um dente mole ao me atingir com um soco inglês. Eu bem que cheguei perto mais não consegui. Decepcionada, ela fez questão de não receber.

Mas, numa tarde da semana seguinte, resolvi dar mais uma chance àquela magnífica e única artista. E ela não deixou de surpreender. Esticou-me até que minhas articulações quase romperam, cortou-me com navalhas deixadas em baldes de gelo, queimou-me com ferro em brasa, espancou-me tão violentamente que eu tive que me esforçar para me manter coinsciente.

Deitou-me nu com o abdômen voltado para cima e algemado firmemente pelos pés e mãos. Trouxe algo como uma lâmina curva posicionada na ponta de um cabo longo de madeira.

Golpeava-me e eu pedia mais. Sentia o orgasmo se aproximando enquanto eu era depreciado e destituído de todas as prerrogativas dos remotamente humanos. Enquanto os cortes profundos me redimiam de toda a minha culpa.

“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.

Senti o prazer se aproximando quando vi Sara, absolutamente suada e descontrolada, erger um machado brilhante, lindo e gótico no ar. Atingiu-me o pescoço tão pesadamente que só pude ver tudo girando e mudando de ângulo e... Finalmente, olhando para cima a partir do chão, pude observar, satisfeito, o meu corpo sobre a mesa distante e meu pênis ereto. Por fim, esguichando alto e abundantemente com o maior dos orgasmos.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Hocus Pocus

Em sua busca pelo truque perfeito, o Grande Dionisius correu o mundo inteiro. Na Turquia conheceu os mistérios dos truques de levitação, dos truques com espadas e de desaparecimento. Viajou ao México e conheceu outros novos com cartas, cartolas, fumaça e espelhos. No Japão aprendeu inúmeros outros sobre arcos metálicos, transmutação e sobre como parecer que voava com o auxílio de cabos quase invisíveis.

Seu conhecimento de truques tornou-se enciclopédico e sua fama logo lhe trouxe riqueza e reconhecimento. O Grande Dionisius era convidado para participar dos principais eventos e shows e seu cachê tornara-se estratosférico.

Apesar disto tudo, Dionisius era infeliz. Frustava-se com cada novo truque que aprendia, cada novo engodo. Mais uma enganação, mais uma mentira! Estava farto de truques. Em seu íntimo, ardia o mais profundo desejo de conhecer a magia verdadeira. De ser capaz de fazer o impossível, o ilógico, o que incendiaria a mente de homens e mulheres.

Desanimado, cancelou seus muitos shows e saiu, outra vez, em jornada pelo mundo para aprender mais.

***

E, naquela manhã calorenta e abafada, ele caminhava sem rumo pelo interior da Índia quando algo o surpreendeu. Um homem velho, quase um faquir de tão magro e miserável, fazia truques na rua por esmolas. De uma cesta vazia de vime, retirou uma cobra. Um gesto, fechou a cesta e exibiu-a vazia outra vez. Retirou um coelho. Exibiu-a vazia e retirou, quase indefinidamente, pombas, flores, corujas, lenços coloridos, tochas acesas e espadas que não caberiam no cesto! Não havia portinholas no chão. Era só a calçada suja. Dionisius já estava impressionado por tudo que havia visto quando o homem simplesmente levitou no ar. Dionisius já havia executado inúmeros truques de levitação, mas é preciso um palco escuro, um fundo que esconda os fios, espelhos, fumaça, algo! Mas não havia nada e, aquele homem, praticamente um mendigo sujo, flutuava no meio do ar como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Deu uma esmola mais que generosa e tentou conversar com o homem. Mas este não falava uma palavra de inglês e somente conversava no dialeto incompreensível da região. Frustado, Dionisius procurou nas lojas alguém que falasse inglês e voltou, com o intérprete pela mão, antes ainda do mendigo ir embora.

Através do seu intérprete, convidou o pobre homem para almoçar e ele aceitou
imediatamente.

_Meu nome é Dionisius. Como o senhor se chama?_Kabir. – respondeu o homem com a boca cheia.
_Senhor Kabir, eu sou um ilusionista. Quantas rúpias o senhor quer para me ensinar seus truques?
_Não faço truques. Faço mágica. E não posso ensinar a ninguém.
_Deixe de brincadeiras, Kabir. Eu lhe ofereço cinco milhões de rúpias. É o suficiente para o senhor comprar uma casa, um carro, ter uma vida confortável.
_Eu agradeço, Dionisius. – disse ele limpando a boca com a manga da camisa – Mas não posso aceitar! Não preciso de casa, carro ou nada assim. Eu tenho a mágica e ela me basta. Adeus e obrigado pela refeição!

Cheio de ódio e, sem ter como argumentar com o velho, Dionisius passou a assistir às apresentações de Kabir todos os dias nas calçadas. Fascinado por truques inexplicáveis feitos em plena luz do dia por apenas algumas moedas jogadas no chão sujo.

