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terça-feira, 13 de março de 2012

A morte e a re-morte de Natasha Moskovskaya





Moscou.

Morrer deveria ser simples, sempre fantasiei que fosse assim. Você sabe, aquela velha, velha história... O coração pararia de bater, os pulmões inspirariam e expirariam pela derradeira vez, os olhos encerrariam seu expediente mais cedo – out for lunch, feito nos desenhos animados americanos - e então, todas minhas preocupações se dissolveriam; fumaça azul dum cigarro, galgando o ar, ondulando e desaparecendo elegantemente.

Não entendi exatamente o porquê, ou o que raios eu fiz de errado, pois certamente eu não soube morrer direito.

Lembrava-me nebulosamente que havia tomado um porre homérico numa festinha a dois em meu apartamento, junto com o Agente Bóris Kurchatov, na noite anterior ao ocorrido. Hã, homérico não seria uma boa palavra, visto que embora Bóris fosse enorme e fofo como um urso polar, bebia feito um garotinho de cinco anos em convalescência de hepatite. Eu, por outro lado, como sempre, conseguira encharcar-me muito mais daqueles eflúvios diabólicos, armazenados nas famosas garrafinhas de rótulo verde de vodca Moskovskaya, do que meu colega de trabalho. Corrijo-me então: tomei um porre absurdamente mulhérico. Quatro ou cinco ampolinhas de meio litro, no mínimo, ou o dobro, se minha vista fosse confiável àquela altura.

No entanto, ao invés de costumeiramente acordar, deitada sobre o tapete peludo da sala, com a boca seca e a cabeça girando e latejando, nua e sob cento e vinte quilos boriskurchatóvicos, despertei num caixão. Lá estava eu: toda penteada, maquiada, com um vestido que eu odiava por me deixar gorda, coroada de flores brancas. O querido Agente Bóris chorava como um bebê, molhando meus ombros com lágrimas e muco, sendo consolado por minha mãe, alguns vizinhos e desconhecidos.

— Deve ter sido vodca falsificada! Daquelas feitas em banheiras e cheias de desinfetante... Eu devia ter desconfiado do preço tão barato! – Lamentava o pobre.

Momento de devaneio escapista: lembrei-me, num rápido flash-back, que em minha emocionante carreira como agente nível VII na KGB, eu já enfrentara e saíra de inúmeras situações surrealmente difíceis. No Brasil, em Salvador, escapara certa vez quase ilesa dum porre de algumas quadradas garrafas de vodca combinado a um prato local muito apimentado – tenho pesadelos ainda hoje com aquele ensopado de sangue e miúdos de porco – isso tudo, conjugado a uma emboscada de cinquenta exímios lutadores de capoeira e vinte arretados pais de santo, todos envolvidos numa conspiração que eu havia desbaratado; liderada pelo FBI, Vaticano e a Associação das Rendeiras de Bilros do Ceará. Em outra ocasião, escapara em Washington D.C., quando minha identidade de agente infiltrada foi revelada em pleno Salão Oval. Usei o presidente como escudo e tinha somente duas balas no pente da pistola. Meus colegas costumavam chamar-me de Houdini de Saias ou Kamikaze do Kremlin. Tinha certeza que novamente enganaria o destino.

Pois bem, de volta... Tive o ímpeto de me levantar e falar: “Ei, pessoal, não morri! Putin que pariu! Vamos parar com essa palhaçada! Alguém tem um comprimido pra dor de cabeça e uns três litros de água gelada?”.

Porém, em vão tentei me mexer e não consegui, tentei soprar o tanto de algodão enfiado em minhas narinas, também sem sucesso.

Uma gorducha mosca verde-metálico driblou a barreira do véu de gaze sobre minha cabeça, posou no meu rosto e caminhou faceira até meu olho direito, que estava entreaberto. Aflita, não logrei sequer piscar, enquanto o inseto sapateava à vontade sobre meu globo; um Fred Astaire de asas.

Logo um sacerdote barbudo da Igreja Ortodoxa Russa surgiu muito circunspecto e disse algumas palavras bonitas. Bóris desmaiou depois de gritar “Martina! Martina! Não se vá...” quando a tampa do esquife foi aparafusada e meus amigos e parentes saíram em cortejo solene sob a neve que caía, até o cemitério do outro lado da rua.

Meu desespero crescia. Iam me enterrar viva! Que horror, que brega, que clichê! Que nem naqueles contos empoeirados do ianque Edgar Allan Poe... Como era o nome mesmo daquela doença? Catalepsia? Quem foi o médico incompetente que me examinou?! A KGB não vai deixar isso barato!

Amparado por cintas coloridas de lona, meu caixão balançou no ar, tombou meio de lado e desceu, até o fundo da cova. Através da estreita janela de vidro sobre meu rosto, vi flores, sal, cal e terra sendo atirados de cima, nesta ordem exata. “Do pó ao pó”, percebi a voz grave do sacerdote já meio abafada pela terra que não parava de cair.

Logo a escuridão opressiva não me permitia ver nada. Eu queria gritar, avisar àqueles tolos sobre a enorme asneira que estavam cometendo, entretanto, isso não foi possível.

Foi preciso que se passasse um dia inteiro, até que eu notasse que eu não sufocava porque, afinal, já não respirava desde que acordei no caixão. Que, na verdade, não houve mesmo engano algum...

Então morrer é isso?

***

(O trecho abaixo eu imaginei, pois, como vocês bem sabem, estava enterrada em problemas, exatamente sete palmos abaixo da superfície gélida do Cemitério Novodevichi.)

— Uriel! Uriel! Lordes Sidarta, Krishina, Helios, Jesus e Thor enfim enviaram notícias! Por enquanto, nem sombra do mestre Azrael! Maomé, Moisés, Iansã e Tupã continuam em suas buscas, mas talvez só apresentem seus relatórios em dois dias... O Velho continua incomunicável; pelo que soube, ainda está naquele pancongresso para divindades sêniores, a quinze universos daqui.

— Pelo amor do Velho! Você então quer dizer...

— Sim. Só temos agora pouco mais de vinte e quatro horas... Até que...

— Até que nada, Falafel! Até que nada! – Disse Uriel irritado, endireitando a auréola dourada e esticando suas formidáveis asas branco-acinzentadas, bastante depenadas pela estafa daqueles últimos dias. — Situações desesperadas pedem medidas desesperadas! Revirem tudo! Envie todos os anjos do nível três para cima: só quero o pessoal essencial aqui. Comunique também ao esquentadinho do Miguel pra segurar as pontas por enquanto, pois não precisamos de mais anjos caídos por desobediência ao Pai... Tenho um plano em mente, se é que isso poderia ser chamado de plano... Precisamos de ajuda profissional. E que o Velho me perdoe!

***

Sob Moscou.

Apesar de ter sido treinada para suportar todo tipo de tortura, eu chorava, ao menos por dentro, já que não produzia lágrimas ou movia um músculo sequer do rosto. Foi neste estado de desespero que senti algo subindo por minha barriga e reparei numa luz intensa, que por alguns instantes, me cegou.

— Não! Morrer não é isso, mortal! Por favor, desculpa-nos! Estamos com sérios problemas há seis dias. Tu não foste muito fortunada em desencarnar justo agora.

A voz ribombou dentro do meu caixão, como se um daqueles sistemas de som sofisticados de salas de cinema 3D houvesse sido instalado ali dentro, justo com as caixas de som coladas aos meus ouvidos.

Uma barata, que parecia feita de luz, escalara meu pescoço e me falava com aquela voz de trovão!

— Pela múmia de Lênin! Era o que me faltava! – Pensei. — Não me bastava morrer e ficar esquecida para apodrecer consciente no caixão. Tinha também que ficar louca!

— MORTAL! Tu não estás louca!

— Pelo amor de Deus, dá pra falar mais baixo?!

— Que coisa feia! Não usar o santo nome em vão é um dos mandamentos mais conhecidos... – Ela ralhou. —Bem, estamos a perder tempo precioso! Vim, em verdade, pedir tua ajuda de experta em missões inexequíveis. É mister que participes duma senda que..

— Dá pra usar língua de gente? Você fala feito um personagem de filme bíblico, dona barata de luz... Ai, ai, daqui a pouco devem vir os elefantes cor de rosa...

A barata pareceu perder toda a compostura, se é que baratas podem parecer cheias de empáfia, afinal.

— Muito bem! – Ela disse, sentando em meu queixo e cruzando as patinhas. — O negócio é o seguinte: meu nome é Uriel e já fui erroneamente conhecido como um dos anjos da morte. Há seis dias, nosso mestre, o todo-poderoso e verdadeiro serafim da morte, Azrael, desapareceu sem deixar pistas.

— Ha, ha, ha! – Eu gargalhei. — Pela alminha abençoada da minha babushka! Aquela vodca batizada era da boa mesmo!

— Não tenho tempo pra seu humor, Agente Martina Popovich! Se você concordar em me acompanhar, poderei recompensá-la, talvez com a salvação eterna de sua alma muito pecaminosa. Se, no entanto, se você não quiser, poderá esperar aqui pelo que vai acontecer. Só aviso uma coisa: aquela mosca que posou em seu olho não apenas sapateou em sua esclerótica, como plantou algo também. Em no máximo dois dias acho que você terá companhia não muito agradável por aqui. E então? Topa? Já é ou já era?!

***

Triagem.

— Martina, seja benvinda ao Setor de Triagem - Sub-região Terrestre – falou-me Uriel, quando chegamos a um lugar todo branco e brilhante feito um palácio de alabastro ou mármore muito polido. — Aqui recebemos todos os que o mestre Azrael traz e os conduzimos para seus destinos, conforme suas fés ou a ausência delas – ele comentou, apontando para inúmeras esteiras rolantes que cruzavam todo o espaço acima de nossas cabeças.

