sábado, 7 de novembro de 2009

Solarium 2


Pessoal, próximo dia 14/11 será lançado o livro Solarium 2. Participo do livro junto com vários outros autores com dois contos inéditos neste blog : "O Espelho" e "Beta Teste".


Além da capa linda que vocês podem ver abaixo, há belíssimas ilustrações complementando os contos e fora a participação de inúmeros autores extremamente talentosos.


Quem puder, divulgue o livro por favor. Vamos fazer deste lançamento um grande sucesso.


Abraços!


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Grafias Noturnas



O prezado escritor e amigo Luiz Fernando Riesemberg está publicando o seu livro solo : "Grafias Noturnas".
Luiz sempre surpreende com sua visão fantasiosa e criativa e com sua narração impecável.
Vamos lá conferir o trabalho inédito deste novo autor e, claro, comprar o livro!!
"Para quem se interessar, Grafias Noturnas pode ser adquirido pelo site www.biblioteca24x7.com.br em forma impressa ou virtual. "
Abraço, Luiz! Boas vendas e parabéns!





quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um Salto na Escuridão





O escritor Henry Evaristo acabou de lançar seu primeiro livro de contos de terror : Um Salto na Escuridão.

Conheçam e prestigiem o querido colega escritor! Link : http://clubedeautores.com.br/book/4956--UM_SALTO_NA_ESCURIDAO

A longa jornada

“Abatedouro.”, pensou ele com seus botões, ao caminhar pelo corredor branco, ladeado por carcaças de porcos penduradas em ganchos de ambos os lados. O sangue corria por uma valeta no chão. As vísceras moviam-se sozinhas a partir das barrigas abertas. Como vermes ou cobras pálidas, enroscando-se em si mesmas, serpenteando e descendo no fluxo.

De início este era só um pequeno riacho, que tomava corpo depois e corria caudaloso até algum lugar fora do alcance de sua visão.

Um barulho estranho, gorgolejante; ruído de movimentos espasmódicos, de coisa orgânica e molhada, ficava cada vez mais forte.

Continuou seguindo pelo corredor, o rio de sangue desembocava num sumidouro profundo. Virou-se para trás e os porcos o miravam pedindo ajuda, olhou o fundo do poço escuro, aberto como uma ferida intumescida, coberto de carne purulenta e pulsante em suas bordas.

Lembrou da lanterna no bolso. Não havia lanterna antes. Nunca houve lanterna alguma. Acendeu e iluminou o fundo.

“Flagelos.”, observou quando viu a massa viva e revoltante, revirando-se faminta; projetando milhões de pequenos tentáculos em sua direção.

Não fez menção de fugir, só sentiu curiosidade e um certo prazer no toque invasivo e cálido de todas aquelas vilosidades em sua pele, microperfurando cada milímetro do corpo, tomando seus olhos, ouvidos e nariz. Descendo por sua boca e garganta; incorporando-o, fazendo dele parte do todo.

Envolto na massa fervilhante, imaginou órgãos, criou novos membros e ergueu-se, tomado de uma fome súbita. Criou asas, guelras, patas, apêndices sem função específica. Esfregou a barriga e abriu uma nova boca e a encheu de belos dentes. Agarrou um dos porcos com seus tentáculos e o enfiou na boca enorme em seu abdômen. O poder era bom, refletiu. “Deus deve se sentir assim”.

***

A igreja fazia arder seus olhos com o calor de tantas velas acesas. A cera derretida descia e encharcava o chão. A fumaça queimava às narinas. Agora a cera já chegava aos joelhos dela. Olhou o altar e viu Cristo, Buda e Ganesh sentados à mesa, compartilhando uma refeição de pão, figos e flores. “Aqui é o altar de todas as fés.”, escutou alguém sussurrar. “O que fazes aqui?”.

Não sabia, não sabia. A cera já chegava ao pescoço, o altar não estava mais lá. “A fé te salvaria”, escutou antes da cera invadir seus ouvidos.

***

Alisava a própria barriga, curioso. Havia um arranhão? Um corte? Explorou com o dedo e com delicadeza, começou a levantar cada camada, como se ele fosse uma cebola. Parou quando viu os intestinos. Lindos, enrolados, arrumados de forma perfeita. Segurou o duodeno e o destacou do estômago. Começou a enrolar no próprio braço, desarrumando, desaninhando a si mesmo. Com metros da corda grossa ao redor do braço, amarrou um gancho na ponta. O gancho que apareceu de repente no chão.

Lançou a corda, o gancho, a si mesmo sobre o muro que murmurava. Segurou firme nas tripas, apoiou bem os pés e subiu. “O que há do outro lado?”, pensou.

***
Pulou com dificuldade o vão alto do portal, enquanto caminhava pelo teto da sala. Olhou para cima e viu o tapete, o sofá, as plantas e a tv. Subiu no lustre e saltou. Agarrou-se aos braços do sofá, sentou-se e alcançou o controle remoto sobre a mesa de centro. Ligou a tv, mudou de canais, enfadou-se e desligou.

Saltou de volta para o chão-teto, abriu a porta da varanda e escorregou. Tentou agarrar-se no toldo, mas ele estava roto de tanto tomar sol e chuva. Caiu no céu, assustado, vendo a Terra ficar cada vez mais distante. Sentiu o frio e a escuridão chegando. Com certo assombro viu as estrelas e o pálido ponto azul desaparecendo. Tinha medo de altura, lembrou-se.

***
A nave movia-se a grande velocidade em piloto automático. Um décimo da velocidade da luz. Em cerca de quarenta e sete anos alcançaria Alfa Centauro-4, um planeta habitável.

A tripulação dormia nas câmaras de hibernação. A nova droga era fantástica, não precisariam de alimentos, não envelheceriam na jornada.

Porém alguém deveria ter pensado nos pesadelos da tripulação.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Semana Sem Ana

Acordei só. Pensei por um instante que não fosse verdade. Que teria sido só um sonho ruim. Que bastaria ir à cozinha e te encontrar cantarolando e passando um café fresco. Escutando música no rádio, conversando com as plantas que tu acabavas sufocando com cuidados demais.

Em geral esta esperança era o que havia de mais cruel. Quase tão cruel quanto te esquecer. É uma vergonha, mas já não lembrava direito da cor dos teus olhos. Não conseguia lembrar do perfume que tu mais gostavas. Não recordava de tanta coisa tua e não te tinha aqui para me lembrar.

Joguei o braço para o lado e ele caiu sobre o teu travesseiro; frio. "Nunca mais", pensei. Nunca mais fugir do mundo com a cabeça entre teus seios. Sentir tuas mãos em meus cabelos, escutar que está tudo bem, que vai passar, que vai regredir. Se Deus quiser, vai regredir.

E o mundo lá fora continuou a girar, o sol nasceu brilhante e o céu zombeiro; azul. Como ousam? Como ousam cuspir em meu rosto alegria e felicidade que me são negadas? Que direito têm?

Que morram e sequem todas as flores, que dos céus caiam todos os pássaros, que se fechem todas as portas e janelas. Que os dias sejam frios, chuvosos e cinzas. Que não se ria, que não se sinta nada a não ser este vazio que machuca, esta certeza de morte em vida, este desespero paralítico e covarde que não me permite terminar com tudo de vez.