Após quatro dias e, sem conseguir convencer Kabir a aceitar nem uma fortuna que praticamente arruinaria suas finanças, Dionisius resolveu contratar gangsters locais.Os homens seguiram Kabir furtivamente após a sua apresentação diária nas calçadas e descobriram onde ele morava. Por alguns dias o observaram muito discretamente e viram quando ele retirou um livro grande e pesado de um esconderijo no chão do casebre miserável onde morava. Viram quando lia o livro e recitava palavras incompreensíveis realizando milagres sentado no chão do barraco. Flores surgiram no ar, cores dançavam um baile mágico nas paredes, criaturas fantásticas feitas de pura luz caminhavam sobre seus ombros e cabelos. O velho estava estudando o livro. Praticando novas mágicas ou algo assim.

***

Dias depois de volta à sua casa, Dionisius sorria satisfeito com o livro em mãos. Por uma ninharia encomendara o roubo do livro e a morte do velho teimoso. Agora era só conseguir algum linguista para traduzir o livro e começar a estudá-lo a fundo.

Os meses se passaram tão rapidamente que Dionisius não notara. Com enorme esforço e determinação quase fanática, conseguira realizar as primeiras mágicas reais do início do livro. Era agora capaz de fazer animais aparecerem e desaparecem em pleno ar. O tamanho não era importante. Mentalizava e poderia fazer aparecer um elefante se quisesse. Um mamute ou um centauro, se assim o desejasse. Naturalmente, num palco, não poderia fazer nada assim tão radical. Mas a descoberta penosa de cada nova mágica o fascinava e o surpreendia.

Mágicas de vôo e levitação, transformação, adivinhação. Cada novo capítulo revelava algo novo e mais avançado que o anterior. Depois de finalmente decifrar o último capítulo, Dionisius notou um espessamento estranho na contracapa. Com o auxílio de uma faca pequena, delicadamente, separou mais um capítulo escondido. Ficou impressionado porque este último capítulo estava impresso, não em papel, mas em pele. A impressão parecia tatuada na pele seca e envelhecida. Poros e pêlos podiam ser vistos no "papel".

Já era tarde e, de qualquer modo, teria que digitalizar e enviar aos tradutores. Resolveu dormir e teve uma noite de sonhos tranquilos.

***
Meses depois em um estádio de futebol lotado, Dionisius se apresenta no palco gigantesco no centro do gramado. As pessoas estão extasiadas com tigres que se transformam em elefantes que desaparecem no ar. Quando ele se eleva e voa ao redor do palco sem fios aparentes o publico delira e aplaude de pé. Chamas saem de seus dedos, serpentes de luzes de todas as cores correm pelos céus assustando e encantando o público.

Por demais confiante, Dionisius resolve experimentar algo que nunca tentou. Concentra-se e invoca um feitiço do último capítulo do livro. O que de miraculoso e maravilhoso poderia acontecer?

Um rugido esganiçado e horrendo reverbera no estádio. Em pleno ar, abre-se um portal flamejante que cega com sua luz branca e quente. Através dele, um exército de criaturas fantásticas adentra nosso mundo. Uma colossal nuvem de insetos carnívoros alça aos céus, criaturas com tentáculos e centenas de olhos espalham-se pelo gramado, demônios disformes, dragões feitos de puro fogo, serpentes negras feitas de sombras. Há pânico e o público tenta escapar sem êxito. Animais feitos de espículas venenosas empalam, aranhas de gelo e cristal congelam, cães descarnados feitos de ódio e malícia despedaçam. Um vagalhão pútrido e vivo afoga e derrete como ácido dissolvendo os corpos. A mágica em estado bruto se manifesta e espalha toda sua loucura e brutalidade.

Segundos antes de ser consumido, Dionisius, consciente de ter trazido o apocalipse ao mundo real, finalmente entende que o livro era apenas um portal discreto e controlado. Apenas uma janela para outro universo selvagem e irracional de delírio e destruição. Que era uma ferramenta correta nas mãos de um artesão competente e sábio. E que ele teria a eternidade para lamentar sua estupidez.

sábado, 6 de junho de 2009

Futuro do pretérito imperfeito

Se me fosse possível voltar no tempo, convenceria a mim mesmo a não fazer o que fiz.

Teriam porém que inventar. Novos, novos tempos verbais. Como expressar o que eu faria e fiz mas que jamais faria por minha própria intervenção?

Matarei-ia? Esfaquearei-ia? Chorarei-ia?
Matei-ia? Esfaqueei-ia? Chorei-ia?
Perdoaria-ei! Beijar-te-ia-ei!
Perdoei-arei! Beijei-te-aria!

Voltaria ao meu próprio tempo e te veria ao meu lado enfim.

Não suicidar-me-ei-ia e ou arrepender-me-ei-ia!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pequenos Absurdos

Luiz Carlos e Carlos Luiz são irmãos gêmeos. Luiz tem um caso com a esposa de Carlos. Os irmãos vão ao parque de diversões e entram no Palácio dos Espelhos. Carlos Luiz tem uma faca e investe contra seu irmão. Com horror observa seu próprio braço enterrando a lâmina em seu peito. Nunca soube o que o atingiu. Tampouco eu ou você.

