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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Yah-ik-tee: o jeito Apache



A palavra “tats-an” significa “morto” em Apache; embora eles nunca a empreguem quando falando de um amigo ou parente falecido, nestes casos eles dizem “yah-ik-tee”, o que significa que ele não está presente – que eles ainda o procuram, que foi a algum lugar. O mesmo termo pode ser usado ao se referir a alguém que efetivamente saiu e já volta. (A vida entre os Apaches – John C. Cremony – Applewood Books).

Theodore Jr.

Eu tinha sete anos quando vi meu pai pela última vez. A imagem jaz tatuada em fogo por detrás de meus olhos: eu, erguido alto, tão alto, sobre seus ombros, minhas mãos ao redor de seu pescoço, ou segurando suas orelhas, rindo e ignorando seus falsos protestos. Ao fundo, o sol já quase se pondo e fritando o mundo em laranja e carmim, iluminando os cactos saguaros, perfilados como uma procissão de mexicanos.

Não sei se por minha inocência de filho único criado em rancho, ele me parecia perfeito, um semideus dos livros de contos de fadas de minha futura meia-irmã, que eu ainda leria nos anos por vir.

Tinha os olhos cor de inverno sempre apertados, como se desconfiado perscrutasse o horizonte o tempo todo, íris essas que faziam forte contraste com o rosto invariavelmente queimado. A barba bem aparada, mas áspera como o agreste espinhoso. Seu queixo, quadrado e altivo, a voz, um trovão gentil, um vento que soprava morno com o vagar de seu sotaque carregado. O chapéu cowhat, que só saía da cabeça quando ele ia comer ou entrava na igreja, as sobrecalças fedorentas de lã de carneiro, as botas de couro de bisão, que ele mesmo cortara e costurara à mão com pontos grossos.

O homem era uma máquina de trabalho incansável, já de pé desde as quatro e meia, às vezes trabalhando até às oito da noite no verão. Ninguém era maior ou mais forte, mais hábil com o laço, ninguém domava um mustangue tão rapidamente e sem maltratar o animal, ninguém cuspia fumo tão distante, ou contava histórias tão engraçadas e fantasiosas nas noites frias pontilhadas de mil estrelas, ao redor da fogueira.

Lendas do Canadá de seus pais, sobre como o Grande Canyon fora criado numa luta entre o gigante Paul Bunyan e o touro azul Babe, sobre como depois Paul cavara os Grandes Lagos para que o seu novo amigo índigo pudesse ter um bebedouro adequado ao seu porte modesto, os dez mil lagos de Minnesota, resultantes de pegadas do formidável bovino, antes que ele e Paul fossem enfim viver no céu.

Theodore Calhoun, meu jovem pai só tinha vinte e seis: não houve um dia em que não sonhei sobre como ele foi atrás de uma rês perdida no fim daquela tarde e jamais voltou. Não houve noite em que não chorei lágrimas furtivas por não ter tido o gosto de crescer ao seu lado, em que não amaldiçoei os diabólicos Apaches.

Talvez os covardes pagãos tenham tirado seu escalpo e deixado seu corpo, debatendo-se ainda vivo, para ser devorado pelos cougars, ou pior; cortaram suas pálpebras e o soltaram no deserto para morrer cego, louco e com os olhos secos. As histórias das práticas dos selvagens corriam de boca em boca e insuflavam mais ódio em meu espírito, mais do que eu poderia guardar num coração ainda tenro de menino.

Mary Elizabeth, minha mãe – eu não a culpo mais, era tão moça, só tinha dezesseis quando nasci – esperou uns três anos desde o desaparecimento dele e finalmente abandonou o luto. Menos de seis meses depois, não tomando conhecimento de minhas contestações mais veementes, casou-se com o recém-chegado Pastor Joseph Cole.

No dia da cerimônia eu fugi de casa no lombo do meu corcel preferido, vaguei perdido por dois dias em pleno território Apache buscando pelo meu pai de verdade, gritando a plenos pulmões seu nome, imprudentemente. Enfim, o pessoal da cidade me encontrou e me trouxe de volta, faminto e desidratado, porém ainda berrando rouco e com os lábios rachados aquele nosso prenome em comum: “Theodore, Theodore!”.

Pai... Soa quase como um gemido de dor...

Hoje, muito mais maduro, afinal já tenho quase vinte e dois, reconheço que o pastor, um tipo conservador, ranzinza, magro e feio e fraco, não fora de todo mau. Garantira-nos um teto, comida abundante, era respeitoso, nunca nos bateu ou maltratou – nem poderia, pois logo herdei o porte de papai e com catorze já era mais alto que o papa-bíblias – e até presenteou-me com duas irmãs lindas, pois sabiamente Deus as fez saírem à minha mãe.

Só me sobrou do meu velho uma cicatriz na memória, um vulto de rosto obscuro nos sonhos, uma nódoa descolorada que só machuca se eu a pressiono, mas que cegamente não consigo evitar cutucar e novamente fazer sangrar. Restou também a incerteza inconfessa se sou bom o suficiente, se faço jus por ser filho de quem eu sou, se estou à sua altura como homem. Assim como a necessidade de um dia talvez vingá-lo, de fazer os índios sem alma pagarem muito caro por me terem roubado o que eu tinha de mais valioso na vida: meu ídolo, meu herói.

***

Setembro anunciara-se luminoso, chegara a época da procriação dos antilocapras e naquela manhã eu fazia pontaria na cabeça do maior exemplar de um bando que pastava unido junto do rio, quando um dos animais caiu ao solo balindo e o grupo dispersou-se aos saltos, tão rapidamente quanto somente aqueles bichos ariscos eram capazes de fazer.

Atônito, refiz a mira e quando ia atirar no único animal que estranhamente não fugira, um adolescente munido de uma faca ensanguentada saiu sob o disfarce de uma pele perfeitamente preservada, com cabeça e chifres, e gritou em mau espanhol:

— No tiras, no tiras!