Não ousem rir de minha dor. Me respeitem!

Uma semana sem Ana. A primeira de muitas da minha vida. Que vida?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Outra vez


É só saltar. Não precisa pensar. Pula, fecha os olhos, aguarda o beijo bruto do chão, abraça o vácuo que vem depois.
Que eu possa sumir e ser menos que pó. Que o vento possa soprar minhas cinzas, que não fiquem marcas, pegadas, digitais de minha existência. Que eu possa somente conhecer a paz, a escuridão. Que não se chore por mim, que não se reze por mim. Apenas apaguem, ignorem. Rasgem as fotos, queimem as cartas, não falem sobre mim. Façam de conta que nunca existi.
Respiro fundo, dou um passo e me lanço. Quisera poder voar.
Sinto o sopro glacial, vejo as nuvens de fumaça espessa que meu hálito provoca, enquanto corro do tigre dentes-de-sabre que vem em meu encalço. Paro, giro o corpo, faço pontaria e atiro a lança que voa certeira e o atinge no peito. Mas não adianta, o animal é forte demais, a lança não foi fundo como eu pensei. O tigre, de mais de quinhentos quilos, se agiganta junto de mim e ergue a pata imensa, que ao cair me presenteia com a paz.
A paz é boa. Eu apenas quero a paz.
O chicote de meu senhor estala em minhas costas mutiladas que não tiveram tempo de cicatrizar. Empurro junto com dezenas de outros escravos o bloco de pedra sobre os troncos roliços. Distante dali podemos ver os túmulos dos reis que estamos ajudando a construir. O reis que serão deuses e que nunca morrerão. Que conhecerão Anúbis e Hórus. Que verão o esplendor de Amon-rá.
Uma corda se rompe e o bloco de muitas toneladas vem em nossa direção. Todos correm, menos eu. Descubro que é isso o que eu quero. Abro os braços e dou as boas-vindas à morte. Desejo outra vez mergulhar no limbo plácido, no poço escuro do olvidar.
O vento lambe meus cabelos, aperto os olhos, não quero ver, não quero.
Bradando em uma só voz, sob a proteção de Alá e sob a liderança de Saladino, marchamos em encontro ao exército de infiéis. Eles não terão chance, pois Alá está conosco e ele não é um tolo pálido e esquálido que se deixaria pregar numa cruz.
O sol quase se esconde por um segundo quando a nuvem de flechas lançadas de uma só vez cruza o firmamento. Quase todos fazem a formação padrão, erguendo os escudos sobre as cabeças. Eu, por alguma razão, não. Não tenho medo do enxame furioso como mil abelhas rútilas. Que perfurem meu peito, que atravessem minhas costas, que matizem o solo de rubro.
Esbarro de leve num vaso de plantas secas e esquecidas num parapeito. Esquecidas como eu gostaria de ser. Mortas como outra vez serei. O mergulho deve estar quase no fim.
Eu sou uma menina pequena que brinca com os bolinhos de arroz com alga no prato. Minha mãe ralha comigo e não ganharei o doce de feijão azuki se não comer tudo.
Através da janela, eu vejo quando o grande cogumelo ruge e brilha como mil sóis. Logo eu sou só uma sombra, uma litogravura estampada a fogo na parede, envolvida pelo abraço de minha mãe.
Se fosse possível notar, alguém repararia nos braços erguidos da menina, quase festejando o cálido toque da energia que fomenta as estrelas.
O concreto vem súbito e quebra meu esterno. O impacto esmaga meu coração e as costelas perfuram meus pulmões. Meus braços se abrem numa posição não natural. Sou como uma marionete largada, escorrendo pela sarjeta, distraindo a multidão por alguns instantes.
Expiro pela última vez. A paz, enfim. O véu escuro...
***
Em algum lugar na colônia humana localizada no subterrâneo, junto à calota polar que fica no extremo sul de Marte, uma criança nasce.
Ela chora, grita estridente quando é levada junto do seio da mãe. Há uma certa decepção em seu olhar, um certo desespero por ter sido amaldiçoada pela vida.
Vida para quê, quando apenas morte é o que se quer?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vivendo no Exterior 2 - Ambiente e Alimentação

O quanto de você depende do ambiente onde você vive?

Eu afirmo: você é arroz e feijão, calor e umidade, água leve e clorada. E sol, muito sol!

Agora, desloque você daí onde você está. Venha morar num lugar mais alto, mais seco, onde a água é tão alcalina que deixa marcas brancas nos lugares onde secou. Coma coisas que você nunca comeu e pare de comer o que você estava habituado a comer.

O resultado? Mudanças! Algumas para melhor e outras para pior. Ha, ha, ha!

A pele fica seca, o nariz sangra, você fica cheio de meleca (ugh). A água te dá caspa nos primeiros meses. A comida te enche de gases.

Depois o corpo se ajusta: minha rinite brasileira de muitos anos acabou, a caspa foi embora também. Os gases, bem, deixa este assunto pra lá...

Você começa ganhando peso e depois emagrece. Ganha peso porque chocolate, queijo e presunto são maravilhosos aqui. Perde peso depois porque se acostuma e porque carne aqui deveria ser vendida em joalheria.

Um quilo de carne de boi de 1a custa, em média, 64 francos. Uns 115 reais! Frango e porco são mais baratos, mas custam o triplo ou mais do que no Brasil. Você só vê porções pequenas embaladas nos mercados: um bife, dois bifinhos, duas coxas de frango, etc.

Comem habitualmente muitos outros bichos aqui: javali, ganso, gamo, carneiro, avestruz, bisão e cavalo. Como eu almoço no restaurante da empresa e, nos primeiros meses, meu alemão mal servia para cumprimentar, provavelmente devo ter comido cavalo sem saber. Mas no mercado eu passo longe! Tenho pena!

Há uma grande mania de produtos "bio" também. Ovos de galinha "bio", pão "bio", iogurte "bio". Tudo sem agrotóxico, com os bichos criados livres, tratados com homeopatia (não podem receber hormônios ou tomar antibióticos). O sabor é igualzinho e é mais caro. Mas como tô sozinho até agosto, compro por achar mais saudável e eticamente correto.

Bem, é só isso por hoje. Se vocês tiverem alguma curiosidade sobre algum assunto é só perguntar.

Abração!

domingo, 19 de julho de 2009

Vivendo no exterior

Vista da minha varanda, agora no verão





As mesmas vistas em janeiro/2009. A segunda foto mostra parte do bosque que tem aqui perto.


Opa! Não é conto desta vez!

Fiz uma entrevista em maio do ano passado aqui em Zurique. Gostaram do meu CV e fui contratado em julho/08. Tive que aguardar até meiados de setembro até a permissão de trabalho sair. O duro disto tudo foi que a empresa não pagaria a mudança, somente um frete de 100kg, minha passagem aérea em classe executiva, minha hospedagem por um mês em um apartamento temporário e uma verba de ajuda de custo para eu me consolidar aqui.