***

Ao se afastar demais da praia caribenha, João começa a se afogar. Mergulha pela terceira vez engolindo água e vê os cardumes coloridos e os corais ondulando banhados pelo sol tropical no mar cor de esmeralda. Por não ter chances de se salvar, nada resoluto ao fundo. "Se tenho que morrer... Que seja de encantamento..."

***

Descendo em velocidade estonteante devido ao pára-quedas rasgado, Sandra pensa em Einstein. Se ela cai na Terra, a Terra também cai em Sandra. O que mata não é a queda. É a parada súb...


***

Voltando para casa pela viela escura, Sérgio viu o demônio à espreita na esquina. "Não acredito em demônios", pensou. Infelizmente, o demônio acreditava em Sérgios.

***

Quando as chamas engolfaram seu corpo nu, o glutão, em seu último pensamento, apreciou o seu cheiro bom de rosbife e morreu com a boca cheia de saliva.

***

O jovem padre morreu e foi ao Inferno. Mas considerou tudo uma benção. Que maior desafio poderia existir? Ergueu então um altar e celebrou a primeira missa pelo perdão dos condenados.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Poço




Rodrigo é só um menino e olha para dentro do poço. Ele sente a umidade no musgo que cresce sobre as pedras. Ele observa a escuridão plácida da água sempre fresca. Ele tenta em vão enxergar o que há no fundo. Mas a água é negra - embora límpida.

O poço é profundo e antigo. Mais antigo que Rodrigo. Mais antigo que qualquer coisa na propriedade. Rodrigo olha para dentro do poço, mas o poço também o observa. E espera.

A paciência é infinita quando a fome é secular. Quando sua existência é medida em eras e não em anos.

Um instante se passa e Rodrigo é um homem adulto. E, sem muito esforço, sobe baldes e baldes de água todos os dias.

Um piscar de olhos e ele é um velho alquebrado, que se esforça para puxar a corda e fazer a roldana do poço girar. Para fazer subir o balde de água fria que mata a sede. Para gozar mais uma vez da dádiva que o poço provê.

Mas o velho Rodrigo já não tem mais forças e o piso de pedras já está gasto demais. Rodrigo escorrega e precipita-se para dentro da água escura.

Os gritos são abafados. A escuridão é densa. A água é fria demais.

Um minuto depois e há outro menino olhando para dentro do poço. Mas o poço é paciente. Ele sabe esperar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Carta



Diogo, sem ter muito o que fazer, resolveu ir à loja de livros usados. Folheava os livros da mesa onde eram vendidas as ofertas especiais por 1 real a unidade. Separou "A Ilha do Tesouro", "A Máquina" e "O Livro dos Mortos".

A leitura leve e divertida dos dois primeiros livros lhe distraiu por alguns dias. No domingo, começou a folhear o terceiro. Havia um espessamento entre algumas páginas que estavam coladas. Separou-as com uma faca e, para a sua surpresa, encontrou uma carta fechada e amarelecida. Não havia remetente ou destinatário no envelope.

Abriu o envelope e encontrou uma carta escrita à mão. A caligrafia era ruim, as letras inclinadas para à esquerda eram vagamente familiares.

"A quem possa interessar.

Escrevo porque sinto a necessidade de alertar. Sobre os perigos inesperados que residem em cada olhar apaixonado. Sobre a perda que é dolorosa demais para compensar os dias em que conheci a felicidade mais completa.

Lembro-me muito bem do dia 22 de setembro de 2009…"

Que louco! Pensou, Diogo. Hoje é 26 de abril de 2009! Deve ter escrito o ano errado, sei lá.

"Por alguma razão completamente improvável, encontrei naquele dia Joana, no centro da cidade, às 23:00 em ponto. Improvável, porque eu já havia ido para casa e só tinha ido ao centro por causa de um telefonema da empresa, solicitando meu suporte urgente. Improvável porque eu ainda não a conhecia e ela não morava no centro. E ainda improvável, porque ela não deveria dar atenção a um estranho que esperava à porta da empresa pelo vigia, num lugar extremamente mal-frequentado em tal horário.

Mas, ela escutou minhas gracinhas sem graça com bom-humor. Conversamos ali por minutos que pareceram horas e trocamos nomes e telefones.

Dizer que conheci a felicidade então, é impreciso. Não há como colocar nestas linhas o quanto minha vida mudou a partir daí.

Sobre quantos segredos compartilhamos, sobre as tantas vezes que rimos juntos e as poucas em que choramos.

Ela era tão transparente e sincera e eu tão esquivo. Eu a admirava, queria me integrar a ela, ser um só se possível. Passamos os anos seguintes sempre juntos, olhando nos olhos e se espantando com tanta felicidade.

Cada nova casa que habitamos, cada nova planta ou bicho de estimação tinham o seu toque; uma fração de sua alma.

Mas em 15 de novembro de 2015, ela resolveu visitar sua mãe e, ao atravessar a avenida distraída, o destino a veio roubar de mim.

E eu, quase um ano passado desde a sua morte, olho para o vazio que ficou e penso que, embora vivo, já morri. Coloco então esta carta entre as páginas do "Livro dos Mortos" e espero que meu alerta sirva para todo aquele que ousar viver um amor como o que eu vivi. Que tudo é efêmero, que nada é garantido. E que apenas o vazio poderá te consolar no final.

