O vento sopra derrubando as tâmaras das palmeiras. O ar rescende à especiarias e a esterco de camelos. As tendas estão armadas ao redor do lago turvo e salobro e a fogueira está acesa aquecendo a noite fria do deserto.
_Em nome de Alá, O Clemente e O Misericordioso! – exclama o grisalho beduíno contador de histórias.
_Conta-nos outra história sobre o basilisco, Abdalatif. Ou sobre a princesa e o vizir. – pede um dos pastores que acompanha a caravana.
_Não, jovem. Nada de histórias de ninar esta noite. Pois, o vento que hoje sopra, sopra amargo e cheio de maus presságios. Os animais estão inquietos e a lua brilha vermelha... A tempestade espera no horizonte. É preciso contar algo sobre o mal ancestral que conspira. É preciso alertar sobre os "Ifrits".
O rapaz cospe na areia ante a menção da palavra e franze o cenho com uma expressão de medo.
_Não blasfema, velho! O deserto não é lugar de pronunciar o nome dos malditos!
_Tem paciência. Escuta e aprende. Era uma vez...
“Há cinquenta anos atrás, num vilarejo cujo nome pouparei da vergonha, havia um pequeno abrigo de crianças. Este ficava em um prédio mal conservado e mantido penosamente por algumas almas caridosas. Naquela manhã abafada o sol ergueu-se vermelho como um olho colérico e o ar tremulava de calor. As nuvens de insetos zuniam e o leite das vacas havia talhado.
A velha senhora cega, enorme e alta como um homem, debulhava grãos sentada na cozinha quando Karima, a moça que cuidava das crianças, entrou correndo após abrir a porta da frente.
_Senhora Nuha! Alguém deixou um bebê junto à porta esta noite! Oh, pobrezinho! Está todo picado de formigas e... Oh, Alá! – diz ela ao desenrolar o trapo imundo que envolvia o bebê.
_O que foi, Karima?
_O bebê é ruivo!
A criança começou a chorar. E o som do seu choro era quase um uivo de dor. A velha pediu para examinar o menino com as mãos.
_Alá! Ele ainda tem o cordão no umbigo! Quem seria tão cruel a ponto de abandonar um recém-nascido aos chacais?
Ela continuou a examinar o corpo da criança e reparou que sua perna esquerda era ligeiramente mais curta que a outra e que havia um sinal de nascença, grande e piloso, sobre uma das nádegas.
_Livra-te desta criança, Karima! Ela tem a marca! Alá Al-Wali!
_É só uma criança! Não começa com tuas superstições, Nuha! Dá-me o menino que vou banhá-lo e tirar o cordão. O pobrezinho deve estar faminto também.
_Tu és boa demais e tola! Isto é uma cria do deserto, um "djinn". Eu lavo minhas mãos, criança. Tira esta abominação de perto de mim!
***
Passaram-se sete anos e o menino, batizado Ghalib, era motivo de chacota por coxear, por ainda urinar na cama e pela cor incomum de seu cabelo em meio a tantas cabeças negras. Passava quase todos os seus dias brincando sozinho. Queimando coisas, fascinado pelo fogo e pelos pequenos animais que conseguia capturar.
Naquele dia convenceu sua única amiga a subir consigo ao sótão. Lá chegando, exibiu sua coleção. Havia um pombo seco com o ventre aberto e com as asas alfinetadas na parede de madeira. Havia lagartos e insetos igualmente espetados. Um rato ainda vivo preso por um cravo tosco e enferrujado guinchava baixo sem forças.
_Isto é horrível, Ghalib! Tu estás louco? Quando falastes que me mostraria tua coleção pensei em qualquer outra coisa... Karima vai ficar muito irritada quando souber disto!
Ele a olhou com seus olhos sem emoção. Quem reparasse em seu olhar perdido pensaria que sequer ele estaria ali.