Tinha apartamento próprio, carro, móveis, eletrodomésticos e etc. Vendi tudo. Dei uma sorte tremenda, anunciei para os amigos e amigos de amigos e logo minha casa tinha virado um bazar, com as pessoas me perguntando o preço de tudo e querendo levar até o que não estava à venda.

Não sou materialista, mas rolou um sentimento de perda muito grande nesta época. Eu meio que me senti violentado e sem lugar.

Talvez porque dei sorte, em menos de um mês anunciando, vendi meu apartamento, pelo preço de mercado mesmo. Meu carro eu coloquei em consignação na loja do tio de um amigo meu e logo eu estava dentro do avião, deixando toda uma vida para trás.

Os primeiros meses foram bem duros. Cheguei em outubro e já fazia bastante frio. Na minha segunda semana aqui, começou a nevar.

Depois de muito pesquisar e já apertado no meu prazo de entregar o apartamento temporário, achei um bom apartamento, num bairro próximo do trabalho. Lá se foi a verba que a empresa deu, foi tudo no depósito de garantia ao alugar o apartamento. Só receberei o valor integral de volta, ao entregar o imóvel nas mesmas condições que o achei.

Vim cheio de idéias e conceitos sobre a Suíça. Pensava que todos falavam inglês, mas, de fato, só nos centros das cidades é fácil encontrar quem fale inglês. No meu prédio mesmo, ninguém fala.

Pensava que as pessoas seriam desagradáveis e mal-educadas com estrangeiros. Me enganei! Os suíços são reservados, mas são muito gentis e educados em geral.

Achava também que teria que me esfolar de trabalhar para justificar o salário em minha empresa. Ledo engano também: trabalha-se num ritmo muito mais suave e organizado do que no Brasil.

Os colegas de trabalho são de toda parte do mundo: sul-africanos, mexicanos, brasileiros, espanhóis, tailandeses, chineses, indianos e, até, suíços.

No meu departamento, em especial, todos são extremamente simpáticos. Passo o dia fazendo piadas com o suíço-francês grandalhão e com meu ex-chefe mexicano. Já saí pra jogar sinuca e beber cerveja com ambos.

Nós brasileiros sempre levamos um pouco do Brasil conosco e aqui é fácil de comprar guaraná, goiabada, feijão preto e tudo mais. Tenho cortado o cabelo no salão de uma baiana e, quando houve a festa latina aqui, o que mais bombava era uma barraca de comida brasileira onde rolava um show de uma cantora que cantava sucessos de Ivete Sangalo.

Difícil mesmo foi lidar com o inverno longo e rigoroso. Em especial entre o final de dezembro e as primeiras semanas de janeiro, a temperatura ficou sempre abaixo de zero. Chegou à uma mínima de -8°C aqui na cidade e a máxima não passava de -2°C.

Não bastasse o frio, os dias eram curtíssimos e escuros. E, mesmo eu, que sou um sujeito naturalmente alegre, fiquei bastante triste neste período. Pensei várias vezes em desistir e voltar pro meu querido Brasil.

Felizmente, me adaptei. A vida aqui é muito, muito calma. Zurique é a maior cidade suíça, mas tem somente cerca de 450.000 habitantes. Pequena quando comparada à maioria das cidades brasileiras.

E também não é um caldeirão fervilhante de gente e cultura como Londres, Paris ou Madrid. Se muito, deve haver umas 40 salas de cinema, 3 shoppings medianos, uns 10 teatros. A maioria dos restaurantes estão concentrados na "cidade velha" no centro. Ou seja, muito diferente do que um carioca estava acostumado a ter na 2a maior metrópole do Brasil.

Mas há suas compensações: é ultra-segura, ninguém tem medo de nada. Não tem bairro perigoso, não tem favelas ou conjuntos habitacionais precários (em Paris ou Madrid, por exemplo, tem). E tudo é verde e limpo e muito organizado. Ser meticuloso e perfeccionista é uma espécie de mania nacional.

Quando você pega um trem, é fácil, olhando a paisagem, saber se você ainda está na Suíça. Quando fui à Itália, por exemplo, você passa por Lugano que é uma cidade linda da suíça-italiana. Limpa, verdejante, parece um cartão postal. Você cruza a fronteira, e tudo muda. A Itália é bem mais suja e desorganizada. E olha que eu reparo o mesmo na Alemanha e na França também.

Não sei ainda quanto tempo viverei aqui. Certamente não será para sempre. Dei entrada na minha dupla cidadania portuguesa para garantir que eu não dependa de contrato de trabalho para viver na europa. Acho que seria bem mais fácil viver, por exemplo, em Lisboa ou Madrid que têm climas mais amenos e o povo mais parecido com o nosso.

Por enquanto, vou tocando a vidinha aqui. Estou me esforçando nas minhas aulas de alemão para me ajudar a adaptar também.

Tem uma coisa curiosa que acontece comigo no trabalho. Passo o dia falando em inglês e, às vezes em espanhol. Quando vou às aulas de alemão, a professora fala em inglês também. E eu começo a misturar! Já respondi perguntas feitas em alemão em português!
Bem, é só isso por enquanto. Depois eu coloco mais impressões sobre esta minha experiência.

Abraços!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Balidos





O dia começa abafado no sítio maltratado e quase falido. O grande pomar de laranjas e limões está carregado e as frutas praticamente imploram pela colheita enquanto outras já apodreceram nos pés.

Perto dali, um curral tosco de madeira, meio tombado pelas chuvas e pela falta de manutenção, abriga umas sete cabras. Seis, na verdade, pois o bode Duque, chifrudo e de porte ainda majestoso, se destaca dentre o restante do rebanho. Algumas das fêmeas estão com os úberes inchados, empedrados e doloridos pela falta de ordenha e outras cheias de carrapatos. Uma delas está redonda pela prenhez avançada e ainda uma outra manca por ter uma ferida infeccionada e tomada de larvas.

O caseiro alcóolatra aparece dia sim, dia não. Troca a água, enche as manjedouras de capim e ração e se vai. Há uma camada espessa de fezes não recolhidas no chão. As pérolas negras como caviar já estão amassadas pelos pés fendidos e sujos. O cheiro acre e a nuvem de moscas e mutucas deixam o ambiente do curral completamente miserável.

A noite chega e o rebanho mal-nutrido se organiza de maneira estranha dentro do cercado. Duque, com seus chifres espiralados e longos e seu pêlo abundante, posiciona-se no centro. As fêmeas, sentam-se ao seu redor, fazendo um círculo. Como se o respeitassem, como se ele contasse histórias. Ele bale grosso e seus olhos ambarinos de pupilas horizontais brilham com sabedoria. Ficam juntos assim a maior parte da noite até que se recolhem para dormir.

***
Na manhã seguinte, um carro esportivo e sem capota rasga a estrada de terra batida e seca, erguendo uma nuvem alaranjada que seca e sufoca os transeuntes.Roberto Kovalek, trincando os dentes por ter cheirado ainda pela manhã, estaciona o carro junto à casa. Eufórico, ele sai gritando pelo caseiro que, apressado, logo se apresenta.

_Manoel, vendi o sítio! Finalmente me livrei deste traste que meu pai me deixou.

_Vendeu mesmo, seu Roberto? Ora, que bom! E o dono novo, quem é?