Meu sangue ferveu quando reconheci o típico rosto redondo como a Lua, os olhos escuros rasgados e as duas penas inclinadas, espetadas em “V” no topo da cabeleira lisa. Um diabo Apache! O ladino devia ter dormido com aquela pele imunda por dias, para ter o cheiro certo e poder se aproximar da caça tão furtivamente. Se fosse um homem adulto, eu não pensaria duas vezes, todavia, o garoto miúdo de uns treze anos – talvez fosse mais velho, afinal quase todos eles são pequenos – ajoelhou-se, abaixou a faca com cuidado e a depositou sobre o solo. Olhava para baixo e tinha as mãos abertas, submissamente, mas não tremia ou demonstrava medo. Como eu odiava aqueles comedores de carne crua! Contudo, não era cristão matar de forma tão covarde um filhote ainda cheirando a leite.

No matar! Go! – Abaixei a arma e o enxotei com um gesto.

Nah-tanh – ele riu, aliviado, apontando para si mesmo, traduzindo quando notou que não entendi: — Mim, Flor del Maíz.

Era praxe entre os guerreiros se apresentarem a amigos e inimigos, pois seus nomes eram motivo de orgulho, sempre mérito de algum evento de valentia em suas histórias de vida: Forte Nadador, Olho Arguto, Sempre Disposto. Em função disso, somente as mulheres que caçavam tinham direito a nomes, todas as outras eram apenas “mulher”: ish-tia-nay.

Conheça seu inimigo, era a minha máxima, já lera muito sobre os selvagens.

— Theodore Junior – respondi, apontando para mim com o polegar.

Pindah-Lickoyee! – Ele exclamou com os olhos saltados, sem que eu entendesse.

O garoto retomou a faca e se pôs de pé, inclinou para trás a cabeça do antilocapra abatido, e com destreza cortou seu pescoço, dispondo a seguir sobre o solo a cabeça envolta num pedaço de tecido que ele retirou da cintura. Lambeu das mãos o tanto de sangue que pingou, sem esconder certa satisfação. Os olhos, miolos e língua eram considerados partes nobres, recordei-me. Aquilo era um presente, uma gentileza por eu não haver atirado.

Com força impressionante para seu porte, elevou o corpo do animal de uns trinta e poucos quilos por sobre o ombro, assoviou com os dedos na boca e um cavalo malhado branco e preto surgiu do nada, em pouco mais de um minuto.

Já montado em pelo, com o bicho abatido deitado sobre a dianteira do cavalo, o pequeno caçador com o pouco másculo nome de Flor de Milho puxou a crina e cutucou as ancas do mustangue com os calcanhares nus, saindo em disparada, sem sequer olhar para trás.

***

Três dias depois do encontro com o garoto Apache, quando voltando de outra caçada bem mais ao sul do rio, vi-me de repente cercado por um grupo de uns trinta índios. Aquele que se apresentara como Flor de Milho estava junto do bando e apontou para mim. Matraqueou exclusivamente em seu idioma nativo e não tive noção do que disse.

Não ofereci resistência. Os selvagens vendaram meus olhos, amarraram minhas mãos e por vários dias dormimos em acampamentos e continuávamos na manhã seguinte.

De inicio entreguei meu espírito e fiz as pazes com o Senhor. Depois, confiante por não terem me matado ou maltratado, mantive acesa a esperança que por alguma razão haviam decidido capturar-me. Talvez para trocar por algum guerreiro ou feiticeiro aprisionados no povoado.

Na manhã do quarto dia, embora vendado, notei o ruído de vozes femininas, o cheiro de fumaça, de algo defumando, talvez. Quando finalmente me permitiram ver, descobri-me no meio da maior aldeia Apache que já ouvira falar.

As casas em forma de funil invertido, feitas de galhos entrelaçados e adobe, cobertas por mantas. Havia quiçá uma centena delas! Cavalos aos montes, crianças correndo, cães ladrando, gente cantando alguma ladainha monótona.

Logo me desceram do cavalo, empurraram-me sem muito cuidado através da aldeia, ainda com as mãos atadas. Rasgaram minha camisa e a retiraram. As mulheres e crianças riam e me estapeavam, alguns me tocavam e esfregavam os dedos contra minha pele, como se a conferir se esta não estaria pintada com alguma tinta clara.

De dentro de uma cabana, um índio excepcionalmente alto, a pele muito vermelha, os cabelos compridos trançados e de um tom cinza-dourado, veio em minha direção, acompanhado de duas mulheres e algumas crianças, dentre as quais o tal garoto Flor de Milho.

— Seja bem-vindo, Theodore! – Ele disse em inglês com um sotaque engraçado e gutural, oferecendo a mão para eu apertar. — Creio que fui seu pai na vida anterior. Agora sou Tata Pindah-Lickoyee, o Olho Branco.

Meu queixo caiu, senti frio e uma moleza nas pernas que me envergonhariam em outra situação qualquer. Minha vista escureceu, alguma coisa zunia dentro de meus ouvidos, e não me recordo se eu disse alguma coisa.

***

Theodore Sr.

— Não fale nada, garoto. Você está cansado. Continue deitado.

— Eu não sou um maldito garoto, como ousa?

— Cale-se ou farei com que o calem! Escute-me primeiro... Fale depois se quiser...

Como tudo aconteceu? Lembro-me como se fora ontem. Um garrote fujão escapou do curral e te deixei com a Beth. Um servicinho de merda, eu pensei. Depois de uma hora seguindo o maldito animal, finalmente o encontrei embrenhado numa enorme moita espinhosa. Apeei do meu cavalo, saquei um facão que eu levava sempre atrelado à sela, e comecei a abrir caminho para soltá-lo.

— Como se meteu aí, seu bicho burro duma figa?! – Eu falei, como se o estúpido pudesse compreender.

O filhotão mugia, assustado com alguma coisa, seus olhos grandes giravam e exibiam o pouco branco dos cantos. Quando o bicho inspirou para voltar a se lamentar, reconheci talvez o ruído mais desagradável de todo o deserto: o chocalhar do guizo de uma cascavel, próximo, próximo demais. Caminhei lentamente de costas, sobre meus próprios passos, quando senti algo como uma facada de lâmina de fogo na coxa. Mal tive tempo de agarrar a cobra desgraçada pela cauda, girá-la e atirá-la ao chão. Pisoteei-a com vontade, até escutar um ruído de osso quebrado e seu sibilar de chaleira finalmente se calar.

“Pro inferno com o boi!”, refleti. Não era possível fazer um corte e chupar o veneno, não tão alto na perna. Retirei o cinto e improvisei um torniquete. Rasguei o tecido da calça, fiz um talho no lugar da picada e tentei espremer o sangue envenenado.

