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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Contos Agridoces


Inicio hoje meu primeiro blog enquanto escrevo meu primeiro livro de crônicas. Por enquanto, o título provisório é "Contos Agridoces".


Misturo um pouco de tudo. Depressão, sonho, sexo, loucura, religião, perversão, tortura. Os contos também se mesclam e complementam. Os personagens esbarram nas histórias dos outros. Uma ponta solta de um se fecha no outro.


A proposta inicial era escrever uma história de terror simplesmente. Mas a história principal cresceu, outras idéias afloraram e ... Vejam por si mesmos trechos dos contos escritos:


"Círculos"


"Ele tinha só dezenove anos e morava só. Após uma briga feia com seu ex-padrasto, sua mãe arrumou um pequeno apartamento onde ele morava já fazia uns seis meses. Não fazia o tipo adolescente-problema e tudo era novo, limpo e arrumado.

Foi lavar o rosto, enquanto ao mesmo tempo tentava não se olhar no espelho. Nunca gostava do que via. Sempre evitava se olhar e não gostava de tirar fotos ou ser filmado. O corpo pequeno e magro, os cabelos meio compridos, finos e claros, o nariz pequeno e delicado demais, os grandes olhos verdes. Não havia nenhuma parte do seu corpo especialmente feia ou esquisita. Mas, havia algum estranhamento sobre como as partes se combinavam, ele pensava. Deus havia brincado de quebra-cabeças e juntou algumas partes que não deveriam ter sido unidas. Para muitos ele era só um garoto branquelo e baixinho, meio soturno e cabisbaixo. Comum; nem especialmente feio ou bonito. Mas, sob seu olhar supercrítico, ele era um esboço mal-feito de homem.

Abriu o chuveiro e a torrente quente quase lhe perfurava o peito, esfregava o sabonete vigorosamente, como se quisesse limpar algo mais interno. Alisava, repetidamente, o abdômen, liso e sulcado; após centenas de abdominais diárias. Sentia uma espécie de auto-erotismo ao tocar o próprio abdômen, e envergonhava-se disto, como se alimentasse um tipo de desejo sexual por si mesmo."
....
"Desceu as escadas estreitas rapidamente através do corrimão que acompanhava as paredes circulares. Era muito escuro e havia um cheiro muito ruim no ar. Continuou descendo e o cheiro somente piorava. O que havia lá embaixo? Lixo? Esgoto?

Chegou até um grande salão e havia uma espécie de grande poço escuro na base da torre. Uma corrente comprida descia desde o alto desta e desaparecia no poço. O cheiro era insuportável naquele ponto. Contornou o poço com cuidado e aproximou-se de uma porta enorme, quando escutou passos e vozes em sua direção.

Em desespero, correu na direção do poço e observou que havia degraus em sua lateral. Desceu os degraus para se esconder. Os degraus eram estreitos e irregulares e havia muita umidade lá. Já havia descido uns três ou quatro metros quando viu luzes de lanternas iluminando o poço. Deu um passo em falso e precipitou-se na escuridão.

Sentiu-se tomado de pânico, mas, por reflexo, segurara a corrente que jazia pendurada desde a torre. Estava mergulhado até a cintura em algo espesso, morno e pútrido. Olhou para cima e ficou chocado com o que viu: escadas circulares desciam pelas laterais, em círculos concêntricos. Não precisava ou podia contar; mas tinha certeza que eram nove círculos de nove degraus. Do alto do poço os seguranças da mansão o iluminavam com suas lanternas. Logo, um velho conhecido juntou-se a eles."


"Intercâmbio"


"Chegado o vôo, éramos só expectativa. Um garoto alto, ruivo e de óculos saiu do portão. Exibi o cartaz, mas ele não ligou. Esperávamos, esperávamos. Para todo guri com cara de gringo eu levantava o cartaz. Por cerca de dez minutos, ninguém parou. Até que vi um garoto alto e magro de camisa de malha preta e jeans rasgados. Vestia por cima da camisa um enorme casaco de couro gasto. Tinha os olhos intensamente azuis, cabelos castanhos e arrepiados e um sorriso enorme. Ao me ver com o cartaz, veio arrastando as malas grandes e desajeitadas em minha direção. Quando íamos nos apresentar, estendi minha mão. Mas ele ignorou, abraçou-me e beijou-me na testa. Como um irmão faria com o irmão menor. Beijou e abraçou a todos. Dois beijos nas bochechas de mamãe e maninha! Talvez houvesse lido muito sobre nós brasileiros e entendido erradamente algumas coisas também.