Maravilhada, olhei então o anjo, dos pés a cabeça. Ele era bonito como um modelo de catálogo de cuecas de luxo, parecia não ter mais de vinte anos. Vestia um manto marrom sobre uma espécie de toga branca e tinha cabelos longos, de um tom de louro escuro. Faria muito sucesso em qualquer boate em Moscou, claro, usando roupas bem menos cafonas.

— Budistas, Hindus e Kardecistas seguem para o Departamento de Reencarnação. Embora os primeiros possam reencarnar às vezes como bichos e os Kardecistas não, mas é lá dentro que a gente organiza tudo. Muito raramente encaminhamos alguém ao Nirvana, onde só há uma dúzia de gatos pingados. Hum, Católicos e Protestantes vão pro Céu ou Inferno e têm que passar por uma entrevista tensa com Miguel, que costuma atirar os condenados pessoalmente para dentro do Abismo. Neopentecostais às vezes chegam aqui pensando que já compraram uma mansão com vista para o Monte Sinai e ficam muito decepcionados pelos dízimos desperdiçados na Terra. Ah, ali ficava o Purgatório – ele apontou para uma sala com as portas pregadas com tábuas – foi fechado recentemente por um decreto papal que declarou sua não existência. Você não imagina o trabalho que deu encaminhar aquela gente toda, a choradeira de quem foi pro Inferno. Enfim... Mártires Islâmicos têm direito a setenta e duas virgens e seguem para a terra de leite e mel, que fica depois daquele bonito portal mourisco. Estamos sempre com problemas para obter tantas virgens – ele falou baixinho. — Por fim, os ateus são encaminhados para o Nada, um compartimento com uma porta bacana lá no fim do salão principal, que dá, bem, num grande vazio. Esses geralmente se sentem bem estúpidos ao chegar aqui, mas ainda assim, são teimosos como mulas e preferem ir para o Nada do que abrirem mão de sua não-fé.


— Hã, Uri, OK, OK, já entendi como funciona a coisa toda. Sem mais delongas: então o seu chefe, o tal Azrael deu talvez uma escapulida marota há seis dias ou tá pensando em pedir demissão, e ninguém que morra na Terra é encaminhado pro Setor de Triagem, é isso mesmo?

— Sim, exato. Pelo Velho! Que falta de respeito: não me chame de Uri, mortal! E essa coisa do mestre Azrael ter pedido demissão é tão Neil Gaiman. Isso é totalmente...

— Gato, não me interrompa. Mas, então, digo, vocês não têm uma droga de protocolo a seguir num caso desses? Que bagunça é essa? Parece até algum órgão público do estado Russo.

— Martina – ele falou, vermelho que nem tomate com urticária - é claro que temos um protocolo. O problema é justamente esse! O documento foi criado ainda no inicio dos tempos, antes de certos eventos muito graves que ocorreram então. Depois de sete dias, o anjo que herdará o Setor de Triagem será Samael, alguém que vocês humanos conhecem melhor pela alcunha de Lúcifer.

Putin que...

— Não pragueje aqui! E isso não é tudo. Miguel, o líder da Falange Celestial, o mega-arcanjo mais barra pesada de todas as esferas, o bíceps e o tríceps do Senhor, prometeu não permitir que seu maior inimigo possa passar a decidir quem vai para o Céu ou Inferno ou muito menos colher as almas dos mortais. No entanto, ir contra uma lei do Velho, ainda que injusta, obsoleta ou incorreta, é desobedecê-lo, simplesmente! O cabeça-dura corre o risco de causar uma nova guerra e cair junto com seus seguidores!

— Tá bom! Já deu pra eu notar que a treta é braba... Mas onde é que eu entro na coisa toda?

— Não é óbvio?! Se Lúcifer se beneficiaria do sumiço do mestre Azrael, ele seguramente está atrás disso tudo. Azrael pode estar então preso no Inferno e nós, os anjos que não caíram, não temos permissão de ir até lá investigar, sob o risco de sermos banidos para sempre. Compreendeu então o que queremos que você faça, Martina?

— Que eu desça até lá pra procurar seu big boss? Você não pode estar falando sério, Uri! Vão me virar ao avesso e devolver embrulhada para presente em cinquenta pacotinhos de tamanhos diversos!

— Tenha fé, humana. Não sou estúpido e também li os gibis do senhor Gaiman. A propósito, eu tenho quase certeza que ele tem espiões por aqui, um dia ele vai se ver conosco, ora se vai! Então, você ganhará uma marca como a que o Velho deu a Caim. Ninguém terá permissão de lhe fazer mal. Você também precisará de um cognome de alma, pois o conhecimento do nome real de humanos dá aos anjos o total controle de vossa vontade, sejam estes anjos caídos ou não.

Por alguns instantes pensei em algum nome que soasse bem. Na minha cabeça só surgiram ideias bizarras e bem pouco inspiradas. Até que me recordei da missão ao Brasil e senti um arrepio. Senti outro calafrio ao me lembrar do que causara minha morte: meu vício maldito em vodca.

— Natasha Wyborowa Moskovskaya. Este será meu nome na missão, já decidi.

— Muito bem, Natasha! Siga-me e você receberá treinamento e instruções especiais de nossos agentes angélicos Jeliel, Sitael, Haziel, Iezalel, Hariel, Falafel e Sarapatel. Ah, seja paciente com estes dois últimos, pois estão fazendo intercâmbio por aqui.

Ao escutar o nome do último anjo, senti-me repentinamente enjoada. Inspirei, concentrei-me e preparei-me então para descer ao abismo...

***

Inferno.

O som do bate-estaca não parava, nunca. Uma multidão imensa de gente nua e suada, ocupando todo o vale abaixo, até onde a vista alcançava, até as montanhas flamejantes, se requebrava loucamente ao som de sucessos mixados de Wando, Queen e Whitney Houston. “Oh, mama mia let me always love you, meu iaiá, meu ioiô...”. Definitivamente, Lúcifer era muito bom nesta coisa de torturar os condenados!

Mal coloquei os pés naquelas terras malditas, alguns demônios me notaram e vieram celeremente em minha direção, com seus tridentes incandescentes em punho.

— Ora, ora, como essa intrusa apareceu ali? Sem passar pelos portões? Vamos lá, irmãos! Ferro na boneca!

O primeiro que tentou espetar-me, um demônio atarracado e balofo, caiu fulminado e começou a queimar e derreter numa espessa poça de gordura, envolto em angelicais chamas azuis. Em poucos segundos, nem cinzas da criatura sobraram sobre aquele solo estéril. Seus três colegas entreolharam-se mais que assustados.

— Por Azazel, Belzebu, Asmodeus e Freddie Mercury! A fêmea humana tem a marca! Afastem-se dela; ela tem proteção daquele-cujo-nome-não-mais-falamos. Devemos escoltá-la sem demora até a presença de Estrela da Manhã.

Dito e feito, segui os demônios a quem de vez em quando eu fingia que iria tocar, e gargalhava da expressão de medo daqueles monstros.

Quase uma hora depois, cruzamos uma ponte em arco sobre um abismo de magma em cujas encostas pessoas assavam sem conseguirem jamais morrer. No outro extremo da ponte, um elegante palácio branco e prateado se destacava do restante das construções calcinadas e retorcidas ao redor.

— Segue agora sozinha, humana. O Portador da Luz já sabe de tua presença. Tu és infinitamente tola por estar aqui por livre vontade!

Música clássica tocava suave lá dentro. Lúcifer não abdicou de seus gostos do tempo em que foi anjo, pensei. Caminhei apavorada pelo que me pareceram horas, sempre seguindo a música, até encontrar uma sala onde um homem magro, pálido e muito alto tocava harpa. Seus cabelos longos eram da cor de cinzas assim como os olhos. As asas, enormes, eram de um tom tão escuro que quase era negro.

— Esta é “Ein feste Burg ist unser Gott”, de Bach. Uma de minhas preferidas. Sabia que é tocada em muitas igrejas da Terra? O título significa “Nosso Senhor é uma fortaleza poderosa”.

Ao terminar de traduzir, ele começou a rir, quase gargalhou, debochado, secando os olhos a seguir.

— Diga-nos o que veio fazer aqui, Natasha! – Ele ordenou, com uma voz diferente, que soava como mil agulhas de gelo ou o arranhar de unhas sobre um quadro-negro.

— Não direi nada que eu não queira – respondi, cruzando os braços.

Primeiro a expressão de Lúcifer foi de surpresa e ódio, seu rosto de anjo queimou e se retorceu monstruosamente. Depois, admirou-se, exibiu rápida compreensão e divertimento ao mesmo tempo.

— Muito ardiloso! – Ele bateu palmas. — Ora, trocaram seu nome! Não somente em papéis, mas o nome real, aquele escrito na carne e na alma. Sem saber o nome verdadeiro não podemos comandá-la. Ah, que divertido, que delicioso, que imprevisível!

— Vim em busca de Azrael, o anjo da morte. Soube que você o prende aqui, seu palhaço risonho!

— Mais respeito, mortal. Sim, tens a proteção da marca e ainda não sabemos teu nome, porém temos todo o tempo a nosso dispor. Podemos esperar e planejar e nos deliciar em antecipação até o dia em que, enfim, te teremos em nossas mãos para, então, executarmos tudo, tudo o que desenhamos tão carinhosa e meticulosamente, até que eventualmente nos cansemos de ti. O último que nos ofendeu jaz afogado no fundo dum poço de fezes escaldantes, há pelo menos trezentos anos do teu tempo. Quase todo ano nós passamos por lá, oferecemos perdão, presentes e regalias. Chegamos a tirá-lo de seu castigo, o limpamos, alimentamos e o encaminhamos até o portal dos que cumpriram suas penas e foram perdoados e, depois, naturalmente, o jogamos de volta ao mesmo lugar.