Rio de Janeiro, 02 de novembro de 2016
Diogo Souza."

Diogo sentiu um arrepio repentino ao notar o porquê a letra lhe era familiar e o porquê das datas estarem localizadas no futuro. Não perdeu tempo em tentar entender o impossível, mas apenas encheu-se de dúvidas sobre como evitar a tragédia que lhe aguardava no futuro próximo.

Simplesmente deveria ignorar a ligação do trabalho no dia 22 de setembro? Deveria ir e apenas observar Joana de longe? Aquela que seria um dia o seu grande amor?

Os meses se passaram e, no dia 22 de setembro de 2009, Diogo estava lá às 23:00 em ponto, com um ramo de flores na mão, disposto a correr os riscos que fossem necessários…

terça-feira, 21 de abril de 2009

Presas e Predadores


Bem, eu sempre gostei de contos de terror. E, em especial, dos que mexem com nossos medos mais primitivos. Espero que este lhe perturbe o sono!





"A única certeza na vida é a morte. E a única certeza na morte é que ela não será indolor. Mesmo que na cama, durante uma noite de sono. Mesmo assim, certamente haverá a sensação de sufocamento, o aperto no peito, a sensação de queda súbita em direção ao vácuo escuro e infinito. Não há nada pior do que a morte. O fim de tudo, o esquecimento. Do pó ao pó".

Jonas sempre foi fascinado pela morte e a temia acima de todas as coisas. De família tradicional e abastada, vendeu tudo o que sua falecida mãe lhe deixou: propriedades, carros, ações, empresas. Só lhe interessava o dinheiro vivo, que pudesse financiar seu projeto.

Sua mãe, conhecia sua natureza e o controlava com mão-de-ferro. Mas ela não estava mais aqui e, agora era sua vez de fazer o que sempre quis.

Jonas tornou-se um serial-killer bem-sucedido. Extremamente organizado e paciente, jamais esteve sequer perto de ser surpreendido ou preso. Saía agora de sua terceira casa alugada em 3 anos, sob um terceiro nome falso. Com apenas 30 anos, tingiu os cabelos de branco e os raspou parcialmente para parecer calvo. Já fora louro, ruivo e moreno.

Havia deixado tudo preparado outra vez. O corpo comprado de um indigente no IML sentado no sofá da sala tinha seus documentos. No porão da casa, meticulosamente arrumados e dispostos, jaziam em freezers separados os corpos de dois meninos e duas meninas. Não crianças quaisquer, mas crianças que atendiam aos seus critérios restritos. Havia feito o mesmo em Santo André e São Bernardo e agora em São Caetano do Sul.

Tinha a necessidade extrema de ordem. Somente dois meninos e duas meninas por cidade. E, por capricho, resolvera seguir a ordem alfabética e dirigia-se agora à Diadema. Logo, logo o cano de gás deixado aberto explodiria tudo e apagaria suas pegadas mais uma vez.

Na estrada, um rapaz mulato de uns 16 anos e de extrema beleza e sua irmã sorridente pediam carona, mas eles os ignorou porque não lhe agradavam os escuros de pele ou os adolescentes.

Num semáforo na entrada de Diadema, um menino de feições asiáticas de uns 12 anos ofereceu-lhe balas para comprar. Estava acompanhado de sua irmã, linda e sorridente como um ícone nipônico. Novamente os dispensou pelas mesmas razões; muito velhos e da raça errada.

Ainda mobiliando a casa nova, esbarrou a caminho do shopping com um menino de uns 9 anos de mãos dadas com sua linda irmã mais nova. O menino pediu que lhes pagassem um sorvete. Morenos e de cabelos muito lisos, pareciam pequenos e lindos índios. A menina apenas sorria. Novamente os ignorou e seguiu adiante.

Dias depois, passando de carro em frente a uma escola municipal, viu um menino ruivo de uns 7 anos de mãos dadas com sua irmãzinha loura e sorridente. Os uniformes estavam impecáveis e as crianças acenavam quando ele passou.

Deu três voltas pelo quarteirão até ter certeza que as crianças estavam sozinhas e ofereceu brinquedos e doces em sua casa. O menino era tagarela e inteligente. Mas falava de um modo estranho, misturando expressões e gírias atuais com outras muito mais antigas. A menina apenas sorria. Não disse uma palavra sequer.

Levou-os ao porão de sua nova casa e trancou a porta.

Aproximou-se e olhou para o rosto da menina que sorria imutável. As bochechas rosadas, os dentes pequenos, perfeitos e brancos. As pequenas sardas claras nas faces e sobre o nariz. O cabelo cor-de-palha-de-trigo. Os olhos como olhos de boneca. Azuis brilhantes, com uma miríade de sub-padrões de cores que variavam do âmbar ao verde.