_Um citricultor grande que tem contratos com indústrias de suco. Só há um problema. Ele só tem interesse na plantação. Não quer nenhum dos animais.

_Como assim, seu Roberto? O que vamos fazer com este monte de cabras? O senhor vai vender?

_O Duque, por ser da raça irlandesa, talvez... Mas estas cabras magrelas mestiças e doentes não valem quase nada. E eu não tenho tempo a perder... Melhor abater todas elas.

_Mas, seu dotô... Tem cabra prenha! É muita maldade matar um bicho assim. E vai matar e vender a carne?

Roberto tira a carteira do bolso, conta três notas de cem e entrega nas mãos sujas e calejadas de Manoel.

_Mata tudo, Manoel. Mata e enterra. Quero amanhã levar o Duque para um criador de cabras avaliar. Quero entregar logo o sítio e receber a bufunfa. Eu te dou mais algum depois que me pagarem.

Roberto entra na casa e abre as portas e janelas para arejar e livrar-se do cheiro de mofo. Vai até o bar e enche o copo de uísque. Senta-se no sofá com o copo numa mão e a garrafa na outra e liga a TV.

Pouco depois, lá fora Manoel grita alguma coisa e Roberto, extremamente irritado, dirige-se ao quintal.

_É o Duque, seu dotô! Ele ficou que nem doido logo que eu entrei no curral. Tá querendo me chifrar, tá xucro que nem o diabo. Não consigo segurar ele sozinho.Com má vontade, Roberto ajuda Manoel a segurar Duque pelos chifres. O bode é amarrado à uma estaca distante e fica balindo e esperneando desesperado.

Roberto volta para o sofá enquanto Manoel pega cada uma das cabras por vez, amarra-as pelas patas traseiras e as pendura numa goiabeira. Com um facão afiado, corta-lhes as gargantas e logo o chão seco se matiza de rubro.Quando a cabra prenha é suspensa, Duque dá saltos enlouquecidos tentando se soltar. Quando a faca finalmente fere a sua carne, ele bale de um modo que nenhum ser humano jamais escutou. É um misto de ódio, desespero e amor. Depois disto, Duque pára; misteriosamente calmo. Caminha, lentamente, esticando a corda que o segura e, de súbito, corre na direção contrária à toda velocidade.

A estaca que o segura é arrancada do chão. O bode corre na direção do carro esportivo e chifra a porta com força. Recua a volta a chifrar agora um dos faróis. Sobe o capô, caminha sobre os vidros e enfia os chifres nos assentos de couro, rasgando-os selvagemente.

Quando Roberto novamente sai da casa, vê o bode agitando a cabeça para os dois lados e o recheio dos assentos flutuando no ar como sementes de dente-de-leão na vento. Seu caríssimo esportivo está sendo destroçado por um animal estúpido e furioso.

Ele corre para dentro de casa, abre uma gaveta e retorna ao quintal com uma arma em punho. Quase esvazia o pente de balas no bode que cai ensanguentado sobre os finíssimos bancos do carro. Chega junto da cabeça de Duque e dá mais um tiro.

_Manoel, limpa esta sujeira! Eu não quero nem pensar no prejuízo que este bicho filho-da-puta acabou de me causar.

Manoel tenta segurar o bode, mas este se agita e treme ainda.

_Tá vivo ainda, dotô! Como é que pode?

Roberto manda Manoel segurar o bode pelas patas traseiras e o leva junto do tronco onde se corta lenha. Posiciona a cabeça do animal sobre o toco de madeira, eleva o machado e golpeia o pescoço. Com mais dois golpes, o animal está degolado e o corpo, por fim, pára de se debater.

_Este desgraçado do Duque me deu um prejuízo duplo. O bicho valeria fácil mais de dois mil reais por ser de raça e ainda desgraçou o meu carro. Você tem noção do custo das peças? Da mão-de-obra? Filho-da-puta!

Irritado, Roberto mais uma vez entra em casa e afoga seu ódio no que restou da garrafa de uísque.Manoel, diligentemente, abre uma vala funda numa parte fofa do terreno e joga os corpos das cabras e de Duque. Cobre tudo com terra outra vez e limpa a sangueira que já estava juntando moscas.

***

No dia seguinte, Roberto volta à cidade e, no fim de semana a seguir, já tendo assinado os papéis no cartório, vem à casa do sítio para transportar alguns pertences antes de entregar a propriedade.Depois de cheirar algumas carreiras de pó e beber cerca de meia garrafa de Jack Daniel’s, ele dorme esparramado sobre o sofá da sala.

Por volta das três da manhã, acorda assustado. Há um som alto como um coral cantando desafinado que vem do lado de fora.

Ele acende todas as luzes e vê, arrastando-se a partir do fundo do quintal, os corpos putrefatos e acinzentados das cabras balindo em uníssono.

Roberto sente os intestinos revoltarem-se e o estômago embrulhar imediatamente. Corre até a sala, abre a gaveta e pega a arma e alguns pentes de balas.

As cabras agora estão mais próximas e o cheiro de podridão assalta os sentidos. A cabra prenha está à frente do grupo. Coberta de insetos e vibrante de larvas, ela arrasta o corpanzil roliço e pode-se ver claramente as cabeças dos três filhotes surgindo e desaparecendo dentre seus tecidos rasgados.

Roberto inutilmente esvazia o primeiro pente de balas na cabra prenha. Ela continua a avançar e, agora, os filhotes escapam pelos orifícios abertos e se arrastam junto com suas placentas podres sobre o solo poeirento.

Mais tiros, outro pente. Mais tiros. As balas se acabam. O rebanho morto cerca a porta da frente da casa, pára de súbito e começa a balir sincronizadamente. Roberto fica apavorado, fecha a porta e corre para dentro da casa.

Mas, ao chegar à sala, a visão que ele tem faz finalmente seus intestinos desistirem. Um fluxo quente e fétido de fezes moles desce por suas pernas. Lágrimas afloram de seus olhos e sua sanidade parece que o abandonará.

Flutuando, no meio da escuridão, envolta por um halo de fogo, a cabeça de Duque o olha fixamente. Os olhos amarelos e sem emoção e o pescoço com o pêlo empapado de sangue dão-lhe um aspecto medonho.

Roberto não consegue se mexer. Lá fora os balidos cantados voltaram a se repetir. É como se elas cantassem para o seu líder e clamassem por justiça.

A cabeça flutua e se aproxima. Coloca-se bem diante do rosto de Roberto e abre a boca.

O que ocorre a seguir é inexplicável. A boca se expande, cresce e dilata. Domina todo o campo de visão. O mundo some ao redor de Roberto. Só há a escuridão diante de si. Repentinamente, ele cai no vazio escuro, debatendo-se sem entender. Escuta somente em sua mente uma voz não humana: “Existem infinitos mundos e realidades.”

Ele continua caindo e, finalmente, perde os sentidos.

***

Roberto afinal acorda. Ele está nu sobre o chão imundo coberto por suas próprias fezes e as de outrem. Há outras pessoas nuas ao redor também. Tenta tirar alguns carrapatos agarrados à sua pele mas, suas mãos estão com os dedos selados como cascos.

