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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Voltando a ser criança


Aniversário-surpresa para um grande amigo em Niterói. Este amigo (Wagner Trindade), faz um personagem que é criança (Gabriel Afonso) no teatro na peça Pout PourRir.


Para brincar com Wagner, eu e alguns outros amigos fomos caracterizados de "Gabiel".


Como toda festa infantil que se preza, teve muito doce, bolo e guaraná.


segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Ultimate - Comédia

Segue abaixo uma brincadeira que escrevi, baseada numa idéia que rolou num bate-papo via MSN.



ULTIMATE

Sexta-feira à noite. Três amigos conversam sentados a uma mesa de bar. Bar dos antigos: azulejos, conservas suspeitas em vidros, garçons idosos e mal-humorados e cerveja estupidamente gelada.

César, nerd de carteirinha, cinéfilo, devorador de quadrinhos. Gordinho, uns trinta anos, óculos e rabo-de-cavalo.

Michael, estagiário, uns dezenove anos, cabeludo e roqueiro.

Ricardo, analista de sistemas, vigoréxico, explosivo, pavio-curto de plantão.

A conversa que havia iniciado por amenidades e fofocas de escritório, ficou mais séria quando César provocou:

__ Acho que todos os bons filmes e bons livros já foram feitos e escritos. Deveríamos parar de produzir. Não haverá nunca algo que supere um “Guerra e Paz” ou um “Cidadão Kane”.

Mike, já meio bêbado com dois chopps, reflete:

__ Ah, bobagem! É sempre possível se fazer algo melhor.

__ Eu penso o mesmo – completou Ricardo – Afinal, fazer melhor do que estas velharias do passado é moleza. Com os recursos e orçamentos de hoje em dia é fichinha!

__ Vocês não têm noção do que estão falando. Uma obra-prima é um ponto final. Não se segue adiante depois disto. Quando algo assim é feito, você ganha uma nova referência e esta referência aborta qualquer projeto de quem quer que tenha qualquer noção de ridículo.

Mike, olhava para alto fazendo uma expressão de prece. Ricardo já estava pensando em chutar algo ou alguém, quando veio a idéia:

__ Imaginem que não há limites. Técnicos, logísticos, orçamentários ou lógicos. Como seria fazer um filme “ultimate”?

__ Filme “ultimate”? Que idéia legal! – completou Mike.

__ Isto é a maior bobagem que já escutei. Beira a heresia! – ria César.

__ Como seria o “ultimate” drama, terror, comédia e pornô? – provocava Ricardo.

Mike ria a ponto de encher os olhos de lágrimas.

__ “Ultimate” pornô teria que ter uma orgia!

__ Ah, isso qualquer pornô de médio orçamento tem! Teria que ser algo nunca visto, insuperável. Milhares de figurantes filmados em 3D! Tomadas aéreas como em um campo de batalha, um épico!

Plantada a semente, todos começaram a “viajar” na idéia.

__ Se não há limites – continuou César – Teria a Linda Lovelace jovem no elenco. John Holmes também! Vanessa del Rio e Cicciolina!

__ Ah, vocês não tem imaginação? Só reciclar coisas do passado? Precisaríamos de freiras, enfermeiras, entregadores de pizza, encanadores, strippers. Teríamos que explorar todos os clichês possíveis.

A bebida parecia ter subido à cabeça de Mike, que acrescentava à lista:

__ Máquinas de lavar, batedeiras, enguias, jumentos, anões, xifópagos!

__ Nossa! Isto tá ficando escatológico demais – ria César.

__ Hum, já um “ultimate” de terror, teria que ter demônios! – pensava um mórbido Mike.

__ Mas, demônios assustariam os ateus? E os não cristãos? – indagava Ricardo.

__ Mas alguns medos são universais: medo de escuro, de espaços fechados, de monstros, da dor.

__ Teria que ser algo filmado em primeira pessoa. Com a câmera à mão. O expectador se sentiria enterrado no escuro com monstros que o torturariam.