Olhou outra vez e não acreditou. Como o ar superaquecido que tremula nas estradas nos dias mais quentes, as figuras da menina e do menino ondulavam e se derretiam diante dos seus olhos. Piscou e esfregou os olhos e quando olhou de novo, não havia nada que lembrasse remotamente às crianças que trouxera à sua casa. A criatura que fora a menina, olhava-o fixamente com seus novos olhos caprinos e amarelos. A pele couriácea e marrom era translúcida e estava esticada sobre o pequeno corpo como o couro de um tambor. As mãos e os pés eram uma coleção de protuberâncias ósseas sem sentido. Os joelhos estavam agora voltados para trás, dando as pernas o aspecto de patas de inseto. Não havia boca, mas algo que lembrava um tubo no lugar.

Ele ia gritar o mais alto que podia mas, com um movimento absolutamente inumano, a criatura saltou, deu uma pirueta em pleno ar e posou sobre seus ombros, cravando os esporões que tinha nas laterais dos pés. O grito morreu em sua garganta. Uma sensação de frio e dormência se espalhou por seu corpo. Não conseguia se mexer mais. Mal conseguia respirar ou piscar os olhos. Ficou lá observando apavorado sem nada poder fazer. Uma estátua viva. De predador, passou à presa.

A criatura que fora a menina saltou de seus ombros e ficou agachada observando-o afastada. O menino, que até agora tinha permanecido parado, aproximava-se lentamente. Observou-o e viu muitas diferenças com relação à outra criatura. O crânio era vagamente piramidal e, a boca enorme, era como um dos seus vértices. As mãos pareciam uma coleção de instrumentos de corte negros e de diferentes tamanhos. Chegou junto a seu rosto e o cheirou longamente com suas narinas nuas. Aparentemente muito satisfeito, abriu a boca que exibia três arcadas de dentes triangulares e serrilhados tanto na parte superior quanto na inferior. Uma língua áspera e arroxeada lambeu sua face e o olho que não conseguia fechar.

Escutou dentro de sua mente, a voz áspera da criatura, que parecia recitar uma litania. “É chegada a hora do gozo dilatado e febril. É chegado o momento de hastear as carnes rasgadas ao vento. É hora do padecer servil, de transformação viscosa e pujante."

Ele tentou argumentar em sua mente por perdão e clemência, mas a criatura o ignorou e continuou.

"Há muito que esperamos por ti. Teu antecessor não resistiu mais que parcos 70 anos. Mesmo com toda a nossa atenção e carinho, parou de prover. Mesmo com todas as enzimas, todos os hormônios... Somos um pouco como você; não nos serve qualquer um. Apreciamos os verdadeiramente cruéis. Somos predadores de predadores."

Dito isto, mordeu-lhe suavemente a face e arrancou um pequeno naco com seus dentes muito afiados. Mastigou por alguns instantes com uma expressão de aprovação e cuspiu no chão. Sua irmã apressou-se em sugar a massa rósea semilíquida. Aparentemente agiam simbioticamente. Ele mastigava para ela que não possuia dentes e ela paralisava as vítimas.

"Uma refeição tão refinada não deve ser desperdiçada pela pressa".

Lambeu a ferida aberta e sua saliva estancou o sangue e provocou um formigar de cicatrização. Fez um sinal à sua irmã, que se aproximou. Ela enfiou um dos braços cheio de apêndices no abdômen de Jonas. A dor foi tamanha, que ele apenas viu borrões e luzes nas próximas horas, sob intensa agonia.
Vísceras e órgãos foram deslocados, reconectados, transformados. Seu corpo estava sendo reprogramado, inchava e se estendia para prover novas funções desconhecidas. Para ser devorado aos poucos e regenerado depois.

Existem coisas muito piores que a morte, pensou. Há a certeza da dor infinita, da deformidade e do sofrimento sem esperanças de redenção. E, acima de tudo, há a esperança de que tudo acabe um dia, debelada diariamente, fatia por fatia.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Percepções

Minha primeira lembrança? Bem, minha primeira lembrança foi algo que me confortou muito. Foi quando minha primeira faísca de coinsciência aflorou e, enquanto meus olhos não desenvolvidos ainda não viam e eu escutei. Escutei a batida do coração Dela. E descobri que eu não estava sozinho. E ele batia gentil. Não tão rápido quanto o meu. Tão pequeno, tão apressado. Mas num ritmo solene, calmo e grave que me embalava e me fazia feliz.

Cheguei ontem finalmente em São Paulo, depois de quatro dias na estrada desde o Piauí. Minha irmã me prometeu um cantinho na vaga onde ela mora e vai me apresentar pra umas madames que tão querendo os meus serviços de faixineira. Não vou conseguir muito, eu sei. Mas é muito difícil me virar sozinha neste mundo de meu Deus. Mal sei escrever meu nome, como conseguir coisa melhor? Sei lá, talvez pelo sacolejo da estrada ou porque só tive tempo pra comer porcarias, não paro de vomitar desde que cheguei na rodoviária.

E desde então eu respiro o líquido levemente salgado e morno no qual flutuo. Me movo como um astronauta, lentamente. Tocando e sentindo e explorando o universo que é para mim tão seguro, escuro e aconchegante. Toco meu próprio corpo com meus dedos ainda sem unhas e sinto a penugem que me cobre. Me estico e me espreguiço e esbarro no corpo Dela. E cheio de respeito, amor e encanto, sinto. Como talvez poderia se sentir, aquele que tocasse a face do Criador. Pois Ela é tudo. Ela é o mundo.