O rosto do anjo caído escancarava um sorriso de dentes muito brancos e perfeitos. Ele estava completamente seguro de si.

“Nunca deixe que ele a amedontre. Explore sua vaidade, faça ele se sentir importante”.

— Sua Excelência, me perdoe! Eu fui uma idiota em tratá-lo dessa maneira. Foram os anjos, foram os malditos anjos! Falaram-me que o futuro caído estaria por aqui. Mas, pelo visto, o demônio mentiroso deve estar escondido feito um rato assustado em algum outro lugar.

No entanto, a bajulação e a ofensa a Azrael não surtiram o efeito esperado.

— Azrael não é um rato assustado, dobra a língua ou, ignorando tua marca, a arrancaremos com nossas mãos. O Velho sabia muito bem o que fazia quando o criou e escolheu, quando lhe deu o fardo do manto da morte.

— Como assim? – Perguntei, muito trêmula pela ameaça.

— Ele sofre, criança sem juízo. Ele sofre por cada vida que ceifa e ainda assim o faz, por infinito amor ao Velho, pelo orgulho de cumprir bem seu papel no Grande Plano. Ele contesta às vezes, conquanto sempre obedeça. Conversamos com Azrael certa vez, e ele chorava copiosamente após ter feito chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, depois de ter assegurado que todos, homems, velhos, mulheres e crianças, que todos conhecessem a dura justiça infalível de seu senhor. Ele os amava apesar de seus defeitos e ainda assim cumpriu seu papel; não podia desobedecer, não era esta a sua natureza. Eu nunca conheci outro anjo assim. Tão abnegado, tão humilde, tão entregue à função. Ele não almeja nada, ele nem mesmo nos condenou ou se recusou a falar conosco – como fizeram todos os outros - quando pedimos seu conselho depois da queda.

— Então, ele não está aqui? Você não quer tomar o lugar dele?

— Claro que não! Só se esta fosse a sua vontade. Nós jamais o forçaríamos, jamais o feriríamos ou permitiríamos que alguém o fizesse. Ele está além da guerra entre o Céu e o Inferno, está santificado, martirizado desde a aurora dos tempos, no mais estrito sentido da palavra. Ele é nosso amigo, ou o mais próximo do que podemos ter como amigo.

— Minha missão então foi em vão – eu lamentei, rimando. — Merda, não tenho como evitar o que está por acontecer, as peças já foram movidas. Estamos todos tão... Fodidos! Onde, afinal, este danado se meteu?

Pode ter sido impressão minha, porém vi um sorriso simpático no canto da boca do Inimigo, do velho Pai da Mentira, o Canhoto, o Sete-Peles. Sua expressão parecia cansada também, estaria ele exausto de interpretar seu papel?

— Pensamos que sabemos onde o danado está e podemos transportá-la até lá. Deixa-nos dizer-te ao ouvido, Natasha que não é Natasha, se acreditas sequer num pouco do que te contamos.

Minha longa experiência de agente, minhas instruções e treinamento com os anjos, todos bramiam: “É fria! É uma armadilha!”. No entanto, minha capacidade de “ler” pessoas me fez arriscar.

— Tá bom. Conta aí, ô Coisa-Ruim!

***

Terras Ermas.

Deus, o Velho, feito os anjos gostam de dizer, quando criou o universo e o povoou, reservou um microcosmo para si, feito uma chácara para passar os fins-de-semana. Um lugar do “lado de fora”, para poder pensar e refletir em silêncio. Mais tarde, compartilhou o segredo com alguns anjos de alto escalão: Samael, Miguel e Azrael.

Nas Terras Ermas, no meio de um deserto há um jardim e um pomar, eternamente florido, sempre carregado de frutos doces, numa espécie de primavera sem fim. Há em seu centro uma praça, com um bonito e sólido banco de pedra e um chafariz, que borrifa alegre água pura e fresca. Pássaros chapinham nas poças e cantam, sem medo algum de predadores.

Sentado no banco, com as mãos cobrindo o rosto, encontrei Azrael. Eu não estava preparada para o que vi, pois ele era pouco mais que um menino: franzino, de olhos grandes, avermelhados pelo choro, descalço e vestido em roupas modestas. Era quase tão velho quanto a criação, porém mais se assemelhava a um molecote que precisava de colo.

— Estão todos procurando pelo senhor – eu falei, usando o tratamento respeitoso sem querer. — Por que, por que o senhor veio se isolar aqui? O prazo está quase esgotado. Em menos de uma hora Lúcifer terá direito a sua posição como Anjo da Morte.

— Existe a chance de que ele não queira e, assim, o fardo não passará a mais ninguém – ele respondeu, com voz de adolescente.

— Eu morri, já depois do seu afastamento. Foi muito pior, acredite. Há neste momento milhares de humanos presos sob a terra ou espalhados sob forma de cinza, apavorados, pensando que foram esquecidos. Venha, me dê sua mão. Vamos voltar, precisamos muito do senhor.

— Tu não entendes, mortal? O Velho, Ele planeja algo grande, uma imensa limpeza outra vez. Ela se aproxima, eu sinto nos ossos, vejo as nuvens escuras de tempestade apontando no horizonte. Eu não quero fazer isso outra vez, eu não posso!

— Que outra opção o senhor tem? Prefere a guerra, prefere desobedecer como Samael? Falhar em sua função? Ele escreve em linhas tortas, ou não? Neste exato momento Miguel deve estar reunindo toda a Falange Celestial para invadir o Abismo. Ainda que vença, será expulso, pelo que me contaram. Venha, Azrael, eu só posso oferecer minha compreensão, minha simpatia. Toda vez que o senhor precisar conversar com alguém, se não se importar com sua reputação, apareça e podemos beber uns tragos e eu contarei histórias, do tipo que lhe farão rir e até arrepiar seus cabelos da nuca.

— Eu...

— Vamos nessa? Ou você vai fazer uma dama voltar todo este caminho de volta, sozinha? – Indaguei, piscando um dos olhos.

***

Triagem.

— Excelente, Martina! Digo, Natasha Moskovskaya! O que você quer como recompensa pelo bom serviço? – Perguntou Uriel, radiante de felicidade.

— Dá pra eu reencarnar e voltar ao meu corpo? Bonitinho é claro, sem aquele lance de larva de mosca no olho...

— Mas por acaso você é Budista ou Kardecista? Não é da Ortodoxa Russa?

— Hã, sou Budista desde pequeninha, se for pra reencarnar e voltar a ver a cara rechochuda do Bóris outra vez. Vamos lá? Em que esteira destas eu tenho que subir?

***

Moscou, quase um ano depois.

A Catedral de São Basílio estava toda enfeitada com copos de leite e fitas de seda branca. No altar, Bóris Kurchatov, metido num fraque com os botões quase saltando, se derretia em lágrimas e suor naquele Agosto calorento. Entrando pela porta, arrastando um véu exagerado, bordado por mais de vinte senhoras em seis meses seguidos, eu parecia a mais feliz das mulheres.

Quando dei o primeiro passo a caminho da nave, escorreguei no piso muito encerado, tropecei na borda do vestido e morri, ao bater a cabeça com força na quina de um dos bancos.

***

Triagem (de novo).

— Natasha? Precisamos de você outra vez! – Falou Uriel, com uma expressão de infinita sem-gracice no rosto bonito.

— Putin que... Uri! Não dava para esperar uma meia hora pelo menos? Sabe há quanto tempo estou de dieta pra caber nesse vestido? Já imaginou o coitado do Bóris, largado sozinho no altar? - Eu exclamei, estapeando o halo do anjo sem dó.

— Natasha! O Velho, Ele não voltou do pancongresso! Há um protocolo que define que após um ano de ausência o controle da Criação passará a...

— Lúcifer?

— Não, pelo Velho, nada disso! Miguel será o herdeiro. Já posso imaginar as catástrofes que ele vai criar, para punir os pecadores e purificar a humanidade. E, além disso, Natasha – o anjo deu uma piscadela marota – eu precisava justificar o título da história.

Sem entender patavinas, segui Uriel até o Purgatório, agora reformado como Sala de Missões Especiais.

— Beleza então! – Falei, arregaçando as mangas compridas do vestido e esfregando as mãos. — Pra começar: aonde tem vodca neste pulgueiro?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Dia da Inclusão




“Em 24 de Fevereiro de 1932, pela primeira vez na história do país, mulheres casadas e devidamente autorizadas por seus maridos ganharam o direito de votar em todo território nacional. Para muitas daquelas mulheres, aquele 24 de Fevereiro representou sua definitiva inclusão no rol dos cidadãos de fato.” (Trecho adaptado a partir de artigo sobre o voto feminino, Folha de São Paulo)


“Be wary, be wary,
Of the 24th of February.”



Foi exatamente naquele oitavo dia da semana que Hymena teve certeza que estava apaixonada: com tudo o que havia de bom e de terrível de toda paixão. Se, por um lado, havia agora aquele calor agradável, o sonhar acordado, aquela coisa embolada e imprecisa (mas que preenchia de alguma maneira o vácuo que antes havia em seu coração), por outro, passaram a existir também o receio e a dúvida, que a colocavam nervosa, beirando às vezes as lágrimas. Enfim, amava, mas não havia confessado à sua pretendente seus verdadeiros sentimentos. Lucíola, sua grande amiga da casta das Historiadoras e uma das acólitas da Suprema Mãe, esta ainda de nada sabia.

Conheceram-se ainda no período de condicionamento, numa daquelas enormes e homogeneizantes fazendas comunais nos arredores da Cratera Amazônica. Criança tímida, a loura Hymena tinha poucas amigas, mas rapidamente desenvolvera-se fisicamente, demonstrando grande aptidão para os esportes, em especial nas artes marciais e no combate corpo a corpo. Foi, portanto, até uma grande surpresa para si, quando traindo suas expectativas, a selecionaram aos dezesseis para a muito intelectual casta Geneticista.