Ao redor de seu pescoço, há uma armação de madeira e uma de suas orelhas está inflamada e dolorida com um brinco de plástico numerado pendurado.

Ele tenta se levantar mas não consegue. Só consegue andar de gatinhas dentro do perímetro cercado até as manjedouras de água barrenta e lavagem.

O que lhe restou de sanidade por fim é destruído quando Roberto vê Duque. Ele caminha sobre as pernas traseiras e é alto como um homem. Está vestido com roupas e tem algo na mão.

“Meu Deus! Um alicate de castração.”

Ao tentar gritar, Roberto consegue somente balir e todos os outros dentro do cercado assim o fazem também.

Quem sabe se Duque era, afinal, um sábio ou um pregador que consolava os seus fiéis com a sua visão particular do Paraíso?

Apesar de sentir a justiça irrevogável sob a forma de metal frio junto a seus testículos, tudo o que Roberto pode fazer é balir...

"Dorzer"





A dor é apenas uma variação mais intensa e obscura do prazer. E, prazer é infligir a quem se ama a certeza da agonia mais intensa.

“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.

Mordi a língua e senti as pancadas do gato-de-nove-caudas em minhas costas. Mais um pouco do chicote e eu conseguiria. Mais forte e eu chegaria lá. Quase, quase...Mas foi a mesma decepção de sempre. Não foi forte o bastante. A dor não me excitou o necessário. Nem puxando com violência os piercings dos meus mamilos, nem tendo os testículos comprimidos pela cinta de couro.

Me vesti irritado. Paguei o cachê não merecido àquela que se dizia uma dominatrix e fui embora, para jamais voltar.

***

Sei bem como tudo começou. Algo da minha infância. Quando minha mãe me dava surras homéricas para compensar seus recalques de puritana falsa. Sovas de cinto, de cabo de vassoura, com as costas das mãos...

Com o passar dos anos, eu já fazia as bobagens de propósito. Tudo o que eu podia para torná-la mais furiosa e violenta. Para ser surrado enquanto, secretamente, tinha meu pinto duro dentro dos shorts.

Porém, depois de parar no hospital por umas duas vezes, a justiça a separou de mim. Fiquei então sob os cuidados de minha avó. Uma mulher impossivelmente paciente. E só vi minha mãe mais umas duas vezes antes dela morrer. E eu nunca pude explicá-la sobre o quanto eu a amava. O quanto de prazer ela me proveu. Sobre as quantas vezes que me masturbei depois, mentalizando o seu pulso forte e a sua franca vontade de maltratar.

Cresci e tentei esquecer os prazeres da dor. Me anestesiei com um emprego bom, uma boa esposa. Filhos, carro, apartamento e cachorro. Viagens a hotéis-fazenda, à casa de praia. Sexo nos sábados. Sempre limpo, sem emoção, sem prazer. Sem posições de Kama Sutra, sem “dress codes”, sem “facials” ou “glory holes”. Sem graça.

***

As coisas mudaram quando conheci Cibele no escritório. Ela era uma temporária que veio cobrir a licença-maternidade de uma recepcionista.

Cruzei o olhar com ela naquela manhã . Os seus olhos verdes e meio rasgados e o cabelo desfiado e colorido me encantaram. Sua voz e seu jeito malicioso de passar a língua nos lábios eram convites velados para o prazer.

Resisti por um mês. Sexo era algo tão sem graça para mim que uma aventura extra-conjugal só significaria dor-de-cabeça. Mas, numa sexta-feira em que trabalhamos até mais tarde, bebemos alguns chopps depois do trabalho e, quando dei por mim, estava no apartamento dela. Deitado em sua cama enquanto a louca me rasgava as roupas.

Mas a fúria com que Cibele se entregava era algo completamente novo para mim. Transar com ela significava acordar com a língua esfolada, as costas lanhadas e o pênis mordido.

Lembro-me como foi divertido quando fui à uma reunião no dia seguinte e tinha uma mancha de sangue seco atrás da orelha. Inventei uma desculpa boba, mas me lembrava muito bem de seus dentes nada gentis.

A brincadeira começou a esquentar quando Cibele comprou alguns brinquedos. Chicotes, roupas tachadas, máscaras e palmatórias. Bastava uma boa sessão de “spanking” e eu, com as nádegas em brasa, copulava por horas seguidas.

O problema começou quando passei a não me contentar com pouco. Quando eu precisava cada vez de mais para conseguir ter prazer. Acho que a assustei quando comprei alguns metros de arame-farpado para fazer um açoite ou quando sugeri que ela me pisasse com uns novos sapatos cheios de travas metálicas que lhe presenteei.

Cibele sumiu de minha vida como apareceu: de repente. A recepcionista voltou da licença e Cibele não me ligou mais ou me retornou meus telefonemas. Após duas semanas sem vê-la, fui ao seu apartamento e ela havia se mudado. Não consegui encontrá-la mais.

***

Minha vida virou um inferno então. Não conseguia ter relações com minha mulher ou com qualquer outra mulher. Minha necessidade pela dor e pela humilhação mais abjeta não me permitia sentir absolutamente nada nestes jogos sexuais comuns.

Saí então de férias e viajei a São Paulo atrás dos clubes que prometiam muito. Porém, logo descobri que, não importando a natureza do clube, não havia dor real.

Eu me perguntava: que graça havia em ser possuído num “sling” que tinha algo como uma buzina para avisar que a dor estava intensa demais? Eu precisava ser queimado, cortado, tratado como o animal podre que eu era. Como eu bem sabia que merecia ser tratado. Só isso.

Depois de quase uma semana buscando prazer sem sucesso, esbarrei num anúncio obscuro num jornal: “Sara, A Dominatrix – Seu prazer ou seu dinheiro de volta.” Fiquei curioso e liguei ainda naquela noite. Ela não podia me atender, disse-me que tinha a agenda cheia até três dias depois. Que eu deixasse o telefone e ela me retornaria se houvesse uma desistência. E que uma sessão de uma hora ficaria por quinhentos reais.

Realmente aquilo me impressionou. Ninguém cobrava tão caro, todos sempre estavam mais do que disponíveis e solícitos. Agendei para três dias depois e ela não me ligou antes. Aparentemente, não houve desistências.

Cheguei no apartamento bonito, arrumado e amplo. Sara veio receber-e e estrevistar-me primeiro. Queria saber o que eu realmente queria e quais eram minhas preferências. Não fez menção de espanto sobre minha necessidade extrema de dor.

Levou-me à uma sala grande, despi-me e fui algemado pelos pés e braços em uma mesa. Logo ela trouxe um carrinho de instrumentos completamente original. Queimou-me com velas, perfurou meu corpo com instrumentos pontiagudos e espancou-me brutalmente com uma espécie de raquete pesada de madeira. Experimentei outra vez o quase esquecido prazer.

Terminada a sessão, levantei exausto e satisfeito e paguei além do combinado. Cada novo dia era uma prova dura para o profissionalismo e a criatividade de Sara. Entretanto, após meras nove sessões, eu já pouco sentia prazer. Não conseguia mais gozar.