A noite caía, minha cabeça girava e uma sensação de dormência e frio subia da perna até a barriga e o peito. De súbito vomitei sobre minhas botas, já sem muito controle do meu próprio corpo. Não sei como ainda consegui montar o cavalo, guiei-me pela direção do sol poente e tentei retornar ao rancho.

Daí, tudo ficou confuso. Veio uma febre intensa, vieram os calafrios e tive visões. Uma serpente emplumada cruzava os céus cor de brasa, bailando de leste a oeste. Um leão-da-montanha, seu pelo de um dourado que não era desse mundo, seus olhos dum negrume intenso, a cavalgava. Uma águia-careca, as penas pareciam de ferro e o bico seria de ouro, posou nas costas do leão. Um lobo cinzento sobre as asas da águia, uma coruja com olhos de lua cheia sobre o lobo. E um urso pardo, e um corvo, e um bisão.

Houve escuridão e então através de alguns lampejos vi o rosto redondo, enrugado e moreno de um índio. Dava-me alguma coisa que cheirava a urina para beber, minha cabeça doía como se fora mergulhada em água fervente e eu trinquei os dentes. O ancião soprou fumaça em minha cara e me fez comer algo amaríssimo que ele mascava na boca meio banguela, a coisa mais amarga que jamais provei.

As visões voltaram, mais intensas então. O mesmo leão-da-montanha, grande como as Montanhas Rochosas, me devorava, começou pelos meus pés e me engoliu inteiro. Seu ventre era escuro e amplo como o Texas. Percebi a presença de muitos espíritos naquela escuridão, que me confidenciaram que tiveram o meu mesmo destino milênios antes. Éramos os escolhidos.

De repente eu não estava mais lá, voava e observava então tudo de fora. Os olhos do cougar, de negros se tornaram azuis. Ele rugiu e se levantou sobre as patas traseiras. Seu peito se abriu e eu saí de suas entranhas, vestindo sua pele como um poncho mexicano com um capuz ornado por seus dentes. Não eu, outro, melhor, mais forte, livre das responsabilidades da vida anterior. Os espíritos ancestrais combinaram-se ao meu e me senti renascido.

Acordei e não temi por minha segurança. Estava dentro de uma tenda e uma mulher muito bonita cuidava de mim. Tentei falar em inglês e disse alguma coisa que eu sabia de espanhol, mas ela apenas sorriu e saiu para chamar alguém.

O Tata da tribo entrou, fora ele que cuidara de mim, reconheci o seu rosto de couro encarquilhado e o sorriso de poucos dentes. Tinha um ar sábio e devia ser velho como a própria América. Ele me perguntou em espanhol:

Qué has visto?

Eu não sabia nada de Apache e pouco da língua dos chicanos, mas arrisquei:

Un león, un cougar – e gesticulei com os braços, para dar ideia do tamanho, pois não sabia dizer gigante ou colossal em espanhol.

O velho riu e balançou a cabeça. Salivou o polegar gorducho, o esfregou em cinzas de uma fogueira apagada no centro da tenda e passou a mistura em minha testa, fazendo um desenho.

Ahora es un Shis-Inday. Hace mucho que esperávamos.

***

Ele tratou-me como um filho. Explicou-me que Shis-Inday significava Povo da Floresta, que era como eles preferiam se referir a si mesmos. Comentou também que havia profetizado nosso encontro, que ele viria a ser o responsável pelo meu parto para este mundo, e que ninguém da tribo se importaria se meu espírito de luz vestia o corpo errado, já que fora essa a vontade dos deuses.

O leão dourado tinha escolhido alguém que empunhasse suas cores devidas. O que poderia ser mais devido?

Por mais uma semana fiquei prostrado aos cuidados da filha do Tata. Uma moça que descobri depois que se chamava Sons-ee-ah-ray, a Estrela da Manhã. Numa noite especialmente fria, ela veio deitar-se ao meu lado, sob a mesma coberta, para me aquecer, pois eu estava tremendo. Acabamos por fazer mais do que simplesmente dormir.

Ficamos íntimos, ela me ensinava o Apache com a gentileza de quem instrui uma criança pequena. Quando melhorei, o Tata apresentou-me à tribo e cada homem, mulher e criança me abraçou. Batizaram-me Pindah-Lickoyee, Olho Branco.

Se eu senti falta da minha vida anterior? Se não me preocupei com minha família branca? É claro que sim! Mas uma coisa leva à outra, Sons-ee-ah-ray é a pessoa mais doce e amorosa que jamais conheci. Logo ela ficou grávida, nasceu Nah-tanh, o meu primogênito dessa nova vida, o menino valente que ganhou o nome ao matar um pistoleiro mexicano aos nove anos, camuflado com palha de milho e flores numa plantação. Depois chegaram Ish-kay-nay e Klo-sem, as minhas meninas gêmeas, exímias caçadoras de coelhos. Há seis meses nasceu o meu caçula, Para-ah-dee-ah-tran, de minha outra esposa.

Aprendi o ofício de Tata, o uso das ervas, os ritos, as danças, as viagens astrais com o peiote. Eu sou amado e respeitado aqui. Falo o Apache tão fluentemente que às vezes me esqueço da palavra ou expressão correspondente em inglês. Sou tão eficiente com o arco e flecha quanto fui com um dia com o rifle, atiro a machadinha e não erro um alvo a mais de cem metros.

Sabe quantos guerreiros eu curei de feridas aparentemente mortais? Quantos eventos eu adivinhei com precisão ao consultar os deuses? Quantas vezes invoquei a chuva e irriguei nossas plantações? O antigo Tata morreu há seis anos e eu tenho minhas responsabilidades aqui. Nós, os Shis-Inday, nós nunca olhamos para trás. Você, Junior, você é filho de um homem que morreu no deserto, picado por uma cascavel. Mandei trazê-lo aqui porque penso que lhe devia uma explicação. Eu sou Apache, e tenho orgulho disso. Você pensava que seu pai pudesse ser yah-ik-tee, mas ele é tats-an. Ele não existe mais.