Certa vez retornava ao dormitório depois de uma maçante classe de Gametologia quando viu uma moça pequena e morena defendendo-se de três provocadoras muito maiores. Admirou-se desde que a viu: Lucíola, embora certamente fosse levar a pior no embate desigual, não cedia e não demonstrava medo.

— Ela é minha, deixem a pequena em paz! – Gritou às três, posicionando-se para o combate e exibindo o cabo da faca-marimbondo presa a um cinto no corpo seminu.

As moças entreolharam-se e retiraram-se assustadas. Sabiam muito bem que ninguém recebia a honraria duma faca-marimbondo à toa.

— Meu nome é Hymena, mas pode me chamar de Mena – ela se apresentou, limpando o sangue que corria sob o nariz da garota miúda com um lenço que levava amarrado ao pescoço.

— Lucíola é meu nome. Obrigada pela ajuda! – A morena a olhou com os olhos apertados, como se encarasse o Sol. — Ah, sim: eu não sou sua! Só para deixar tudo muito claro...

A amizade cresceu então, alimentada pela admiração e mútuo apoio que as moças passaram a se dar. Lu era ótima nas matérias de humanas e só tirava grau máximo em velhalíngua e religião; declamava de cor trechos inteiros da Bíblia de Caba. Mena, por sua vez, ajudava a amiga em ciências exatas, adestramento de insetos e nas atividades esportivas. Infelizmente, após o término do curso secundário, foram encaminhadas para terminar sua educação em cidades diferentes. Hymena a Nova São Paulo e Lucíola a Cabataba, a capital.

Passaram-se quase oito anos, quando Hymena foi promovida e transferida à capital e, por pura sorte, esbarrou com Lucíola no lotado refeitório da Colmeia Governamental.

A garota miúda e corajosa transformara-se numa mulher muito atraente, cheia de curvas e de rosto singular, com os mesmos grandes olhos castanhos que encantaram Mena um dia. Tinha no antebraço um bracelete roxo da casta Historiadora e levava um manto de acólita sobre os ombros! A morena riu de pura felicidade ao reencontrar a amiga: agora o destino não as separaria mais. A jovem de traços nórdicos, por sua vez, descobriu afinal que só vivera meia vida naqueles últimos anos solitários em NSP.

***

Mena voltava para casa depois do expediente e o Sol se despedia no horizonte, cedendo relutante seu lugar à Lua cheia, ligeiramente maior do que em tempos de outrora. A jovem brincava com o próprio cabelo agora tingido de azul e mascava resina de pinheiro, para limpar os dentes e corrigir o hálito. Lia displicentemente um romance num volume tecido em seda de aranha e com capa de trama de musgo, somente para se distrair. Não vestia roupas, como praticamente todo mundo durante as horas do dia; apenas escamas de borboletas sobre o sexo e alguma pintura corporal decorativa. Afinal, sob a cúpula da cidade a temperatura ambiente era sempre confortável e nudez deixara de ser tabu há pelo menos dezesseis séculos, desde a Derrocada do Homem.

A libélula-ônibus descendeu rapidamente até o ponto de paragem do condomínio onde a moça vivia e ela saltou, ainda sentindo o peito apertar. As ruas estavam enfeitadas para o feriado do dia seguinte e folhas-cartazes coloridas anunciavam desfiles e comemorações especiais no que seria o vinte de quatro de Fevereiro, segundo o obsoleto calendário clássico. A jovem acessou os tortuosos e rústicos degraus de madeira que levavam à sua unidade habitacional e logo foi rodeada por uma nuvem de insetos rubros, munidos de ferrões ameaçadores. Os Vigilantes – assim era conhecida aquela classe de insetos - a cheiraram e provaram antes de partirem, zunindo satisfeitos com a sua identificação.

A porta-véu de seu apartamento se descortinou automaticamente ao captar seus feromônios, percebendo-a desde o corredor do prédio-árvore. Três borboletas grandes como as extintas águias desgrudaram-se do teto coberto de grama fresca e pousaram em sua cabeça, farfalhando alegres com seu retorno. Gentilmente estenderam seus proboscídeos e os inseriam em sua boca, saudando-a com o néctar que coletaram e armazenaram especialmente para sua dona. Hymena afagou cada uma, as chamou por seus nomes e alisou suas antenas sensíveis. Rododentro, sua gorda mamangaba de estimação, voou pesadamente desde a cozinha, onde flores noturnas começavam a se abrir, executando a coreografia exatamente oposta de seus pares diurnos que cobriam as paredes da sala.

— Meu bebê! – Ela disse, correndo a mão no pelo fofo, listrado de amarelo e negro da abelha do tamanho de um esquilo. — Espero que não tenha bagunçado nada hoje, seu arteiro!

O inseto esfregava dengosamente as patas na boca e umedecia a cabeça e os olhos compostos com movimentos rápidos. Girava no ar e zumbia grosso, feito um gato a ronronar satisfeito.

A jovem bateu palmas e vagalumes graúdos cintilaram com suas luzes amarelo-esverdeadas em vários pontos das paredes e do teto. Abriu um pote na despensa e encheu uma cabaça com besouros castanhos e secos, que rescendiam remotamente a amêndoas torradas. Recostou-se num divã macio de briófitas e samambaias e, enquanto comia, conectou-se à Rede de Mensagens através de antenas que se inseriram em suas têmporas tão logo se sentou.

Algumas mensagens governamentais, conclamando as cidadães a participarem ativamente dos eventos do feriado do Dia da Inclusão e a denunciarem as raras traidoras do regime, uma propaganda sobre uma nova colônia de recondicionamento educativo voluntário nas florestas da Antártica e um recado especial... De Lucíola!

Queasbenes! Mena, preciso conversar com você. Ferrões me piquem! Esperava te encontrar em casa! É urgente, mas não dá pra contar aqui! Hã, me encontre na Praça Central, perto da estátua d’O Homem, entre sete e sete meia da noite. Não falte! Beijo!”

Hymena sentiu um tremor repentino e seu rosto pareceu queimar. Tentou contato através da rede, porém foi em vão: Lucíola provavelmente já estava a caminho.

Rapidamente foi ao banheiro e lavou-se com a água cristalina que cascateava até o chão a partir duma coluna de seixos, colheu uma flor da parede e enfeitou o cabelo, enrolou-se numa curta túnica de casulos e ganhou as ruas.

***

Apesar de ainda ser noitinha, os arredores da Praça Central estavam meio desertos, talvez pelo terror que aquela estátua tenebrosa imbuía, em especial no escuro e às castas operárias, sempre tão supersticiosas. A peça gigantesca tinha precisos trinta e oito metros de altura, segundo Mena se recordava de suas aulas. Reproduzia numa liga escura de metal um extinto humano do sexo masculino. Tinha o rosto bruto contorcido num esgar de puro ódio irracional, vestia roupas em frangalhos e estufava desafiante o musculoso peito ferido, apoiando-se sobre pernas poderosas. Possuía uma arma estranha em punho, que cuspia fogo em rajadas.

Tu, máquina de guerras.
Tu, que não escutas, só berras.
Tu, que pisoteias as flores.
Tu, que não cultivas amores.


Tu, triste e sozinho.
Tu, egoísta, mesquinho.
Tu, que vegetas na paz.
Tu, que não existes mais!



As palavras da primeira Suprema Mãe, escritas em velhalíngua, ainda eram bem legíveis no pedestal de pedra sob os pés da estátua. Mena sentiu frio quando leu o poema que todos sabiam de cor; era difícil para si, imaginar que os machos fundaram a civilização humana original, que por centenas de milênios oprimiram às fêmeas e que quase destruíram o planeta em sua sanha por controle e poder.

O ruído suave do riacho coalhado de algas luminescentes a despertou daqueles pensamentos desagradáveis. O curso d’água surgia do subsolo, a partir do lago ao redor da estátua e seguia alegre, desaparecendo borbulhante sob a imensa e hermética Cidadela das Vespas, que dominava toda paisagem ao fundo.

Lucíola não tardou a surgir, sendo reconhecida mesmo à distância por Hymena.

— Lu, aqui! – Acenou Mena, um tanto nervosa.

— Que as benesses da Suprema Mãe caiam sobre ti! – Cumprimentou a morena, meio sem ar.

— Que caiam sobre ti em dobro! – Ela respondeu automaticamente. — Hã, me desculpe por perguntar, mas por que este mistério todo? Não seria melhor conversarmos num lugar mais confortável ao invés desta praça horrível? Eu conheço uma casa de néctar muito agradável aqui perto e...

— Não, não. Seria arriscado demais. Há insetos-escuta nestes lugares – sussurrou. — Vamos procurar um banco afastado e sentar, preciso do teu conselho de amiga.

“Somente amiga?” – Suspirou Mena para si mesma, com alguma tristeza.

***

Colmeia Governamental – dez dias antes.

— Suprema Mãe, Divina-força-que-esmagou-o-homem-sob-seus-saltos, poderíeis ceder um momento de vosso precioso tempo a esta mui humilde serva, talvez atrevida em demasia?

Lucíola tremia e tinha a cabeça baixa, demonstrando correta submissão. A Suprema Mãe era uma mulher madura e corpulenta, de cadeiras largas e peitos enormes. Certamente era uma figura poderosa; gentil e doce, na maior parte do tempo, porém sabidamente desapaixonada e dura quando da execução de atos governamentais por vezes cruéis.

— Trata-me sem formalidades, acólita. Lucíola, não é este o seu nome? Não estamos numa cerimônia formal. – Sorriu a matrona, reclinando-se e abrindo o véu bipartido e semitransparente que cobria seu rosto muito maquiado.

— Chegamos às provas e trabalhos finais de nossa casta, senhora. E, por conta disso, necessito apresentar algum trabalho de campo para obter o grau de Historiadora Sênior.