Um mês já se passou feito um corisco. Comecei a chorar quase sem motivo. Qualquer música, qualquer propaganda me emociona. Fiquei com a pulga atrás da orelha e acordei bem cedo e fui no posto de saúde. O médico lá me examinou e disse que tô grávida. Quase caí sentada quando escutei. O que eu ganho é tão pouco e me sinto tão burra. Só levando bronca por não saber usar o telefone direito, por ter medo de mexer na máquina de lavar. Que tipo de mãe eu poderia ser?

Mal consigo imaginar como ela seria. Que pessoa tão extraordinária seria capaz de criar vida? De gerir este imensamente complicado equilíbrio com tanta perfeição? Imagino seu rosto tão lindo, tão radiante... Como deve se parecer a encarnação da ternura? Com que leveza e arte deve se mover?

Perdi o trabalho das terças, depois que quebrei outro prato. Meu Deus, como sou estabanada! A barriga agora tá crescida e bicuda. Segundo minhas colegas deve ser um machinho que vem aí. Vou ter que batalhar algo novo pro dia que tenho vago agora. Eu mal tenho tempo de pensar neste bebê. Neste moleque sem nome que vou trazer pro mundo.

O mundo inteiro parece que encolheu. Estou apertado e agora de ponta-cabeça. Tudo convulsiona e se agita. Eu sinto medo, pela primeira vez. Mas lembro Dela e confio. Me acalmo quando sei que Ela não deixará que nada errado me aconteça.

Saindo da casa da Dona Lúcia, comecei a sentir muita dor. Peguei o primeiro ônibus, mas está tudo engarrafado. A dor piora e eu começo a suar de medo. Não posso ter este bebê agora! Não posso! Mas meu corpo não me obedece e eu começo a parir meu guri deitada no banco do ônibus, com minhas coisas espalhadas pelo chão, amparada por um policial que veio ajudar.

Me vejo envolvido num turbilhão enlouquecedor, meu mundo plácido e silencioso deu lugar a um outro cheio de ruído e dolorosamente iluminado que me cega. Eu choro forte e me agito e ... a vejo.

Eu grito mais uma vez e uso toda minha força pra conseguir. O menino nasce gritando forte e agitado! Trazem ele pra perto de mim e eu o olho nos olhos.

Você é tudo o que eu imaginei!

Você é tudo o que eu imaginei!

domingo, 5 de abril de 2009

Nômade

Eu já estava desperto, mas hesitava em abrir um olho sequer. Não tinha certeza sobre onde estaria ou quem eu seria nas próximas 24 horas.

Meu corpo, melhor seria dizer, meu corpo original, está em algum hospital. Cheio de tubos, ligado a muitos aparelhos. Meu corpo está lá, mas eu não estou. Por algum capricho, vago de corpo em corpo, todos os dias.

Creio que já se passou mais de um ano desde o acidente. Minha percepção do tempo não é perfeita. Enquanto meu corpo se atrofia e se enche de escaras, minha mente se expande e amadurece, vivendo vidas e realidades que jamais conheci.

Neste período, fui homem, mulher, criança, velho, rico, mendigo. Creio que escrever estas linhas seja uma forma de expressar meu desespero, meu desamparo e minha necessidade de encontrar um sentido ou uma missão.

De início eu apenas tentava ferir aos meus hospedeiros, cujas coinsciências adormecidas não tinham controle nenhum sobre minhas ações. Tentava puni-los porque queria que conhecessem minha dor.

Depois, talvez por minha natureza, ou por considerar que deve haver algum objetivo em passar pelo que estou passando, tento entendê-los, amá-los e, neste curto espaço de tempo que disponho, consertar um pouco suas vidas.

Já reconciliei pais e filhos que não se falavam há anos e que, já haviam quase esquecido a razão do seu ódio. Já doei quase todo o meu dinheiro a obras e instituições quando estive rico e poderoso. Dei carinho e atenção a uma esposa que, após as minhas inúmeras traições, ainda conseguia amar-me mesmo sem ser correspondida.

Mas também tive os dias difíceis quando apenas o cheiro da cola me entorpecia a fome e o medo e o frio eram meus companheiros à noite. Ou quando no corpo de uma velha senhora, senti o peso da solidão. Os filhos distantes, os telefonemas não retornados. Os mil subterfúgios para esconder de si mesmo a realidade. Os cães, as plantas, os bordados, as novelas.

Um dia padre, no outro puta. Um dia a menina gordinha que lancha sozinha durante o recreio, no outro o garotão cheio de grana e pó, que maltrata o porteiro e assedia a empregada. Um dia participando de reuniões importantes sobre assuntos que ignoro por completo, no outro chorando sob a chuva, deitado sobre uma cama de papelão.

Já não sei quem sou. Minha alma é um caleidoscópio. Está esparramada e multifacetada. Encharcada demais por vidas demais, por mortes em vida demais.