***
Theodore Jr.

Eu não consegui dizer uma palavra sequer. Envergonhado, não logrei nem reter as lágrimas, que desceram abundantes, desenhando linhas em meu rosto empoeirado. Meu pai então se despediu secamente e comandou que me levassem de volta. O homem, o desalmado Tata Apache, virou-me as costas e nunca olhou outra vez, enquanto os outros me arrastavam dali.

Não contei a ninguém o ocorrido, era por demais vergonhoso. Todos no povoado tinham conhecimento de meu ódio sem concessões quanto àqueles selvagens diabólicos.

Gostaria de esquecê-lo, no entanto, ainda hoje às vezes sonho com o jovem caubói me levando sobre os ombros. Eu, saltando, estapeando meu cavalo imaginário, segurando-o pelas orelhas, fazendo o lenço de seu pescoço de rédeas. E alguma parte de minha consciência então sussurra a verdade, e sempre azeda àquela fantasia, àquela lembrança terna de um tempo que não voltará jamais.


Talvez ele tenha realmente razão. Theodore Calhoun morreu. Só existe hoje Pindah-Lickoyee e, sinceramente, eu odeio ainda amá-lo tanto.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Atomicamente falando

Escrever não deveria ser possível sob certos estados mentais, feito quando temos insônia ou enquanto bêbados. Ou pior: quando esvaziamos algumas garrafas de bom vinho junto com amigos até bem tarde e depois da festa não conseguimos pregar os olhos. Ébrios e insones. A cabeça rodando, ideias malucas, engraçadas, geniais, cochichando em nossos ouvidos.

Nossos pensamentos normalmente sempre presos à razão, ao juízo que a duras penas conquistamos com os anos, ao passarmos a vida sufocando com espessas camadas de argamassa moral os velhos devaneios infantis... Os pensamentos, eles ficam soltos, burilando como crianças com o que não se deve perguntar ou contestar. Metendo o bedelho aonde não são chamados.

(Mas era essa, a grande graça de ser criança, não? Perguntar sem medo. Por que o vovô não tem dentes? Por que a gente chora? De onde a gente vem?).


E então me surpreendo pensando nos átomos, no universo, na caspa, nos cabelos, em minha operação amanhã e como me encaixo nisso tudo. Como tudo isso faz sentido agora. De uma forma tão clara que me assombra.


A foto muito ampliada e que ilustra este texto, tirada por algum telescópio XYZ cujo nome não me recordo, exibe uma cicatriz, uma deformação no espaço, um lugar tremendamente frio e distante, o ponto onde talvez o Big Bang possa ter iniciado ou o que restou da lesão que o universo sofreu ao colidir com outro.

Na foto há também estrelas brilhando, este monte de pontos claros espalhados pelo breu.

Imagino que nada faça sentido ainda, mas fará, tenha paciência.

O ouro da aliança que tenho no anelar esquerdo; ele não foi criado pela tal famosa explosão inicial. Apenas hidrogênio, hélio e lítio foram forjados quando o universo começou a esfriar.

(Sim, eu gosto de ler revistas científicas).

Estrelas, em seus âmagos ferventes, estas sim cozinharam quase todos os elementos, feito panelas de pressão monstruosas e ultra quentes, num processo chamado nucleossíntese.

Primeiro transformaram todo o hidrogênio em hélio, depois – não me lembro bem em que ordem – em oxigênio, nitrogênio, carbono... Viraram gigantes vermelhas e ejetaram a maior parte de suas massas, então encolheram-se se não fossem suficientemente pesadas. Pouco a pouco foram subindo os degraus da tabela periódica por sua necessidade de produzir energia e de equilibrarem suas massas, para que não desabassem sobre si mesmas. Até que finalmente produziram ferro, a linha de chegada, o elemento mais pesado que elas poderiam criar durante a chamada Sequência Principal.

No entanto, se a estrela fosse grande o suficiente, ao invés de então encolher e esfriar de forma comportada, sob forma de anã branca, ela poderia virar um buraco negro ou estrela de nêutrons e, no processo, explodir de forma monumental.

Uma supernova, uma explosão que faz da estrela sozinha a maior exibicionista de sua galáxia, brilhando por alguns dias com mais força que a soma de todas suas outras colegas. E é aí, durante este evento cataclísmico, que os outros elementos pesados são criados; todos os que têm massa superior ao ferro. O urânio das usinas nucleares, o ouro que levamos em nossos dedos, o mercúrio dos termômetros, a platina nos ossos quebrados.

Num momento distante no passado estes átomos, estes mesmos átomos, estiveram no coração de uma estrela gigante que explodiu talvez do outro lado do universo.

Ora, a matéria não se cria ou destrói. Ela apenas pode se transformar. Portanto, tudo o que vemos ao nosso redor, ao menos se pensarmos em escala microscópica, é tão antigo como o próprio universo. São os mesmos velhos prótons, elétrons, nêutrons de sempre.

Pensar nisso tudo me dá fome. Enquanto como um pedaço de queijo reflito sobre os átomos daquele naco; a maior parte deles compunha o leite usado em sua confecção, leite que uma vaca gerou ao digerir grama, que por sua vez cresceu a partir de minerais do solo, água e luz solar. Consigo enxergar o fluxo das diminutas partículas.

E ainda assim, estes átomos não eram originais, no sentido de que não tivessem sido coisa alguma antes. Eles eram os mesmos das plantas que secaram e apodreceram naqueles pastos, de dejetos das próprias vacas, de insetos, vermes, pássaros cujos elementos foram retornados àquela mistura. E assim antes, antes, muito antes. Desde o inicio dos tempos.

Eu como queijo, mas indiretamente também como componentes da vaca, do capim e das plantas e dos bichos que morreram ali. Talvez inclusive pessoas em algum cemitério próximo ou cujas cinzas foram espalhadas nos campos; o cálcio de seus ossos enriquecendo o leite que foi usado na produção daquele laticínio, depositando-se em meus ossos também.

Eu coço a cabeça e flocos de caspa e pele seca caem sobre o tapete e se juntam ali aos meus outros restos, aos cabelos, aos pelos de minhas pernas.

Repentinamente eu me recordo que meus átomos, que me compõem num equilíbrio precário, que os ciganos vivem entrando e saindo. Se eu perco peso, se eu engordo, se eu como, se defeco, se respiro.