__ E haveria uma equipe médica de plantão a postos em cada exibição do filme.

__ E como seria um “ultimate” drama? – perguntou Ricardo.

__ Fácil! Algo como um órfão, com uma doença terminal que é adotado e rejeitado várias vezes. Ele teria que ter um bicho de estimação que seria sacrificado no decorrer da história. – disse César.

__ Putz! Que coisa horrível! Teriam que botar antidepressivos na pipoca ou distribuir kit-suicídio pra platéia. – comentou Mike.

__ Já um “ultimate” de comédia é coisa complicada. Não há receita certa para se fazer rir.

__ Talvez o filme só devesse ter uma piada. Algo que seria composto aos poucos no decorrer da história. E deflagrada em um único golpe-baixo sobre o expectador surpreso. O impacto seria tão colossal que o cinema viria abaixo.

__ O filme teria que ser proibido às pessoas com problemas cardíacos e os expectadores teriam que assinar um termo de compromisso para não revelar a piada.

Mike ria e se engasgava. Ricardo tinha a expressão de ter descoberto a cura de todos os males. César tinha no olhar o brilho de um homem-santo.

A conversa evoluía até que Mike observou:

__ No entanto, a obra-prima “ultimate” seria algo apocalíptico.

__ E como seria este filme? – perguntou César.

__ Algo imenso e dispendioso? Ou minimalista? Seis horas de projeção ou quinze minutos?

__ Não importa. A simples realização de tal coisa seria como a explosão de uma supernova. Brilharia mais que todas as estrelas da galáxia juntas. Redefiniria todos os conceitos. Destruiria todas as certezas. Em suma, mataria todos nós. – resumiu César.

__ Melhor então esquecer tal coisa. – ponderou Ricardo.

__ Sim, não estamos preparados pra isso. – observou Mike.

__ Bem, mas então como seria uma “ultimate” história em quadrinhos? – perguntou César.


Mike e Ricardo o fulminaram com o olhar. César olhou amuado para o teto e depois comentou alguma coisa sobre o brilho singular da cerveja quando observada a partir do fundo do copo. A conversa voltou às amenidades de sempre.

Definitivamente, não se deve brincar com coisa séria.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Inspirações


Inspirações


É engraçado como às vezes é só bater-papo com um amigo ou escutar uma história pra se ter alguma idéia sobre um personagem ou um conto. Às vezes, basta visitar um lugar também.

Na foto acima, estou sentado em um dos jardins da Quinta da Regaleira, na cidade de Sintra em Portugal. Sintra é linda e é facilmente alcançada de trem a partir de Lisboa. O metrô da estação Oriente tem conexão com o trem.

A Quinta da Regaleira é um verdadeiro cenário de filme de terror. Daqueles antigos e góticos. Você pode imaginar que o Vicent Price vai aparecer de repente. Há estátuas sinistras de faunos, centauros e serpentes. E é tudo misturado: símbolos cristãos, cavaleiros templários, rosa-cruzes, etc. Cavernas, poços e torres dão o toque final para os assustados como eu.

Descer o Poço Iniciático ou o Poço Imperfeito é uma experiência e tanto. Do fundo, você vê os nove círculos que formariam os planos do Céu ou Inferno. Tudo muito escuro e soturno.

Não sei porque até hoje nunca filmaram "A Queda da Casa de Usher" por lá ou ainda "O Corvo".
Para completar, conheça a Torre de Leda, o Lago das Pedras Flutuantes e a Sala da Caça. Esta última, cheia de troféis de javalis, cervos e outros animais. O teto todo de madeira talhada e o chão um imenso mosaico de uma cena de caça.

Contos Agridoces


Inicio hoje meu primeiro blog enquanto escrevo meu primeiro livro de crônicas. Por enquanto, o título provisório é "Contos Agridoces".


Misturo um pouco de tudo. Depressão, sonho, sexo, loucura, religião, perversão, tortura. Os contos também se mesclam e complementam. Os personagens esbarram nas histórias dos outros. Uma ponta solta de um se fecha no outro.