_Tu não contarás nada! É o nosso segredo! – falou Ghalib com sua voz monocórdia.
Ante a insistência da menina, Ghalib pegou um pedaço grande de telha que estava no chão e a golpeou com força quando esta deu-lhe as costas. Ergeu o corpo desfalecido, colocou-a contra a parede de madeira, empurrou um móvel velho para apoiar e voltou, quase feliz, com um cravo comprido que havia achado em meio aos escombros onde costumava brincar. Usando uma pedra, posicionou o cravo contra a garganta de sua amiga e bateu com toda a sua força. O cravo entrou até o osso e parou. A menina acordou de imediato com a dor. Porém era impossível gritar. Com mais três pancadas bem dadas, atravessou o osso, alcançou a madeira e conseguiu acrescentá-la à sua coleção.
À noite levantou-se, subiu ao sotão e desceu o corpo para queimá-lo e apreciar as fagulhas que dançavam na escuridão.
Com o passar de outros anos, muitas outras crianças desapareceram sem deixar pistas . Das cinco crianças originais, restaram somente Ghalib e o neto de Nuha, a senhora cega. No abrigo todos culpavam os "djinni" e proibiam as crianças de brincarem fora da propriedade.
Agora com onze anos, Ghalib convidou seu único companheiro para brincar na cozinha. Salima havia saído para comprar comida e Nuha, agora muito velha, dormia a sesta em seu quarto.
Brincaram com as panelas e Ghalib pegou as muitas facas suspensas na parede em ganchos.
Segurou uma faca de destrinchar e sorriu. Quando seu amigo distraiu-se, agarrou-o pelas costas com uma mão segurando a testa e encostou a faca em sua garganta .
_Pára com isto, Ghalib! Que brincadeira idiota! Larga-me!
Ghalib, com o olhar perdido, cortou de leve a pele do pescoço. Um filete fino de sangue correu, colorindo a tez queimada. Manteve o menino contido e preparou-se para cortar mais enquanto este gritava por socorro.
Neste momento, sem ter feito ruído algum, a velha senhora cega, ainda forte como poucas mulheres, ergeu a bengala ao alto e desferiu um fortíssimo golpe na cabeça de Ghalib.
_Afasta-te de meu neto, criatura imunda! Maldito foi o dia em que aceitei acolher-te em nosso meio! Morra, filho de Iblis!
Ergeu outra vez a bengala e desferiu outro golpe que apenas atravessou o ar desta vez. Guinchando como um cão ferido, com a mão elevada à cabeça que sangrava, Ghalib coxeando correu para fora. Saiu da propriedade e desapareceu no deserto.
Por muitos anos ainda, falavam de avistamentos de um homem de pêlos vermelhos, caminhando sobre duas e quatro pernas, com a pele lacerada, queimada, imundo. Uivando nas noites do deserto. Acompanhado por seus amigos os chacais.”
_ Abdalatif! Não vou conseguir dormir esta noite! Como saber se esta coisa ainda espreita por aí? – exclamou o pastor.
_Meu jovem, são apenas histórias. Apenas lendas. O importante é a lição. É saber que o mal não descansa... Estou cansado e meus velhos ossos doem. Boa noite a todos! Que Alá vos acompanhe durante os vossos sonhos!
O velho dirigiu-se à sua tenda pensativo. Levou a mão ao pescoço e alisou a cicatriz fina e pegou uma chave que levava em um cordão. Em sua tenda, abriu um baú com a chave e retirou um pacote envolvo em tecido negro. Abriu e admirou com alívio a cabeça embalsamada de um homem de cabelos vermelhos. Depois de tantos anos, finalmente conseguira encontrá-lo. Se houvessem dado ouvidos à sua avó, quantas mortes poderiam ter sido evitadas... Afinal, as más tendências são mostradas já na infância. Um lobo jamais seria bem-vindo num curral de ovelhas...
Inspirado na Fábula : O cego e o filhote de lobo - Esopo