Eu já não sou mais aquela criança original, com as mesmas partículas que minha mãe laboriosamente juntou por nove meses, transformando sorvete, lasanha e muito mais em minhas células. Em verdade, eu sou um mosaico em constante mutação.

Ainda mais: eu troquei partículas com todas as pessoas que já abracei, beijei ou tive sexo. Mesmo as que apenas toquei de leve, ou quando sentei no mesmo banco de ônibus...

Em meus ossos está o cálcio forjado em alguma estrela, mas que já foi leite, pedra, verme, trilobita no período cambriano, ossos de muitos... Eu sou, todos nós somos, quimeras imensas, com pedacinhos minúsculos de tudo o que houve antes.

Todos interligados, misturados de uma forma quase indecente, quase incestuosa. Há partes de mim que já fizeram parte de outras pessoas, em sua grande maioria completamente desconhecida.

Há certa graça em pensar que os que dizem que foram em outra encarnação algum personagem histórico famoso podem até ter alguma razão. Talvez haja átomos de Cleópatra o suficiente para todos os que dizem descender da Rainha do Nilo.

Somos de certa forma imortais, já que nossos átomos não perecerão. Somos também como o monstro de Frankstein elevado à décima potência.

E é com esta ideia enlouquecedora em mente que eu finalmente consigo dormir...

***

Na manhã seguinte retorno do consultório médico. Operação simples, com anestesia local. Retirada de um cisto sebáceo das costas, até grande: 1,5cm x 1,2cm. Três pontinhos pretos atravessando a malha da minha camisa e uma dor meio chatinha. Tylenol, descanso. Nada demais.

Eu rio ao pensar que posso ter perdido ao extirpar o pobre cisto uma parte de minhas partículas originais, de quando eu ainda era um bebê. Mas é bobagem, eu sei, mesmo os primeiros humanos já eram mosaicos, se não de outros hominídeos, ao menos de animais, plantas e minerais que os precederam.

Atomicamente falando, ninguém é original.

Duas semanas depois, retiro os pontos.

Em casa peço a minha esposa para tirar uma foto de minhas costas, para eu poder ver a cicatriz com nitidez, o pequeno inchaço, a minha recente perda de células de sebo malcheiroso...

A foto está visível abaixo. Mas sua interpretação é algo que pedirá alguma outra noite insone e ébria; eu simplesmente não tenho a energia necessária agora.



Há uma cicatriz avermelhada em minhas costas, há também uma cicatriz no universo, a bilhões de anos-luz daqui. Minhas sardas são como estrelas ou as estrelas são sardas nas costas de alguém muito maior.

Interprete você, leitor amigo, se possível, ou não durma também. Sim, talvez seja esta a solução! Por favor, não durma e conte-me depois o que você descobriu.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Outra vez Ezequiel



E aconteceu no trigésimo ano, no quarto mês, no quinto dia do mês, que estando eu no meio dos cativos, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus. (Ezequiel 1:1)

 

 

Duas das asas flamejantes de cada uma das quatro criaturas não paravam de bater, majestosamente, por um instante sequer, sustentando-as flutuando no topo daquela estrutura branca e dourada que sobrenadava as nuvens. Suas outras quatro asas executavam tarefas diferentes: um par pudicamente cobria-lhes os corpos nus, outro par, seus próprios olhos, protegendo-as assim de serem fulminadas pelo fulgor da Presença.

 

— Santo, Santo, Santo – entoaram em conjunto.

 

Aquele dos quatro que tinha a cabeça semelhante a de um bovino - o aspecto mais pacífico, todo compreensão e doçura - indagou respeitosamente:

 

— Por que nos convocou, Senhor?

 

Os outros três, com crânios que remetiam a um leão, a uma águia e a um humano, tentaram não aparentar seu nervosismo.

 

— É chegado o momento dos momentos. Preparai o necessário. Retornaremos em sete dias às terras que foram de Esaú e perdidas para Jacó por pão e lentilhas – disse a Presença.

 

A voz, tão poderosa que explodiria cérebros humanos e causaria loucura mesmo a outros seres superiores a estes últimos, fez os quatro que eram um só, tremerem de regozijo e exclamarem num idioma quase esquecido:

 

— HaleluYah!

 

***

 

São Paulo, Capital.

 

Culpa. Desde que Carlos Ezequiel Goldstein teve consciência de sua inominável deformação moral, ainda em sua adolescência; foi só da vida o que ele conheceu. Monstro, pervertido até o tutano, abominável, eram estes os adjetivos que usualmente ele utilizava para se fustigar, em especial depois daqueles sonhos. Os sonhos recorrentes que o faziam acordar suado, num misto confuso de excitação, repulsa abjeta e mais, muito mais culpa.

 

Quase sempre o mesmo padrão onírico. Crianças; lindas, perfeitas, iluminadas por algum sol invisível, nadavam nuas, douradas, num mar, num lago com peixinhos coloridos, numa piscina de águas cristalinas. Elas o convidavam, chapinhando na água alegremente, dentre gritinhos. “Vem moço, vem brincar com a gente, vai ser legal”. Algo lhe implorava para não fazê-lo, para fugir dali, mas ele sempre cedia ao convite tão inocente e encantador. Despia-se, candidamente, e se juntava aos pequenos, dava mergulhos, espirrava água com a boca. O sonho então logo caminharia para aquele final escuro que ele já conhecia de antemão: com olhinhos assustados, cheios de incompreensão, com inocência violada, com lágrimas das vítimas e, incrivelmente, de seu algoz também.

 

Sua criação, dentro de uma família de fervorosos católicos convertidos há somente uma geração, não ajudava nem um pouco. De fato, apenas lhe dera uma certeza: no fim ele arderia eternamente, para expiar o que não era, afinal, sequer remotamente expiável. Fosse pela dura lei do Moisés de seus antepassados por parte de pai, fosse pela do todo-piedoso Cristo, mesmo este último não teria lugar para ele em seu coração pleno de amor infinito.

 

 Pior foi nunca ousar compartilhar sua dor antes, ter vivido até os vinte e nove em completa solidão com seu problema. Sem ter segredado a um amigo ou parente ou terapeuta. Sequer alguma vez confessou tais pensamentos ao padre, antes de comungar (tendo sempre a impressão de que então recepcionava o corpo do Cristo num templo de imundice).