A proposta inicial era escrever uma história de terror simplesmente. Mas a história principal cresceu, outras idéias afloraram e ... Vejam por si mesmos trechos dos contos escritos:


"Círculos"


"Ele tinha só dezenove anos e morava só. Após uma briga feia com seu ex-padrasto, sua mãe arrumou um pequeno apartamento onde ele morava já fazia uns seis meses. Não fazia o tipo adolescente-problema e tudo era novo, limpo e arrumado.

Foi lavar o rosto, enquanto ao mesmo tempo tentava não se olhar no espelho. Nunca gostava do que via. Sempre evitava se olhar e não gostava de tirar fotos ou ser filmado. O corpo pequeno e magro, os cabelos meio compridos, finos e claros, o nariz pequeno e delicado demais, os grandes olhos verdes. Não havia nenhuma parte do seu corpo especialmente feia ou esquisita. Mas, havia algum estranhamento sobre como as partes se combinavam, ele pensava. Deus havia brincado de quebra-cabeças e juntou algumas partes que não deveriam ter sido unidas. Para muitos ele era só um garoto branquelo e baixinho, meio soturno e cabisbaixo. Comum; nem especialmente feio ou bonito. Mas, sob seu olhar supercrítico, ele era um esboço mal-feito de homem.

Abriu o chuveiro e a torrente quente quase lhe perfurava o peito, esfregava o sabonete vigorosamente, como se quisesse limpar algo mais interno. Alisava, repetidamente, o abdômen, liso e sulcado; após centenas de abdominais diárias. Sentia uma espécie de auto-erotismo ao tocar o próprio abdômen, e envergonhava-se disto, como se alimentasse um tipo de desejo sexual por si mesmo."
....
"Desceu as escadas estreitas rapidamente através do corrimão que acompanhava as paredes circulares. Era muito escuro e havia um cheiro muito ruim no ar. Continuou descendo e o cheiro somente piorava. O que havia lá embaixo? Lixo? Esgoto?

Chegou até um grande salão e havia uma espécie de grande poço escuro na base da torre. Uma corrente comprida descia desde o alto desta e desaparecia no poço. O cheiro era insuportável naquele ponto. Contornou o poço com cuidado e aproximou-se de uma porta enorme, quando escutou passos e vozes em sua direção.

Em desespero, correu na direção do poço e observou que havia degraus em sua lateral. Desceu os degraus para se esconder. Os degraus eram estreitos e irregulares e havia muita umidade lá. Já havia descido uns três ou quatro metros quando viu luzes de lanternas iluminando o poço. Deu um passo em falso e precipitou-se na escuridão.

Sentiu-se tomado de pânico, mas, por reflexo, segurara a corrente que jazia pendurada desde a torre. Estava mergulhado até a cintura em algo espesso, morno e pútrido. Olhou para cima e ficou chocado com o que viu: escadas circulares desciam pelas laterais, em círculos concêntricos. Não precisava ou podia contar; mas tinha certeza que eram nove círculos de nove degraus. Do alto do poço os seguranças da mansão o iluminavam com suas lanternas. Logo, um velho conhecido juntou-se a eles."


"Intercâmbio"


"Chegado o vôo, éramos só expectativa. Um garoto alto, ruivo e de óculos saiu do portão. Exibi o cartaz, mas ele não ligou. Esperávamos, esperávamos. Para todo guri com cara de gringo eu levantava o cartaz. Por cerca de dez minutos, ninguém parou. Até que vi um garoto alto e magro de camisa de malha preta e jeans rasgados. Vestia por cima da camisa um enorme casaco de couro gasto. Tinha os olhos intensamente azuis, cabelos castanhos e arrepiados e um sorriso enorme. Ao me ver com o cartaz, veio arrastando as malas grandes e desajeitadas em minha direção. Quando íamos nos apresentar, estendi minha mão. Mas ele ignorou, abraçou-me e beijou-me na testa. Como um irmão faria com o irmão menor. Beijou e abraçou a todos. Dois beijos nas bochechas de mamãe e maninha! Talvez houvesse lido muito sobre nós brasileiros e entendido erradamente algumas coisas também.

“Olá! Como “von” todos? “Mucho” prazer!”, dizia com um sotaque ianque divertido, misturando português e espanhol.

