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segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Ultimate - Comédia

Segue abaixo uma brincadeira que escrevi, baseada numa idéia que rolou num bate-papo via MSN.



ULTIMATE

Sexta-feira à noite. Três amigos conversam sentados a uma mesa de bar. Bar dos antigos: azulejos, conservas suspeitas em vidros, garçons idosos e mal-humorados e cerveja estupidamente gelada.

César, nerd de carteirinha, cinéfilo, devorador de quadrinhos. Gordinho, uns trinta anos, óculos e rabo-de-cavalo.

Michael, estagiário, uns dezenove anos, cabeludo e roqueiro.

Ricardo, analista de sistemas, vigoréxico, explosivo, pavio-curto de plantão.

A conversa que havia iniciado por amenidades e fofocas de escritório, ficou mais séria quando César provocou:

__ Acho que todos os bons filmes e bons livros já foram feitos e escritos. Deveríamos parar de produzir. Não haverá nunca algo que supere um “Guerra e Paz” ou um “Cidadão Kane”.

Mike, já meio bêbado com dois chopps, reflete:

__ Ah, bobagem! É sempre possível se fazer algo melhor.

__ Eu penso o mesmo – completou Ricardo – Afinal, fazer melhor do que estas velharias do passado é moleza. Com os recursos e orçamentos de hoje em dia é fichinha!

__ Vocês não têm noção do que estão falando. Uma obra-prima é um ponto final. Não se segue adiante depois disto. Quando algo assim é feito, você ganha uma nova referência e esta referência aborta qualquer projeto de quem quer que tenha qualquer noção de ridículo.

Mike, olhava para alto fazendo uma expressão de prece. Ricardo já estava pensando em chutar algo ou alguém, quando veio a idéia:

__ Imaginem que não há limites. Técnicos, logísticos, orçamentários ou lógicos. Como seria fazer um filme “ultimate”?

__ Filme “ultimate”? Que idéia legal! – completou Mike.

__ Isto é a maior bobagem que já escutei. Beira a heresia! – ria César.

__ Como seria o “ultimate” drama, terror, comédia e pornô? – provocava Ricardo.

Mike ria a ponto de encher os olhos de lágrimas.

__ “Ultimate” pornô teria que ter uma orgia!

__ Ah, isso qualquer pornô de médio orçamento tem! Teria que ser algo nunca visto, insuperável. Milhares de figurantes filmados em 3D! Tomadas aéreas como em um campo de batalha, um épico!

Plantada a semente, todos começaram a “viajar” na idéia.

__ Se não há limites – continuou César – Teria a Linda Lovelace jovem no elenco. John Holmes também! Vanessa del Rio e Cicciolina!

__ Ah, vocês não tem imaginação? Só reciclar coisas do passado? Precisaríamos de freiras, enfermeiras, entregadores de pizza, encanadores, strippers. Teríamos que explorar todos os clichês possíveis.

A bebida parecia ter subido à cabeça de Mike, que acrescentava à lista:

__ Máquinas de lavar, batedeiras, enguias, jumentos, anões, xifópagos!

__ Nossa! Isto tá ficando escatológico demais – ria César.

__ Hum, já um “ultimate” de terror, teria que ter demônios! – pensava um mórbido Mike.

__ Mas, demônios assustariam os ateus? E os não cristãos? – indagava Ricardo.

__ Mas alguns medos são universais: medo de escuro, de espaços fechados, de monstros, da dor.

__ Teria que ser algo filmado em primeira pessoa. Com a câmera à mão. O expectador se sentiria enterrado no escuro com monstros que o torturariam.

__ E haveria uma equipe médica de plantão a postos em cada exibição do filme.

__ E como seria um “ultimate” drama? – perguntou Ricardo.

__ Fácil! Algo como um órfão, com uma doença terminal que é adotado e rejeitado várias vezes. Ele teria que ter um bicho de estimação que seria sacrificado no decorrer da história. – disse César.

__ Putz! Que coisa horrível! Teriam que botar antidepressivos na pipoca ou distribuir kit-suicídio pra platéia. – comentou Mike.

__ Já um “ultimate” de comédia é coisa complicada. Não há receita certa para se fazer rir.

__ Talvez o filme só devesse ter uma piada. Algo que seria composto aos poucos no decorrer da história. E deflagrada em um único golpe-baixo sobre o expectador surpreso. O impacto seria tão colossal que o cinema viria abaixo.

__ O filme teria que ser proibido às pessoas com problemas cardíacos e os expectadores teriam que assinar um termo de compromisso para não revelar a piada.

Mike ria e se engasgava. Ricardo tinha a expressão de ter descoberto a cura de todos os males. César tinha no olhar o brilho de um homem-santo.

A conversa evoluía até que Mike observou:

__ No entanto, a obra-prima “ultimate” seria algo apocalíptico.

__ E como seria este filme? – perguntou César.

__ Algo imenso e dispendioso? Ou minimalista? Seis horas de projeção ou quinze minutos?

__ Não importa. A simples realização de tal coisa seria como a explosão de uma supernova. Brilharia mais que todas as estrelas da galáxia juntas. Redefiniria todos os conceitos. Destruiria todas as certezas. Em suma, mataria todos nós. – resumiu César.

__ Melhor então esquecer tal coisa. – ponderou Ricardo.

__ Sim, não estamos preparados pra isso. – observou Mike.

__ Bem, mas então como seria uma “ultimate” história em quadrinhos? – perguntou César.


Mike e Ricardo o fulminaram com o olhar. César olhou amuado para o teto e depois comentou alguma coisa sobre o brilho singular da cerveja quando observada a partir do fundo do copo. A conversa voltou às amenidades de sempre.

Definitivamente, não se deve brincar com coisa séria.

5 comentários:

Neto Macedo disse...

Muito bom! \o/

Adorei esse. =)

Ricky disse...

Gostei muito, principalmente do 'ultimate drama'. hehehehe.

wilson disse...

Discordante e inteligente, nos desperta a vontade de rever bons filmes...

Anônimo disse...

sbluga sblag sbluga

wilson disse...

tá óbvio que o anonimo sou eu....
hehehehe