Numa outra sessão, quase desesperada, Sara quebrou-me uma costela e deixou-me com um dente mole ao me atingir com um soco inglês. Eu bem que cheguei perto mais não consegui. Decepcionada, ela fez questão de não receber.

Mas, numa tarde da semana seguinte, resolvi dar mais uma chance àquela magnífica e única artista. E ela não deixou de surpreender. Esticou-me até que minhas articulações quase romperam, cortou-me com navalhas deixadas em baldes de gelo, queimou-me com ferro em brasa, espancou-me tão violentamente que eu tive que me esforçar para me manter coinsciente.

Deitou-me nu com o abdômen voltado para cima e algemado firmemente pelos pés e mãos. Trouxe algo como uma lâmina curva posicionada na ponta de um cabo longo de madeira.

Golpeava-me e eu pedia mais. Sentia o orgasmo se aproximando enquanto eu era depreciado e destituído de todas as prerrogativas dos remotamente humanos. Enquanto os cortes profundos me redimiam de toda a minha culpa.

“Mais.” – pedi. “Com mais força, porra!” – gritei.

Senti o prazer se aproximando quando vi Sara, absolutamente suada e descontrolada, erger um machado brilhante, lindo e gótico no ar. Atingiu-me o pescoço tão pesadamente que só pude ver tudo girando e mudando de ângulo e... Finalmente, olhando para cima a partir do chão, pude observar, satisfeito, o meu corpo sobre a mesa distante e meu pênis ereto. Por fim, esguichando alto e abundantemente com o maior dos orgasmos.

sábado, 13 de junho de 2009

Eu sou a noite

A nave se move em uma espiral descendente rumo ao buraco negro supermassivo no centro da galáxia. Sua tripulação é composta de somente uma pessoa e um equipamento experimental que permite gravar e transmitir suas impressões ao universo exterior. Há muitas teorias sobre o que pode existir lá dentro e além dele. Todas, no entanto, demonstraram-se falsas.
“Iniciando o procedimento de aproximação. A velocidade da nave está crescendo em função da imensa força gravitacional. Os computadores calculam e corrigem a rota em frações de milissegundos. Sem estas correções, já teríamos sido destroçados por energias completamente fora de escala.
O buraco negro tem uma massa calculada de cerca de um bilhão de sóis. Porém, é tão compacto que ocupa uma área correspondente à de uma estrela comum. Na distância em que me encontro ele já domina toda a paisagem. Não é simplesmente negro, é absolutamente escuro. Absorve e engole toda energia e toda luz. As câmeras traseiras da nave registram ainda o universo como o conhecemos. Cheio de luz, beleza, cor e calor. Diante da proa da nave, só a ausência, a falta, o vácuo. A velocidade cresce assustadoramente, a nave treme, os computadores ajustam sua trajetória milhares de vezes mais e desaparecemos.
A noite cai sobre mim. Não uma noite qualquer, com estrelas, com lua, com luzes da cidade para contemplar. Há só o mais profundo e absurdamente escuro negrume por todos os lados. Estou sozinho no meu próprio universo compacto.
A trajetória até o horizonte de eventos, o ponto que esconde a singularidade é traçada. A nave agora se move com desenvoltura. Mais algumas horas e cumprirei a missão.
Há algo de estranho, porém. Eu sinto.
Eu olho todas as câmeras e só há o negrume aveludado e imaculado em todas as imagens. Há apenas a minha nave minúscula navegando como um vagalume sozinho na maior das noites, mas...
As luzes da nave estão diminuindo, lentamente. Este efeito jamais foi previsto. Não faz sentido. Teoricamente é impossível. Para meu pavor, eu entendo que vou mergulhar na mais completa escuridão.
E esta escuridão me engolfa de súbito, sem aviso. Não posso ver minhas próprias mãos ou coisa alguma ao redor. Continuo sentado na cadeira sem saber lidar com esta minha cegueira repentina.
Algum tempo mais se passa e já não sinto mais nada. A cadeira, o piso sob meus pés, o painel à minha frente ou meu próprio corpo.
Fui absorvido pela noite eterna. Sou noite, sou escuridão. Não sou mais."

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Hocus Pocus

Em sua busca pelo truque perfeito, o Grande Dionisius correu o mundo inteiro. Na Turquia conheceu os mistérios dos truques de levitação, dos truques com espadas e de desaparecimento. Viajou ao México e conheceu outros novos com cartas, cartolas, fumaça e espelhos. No Japão aprendeu inúmeros outros sobre arcos metálicos, transmutação e sobre como parecer que voava com o auxílio de cabos quase invisíveis.

Seu conhecimento de truques tornou-se enciclopédico e sua fama logo lhe trouxe riqueza e reconhecimento. O Grande Dionisius era convidado para participar dos principais eventos e shows e seu cachê tornara-se estratosférico.

Apesar disto tudo, Dionisius era infeliz. Frustava-se com cada novo truque que aprendia, cada novo engodo. Mais uma enganação, mais uma mentira! Estava farto de truques. Em seu íntimo, ardia o mais profundo desejo de conhecer a magia verdadeira. De ser capaz de fazer o impossível, o ilógico, o que incendiaria a mente de homens e mulheres.

Desanimado, cancelou seus muitos shows e saiu, outra vez, em jornada pelo mundo para aprender mais.

***

E, naquela manhã calorenta e abafada, ele caminhava sem rumo pelo interior da Índia quando algo o surpreendeu. Um homem velho, quase um faquir de tão magro e miserável, fazia truques na rua por esmolas. De uma cesta vazia de vime, retirou uma cobra. Um gesto, fechou a cesta e exibiu-a vazia outra vez. Retirou um coelho. Exibiu-a vazia e retirou, quase indefinidamente, pombas, flores, corujas, lenços coloridos, tochas acesas e espadas que não caberiam no cesto! Não havia portinholas no chão. Era só a calçada suja. Dionisius já estava impressionado por tudo que havia visto quando o homem simplesmente levitou no ar. Dionisius já havia executado inúmeros truques de levitação, mas é preciso um palco escuro, um fundo que esconda os fios, espelhos, fumaça, algo! Mas não havia nada e, aquele homem, praticamente um mendigo sujo, flutuava no meio do ar como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Deu uma esmola mais que generosa e tentou conversar com o homem. Mas este não falava uma palavra de inglês e somente conversava no dialeto incompreensível da região. Frustado, Dionisius procurou nas lojas alguém que falasse inglês e voltou, com o intérprete pela mão, antes ainda do mendigo ir embora.

Através do seu intérprete, convidou o pobre homem para almoçar e ele aceitou
imediatamente.

_Meu nome é Dionisius. Como o senhor se chama?_Kabir. – respondeu o homem com a boca cheia.
_Senhor Kabir, eu sou um ilusionista. Quantas rúpias o senhor quer para me ensinar seus truques?
_Não faço truques. Faço mágica. E não posso ensinar a ninguém.
_Deixe de brincadeiras, Kabir. Eu lhe ofereço cinco milhões de rúpias. É o suficiente para o senhor comprar uma casa, um carro, ter uma vida confortável.
_Eu agradeço, Dionisius. – disse ele limpando a boca com a manga da camisa – Mas não posso aceitar! Não preciso de casa, carro ou nada assim. Eu tenho a mágica e ela me basta. Adeus e obrigado pela refeição!