“Olá! Como “von” todos? “Mucho” prazer!”, dizia com um sotaque ianque divertido, misturando português e espanhol.

“Olá, Arthur. Seja bem-vindo ao Brasil. Eu me chamo Carlos Nakamura.”, disse meu pai. “Esta é minha esposa, Eliza e meus filhos Thalassa e Rogério.”

“Ah, porrr favorrrr. “Non” me chama de Arthur. Todos “mis” amigos chamam-me “Wolfie”.”

“Wolfie?”, perguntei. “Lobo?”. E minha mãe olhou furiosa pra mim...

“Yeah, like the wolf.”, riu ele e fez uma careta imitando um cachorro, arregalando os olhos que eram realmente iguais aos de um lobo ou um husky siberiano. Eram azuis, porém claros demais. Nunca vi alguém com olhos daquela cor."



"Figuras de linguagem"


"Acordou já noitinha com uma dor lancinante na cabeça. Acendeu as luzes e sentiu-se muito estranha. Olhava as paredes do quarto pintadas de um verde-oliva e as sentia. O verde era macio como relva ou musgo. Cheirava a menta e tinha um sabor de ervas. O teto azul era áspero e gelado. Cheirava a gerânios, soava como uma canção triste e tinha um sabor de aniz. Fechava os olhos e as sensações passavam. Abria-os outra vez e era inundada por texturas, sons, odores e sabores.

Tomou um analgésico e foi ao banheiro. Nunca havia reparado melhor na cortina amarela do box. Ela era agora absolutamente horrível. Mole e espessa. Fétida como cerume de ouvido, amarga como fel e incrivelmente dissonante. Tinha que fechar os olhos para não vomitar.

Colocou um par de óculos-escuros e as sensações ficaram muito mais suaves. Muito mais suportáveis.
Observou que as sensações eram parecidas, mas também distintas. O verde da colcha do beliche ao lado, era macio e fofo também. Mas cheirava a alfazema e tinha gosto de hortelã. Diferentes tons, sensações diferentes. Similares, mas únicas também.

Tudo mudou, no entanto, quando entrou na sala de TV, ao lado do quartinho e viu a cortina vermelho-carmim. Sentiu-se inebriada com odores de pitangas e groselhas. Um sabor picante em sua língua e uma sensação de seda cálida em sua pele. A cor parecia sussurrar ao ouvido. Era algo poderosamente erótico, que lhe provocava arrepios e que lhe era imensamente prazeroso.

Não comentou com seus colegas de quarto sobre suas novas sensações. Passou a evitar sair de dia sem óculos-escuros e, em uma semana, voltou às ruas."



"Instintos"


"Às vezes os dias são quentes demais e somente durmo onde está fresco e espero a noite chegar. Saio então para comer e aprender com estes bichos singulares.

Observo a família de humanos em sua caixa sobre rodas e farejo seu medo. Mas também farejo alguém dentre eles que tem muito em comum comigo e arrepio meu pêlo.

Observo os humanos-machos vestidos como humanos-fêmeas nas ruas. Por que fazem isto? A quem pensam enganar? Não a mim. Uma cheirada e sei se é fêmea ou macho. Se está vazando o sangue-da-lua ou não. Se está na estação reprodutiva ou não.

Observo o humano-macho vestido de fêmea e nele sinto fome. Observo o pequeno humano-jovem de pêlo amarelo e sinto o cheiro de cio. Observo e não entendo seus rituais.

Canso-me por tanto caminhar e encontro um buraco seguro para dormir. Vejo a luz da lua cheia que me enche de ânimo e solidão.

Sonho que eu não sou eu. Sou eu, mas sou muito maior. Tenho muito mais pêlo. Tenho belas orelhas eretas e uma cauda eriçada. Desço a montanha coberta de branco junto com meus companheiros. Eles assim como eu têm nos olhos a cor do céu das manhãs de inverno. Sinto frio, mas sinto-me muito bem. Mais vivo. Farejo a caça, o suor, o medo. Cercamos a presa. Algo enorme como um cavalo com chifres. Um bicho que nunca vi. Atiro-me sobre sua garganta e desfruto do gosto da carne quente em meus dentes. Delicio-me ao ver o medo em seus olhos revirados."



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