— Sim, e...?

— Por um acaso fortuito observei que Vossa Maternidade possuí uma raríssima cápsula do tempo em seu escritório, algo do período da queda ou até pré-queda. Eu imploro: poderia cedê-la para meus estudos? Naturalmente a devolverei em perfeito estado e no momento em que a queira de volta, mesmo se eu ainda estiver...

— Meu favinho, dentro da cápsula só há um quadrado dourado de metal, bastante monótono, ouso dizer. O objeto já foi examinado por nossas especialistas e concluímos que, seja lá o que ele foi, certamente não funciona mais. Só o mantenho por teimosia minha em preservar souvenires dos tempos bárbaros. Mas, ainda assim, se você deseja examiná-lo, ficaria contente em ajudá-la. É só isso?

— Sim, senhora – a moça fez uma mesura. — Vós sois infinitamente generosa e sábia. Não sei como vos agradecer!

— Solicitarei que lhe enviem a peça ainda hoje. Espero que possa ser de algum proveito. Oh, Santa Vespa, como minha agenda está cheia hoje! – Ela suspirou, ajeitando o manto sedoso que levava sobre o corpo nu e tatuado, retirando-se a seguir, batendo os saltos em passos largos e decididos.

Quando o objeto foi entregue em sua casa, Lucíola o retirou da cápsula de material estranho e fosco e o examinou, com as mãos enluvadas. Era mesmo um quadrado fino de metal, de uns cinco centímetros de largura e meio centímetro de espessura. Era pesado para um objeto tão pequeno, seria talvez de liga de ouro? Fazia sentido: embora absurdamente caro, ouro era resistente a ácidos e campos eletromagnéticos, podia resistir bem por milênios. À exceção de um círculo negro minúsculo em uma das faces, o objeto não possuía inscrições ou entalhes, peças móveis ou outros pormenores de destaque.

Por dias a moça fez testes. Devia haver uma camada de sais de chumbo sob o ouro, pois apenas uma imagem negra era exibida através de chapas impressionadas por raios-X. A datação do objeto o colocava no período final da guerra: entre mil e seiscentos e setenta a mil seiscentos e cinquenta anos atrás.

Ao fim de pouco mais de uma semana, já desanimada, Lucíola pensava em devolvê-lo e pesquisar alguma outra coisa. Separou o objeto para levá-lo de volta e, com pressa, terminou por esquecê-lo numa prateleira junto de uma das janelas.

Ao chegar a casa à noite, a futura Historiadora notou que o pequeno círculo de negro tornara-se verde e que o metal estava morno.

— Ferrões! – Xingou, aborrecida. — Esqueci o artefato ao Sol! Ah, Deusa! Que eu não o tenha danificado!

Ao tocar o círculo verde, um ruído grave como o de um enxame se fez ouvir, e um filme foi projetado em pleno ar.

Saudações, sobrevivente. Meu nome é Jorge Maciel e sou oficial e líder deste bunker de resistentes. Se você me escuta e me entende, então tudo terá valido à pena. Os esforços que investimos neste nosso pequeno projeto... Não terão sido em vão.

Lucíola assistia ao holofilme, congelada, em estado de choque. O narrador era um homem! Um homem! Ruivo, magro e baixo, meio calvo e com o rosto desagradável coberto por pelos nojentos. Sua voz grave parecia arranhar seus ouvidos. Felizmente, pelo menos falava de forma pausada, permitindo-a entender seu estranho sotaque e dialeto de velhalíngua.

Saiba você que o ano é 2097 e que estamos em guerra, na verdade, perdendo a guerra mais bizarra e mortal que nossa espécie jamais enfrentou. Suas causas? Não sei ao certo, há muitas teorias.


O crescimento da população mundial e a degradação do ambiente nos forçaram a avançar cada vez mais sobre territórios antes virgens. Fazendas de algas cobriram quase a totalidade dos mares, havia cultivares em toda terra remotamente arável, nada parecia suficiente para nossa população em franco descontrole malthusiano. Diziam que não tínhamos outra opção...


Com o fim de seus habitats, a maioria das espécies silvestres se extinguiu e uma minoria diminuta se adaptou. Pragas e mais pragas, cada vez mais frequentes de insetos e aracnídeos, nos forçaram a usar inseticidas extremamente poderosos, com conhecido potencial carcinogênico e mutagênico.


Não sei sua especialidade, prezado sobrevivente que me assiste. Porém, saiba que a evolução se dá mais rapidamente nos organismos simples, nos de vida curta e capazes de deixar milhares ou milhões de descendentes. Que a pressão do ambiente pode gerar verdadeiros saltos evolutivos. Foi há cerca de quinze anos, quando um ataque coordenado de artrópodes de diversos gêneros destruiu uma de nossas cidades-colônias no interior da Amazônia. Abelhas, escorpiões, aranhas venenosas, gafanhotos, besouros de todo tipo, como se houvessem esquecido que já foram inimigos um dia, comportavam-se como que controlados por alguma inteligência. Barbeiros, colossais nuvens de mosquitos, espalhavam Doença de Chagas, dengue, malária e filariose. Moscas tsé-tsé, sabe Deus como, migraram da África e prostraram milhões com a doença do sono.

Por alguns anos os ataques continuaram em escala global, devorando nossas colheitas, causando todo tipo de moléstia já esquecida, custando-nos as vidas de milhões. A Floresta Amazônica foi então abandonada à própria sorte e descobrimos, por imagens de satélites, uma formação escura feito um tumor, se espalhando por centenas de quilômetros quadrados de mata. Nesta época, os ataques no Brasil finalmente cessaram.


Fotos, realizadas por alguns aviões de reconhecimento que conseguiram transmitir algo antes de caírem com suas turbinas entupidas, revelaram: uma colmeia ou vespeiro de proporções grotescas se integrava às copas das árvores, só permitindo que suas folhas alcançassem a luz solar para não morrerem.


A decisão que tomamos certamente foi precipitada, talvez se os deixássemos em paz... Mas não estávamos acostumados à convivência com alguma outra forma de vida inteligente.


Alguns mísseis, com ogivas que empalideceriam com sua potência Hiroshima ou Nagasaki, cauterizaram então àquela ferida ao domínio humano na Terra.


O ataque pareceu eficiente, resultando em alguns anos de paz, embora a guerra tenha nos custado os alimentos necessários para a população. Nos anos seguintes, leis draconianas foram declaradas por governos e mulheres foram impedidas de conceber sem estrita permissão das autoridades. Diante dos violentos protestos destas, prisões foram feitas aos milhares, depois muito mais. Em retaliação, novas leis, eliminando direitos que elas conquistaram nos últimos séculos, foram praticamente esfregadas em seus rostos indignados. Voto, trabalho, divórcio. Uma revolução acontecia e corria o mundo, feito rastilho de pólvora.

O homenzinho parecia cansado. Outro homem, jovem, alto e mulato, cochichou em seu ouvido e tomou seu lugar.

Por favor, perdoe o coronel. O final do relato talvez seja pesado demais para ele, que tinha esposa, uma filha e um filho. Ele sobreviveu por sorte, mas o filho não. Seguramente será mais fácil para mim, senhor sobrevivente. Meu nome não é importante, apenas sou um soldado aqui.


A coisa, ela, ela não morreu, pode ser que tenhamos ainda a ajudado a mudar ainda mais, a se reorganizar, talvez mais raivosa no subsolo e desta vez com o reforço mutante da radiação. No mundo inteiro, todas as mulheres relataram um contato mental com uma inteligência composta, formada por bilhões de mentes muito simples e práticas. A mente-colmeia, ela ofereceu um acordo táctico às mulheres, vítimas da opressão do homem, assim como ela, assim como a natureza em geral.


Os ataques muito mais virulentos recomeçaram então, mas desta vez as mulheres livres empunharam armas contra nós, fizeram emboscadas para os homens, abriram janelas e portas de seus lares à noite e refugiaram-se em pontos combinados. Não eram tocadas por um inseto sequer! Entregaram filhos e maridos, sem piedade, as traidoras da espécie!

Hã, notei que meu comentário foi injusto, motivado por raiva, me desculpe. Nem todas as mulheres, apesar de tudo o que fizemos com elas, nem todas se bandearam para o lado do inimigo. Muitas morreram conosco, lutando valentemente, lado a lado, contra os enxames que pareciam não ter fim...


Nossas reservas de alimentos estão acabando e não conseguimos mais contatos exteriores através de nossos meios de comunicação. Só há estática no rádio e os principais servidores da internet caíram.


Sobrevivente, nunca havíamos determinado o gênero e espécie exata da mente-colmeia. Recentemente, talvez por descuido, por achar que já fomos definitivamente derrotados, conseguimos uma foto. Ei-la!

A imagem era de um inseto todo negro, de estreitas asas membranosas, cintura finíssima e cerca de um metro de comprimento, com um ferrão cruel, que exibia uma gota gorda de veneno dependurada.

Pepsis formosa, provavelmente descende da vespa parasitoide. Elas faziam joaninhas, formigas e baratas de escravos. Plantavam larvas em... Porra, que ruído foi esse? Coronel?! Coronel!

Deus, não! O bunker está sendo invadido! Concentre-se, soldado; rápido, rápido, salvar o projeto Garrafa no Oceano, proteger a prova, isso, isso, pronto! Desligar, ade...

***

— Então, querida, eu não entendo porque você quer meu conselho. Não é óbvio? Você deve contar à Suprema Mãe, nos mínimos detalhes, tudo isso que você descobriu.

— Mas as vespas, as cabas, nós nunca as vemos, só sabemos que os insetos sagrados provêm o controle de todos os outros insetos para nós. Mas, com que finalidade? Só gratidão pela vitória de uma guerra que aconteceu há tanto tempo? Se nossas antepassadas traíram os homens, será que fizeram o certo? – Ao terminar a pergunta, Lucíola encostou a cabeça no ombro da amiga, como se quisesse chorar.