Cheio de ódio e, sem ter como argumentar com o velho, Dionisius passou a assistir às apresentações de Kabir todos os dias nas calçadas. Fascinado por truques inexplicáveis feitos em plena luz do dia por apenas algumas moedas jogadas no chão sujo.

Após quatro dias e, sem conseguir convencer Kabir a aceitar nem uma fortuna que praticamente arruinaria suas finanças, Dionisius resolveu contratar gangsters locais.Os homens seguiram Kabir furtivamente após a sua apresentação diária nas calçadas e descobriram onde ele morava. Por alguns dias o observaram muito discretamente e viram quando ele retirou um livro grande e pesado de um esconderijo no chão do casebre miserável onde morava. Viram quando lia o livro e recitava palavras incompreensíveis realizando milagres sentado no chão do barraco. Flores surgiram no ar, cores dançavam um baile mágico nas paredes, criaturas fantásticas feitas de pura luz caminhavam sobre seus ombros e cabelos. O velho estava estudando o livro. Praticando novas mágicas ou algo assim.

***

Dias depois de volta à sua casa, Dionisius sorria satisfeito com o livro em mãos. Por uma ninharia encomendara o roubo do livro e a morte do velho teimoso. Agora era só conseguir algum linguista para traduzir o livro e começar a estudá-lo a fundo.

Os meses se passaram tão rapidamente que Dionisius não notara. Com enorme esforço e determinação quase fanática, conseguira realizar as primeiras mágicas reais do início do livro. Era agora capaz de fazer animais aparecerem e desaparecem em pleno ar. O tamanho não era importante. Mentalizava e poderia fazer aparecer um elefante se quisesse. Um mamute ou um centauro, se assim o desejasse. Naturalmente, num palco, não poderia fazer nada assim tão radical. Mas a descoberta penosa de cada nova mágica o fascinava e o surpreendia.

Mágicas de vôo e levitação, transformação, adivinhação. Cada novo capítulo revelava algo novo e mais avançado que o anterior. Depois de finalmente decifrar o último capítulo, Dionisius notou um espessamento estranho na contracapa. Com o auxílio de uma faca pequena, delicadamente, separou mais um capítulo escondido. Ficou impressionado porque este último capítulo estava impresso, não em papel, mas em pele. A impressão parecia tatuada na pele seca e envelhecida. Poros e pêlos podiam ser vistos no "papel".

Já era tarde e, de qualquer modo, teria que digitalizar e enviar aos tradutores. Resolveu dormir e teve uma noite de sonhos tranquilos.

***
Meses depois em um estádio de futebol lotado, Dionisius se apresenta no palco gigantesco no centro do gramado. As pessoas estão extasiadas com tigres que se transformam em elefantes que desaparecem no ar. Quando ele se eleva e voa ao redor do palco sem fios aparentes o publico delira e aplaude de pé. Chamas saem de seus dedos, serpentes de luzes de todas as cores correm pelos céus assustando e encantando o público.

Por demais confiante, Dionisius resolve experimentar algo que nunca tentou. Concentra-se e invoca um feitiço do último capítulo do livro. O que de miraculoso e maravilhoso poderia acontecer?

Um rugido esganiçado e horrendo reverbera no estádio. Em pleno ar, abre-se um portal flamejante que cega com sua luz branca e quente. Através dele, um exército de criaturas fantásticas adentra nosso mundo. Uma colossal nuvem de insetos carnívoros alça aos céus, criaturas com tentáculos e centenas de olhos espalham-se pelo gramado, demônios disformes, dragões feitos de puro fogo, serpentes negras feitas de sombras. Há pânico e o público tenta escapar sem êxito. Animais feitos de espículas venenosas empalam, aranhas de gelo e cristal congelam, cães descarnados feitos de ódio e malícia despedaçam. Um vagalhão pútrido e vivo afoga e derrete como ácido dissolvendo os corpos. A mágica em estado bruto se manifesta e espalha toda sua loucura e brutalidade.

Segundos antes de ser consumido, Dionisius, consciente de ter trazido o apocalipse ao mundo real, finalmente entende que o livro era apenas um portal discreto e controlado. Apenas uma janela para outro universo selvagem e irracional de delírio e destruição. Que era uma ferramenta correta nas mãos de um artesão competente e sábio. E que ele teria a eternidade para lamentar sua estupidez.

O Ifrit



O vento sopra derrubando as tâmaras das palmeiras. O ar rescende à especiarias e a esterco de camelos. As tendas estão armadas ao redor do lago turvo e salobro e a fogueira está acesa aquecendo a noite fria do deserto.

_Em nome de Alá, O Clemente e O Misericordioso! – exclama o grisalho beduíno contador de histórias.

_Conta-nos outra história sobre o basilisco, Abdalatif. Ou sobre a princesa e o vizir. – pede um dos pastores que acompanha a caravana.

_Não, jovem. Nada de histórias de ninar esta noite. Pois, o vento que hoje sopra, sopra amargo e cheio de maus presságios. Os animais estão inquietos e a lua brilha vermelha... A tempestade espera no horizonte. É preciso contar algo sobre o mal ancestral que conspira. É preciso alertar sobre os "Ifrits".

O rapaz cospe na areia ante a menção da palavra e franze o cenho com uma expressão de medo.

_Não blasfema, velho! O deserto não é lugar de pronunciar o nome dos malditos!

_Tem paciência. Escuta e aprende. Era uma vez...

“Há cinquenta anos atrás, num vilarejo cujo nome pouparei da vergonha, havia um pequeno abrigo de crianças. Este ficava em um prédio mal conservado e mantido penosamente por algumas almas caridosas. Naquela manhã abafada o sol ergueu-se vermelho como um olho colérico e o ar tremulava de calor. As nuvens de insetos zuniam e o leite das vacas havia talhado.

A velha senhora cega, enorme e alta como um homem, debulhava grãos sentada na cozinha quando Karima, a moça que cuidava das crianças, entrou correndo após abrir a porta da frente.

_Senhora Nuha! Alguém deixou um bebê junto à porta esta noite! Oh, pobrezinho! Está todo picado de formigas e... Oh, Alá! – diz ela ao desenrolar o trapo imundo que envolvia o bebê.

_O que foi, Karima?

_O bebê é ruivo!

A criança começou a chorar. E o som do seu choro era quase um uivo de dor. A velha pediu para examinar o menino com as mãos.

_Alá! Ele ainda tem o cordão no umbigo! Quem seria tão cruel a ponto de abandonar um recém-nascido aos chacais?

Ela continuou a examinar o corpo da criança e reparou que sua perna esquerda era ligeiramente mais curta que a outra e que havia um sinal de nascença, grande e piloso, sobre uma das nádegas.

_Livra-te desta criança, Karima! Ela tem a marca! Alá Al-Wali!

_É só uma criança! Não começa com tuas superstições, Nuha! Dá-me o menino que vou banhá-lo e tirar o cordão. O pobrezinho deve estar faminto também.

_Tu és boa demais e tola! Isto é uma cria do deserto, um "djinn". Eu lavo minhas mãos, criança. Tira esta abominação de perto de mim!