“Olá, Arthur. Seja bem-vindo ao Brasil. Eu me chamo Carlos Nakamura.”, disse meu pai. “Esta é minha esposa, Eliza e meus filhos Thalassa e Rogério.”

“Ah, porrr favorrrr. “Non” me chama de Arthur. Todos “mis” amigos chamam-me “Wolfie”.”

“Wolfie?”, perguntei. “Lobo?”. E minha mãe olhou furiosa pra mim...

“Yeah, like the wolf.”, riu ele e fez uma careta imitando um cachorro, arregalando os olhos que eram realmente iguais aos de um lobo ou um husky siberiano. Eram azuis, porém claros demais. Nunca vi alguém com olhos daquela cor."



"Figuras de linguagem"


"Acordou já noitinha com uma dor lancinante na cabeça. Acendeu as luzes e sentiu-se muito estranha. Olhava as paredes do quarto pintadas de um verde-oliva e as sentia. O verde era macio como relva ou musgo. Cheirava a menta e tinha um sabor de ervas. O teto azul era áspero e gelado. Cheirava a gerânios, soava como uma canção triste e tinha um sabor de aniz. Fechava os olhos e as sensações passavam. Abria-os outra vez e era inundada por texturas, sons, odores e sabores.

Tomou um analgésico e foi ao banheiro. Nunca havia reparado melhor na cortina amarela do box. Ela era agora absolutamente horrível. Mole e espessa. Fétida como cerume de ouvido, amarga como fel e incrivelmente dissonante. Tinha que fechar os olhos para não vomitar.

Colocou um par de óculos-escuros e as sensações ficaram muito mais suaves. Muito mais suportáveis.
Observou que as sensações eram parecidas, mas também distintas. O verde da colcha do beliche ao lado, era macio e fofo também. Mas cheirava a alfazema e tinha gosto de hortelã. Diferentes tons, sensações diferentes. Similares, mas únicas também.

Tudo mudou, no entanto, quando entrou na sala de TV, ao lado do quartinho e viu a cortina vermelho-carmim. Sentiu-se inebriada com odores de pitangas e groselhas. Um sabor picante em sua língua e uma sensação de seda cálida em sua pele. A cor parecia sussurrar ao ouvido. Era algo poderosamente erótico, que lhe provocava arrepios e que lhe era imensamente prazeroso.

Não comentou com seus colegas de quarto sobre suas novas sensações. Passou a evitar sair de dia sem óculos-escuros e, em uma semana, voltou às ruas."



"Instintos"


"Às vezes os dias são quentes demais e somente durmo onde está fresco e espero a noite chegar. Saio então para comer e aprender com estes bichos singulares.

Observo a família de humanos em sua caixa sobre rodas e farejo seu medo. Mas também farejo alguém dentre eles que tem muito em comum comigo e arrepio meu pêlo.

Observo os humanos-machos vestidos como humanos-fêmeas nas ruas. Por que fazem isto? A quem pensam enganar? Não a mim. Uma cheirada e sei se é fêmea ou macho. Se está vazando o sangue-da-lua ou não. Se está na estação reprodutiva ou não.

Observo o humano-macho vestido de fêmea e nele sinto fome. Observo o pequeno humano-jovem de pêlo amarelo e sinto o cheiro de cio. Observo e não entendo seus rituais.

Canso-me por tanto caminhar e encontro um buraco seguro para dormir. Vejo a luz da lua cheia que me enche de ânimo e solidão.

Sonho que eu não sou eu. Sou eu, mas sou muito maior. Tenho muito mais pêlo. Tenho belas orelhas eretas e uma cauda eriçada. Desço a montanha coberta de branco junto com meus companheiros. Eles assim como eu têm nos olhos a cor do céu das manhãs de inverno. Sinto frio, mas sinto-me muito bem. Mais vivo. Farejo a caça, o suor, o medo. Cercamos a presa. Algo enorme como um cavalo com chifres. Um bicho que nunca vi. Atiro-me sobre sua garganta e desfruto do gosto da carne quente em meus dentes. Delicio-me ao ver o medo em seus olhos revirados."