— Meu amor, permita-me chamar-te assim, por favor. Não vê que mesmo este relato pré-queda está cheio de inverdades? Era esta a natureza no homem: a mentira, a manipulação, a opressão a qualquer custo! Estavam derrotados e amargurados e resolveram envenenar o futuro! Deixe de bobagens agora, veja, você está gelada, tremendo... Me abraça! – E completou baixinho: — Me beija?

— Como amiga ou...

Hymena puxou o rosto pequeno e trigueiro para junto de si. Tocou de leve os lábios generosos da pequena com os seus, bem mais finos, e provou o doce sabor da língua daquela que deveria ter sido sua há muito, muito tempo.

***

A Suprema Mãe estava satisfeitíssima. A fidelidade daquela acólita, ao devolver o equipamento antigo ainda naquela noite e ao contar com minúcias como o ativou e o que viu, demonstrava que os métodos do Estado continuam bons e fiáveis. Deveria manter o olho atento na moça por alguns anos, é claro. Em sua namorada também. Uma promoção ou medalha ou título deveria ser providenciado como recompensa. Naturalmente, o aparelho subversivo deveria ser incinerado após algumas investigações adicionais. Alguns especialistas que analisaram o aparelho antes teriam tempos difíceis.

Animada, a gentil senhora tomou um elevador na Colmeia Governamental. Tirou um cordão dourado do pescoço e inseriu o pingente num orifício do painel, junto das teclas. Apertou uma sequência de botões e o aparelho desceu, deslocando-se a seguir sobre trilhos, lateralmente, por cerca de dois quilômetros.

As portas douradas enfim se abriram, agora dentro da Cidadela das Vespas, que voavam por todo lado, como anjos negros escondidos no submundo. Um lago cheio de algas brilhava no escuro e estas proviam o oxigênio adicional do qual as cabas passaram a necessitar, depois que seus cérebros cresceram demais e devido a seus sistemas respiratórios primitivos, sem pulmões.

Corpos de mulheres consideradas inferiores durante o período de condicionamento estavam lá, distribuídos em casulos feitos por aranhas escravas. As mulheres estavam vivas, porém completamente paralisadas pelo veneno de vespa. Em seus abdomens inchados, larvas devoravam primeiro o que não era vital, num lento processo que durava precisamente um ano. “Tudo acabará amanhã”, conformou-se em voz alta a matrona. Era triste, Vossa Maternidade pensava, mas necessário.

Atravessou um corredor escuro e longuíssimo a leste dali, que desembocava numa sala imunda e malcheirosa, donde grunhidos desconexos poderiam ser ouvidos de grande distância. Espiou através das grades. Homens, algumas centenas deles: pretos, brancos, amarelos. Todos acorrentados, lobotomizados, com eletrodos nos testículos. Fábricas de esperma sem cérebros, garantias de diversidade genética para substituir os gametas sintéticos, quase sempre tão problemáticos.

Não era triste, mas isto também era necessário.

Retirou-se dali, cantarolando. Melhor concentrar-se nas festividades do Dia da Inclusão, refletiu. Ou melhor, riu, divertida com seu trocadilho infame. O Dia da Eclosão.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

De açúcar

Minha mãe gostava de doce, já lhe contei alguma vez? Quando engravidou não conseguia comer nada, exceto doce. Pudim, bolo, gelatina, sorvete. Bastava o cheiro de comida de panela pra ela enjoar. Então, foram nove meses de panquecas com geleia, de compotas e melado de cana com farinha, quando nada mais em casa havia. E, lá dentro, da barriga dela, enrolado feito uma fatia de rocambole, vermelho que nem goiaba em calda, e formado a partir de tudo o que ela digeria e transformava, eu crescia. Eu-manjar-de-coco-com-ameixa, eu-algodão-doce, eu-bananada. Uma criança de xarope, depois um rapaz de chantilly e um homem cristalizado, que cresceu rápido feito um bolo bem feito com a dose certa de fermento. Talvez seja esta a razão de tudo, da diferença, do por que de não me entenderem. Por esta minha pureza morna e perfumada de flor de laranjeira, este meu humor que se dissolve fácil, este meu corpo frágil que quase se derrete sob o sol quente. Eu sou de açúcar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

FC do B - Panoroma 2010-2011

Amigos,

É com imenso prazer e uma pontinha de orgulho que anuncio que fui um dos selecionados para participar da incrível e prestigiosa coletânea de contos de ficção científica FC do B.

O livro em breve estará nas livrarias. Logo, logo disponibilizarei links onde os interessados poderão adquiri-lo.

Veja como a capa ficará bonita e conheça também os outros participantes em http://www.fcdob.com.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=36&Itemid=75

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

À espera do Mestre


O que relatarei foi testemunhado por mim, por puro acaso. Não intenciono trazer lições ou ensinar moral, pois não acredito em tais coisas. Talvez o que contarei poderá servir de alerta para que não cometamos nós mesmos erros iguais, ou nem para isto. Não confio em homens ou deuses, apenas acredito em meus sentidos e, acima de tudo, sou adepto da Igreja da Minha Santa Sobrevivência.

Vagava meio sem rumo pelo subúrbio da cidade de Manado; não tinha morada certa e já conhecia bastante àquela vizinhança, onde um casarão de muros amarelos e muito altos chamava atenção. Havia um jardim meio maltratado à frente do lugar e algumas colunas em espiral, de gosto francamente duvidoso. Nos fundos, se destacava somente um enorme quintal cimentado e liso; estéril como um deserto. Por motivos que logo ficarão claros, chamei tal horrível edificação de Castelo dos Sete Fanáticos ou Grande Prisão Amarela.

Foi numa manhã até bonita, que vi pela primeira vez os sete chorando após a despedida do Mestre.

— O Senhor irá em busca de mais conhecimento e logo voltará – dizia o maior deles aos outros seis. De imediato, identifiquei aquele indivíduo formidável, de cabeçorra poderosa e peito amplo, como Estúpido Otimista ou Grande Protetor.

— Ai de nós, o que seremos sem o Mestre? O que fizemos para ofendê-lo, para que decidisse nos abandonar? – falava a fêmea branca e bonita, a quem apelidei de Graciosa.

— O Amo nos testa, certamente. Ele espera que em sua ausência nos comportemos de forma ideal, que sejamos dignos de seus ensinamentos – gaguejou um magrelo pedante e de olhos nervosos, o Guardião da Moral.

Os outros quatro jovens e pequenos apenas observavam assustados. Somente um deles, o mais feio e fraco comentou:

— Não significamos nada para Ele. Não faria diferença para o maldito se morrêssemos todos – naturalmente, dei-lhe a alcunha de Pequeno Amargo, para separá-lo dos três outros sem nomes, que mudavam de opinião conforme os maiores se manifestavam.

Notei que as reservas de alimentos e água do grupo eram parcas e que, sem se importar com o dia seguinte, todos avidamente consumiram suas porções até ficarem satisfeitos, como se tudo estivesse normal. Quase que rezei pelo bem daqueles tolos; ao menos cheguei a desejar, sinceramente, que o tal Mestre logo retornasse.


Era então chegada a época das monções, e apesar do calor, chovia forte quase todas as tardes. Dois dias depois, voltei a observar o grupo, que recolhia ávido a água que descia pelas calhas do casarão após a tempestade.

— O sacrifício enobrece. O jejum de água e comida purifica. – Repetia o fraco Guardião aos outros, ainda conseguindo manter a cabeça elevada e um certo ar de superioridade.

— Em breve o Mestre irromperá através dos portões. Trará tanta comida, tantas iguarias, tanta água pura e fresca quando se é possível consumir, vocês verão. – Comentou com doçura o maior de todos.

— Eu afirmo, ora, eu afirmo e re-afirmo; o Mestre nos abandonou por causa dos pequenos! Ele não suportava mais estas criaturinhas sem modos e barulhentas.

— Não diga isto, querida! Os pequenos são inocentes e o Amo é bom, profundamente bom – insistia o Grande Protetor.

— O desgraçado nos deixou para morrer de fome! Sinto minha barriga doer tanto que nem consigo dormir! Seria mais justo se houvesse nos eliminado a tiros ou envenenados; ao menos seria rápido – refletiu o Pequeno Amargo.

Os outros três pequenos apenas sorviam a água e sacudiam as cabeças, concordando com os comentários díspares, sem se importar ou entender bem a situação.

O Guardião descobriu-me espionando-os e disparou, perdendo então toda aquela empáfia que o caracterizava:

— Desça aqui, infeliz. Desça, seu bastardo, e faremos você se arrepender por testemunhar nosso infortúnio!

Naturalmente abandonei meu posto de observação e escapei, enquanto todo o grupo gritava e xingava tão alto que poder-se-ia escutar a quase um quarteirão dali.

Passaram-se talvez mais cinco dias, quando curioso em demasia eu retornei. O Pequeno Amargo parecia agonizar de fome e estava caído, rodeado pelo grupo.


— Sonhei com o Mestre ou delirei, não sei – choramingou. — Talvez afinal ele fosse bom, talvez tenha viajado para limpar o grupo dos dissidentes da fé; de gente como eu. Eu não merecia o amor do Amo! Eu sou o culpado por tudo que estamos passando.

— Não diga isto, pequeno – respondeu a Graciosa, estranhamente gentil e compreensiva. — Eu também comecei a pensar que ele não nos merece, que não foi justo ou correto, como você sempre tão sabiamente nos avisou. Você e os outros pequenos são inocentes, eu estive errada, desde sempre.

— Pode ser – continou o pequeno – pode ser que o Amo me perdoe se eu fizer um sacrifício. Talvez até minha alma poderá ser salva assim!