 

Por tudo isso, Carlos Ezequiel ainda era virgem. Afinal, não se sentia atraído por mulheres e muito menos por homens. Era visto por seus irmãos e irmãs mais velhos como um magrelo cabeludo e estranho, “o esquisito”. Sempre cabisbaixo, nervoso, antissocial. Não ia aos aniversários dos sobrinhos ou sobrinhas, recusava veementemente qualquer favor típico de tio: de tomar conta das crianças para uma ida dos pais a um cinema ou restaurante, levá-las ou buscá-las na escola. Não as pegava no colo, não lhes dava qualquer carinho. Era o preço a pagar para manter a criatura dormindo.

 

Recusava-se a ter computador em casa e devolveu um smartphone que ganhara certa vez de presente. Evitava dirigir perto de praças, escolas, parques de diversão. Tudo esforço para evitar a primeira vez. Sabia que se cedesse uma única vez não teria forças para parar, jamais. Não suportaria então a vergonha ou a decepção.

 

 Talvez acabasse um dia por se matar ou tivesse vivido o resto de sua vida como um recluso excêntrico, antipático e tecnofóbico, não fosse a sorte de certa vez ter lido num jornal sobre um grupo de apoio especial, quase secreto, visto o quanto os membros eram odiados e desprezados por pessoas de bem.

 

L’Ange Bleu”, o anjo azul, a filial de um grupo de suporte criado na França, formado por e para pedófilos conscientes. Uma reunião aconteceria em São Paulo, dentro de alguns dias, justo em seu trigésimo aniversário.

 

***

Flórida, EUA.

 

— Observe este ponto azul que se eleva do centro da Via Láctea, Dr. Monroe – apontou com a caneta na imensa tela de LCD. — O telescópio Terrestrial Planet Finder-C registrou a atividade deste objeto não identificado anteontem e desde então a I.A. do aparelho o selecionou para monitoração.  De inicio arriscamos algumas explicações plausíveis: protoplaneta desgarrado de seu sol, um cometa excepcionalmente brilhante, uma exótica estrela de quarks. Medições posteriores, entretanto, colocaram nossas especulações no lixo.

 

— Por quê? O que há de tão especial com o objeto?

 

— É supercompacto, perfeitamente esférico. Tem cerca de 45 quilômetros de diâmetro, mas a massa não “bate” com algo deste porte. É leve demais, brilha demais, gira rápido demais.

 

— Interessante... Mas ainda não entendi bem o porquê de gerarmos então um alerta e comunicarmos com urgência ao Presidente, Jones. Não seria mais razoável simplesmente estender a observação? Quase todo ano esbarramos em alguma novidade; o universo é pródigo em...

 

— Não, não, não. Desculpa interromper... Hoje de manhã, com o auxílio de uma lente gravitacional gerada por uma estrela massiva que ficou perfeitamente alinhada, uma coincidência tão provável, sei lá, quanto acertar na loteria cem vezes em sequência jogando sempre os mesmos números. Enfim, o TPF-C conseguiu ótimos closes. Veja!

 

As novas fotos exibiam algo que se assemelhava a uma roda raiada, feito a de carroças ou bigas, fundida a outra roda idêntica encaixada internamente, num ângulo de exatos noventa graus. O objeto era dourado, mas parecia estar envolto em chamas azuis. Quatro esferas luminosas flanqueavam a roda dupla, feito batedores.

 

— Meu Deus! É, hã, é seguramente artificial... Uma nave extraterrena, um maldito UFO!

 

— Sim, sim. Finalmente o primeiro contato! No entanto, imediatamente depois das fotos, como se tivesse conhecimento de nossa monitoração... Não me olhe assim, droga, eu sei muito bem que não é possível, que observávamos algo que aconteceu há dezenas de milhares de anos, que poderia muito bem nem existir mais. Bem, o fato é que a coisa disparou do centro galáctico em direção ao Braço de Órion. Desde então estamos com dificuldades de rastrear o objeto outra vez, pois seguramente passou a se mover a vários c.

 

— Acima da velocidade da luz?! Impossível!

 

— Muito, mas muitíssimo acima da velocidade da luz, julgando pelo monstruoso rastro de distorção gravitacional deixado. Com certeza há enormes discrepâncias em nossas estimativas sobre sua velocidade; não ouso sequer comentar sobre isso oficialmente...

 

— Mas, mas não me faça esta cara de apavorado, Jones! – Gesticulou, impaciente. — De quanto foi a droga da estimativa, pelo amor...?

 

— 1,355 x 106 c. Poderia percorrer 26.000 anos-luz em meros sete dias.

 

— Ora, isso é a distância aproximada do centro galáctico até nosso Sistema Solar...

 

— Bingo! – Disse Jones, erguendo o dedo indicador.

 

***

 

Queimados, Rio de Janeiro.

 

Era noitinha e o jovem pastor José Hernandez contemplou satisfeito o templo abarrotado de fieis, que já transbordava pessoas às calçadas do entorno. Fazia menos de um ano que sua modesta Igreja da Renovação do Sagrado Ministério havia sido criada ali, num antigo cinema de rua falido.

 

Normalmente seus cultos conseguiam atrair pouca gente, apesar de seu dom de falar tão eloquentemente.  Mesmo com o atrativo das recém-introduzidas simpatias, dos tijolinhos de plástico, fitinhas e dos vidrinhos de azeite consagrado... Contudo, depois do que acontecera no culto daquela manhã, de boca em boca uma mensagem fora passada - milagre -, e o resultado destacava-se diante de seus olhos: casa cheia, como ele nunca sequer ousara sonhar.

 

Sonhar... Ora, fora realmente sonho ou revelação?... Aquele círculo de fogo, as vozes tonitruantes, o acordo e o poder! O poder de realizar maravilhas além da compreensão. Não entendia o porquê de ter sido o eleito, mas não havia tido tempo para pensar melhor no assunto.

 

Fez um gesto para que se aproximassem e todos os enfermos e deficientes se organizaram em fila, no corredor central, com o auxílio dos obreiros e novos voluntários. Fazia um calor senegalesco e os ruidosos ventiladores não davam conta de refrescar tanta gente, mas José não suava. Seus doentes já não eram aqueles de todas as semanas; mal pagos para fingir, para largar suas muletas teatralmente – que eles jamais usaram – e encenar milagres para convencer os simplórios dizimistas. Eram reais! Cacete, desta vez eram pra valer!