***
Passaram-se sete anos e o menino, batizado Ghalib, era motivo de chacota por coxear, por ainda urinar na cama e pela cor incomum de seu cabelo em meio a tantas cabeças negras. Passava quase todos os seus dias brincando sozinho. Queimando coisas, fascinado pelo fogo e pelos pequenos animais que conseguia capturar.

Naquele dia convenceu sua única amiga a subir consigo ao sótão. Lá chegando, exibiu sua coleção. Havia um pombo seco com o ventre aberto e com as asas alfinetadas na parede de madeira. Havia lagartos e insetos igualmente espetados. Um rato ainda vivo preso por um cravo tosco e enferrujado guinchava baixo sem forças.

_Isto é horrível, Ghalib! Tu estás louco? Quando falastes que me mostraria tua coleção pensei em qualquer outra coisa... Karima vai ficar muito irritada quando souber disto!

Ele a olhou com seus olhos sem emoção. Quem reparasse em seu olhar perdido pensaria que sequer ele estaria ali.

_Tu não contarás nada! É o nosso segredo! – falou Ghalib com sua voz monocórdia.

Ante a insistência da menina, Ghalib pegou um pedaço grande de telha que estava no chão e a golpeou com força quando esta deu-lhe as costas. Ergeu o corpo desfalecido, colocou-a contra a parede de madeira, empurrou um móvel velho para apoiar e voltou, quase feliz, com um cravo comprido que havia achado em meio aos escombros onde costumava brincar. Usando uma pedra, posicionou o cravo contra a garganta de sua amiga e bateu com toda a sua força. O cravo entrou até o osso e parou. A menina acordou de imediato com a dor. Porém era impossível gritar. Com mais três pancadas bem dadas, atravessou o osso, alcançou a madeira e conseguiu acrescentá-la à sua coleção.

À noite levantou-se, subiu ao sotão e desceu o corpo para queimá-lo e apreciar as fagulhas que dançavam na escuridão.

Com o passar de outros anos, muitas outras crianças desapareceram sem deixar pistas . Das cinco crianças originais, restaram somente Ghalib e o neto de Nuha, a senhora cega. No abrigo todos culpavam os "djinni" e proibiam as crianças de brincarem fora da propriedade.

Agora com onze anos, Ghalib convidou seu único companheiro para brincar na cozinha. Salima havia saído para comprar comida e Nuha, agora muito velha, dormia a sesta em seu quarto.
Brincaram com as panelas e Ghalib pegou as muitas facas suspensas na parede em ganchos.

Segurou uma faca de destrinchar e sorriu. Quando seu amigo distraiu-se, agarrou-o pelas costas com uma mão segurando a testa e encostou a faca em sua garganta .

_Pára com isto, Ghalib! Que brincadeira idiota! Larga-me!

Ghalib, com o olhar perdido, cortou de leve a pele do pescoço. Um filete fino de sangue correu, colorindo a tez queimada. Manteve o menino contido e preparou-se para cortar mais enquanto este gritava por socorro.

Neste momento, sem ter feito ruído algum, a velha senhora cega, ainda forte como poucas mulheres, ergeu a bengala ao alto e desferiu um fortíssimo golpe na cabeça de Ghalib.
_Afasta-te de meu neto, criatura imunda! Maldito foi o dia em que aceitei acolher-te em nosso meio! Morra, filho de Iblis!

Ergeu outra vez a bengala e desferiu outro golpe que apenas atravessou o ar desta vez. Guinchando como um cão ferido, com a mão elevada à cabeça que sangrava, Ghalib coxeando correu para fora. Saiu da propriedade e desapareceu no deserto.

Por muitos anos ainda, falavam de avistamentos de um homem de pêlos vermelhos, caminhando sobre duas e quatro pernas, com a pele lacerada, queimada, imundo. Uivando nas noites do deserto. Acompanhado por seus amigos os chacais.”

_ Abdalatif! Não vou conseguir dormir esta noite! Como saber se esta coisa ainda espreita por aí? – exclamou o pastor.

_Meu jovem, são apenas histórias. Apenas lendas. O importante é a lição. É saber que o mal não descansa... Estou cansado e meus velhos ossos doem. Boa noite a todos! Que Alá vos acompanhe durante os vossos sonhos!

O velho dirigiu-se à sua tenda pensativo. Levou a mão ao pescoço e alisou a cicatriz fina e pegou uma chave que levava em um cordão. Em sua tenda, abriu um baú com a chave e retirou um pacote envolvo em tecido negro. Abriu e admirou com alívio a cabeça embalsamada de um homem de cabelos vermelhos. Depois de tantos anos, finalmente conseguira encontrá-lo. Se houvessem dado ouvidos à sua avó, quantas mortes poderiam ter sido evitadas... Afinal, as más tendências são mostradas já na infância. Um lobo jamais seria bem-vindo num curral de ovelhas...

Inspirado na Fábula : O cego e o filhote de lobo - Esopo

sábado, 6 de junho de 2009

Futuro do pretérito imperfeito

Se me fosse possível voltar no tempo, convenceria a mim mesmo a não fazer o que fiz.

Teriam porém que inventar. Novos, novos tempos verbais. Como expressar o que eu faria e fiz mas que jamais faria por minha própria intervenção?

Matarei-ia? Esfaquearei-ia? Chorarei-ia?
Matei-ia? Esfaqueei-ia? Chorei-ia?
Perdoaria-ei! Beijar-te-ia-ei!
Perdoei-arei! Beijei-te-aria!

Voltaria ao meu próprio tempo e te veria ao meu lado enfim.

Não suicidar-me-ei-ia e ou arrepender-me-ei-ia!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pequenos Absurdos

Luiz Carlos e Carlos Luiz são irmãos gêmeos. Luiz tem um caso com a esposa de Carlos. Os irmãos vão ao parque de diversões e entram no Palácio dos Espelhos. Carlos Luiz tem uma faca e investe contra seu irmão. Com horror observa seu próprio braço enterrando a lâmina em seu peito. Nunca soube o que o atingiu. Tampouco eu ou você.

***

Ao se afastar demais da praia caribenha, João começa a se afogar. Mergulha pela terceira vez engolindo água e vê os cardumes coloridos e os corais ondulando banhados pelo sol tropical no mar cor de esmeralda. Por não ter chances de se salvar, nada resoluto ao fundo. "Se tenho que morrer... Que seja de encantamento..."

***

Descendo em velocidade estonteante devido ao pára-quedas rasgado, Sandra pensa em Einstein. Se ela cai na Terra, a Terra também cai em Sandra. O que mata não é a queda. É a parada súb...


***

Voltando para casa pela viela escura, Sérgio viu o demônio à espreita na esquina. "Não acredito em demônios", pensou. Infelizmente, o demônio acreditava em Sérgios.

***

Quando as chamas engolfaram seu corpo nu, o glutão, em seu último pensamento, apreciou o seu cheiro bom de rosbife e morreu com a boca cheia de saliva.

***

O jovem padre morreu e foi ao Inferno. Mas considerou tudo uma benção. Que maior desafio poderia existir? Ergueu então um altar e celebrou a primeira missa pelo perdão dos condenados.