Hesito mais uma vez, abro o olho e espero a imagem entrar em foco e ver o que de surpreendente ou mundano o destino me reservou hoje.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dona Lucinda

Dona Lucinda era viúva, carola e fofoqueira. Nos seus oitenta e três anos de vida, fez o que pode para atazanar o falecido Seu Everaldo, seu marido. Fazia-o comer os mesmos pratos nos mesmos dias da semana, dia após dia. E sempre sua comida era insossa, cozida demais e imutável. Não havia espaço para invencionices ou arroubos de criatividade. Carne-moída com purê, fígado e salada de maionese, frango com batatas, carne-seca com quibebe e peixe ensopado. Sempre.

À mesa, sempre coberta por plástico transparente imaculado, vigiava enquanto Seu Everaldo comia. Não admitia que houvesse restos no prato ou migalhas sobre a mesa. Não admitia ruídos, boca aberta, garfo na mão direita, beber durante a refeição. Em seus últimos dias no hospital, o pobre Everaldo devorava a comida de lá como se estivesse almoçando em algum restaurante cinco estrelas.

Nas missas, às quais não faltava nem quando doente, ficava reparando nos vestidos mais curtos do que a boa moral recomendava, nos divorciados que comungavam e no pobre Flavinho, neto de Dona Sofia, tão novinho e tão afeminado!

Ela sabia de cor todos os salmos, chamava a atenção do padre quando a homilia lhe parecia avançada demais e distribuía beliscões nas crianças mal-educadas as quais ensinava nas aulas de catecismo.

Foi, portanto, um grande choque para ela, quando, depois de morrer, foi parar no Inferno.

Viu-se sentada numa cadeira em um enorme salão antiquado, como em uma repartição pública. Vestida com seu melhor vestido, maquiada e ainda cheirando a cravo-de-defunto. Tirou as bolinhas de algodão do nariz e foi tomar satisfações com o encarregado da triagem dos recém-chegados.

__ Meu filho, já fazem 20 minutos que estou sentada nesta cadeira, está fazendo um calor senegalesco (ela gostava de usar esta expressão, sentia-se meio racista sempre que a usava) e eu já sou uma senhora idosa e doente e...

O pequeno demônio, que aparentava ser um jovem bem arrumado, muito pálido e de olhos e cabelos escuros, estava sentado atrás de pilhas e mais pilhas de formulários e fichários. Revirou os olhos como numa prece, contou 50 carneiros pulando para dentro de uma cratera de lava fervente (ele sempre fazia isto para dormir e se acalmar) e respondeu:

__ Minha senhora, aqui é o Inferno e não um bingo de caridade. Tem gente esperando na fila há anos e quase todos eram doentes ou velhos que nem a senhora. Tem mais de mil pessoas na sua frente ainda.

O choque de saber que estava no Inferno não a abalou. Ela sabia dos seus direitos, sabia que era prerrogativa que alguns devem prevalecer sobre os outros.

__ A mim não importa se estou no Inferno ou não. Eu não vou ser desrespeitada e tratada feito qualquer uma. Ou você me atende agora ou eu vou começar a cantar meus hinos e tornar a vida de vocês ainda mais miserável!

O pequeno demônio que agora contava 100 carneiros decapitados e saltando alegremente para dentro de mandíbulas de crocodilos, ia falar alguma coisa, quando o telefone sobre sua mesa tocou.

__ Ah, sim, chefe! Sim, claro! Sem dúvidas, certamente! Imediatamente!

Curiosa, Dona Lucinda perguntou:

__ E então? Vai me atender agora?

__ Sim, claro! Veja bem, a senhora mal chegou e foi promovida! Eu tive que passar quase cinquenta anos nos poços de excrementos para conseguir esta posição. Mas não há o que discutir quando a gente esbarra com algum talento nato como a senhora.

Dito isto, entregou-lhe um pergaminho enrolado e deu-lhe instruções sobre que caminho seguir após passar o portão.

Desde este dia, Dona Lucinda tem trabalhado com afinco, utilizando as técnicas que ela desenvolveu no curso de seus oitenta e três anos, como chefe do Círculo dos Torturadores.

Frequentemente recebe alguma nomeação por desempenho extraordinário e chorou bastante ao receber seu terceiro prêmio consecutivo de "empregado do mês".

domingo, 15 de março de 2009

Fragmentos

Quando criança, não sabia o que significava "mudança". Pensava que era nome de pessoa e, quando a mudança aconteceu, perguntei à primeira pessoa que nos recebeu: "Você é a mudança?".

Quando criança eu tinha sonhos com morcegos-vampiros que viviam nas mangueiras do meu quintal . E, quando acordava no meio da noite apavorado, ia dormir com os cachorros na varanda. Por tudo isso, uma vez fui ao colégio com um carrapato agarrado na orelha...

Lembro-me que tinha uma avó muito dura e brigona e que me assustava. E a melhor amiga da minha avó, era nossa vizinha e senhoria. Ela era a avó que todo menino gostaria de ter. E a mãe que minha mãe precisava ter. E com ela li os quadrinhos que a ninguém mais eram emprestados e montei cidades com os blocos de madeira secretos. E comi frutas que não existem mais e ganhei pardais "cantores" e camundongos de estimação.