 

Fechou os olhos, ergueu os braços e estendeu seu toque de trilhões de nano robôs invisíveis, para todos os que imploravam. Sentia em sua mente, percebia facilmente o mal que lhes acometia, como se fosse capaz de milhares de escaneamentos em 3D simultâneos. Destruía um tumor inoperável aqui, reparava nervos seccionados acolá, reconstruía ossos, medulas, íris, rearranjava conexões neurais. Cegos agora poderiam ver, paraplégicos caminhariam sem esforço, alcoólicos não desejariam mais voltar a beber... Era tão simples, tão maravilhoso! Os pobrezinhos eram, no fim das contas, apenas brinquedos quebrados, e ele aprendera como os consertar!

 

Enquanto mantivesse a palavra dada, o poder seria seu. Enquanto conduzisse o gado na direção certa e o marcasse, conforme instruções, tudo seguiria aquele curso; “prodígios e sinais espantosos”.

 

— Desejo que passai a me chamar de Profeta José. É só o que vos peço em troca – disse ele à massa que começara a cair de joelhos.

 

***

 

São Paulo, Capital.

 

— Graças ao Senhor Jesus Cristo não cometo nenhum mínimo delito há onze anos, seis meses e dez dias – começou a falar um homem muito gordo e de aparência bonachona, com cabelos grisalhos e ralos fixados com gel e doces olhos de sabujo. — Sim, mesmo quando me encheram de Depo-Provera, em doses cavalares, eu ainda pecava, ainda sonhava, fantasiava acordado, feito um viciado irrecuperável, como um... Recém-mutilado, ainda capaz de perceber o membro perdido. A droga me tornava impotente, esfriava minha libido, mas ela não tocava minha alma, não vertia luz no lodo, na escuridão que eu vergonhosamente escondia, não me redimia, não me tornava uma pessoa boa. Eu, eu confesso a todos os novos colegas aqui, que anos antes, quando eu ainda era uma marionete de minha doença, eu molestei minha sobrinha por mais de três anos e comprei seu silêncio com presentes e chantagens. O trauma que causei, o mal, foi tão grande, que a pobre menina tentou suicídio com somente quinze anos.

 

A voz do obeso senhor embargou, ele levou as mãos ao rosto e chorou ruidosamente por alguns instantes. O grupo presente, de umas quinze pessoas, fez um silêncio respeitoso.

 

— Por vontade própria decidi então revelar meu crime.  Fui preso, perdi tudo: emprego, o respeito dos meus filhos e de minha esposa, todos meus amigos. Só conheci ódio selvagem e incompreensão. Hoje eu já paguei minha pena junto à sociedade, mas somente isso não fora suficiente para mim, vocês entendem? Se não fosse o trabalho junto do grupo de apoio, os psicólogos voluntários, os novos amigos, eu não teria superado, digo, teríamos, pois minha ex-esposa recentemente voltou a conversar comigo amigavelmente, e até minha sobrinha falou-me ao telefone que conseguiu me perdoar – o rosto do homem pareceu iluminar-se. — E eu, eu também, eu acho que o meu trabalho aqui, junto de vocês, ele me ajuda a me perdoar, todos os dias. Nós somos doentes, eu sei, mas o problema inerente do nosso mal é que ele machuca, traumatiza, sexualiza precocemente, gente inocente. Meu nome é Manoel dos Santos Araújo e eu fui um pedófilo. E aqui, com a ajuda de todos vocês e das autoridades que nos apoiam, vamos trabalhar para evitar que aconteçam histórias semelhantes à minha.

 

De inicio, Carlos Ezequiel não conseguiu partilhar com o grupo; havia criado barreiras tão espessas, tinha tanta vergonha do que sentia, que o pavor lhe paralisava. No entanto, como já estavam acostumados a casos como o seu, não fizeram pressão para que ele falasse, embora secretamente já o registrassem para alguma investigação posterior.

 

Já quase no fim da reunião, ele atreveu-se; gesticulou, e disse rapidamente ao microfone que foi trazido junto à sua boca por um voluntário:

 

— Eu... – engasgou. — Eu nunca fiz nada de verdade, mas sem ajuda eu vou fazer, eu sei que vou! Me ajudem, por favor!

 

Aquela confissão resultou num alívio tão grande! Ele se surpreendeu ao notar seu próprio pranto, que veio abundante, como uma represa há muito contida. E o que fora aquele abraço coletivo que se seguiu? Tão espontâneo, tão confortador...

 

Decidira então consultar um dos psicoterapeutas do grupo no dia seguinte. Submeter-se-ia, voluntariamente, à castração química, ao menos enquanto representasse algum risco.

 

Já era noite e chovia forte enquanto Carlos dirigia de volta à casa, seguindo a Marginal Tietê, quando um pneu furou e ele teve que parar para trocá-lo. Seu coração estava tão pleno de felicidade que ele até se pegou assoviando alegre, mesmo encharcado pela chuva que não dava trégua e enlameado pelos respingos dos carros que singravam cegamente pela via.

 

Nem notou, junto às suas costas, o círculo de fogo se abrindo no ar, defronte a fachada duma loja falida e pichada, coberta de cartazes que se descolavam com a água que descia sem parar do céu lodoso.

 

— Trinta anos, num cinco de Abril, mais uma vez. Não junto do rio Quebar, muito embora todos os rios deste mundo sejam seus afluentes. Não junto dos cativos, embora os que por aqui apressadamente passem em suas carruagens primitivas, sejam escravos também. Ezequiel, escuta-nos com atenção! Pois nós somos Metatron!

 

***

Flórida, EUA.

 

— Sim, senhor Presidente. É realmente uma teoria interessante a que meu pessoal levantou. Não há como negar; o objeto se assemelha muito às descrições da tal Roda de Ezequiel relatada nas escrituras. Até o tamanho, 45 quilômetros, não deve ser coincidência. É certamente um múltiplo da unidade de medida da época, o côvado, que tinha 45 centímetros. Provavelmente já visitaram à Terra no passado. Se o tal profeta simploriamente confundiu um UFO com um emissário de Deus? Exato! Claro! Continuaremos com nosso plantão 24/7! Obrigado pela confiança. Até logo, senhor!