De longe, notei um brilho estranho naqueles olhos que começavam a embaçar.

— Matem-me e devorem meu corpo! O Mestre queria uma prova de fé, só pode ser. Sejam gentis e dêem-me um fim rápido e salvem-se também. Minha carne é pouca, mas fará vocês resistirem alguns dias a mais.

O Guardião da Moral, cabisbaixo, nem sombra do indivíduo orgulhoso de dias atrás, nem pensou duas vezes, certamente empolgado pela possibilidade de forrar o estômago.

— Não! – gemeu a Graciosa. — Isto não está certo!



Mas já era tarde; o pequeno, com pescoço partido e rubro, agitou um pouco os membros e por fim ficou estático. O Grande Protetor foi o primeiro a provar da carne, enquanto selvagemente afastava os outros. Chocada, a Graciosa havia se retirado e deitara desconsolada sob uma das poucas sombras do local.

— Não há o suficiente para todos! Primeiro os mais velhos e os mais fiéis ao Mestre.

— Fui eu que o matei – contestou o magrelo. — É direito meu ter o maior quinhão.

— Ousa me enfrentar, seu verme? Quer ser o próximo? Você não é páreo para mim. É magro, mas seguramente tem mais carne que esta coisinha desprezível.
Acuado, o esquálido se afastou e só retornou quando o Protetor saiu e os pequenos tentaram comer também.


— Fora! É minha vez! Fora ou devoro vocês também. Pensando melhor, quase não há mais carne nesta carcaça...

Fechei os olhos e tentei ignorar os gritos, enquanto o Guardião da Moral abatia um dos pequenos sem dó.

Uma outra semana se passou e, quando retornei ao meu posto de observação, só vi os três. A Graciosa muito abatida, o Estúpido Otimista e o Guardião feridos e cansados demais. Nem ossos dos quatro pequenos podiam ser vistos pelo chão.

Neste momento; uma surpresa! Um ruído nos portões, um barulho de arrastar malas pesadas, de abrir as portas da frente, de passos duros pelos cômodos e na cozinha, seguidos do roçar de chaves girando na porta que dava para os fundos.

— O Mestre! – Gemeram todos os três, quase em uníssono.

No entanto, não havia mais aquela adoração fanática, não havia mais dúvidas sobre o amor ou a santidade do amo. Unindo suas forças combalidas, os três atacaram o homem gorducho e de meia idade, que gritou e tentou fugir.

A Graciosa, ah, ela saltou com agilidade e cravou os dentes no pescoço gordo e odioso. O Guardião e o Otimista flanqueram o Mestre, atacando suas pernas e braços, dilacerando seus membros facilmente. Quando o homem caiu, numa união de objetivos que chegou a me emocionar, eles se concentraram no pescoço e destacaram a cabeça, que finalmente parou de berrar. Arrastaram o corpo até o quintal acimentado e coberto de fezes e o devoraram, ávidos, por várias horas depois.

— A carne do Mestre é apenas carne; nem melhor ou pior – foi a última coisa que escutei, ao abandonar o topo do arbusto que ficava junto do muro da Grande Prisão Amarela.

Mais tarde, enrodilhado e aquecido num pedaço de pano numa varanda que invadi, refleti sobre a fé e sobre os homens e os cães. Depois, me esqueci daquela bobagem e, escutando o ruído reconfortante de meu próprio ronronar, dormi um sono tranquilo sem pensar mais no destino daqueles infelizes.

O cheiro d'avó


Quando a missa de sétimo dia terminou, antes de deixar a igreja, meus tios e tias me cercaram e começaram a falar ao mesmo tempo; ainda com as vozes embargadas, os olhos vermelhos e os semblantes pesarosos. Tio Joãozinho não conseguia falar; apenas tinha a mão à frente da boca, para esconder os dentes falhos enquanto expirava e seus olhos pareciam fontes que teimavam em não secar.

“Ninguém tem coragem”, gemeu tia Orlandina. “É preciso limpar a casa de sua avó, dar as roupas para a Igreja, esvaziar a geladeira, tentar limpar a casa dela dela, entendeu?”

De nada adiantaram meus protestos, de que era doloroso demais para mim também, porém a fama de durão e de responsável não me dava opções. Era minha obrigação, eu, que fora o preferido de minha avó.

“Se você não for, terei que mandar algum estranho”, disse o tio Quincas falando grosso, quase me ameaçando com a ideia de ter alguém de fora revirando as coisas de vovó.

***

Empurrei o velho portão de ferro, que cheirava à ferrugem e infância perdida. Passei pelos canteiros maltratados; cheios de inodoras margaridas baldias e do limo que se acumulara depois daquela semana de chuvas constantes. Rex, o cachorro que ela tinha e não tinha, que entrava e saía quando bem queria, estava deitado junto à porta, talvez esperando ela voltar. O ar rescendia à minha avó, o mundo muito propriamente chorara sua ausência e chegara o momento de se seguir em frente.


A porta com a pintura descascada protestou e rangeu. Entrei pela cozinha e a fragrância dela estava em todo lugar: um misto de alfazema, leite de rosas e sabonete Alma de Flores. “Não me deixem enterrar direto na terra, Cicinho. Não quero ficar lá num caixão que vá se encher de água quando chover e eu lá parada, lá dentro; presa, me afogando. Quero ficar numa carneira, naquelas caixinhas de cimento bonitinhas, umas em cima das outras, arrumadinhas feito um edifício de apartamento. Se puder ter um pé de árvore perto, pra dar sombra e não ficar quente demais, tanto melhor.”

A cozinha ainda tinha um odor pungente de canela junto do fogão meio encardido. Parecia que fora outro dia que eu a visitara e ela se apressou em passar um café fraco e doce e fez bolinhos de chuva; cobertos de açúcar e canela, os meus preferidos. 
 
Abri a geladeira, puxando para baixo a alavanca que fazia as vezes de maçaneta; a velha Frigidaire vermelha, que suspirava e fazia ruídos borbulhantes e engraçados que me assustaram nas vezes em que pequeno dormi por lá. Não havia muito dentro; gelo em formas de alumínio, alguns ovos, margarina, cenouras murchas, batatas com brotos esverdeados na gaveta de legumes, alguns vidros de xarope na porta e aquele cheiro. O odor característico dela; aquela mistura engraçada do xampu de lanolina que mantinha seus cabelos finos escorridos demais. A lavanda ou Colônia Cristal da Avon, sabão em barra, suor da cútis frágil, fina, que se arranhava com facilidade, alho nos dedos que mais pareciam ter as pontas terminadas em almofadinhas de pele e carne.


“Cabelos de manga”, era como eu brincava de chamá-la secretamente quando ela me dava uma moeda para fazer cafuné nos seus cabelos enquanto me contava histórias. Eu tinha um boneco do Alf com os cabelos de um amarelo queimado, de um tom quase igual os dela. Vovó era um brinquedo melhor.

“Sabe, meu neto, quando eu morrer não quero que enfeitem meu caixão, que o encham de flores feito um bolo de noiva, feito fizeram no enterro de Dona Nini, quase cobrindo o rosto da coitada que devia estar com uma vontade danada de espirrar. Não quero que convidem também a filha de Cema; aquela é capaz até de roubar as coroas de flor e só iria para filar o café e pedir dinheiro emprestado.”

Esvaziei a geladeira e descartei tudo dentro de um saco para lixo, grande e preto. Desliguei a tomada, abri a porta e a escorei com uma cadeira, deixando um ventilador ligado para ajudar a descongelar.
 
Em seu quarto, a cama de casal estava coberta por uma colcha de chenille azul clara, bem esticada. O guarda-roupas alto, brilhava e ainda rescendia a óleo de peroba. Eu me lembrava bem do dia que a presenteei com o móvel novo; ela pulava feito criança.


“Ah, Cicinho, do jeito que eu queria.”, ela repetia, alisando as portas. “Duplex! Do tipo que tem que subir numa banqueta para alcançar a parte de cima, feito o que Betão deu pra Cema. Já era tempo, não é mesmo? Aquele antigo de fórmica tava todo descascado, todo fofo de umidade. Olha só; até espelho e prateleira pros meus perfumes este tem. É tão bonito, eu acho que nem vou dormir direito esta noite, de tanta felicidade. Vou ficar deitada aqui na minha cama, admirando esta belezura.”

Escancarei as portas do móvel; os vapores de naftalina, de algum mofo e dos perfumes de seus cremes, de suas loções, me abalaram um pouco. No entanto, a visão de tanta roupa colorida, tanta estampa de flor, tantas coisas de alguém que efetivamente gozou a vida, aquilo tudo foi forte demais para mim. Com as lágrimas rolando e o nariz escorrendo feito uma criança pequena, fui retirando o blazer de linho onde ela escondeu salgadinhos no bolso num casamento onde entramos de penetras, a blusa de seda toda decorada com pêssegos e ameixas bem maduras, a encharpe que ela enrolava no pescoço toda vez que brincávamos de teatrinho e ela fazia o papel de alguma madame. Fui colocando tudo em sacos para entregar no convento das freiras, feito meus tios instruíram.

“Vá que quando eu morrer, eu não morra direito? Você sabe, os médicos do SUS querem mais é enterrar os velhos, até inventaram esta campanha de vacinar contra gripe. Eu é que não tomo! Tão de olho na minha pensão, isto sim!

Meu neto querido, isto eu só vou pedir a você. Quando forem me enterrar, coloca meu celularzinho dentro do caixão. Bota crédito nele porque é de cartão, e bateria bem carregada, veja lá. Se eu não morrer de verdade, se foi algum engano, eu ligo e você vem me acudir. Lembra de levar um cobertor e uma garrafa de café, pois eu posso estar com frio.”


No fim do velório, escondi o celular entre as poucas flores que só iam até a altura dos ombros dela. Antes que fechassem o caixão, cochichei em seu ouvido.