E no quintal, no meu aniversário de 6 anos, minha amiga Márcia, me ensinou a andar de bicicleta sem usar as rodinhas. Ela já havia soltado a bicicleta e eu não tinha percebido e dava voltas ao redor da goiabeira. Quando reparei que ela me observava de longe, caí...

No verão os coqueiros se enchiam de larvas gordas e amarelas de besouros e, por isso até hoje, eu tenho nojo de comer a gordura dos bifes.

E quando Helena, a moça que trabalhava lá em casa, trouxe uns cachorrinhos que ela tinha achado na linha do trem. Pequenos, marrons, de olhinhos fechados. E que demos leite de conta-gotas e que ficamos com a marrom e ela com a malhada.

Não sei o porquê de escrever fragmentos de memórias que mesmo eu já quase tinha esquecido. Mas sinto que ainda tenho medo do escuro e não tenho mais meus cachorros na varanda. E que não sei tanta coisa e não tenho a Márcia para me ensinar aqui. Que tudo o que sou é reflexo daquele tempo em que eu corria pelo quintal, voando com uma capa de lençol velho e meias nas mãos como se fosem luvas.
Sinto saudades de comer carambola e araçá.

terça-feira, 10 de março de 2009

Amor big-bang

Em meio do caos primordial, enquanto o próprio espaço-tempo hiperinflacionava e as partículas mais básicas zuniam formando dimensões compactas que se aniquilavam em jorros de energia e radiação, ele a viu a primeira vez.
Por um nanosegundo, vislumbrou um encontro que poderia gerar toda uma nova gama de subpartículas.
Mas, engolfado pelo plasma fervente de bilhões de graus Kelvin e tomado como parte do núcleo de uma das primeiras estrelas, eles foram separados e ele esperou.
E eons depois, lançou-se novamente ao espaço mais profundo ejetado após cada supernova que fez parte. Percorreu os grandes vazios de matéria e energia escura, na esperança de de novo um dia vê-la.
Mas somente quando o tempo já estava gasto, quando tudo o que restava era o vácuo e o zero absoluto pairava paralisando todo movimento e enquanto o universo, de forma cada vez mais acelerada, se expandia e se perdia em direção à entropia total, ele a viu uma outra vez.
E ela não havia perdido o viço de sua subestrutura única e nem o spin que lhe caracterizava.
E, num acontecimento infinitamente improvável, seus vetores alinhados os colocaram em rota de colisão.
E talvez, porque nunca deveriam se encontrar ou porque tanto esperaram por este encontro, destroçaram o próprio tecido do espaço e sua energia brilhou e se espalhou onidirecionalmente.
E abalaram as fundações de toda a criação e rugiram seu amor com a força de bilhões de galáxias.
Que se faça a luz!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ivo

O tempo havia passado para Ivo.

Quando este ainda era seu amigo, escorregava preguiçosamente e parecia-lhe que sempre podia adiar o que não queria enfrentar. Ivo não era uma criatura do "agora", mas alguém "algum-dia". Não era um homem de atos, mas de sonhos e devaneios.

E viveu então uma vida sem riscos e sem cor. Nunca roubou um beijo. Nunca se meteu numa briga. Não sentiu ou fez-se sentir.

Mas o tempo foi traiçoeiro e foi acelerando o seu ritmo. E o que era um trotar calmo, tornou-se caudaloso e feroz.

E, naquele dia de outubro, observando as folhas marrons rodopiando no vento frio, Ivo sentiu um calafrio quando olhou para dentro de si e não encontrou luz. Não encontrou nada.

E, como de hábito, refletiu e pesou o que poderia fazer. E embora, uma parte de si gritasse por alguma ação, ele calou-se e continuou sua jornada rumo à mediocridade.

Quem sabe, em outra vida ou ... depois?

sábado, 7 de março de 2009

Dedos

E a casa, de repente, se viu vazia... Sem as mãos pequenas e de unhas roídas que de tudo cuidavam. Não se escutava mais música alegre que tanto incomodava os vizinhos e já não se pulava nos braços e se girava quando eles se encontravam no fim de cada dia.

E logo, tudo cobriu-se de pó, e as frutas mofaram na geladeira e o pão esquecido sobre a mesa virou pedra. Não se fez mais pudim ou tiramisu.

E as roupas sujas se acumulavam, e o aquário se coloria de verde e somente alguém pálido e soturno, movia-se para cá e para lá. Sem destino ou objetivo. Vivia cada dia apenas esperando o dia passar.

E levantava-se toda manhã e caminhava pelas ruas cinzentas penosamente. E reclamava do frio, e xingava os corvos. E, em casa, tentava limpar a neve dos seus sapatos e de sua alma.

Deitava-se então mais uma vez no enorme leito vazio e lembrava e sonhava com os dedos pequenos das mãozinhas vermelhas e quentes e com os olhos que não se decidiam em serem verdes ou castanhos.

Rezava então baixinho, para que aquele dia passasse e que, novamente completo, com sua metade melhor, voltasse a ser feliz.