 

O velho Dr. Monroe colocou o fone do gancho e passou a mão pelos cabelos grisalhos e revoltos. O corpo doía e implorava por um banho morno e algumas horas de sono, mas, ao invés, ele encheu uma caneca com o emblema da NASA com mais cinco ristretti. Ficou por algumas horas analisando os arquivos recentes do TPF-C e quase cochilava quando o jovem e excitável Dr. Jones intempestivamente entrou na sala.

 

— Dr. Monroe, finalmente localizamos a nave! Num lance de pura sorte, a sonda Messenger detectou-a; sua sombra enorme até eclipsou todo o lado iluminado de Mercúrio por alguns segundos! Está agora em órbita síncrona com a rotação do Sol. Escondida do lado oposto da estrela.

 

— Hã? Escondida!? Viajam 26.000 anos-luz e timidamente não querem aparecer? – Comentou chocado. — Houve alguma tentativa de comunicação? Números primos, na frequência da água e aquilo tudo mais?

 

Ignorado, um botão piscava loucamente num dos painéis de controle do telescópio espacial. Por longos sessenta segundos a I.A. do Terrestrial Planet Finder-C esperou pacientemente, e-mails foram replicados e mensagens SMS também. No entanto, seu protocolo de emergência então passou a não exigir mais tamanha educação.

 

Alarmados pelo bipe estridente, os dois observaram, incrédulos, uma nuvem de milhares de naves negras como piche emergir do buraco negro central da Via Láctea. Por alguns minutos elas fizeram uma coreografia desconcertante, formando estruturas como dois cornos encurvados e desapareceram, desprezando as leis físicas sobre espaço e tempo.

 

***

 

São Paulo, Capital.

 

Carlos gritou e caiu de joelhos. De inicio pensou que enlouquecera, mas rapidamente recordou-se das leituras do tempo do catecismo, e dos livros judaicos que leu por curiosidade também. Reuniu toda a sua coragem e percebeu, com vergonha, a voz escapar muito fraca de sua boca.

 

— Metatron? Um, um anjo? O serafim? Ah, Senhor, eu não sou digno! – Gaguejou uma frase bíblica que lhe pareceu adequada. “Como, afinal, se deve falar com um anjo?”

 

Os quatro empunhavam bastões e suas vinte e quatro asas estavam abertas, esplêndidas. Lado a lado, falaram ao mesmo tempo, em sincronia perfeita. Vozes de bovino, de humano, de águia, de leão.

 

— Os 144.000 líderes de tribos já foram avisados em sonho. O Profeta também já foi eleito. A Roda entrará em órbita e buscará os justos, todos eles. Subirão em corpo e alma, com destino ao planeta Nova Jerusalém, recompensa suprema por suas vidas justas, como foi prometido e profetizado. Pois é chegado o momento dos momentos! O Arrebatamento! Há pouco tempo, no entanto; o exército de ash-Shayṭān já se encaminha para apoiar o futuro Governo de Escuridão.

 

“O Arrebatamento? A escolha dos justos?”, por que os anjos vieram procurá-lo? Será que finalmente suas preces por perdão teriam sido atendidas?

 

Uma compreensão súbita queimou a mente de Carlos Ezequiel como um raio. “Mas era esta então a razão!” Ele não era um maldito pervertido, não era! Era, em verdade, um tipo torto de mártir, que sofrera a pior das dores; a prisão da própria mente! Isso, sem ceder à tentação! Fazia parte do Grande Plano, desde o inicio! Estava, portanto, destinado a liderar o Povo Escolhido, para uma vida numa esfera superior. Nunca na vida pensara em algo assim, mas agora fazia tanto sentido...

 

— Eu não sei como vos agradecer. Deveria ter tido mais confiança na sabedoria de Deus. Ah, eu mal posso esperar... Ascender e liderar os Escolhidos!

 

A entidade com cabeça de leão, a justiça implacável, urrou furiosamente e pareceu preparar-se para saltar e devorá-lo, sendo seguro, no entanto, pelo serafim com cabeça de águia, o observador arguto. Lágrimas empáticas desceram dos enormes olhos do bovino, e o anjo de cabeça humana apenas meneou o rosto, tristemente.

 

— Criança tola – disse o serafim de cabeça de touro. — Viemos conceder-te poder, poder absoluto, para que sigas com teu destino. É óbvio que não há lugar para ti dentre os Escolhidos!

 

— Como assim? Fi-ficarei para trás para ajudar a redimir os pecadores? É isso? Irei então num segundo Arrebatamento?

 

— Como te dissemos: o Falso Profeta já foi escolhido, os líderes organizarão a ascensão e os ímpios ficarão para trás. Quase todas as peças necessárias já estão dispostas no tabuleiro, conforme o Plano. Faltava-nos, entretanto, ainda empossar o Anti-Cristo.

 

Sem mais dizer, ignorando os olhos céticos do homem, os quatro que eram um dispararam raios exóticos de seus bastões, de tecnologia tão avançada que pareceria mágica aos olhos dos ignorantes; alterando o corpo de Carlos Ezequiel em nível molecular, e ampliando sua mente também.

 

Horas depois, quando Ezequiel despertou, os anjos já haviam partido, os justos voavam por todo lado liderados pelos 144.000 e a Roda, colossal como quatro Luas cheias, orbitava o planeta, envolta numa aura de místico fogo azul. Frustrado, Ezequiel gritou, e um relâmpago desceu dos céus, fulminando uma árvore próxima em resposta.

 

Vagarosamente colocou-se de pé, percebendo então o peso de um mundo em suas costas. Desejou e um vulcão aflorou do solo e começou a despejar lava sobre o curso do rio muito poluído, erguendo imensas nuvens de vapores fétidos.

 

Revisou suas alternativas, havia de encontrar-se com o Falso Profeta e organizar seu Novo Estado. Enfim, derrubando prédios com um gesto irritado, abrindo seu caminho como uma força da natureza, redescobriu outra vez seus apetites latentes e alegrou-se com a ideia de que seguramente algumas das crianças não teriam sido arrebatadas.

 

— Pequenos ímpios, chegou o momento do arrebentamento! – Gargalhou, ao deixar escapar a primeira das muitas heresias que ele ainda proferiria nos mil anos de seu governo.