Passei um pano úmido na casa, com Pinho-Sol de verdade, feito ela gostava de usar. Fechei as janelas, as portas e meu coração que insistia em bater descompassado. Deixei os cheiros; de cera líquida amarela, desinfetante, de xarope, de canela e colônia, de velho, de mofo, de avó.

Ao passar pelo portão, observando o Rex, que ainda estava deitado sobre o capacho junto à porta, escutei meu telefone tocar.

A lógica, a razão, estas insidiosas quiseram se intrometer no fio de esperança, na luz fraca que cintilou no breu de minha mente. Não dei direito para que elas se manifestassem! Fechei os olhos para não ver o painel, levei o fone ao ouvido e mais gani do que propriamente falei.

— Alô?

domingo, 24 de julho de 2011

Prólogo - Relatos do mundo perfeito

Rio de Janeiro, 01 de Agosto de 515 D.F.G.





Redavoice: Minhas Férias


O que dizer sobre minhas férias, senão que foram perfeitas, fixe-cool e incriordinárias? Ainda no inicio de Julho, meu mainté, Tuomas, comprou-nos um hover novo; vermelho-bóson, ultimate modelo, e meu fourné, Hiro, conseguiu uma licença-prêmio por desempenho supranormal, coisa rara de se obter em tal mês concorrido. Por tudo isto, decidimos estreiar o possante no dia seguinte e aproveitar para reproduzir em nossas férias um ritual antigo que Tuomi leu num flexnews, algo chamado piquenique.

Então, como combinado, Tuomi me despertou bem cedo, por volta das oito, me beijou a bochecha e avisou que preparara panquecas de moramboesa; as minhas preferidas. Não gosto muito deste lance de beijar, já tenho treze, mas meus pais insistem em me tratar como um bebê que acabaram de receber das materfábricas. Deve ser porque Oleg está no serviço militar obrigatório para os XYY entre os dezessete e os dezenove e, desde o inicio do ano, sou o único filho em casa.

Desci ainda de silverjamas e Hiro já estava de pé também, malhando na academia do acesso da copa. É engraçado sermos uma familia assim; diferente. Digo, Tuomas é muito alto e másculo demais para ser um mainté típico, chega às vezes a constranger um tanto Hiro-san, que, como quase todo neoasiático, não é muito alto e é um tanto conservador. Eu, sinceramente, prefiro assim. Quase todos meus amigos têm seus maintés muito sensíveis e delicados, homens que gostam de se vestir com roupas sedosas, coloridas e transparentes, fofocar e cozinhar receitas incríveis que eles aprendem na expressnet. Já Tuomi é quase tão forte quanto Hiro e gosta de participar ativamente de tudo. Dele, herdei os cabelos e pupilas claros e espero que a altura também. Do Hiro, herdei os bonitos olhos rasgados de samurai, o físico slimforte e o temperamento afoito (ao menos é o que meu mainté vive me lembrando).

Ultimamente meus pais têm andado meio agiloucos. Faz uns três meses que eles passam pelo menos umas duas horas diárias debruçados no convgen de sua suíte, escolhendo como será meu novo irmão. Ficam lá decidindo QI, propensão a doenças, cor dos olhos. Discutem quem fornecerá gametas para a conversão em óvulos e tudo mais. Penso que a grande questão será o custo de correções, pois um cemporcento pode ser ultra-onéreux hoje em dia. Eu sou noventa-e-oito e eles sempre me lembram que ainda pagarão por meu financiamento até eu completar quinze anos. Esqueci de comentar: meus velhos se beneficiaram de uma lei antiga; quem concordasse em gerar um XYY e criá-lo, teria o direito de ter até mais dois filhos, daí nossa família ser tão numerosa. No entanto, penso que certamente fomos agraciados pelo Grande Pai: pois, talvez pela criação cheia de zelo, a doçura derramada de Tuomi e a firmeza de Hiro-san, eles quase não tiveram problemas com Oleg. Eu soube que muitas pessoas desistiram e entregaram seus XYY para serem criados pelo estado. Bem, não é fácil lidar com estes colossos, não há como se culpar quem tomou tais iniciativas.

Comemos rapidamente nosso desejum. Havia calda extraprotéica em minhas panquecas e molho lowcal para Tuomi, que tem o metabolismo meio lento, talvez por ser um noventa-e-quatro. Hiro preferiu omelete de ovas de farmshark e começou a contar algumas piadas.

“Como diferenciar um Brasileiro de um Cubano?”, ele me pergunta.

“Sei lá. Pelo sotaque?”, eu respondo.

“Não. Porque para decidir qualquer coisa o Cubano precisará perguntar a opinião de alguma fêmea.”, ele completa, explodindo em gargalhadas.

Tuomi o olhou de cara feia, além de ser uma piada preconceituosa, ele não aprova o uso de palavras de baixo calão à mesa, mesmo as mais fracas, feito “fêmea”, que se diz por qualquer topada. Hiro é meio boccavasino e até costuma falar aquelas duas palavras com “m” quando está irritado.
 
Meu mainté tentou mudar de assunto e me perguntou: “Então, Carlinhos, já tem treze anos e não arrumou algum namorado ou, como vocês dizem hoje em dia, um sexfreund? Tem aquele seu amigo bonitão cemporcento, o hipermelanínico, como é mesmo o nome dele? Abuu, Adamu?”


“Não vê que nosso menino é claramente um fourné, meu bem? Acho que o tal garoto não é compatível”, disse Hiro, distraído.

“Ele ainda não decidiu se será mainté ou fourné. E ele gosta de me ajudar em casa e tem muito jeito com crianças menores. Não é, filhotinho?”.

Eu respondi, somente para provocar, que seria um celibatário feito Jesus Cristo. Que não desejava formar família como fizeram os pais do Santíssimo, José e Mário.

A ideia de ter um filho sacerdote ou ultrateo fez meus pais ficarem sérios de repente e, enfim, terminamos o café e saímos.

Sentamos os três no banco traseiro do hover. Hiro já havia de véspera baixado a programação dos tempsats, então só teríamos bom tempo no percuso e até poderíamos ver a chuva caindo exclusivamente sobre as autofazendas no interior, conforme a previsão.

Hiro-san comandou a I.A. do hover dizendo: “Destino: Fortaleza, Ceará. Hotel AquaComplex Safari.”

O veículo levitou e seguiu pela estrada, rapidamente. Minutos depois, enquanto passávamos por algumas fazendas, pedimos que reduzisse a velocidade para que pudéssemos ver as incriraras nuvens cor de chumbo e a água descendo generosa sobre as copas das árvores verdinhas, formando múltiplos arco-íris ao refletirem a luz do dia perfeitamente ensolarado.

Tomamos o acesso da hidrostrasse em Vitória e, menos de três horas depois, aportávamos na islahecha do hotel.

As duas semanas a seguir, foram as melhores de minha vida. Praticamos mergulho e brincamos com tubarões, moreias e arraias gigantes. Clonotoys, naturalmente, pois há uma barreira de proteção ao redor da ilha. “Deixem os selvagens do lado de fora”, feito diriam os membros eleitos do Conselho Supremo.
 
No inicio da segunda semana, Oleg voou desde o cerco ao Caribe até o nosso hotel e então nos divertimos a valer, montando leões e tigres toys. Digo, não o Oleg, pois não há tigre ou leão que possa caminhar com cento e setenta quilos de músculos sobre sua coluna. Ele limitou-se a nos seguir montado em elefantes ou búfalos africanos. Trocamos de apartamento quando ele chegou, uma vez que o hotel dispunha de outros com várias adaptações para os XYY.
 
Oleg contou-nos sobre o seu trabalho monótono. Tendo que garantir que os degenerados caribenhos não trouxessem a corrupção genética ao mundo exterior. Mas não havia muito a fazer, ele comentou. Fora o comércio de alimentos e outros artigos, ninguém tinha permissão para entrar ou sair daquele lugar e nada escapava à censura dos bioscanners. Ao fim daquela semana, nosso gigante gentil teve que retornar a seu serviço. Terei saudades de meu irmãozão.

No último dia, munidos de uma cesta de palha, sanduíches, sucos e uma estranfeia toalha xadrez, fizemos o tal piquenique na praia. Até que foi interessante tentar comer com a areia soprando em nossas caras e se infiltrando na comida, mas acho que os antigos tinham uma ideia um tanto distorted do que seria diversão.

E estas então foram as minhas férias. Nada tão luxcher quanto Titã, Marte ou Gaia, mas certamente passei ótimos momentos com minha muito feliz e grande família (que em breve ainda ficará maior).


Carlos Ruutu-Watanabe.



*fim da gravação*   

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Narrativas



Como sabemos, a narração é a base de todo texto em prosa. Estamos portanto acostumados a alguns tipos de narrador: ao narrador-personagem, a narração em primeira pessoa, narrador com opinião, etc.


Permitam-me então tentar sugerir algumas variações narrativas a partir de alguns exemplos:

“Neste momento Carla bate à porta de Felipe. Ele não sabe, mas ela comeu um pacote de salgadinhos de alho e cebola no caminho e ainda assim planeja beijá-lo passionalmente. Carla também desconhece que Felipe acabou de ir ao banheiro e não lavou as mãos, tampouco escovou os dentes hoje. Mas nada disso realmente importa: já que Carla morrerá no meio do quinto capítulo, atropelada por uma bicicleta em frente a uma casa xadrez. Felipe acabará por conhecer Luíza antes do epílogo e se casará com ela, sem notar que esta é na verdade sua mãe biológica, que o concebeu depois da operação de mudança de sexo. Antes que eu continue com a narração, você pode atender o telefone que eu espero: a propósito, é Marineide Freitas, a insistente moça do telemarketing daquele cartão de crédito que você não sabia que queria, mas que ela insiste que você necessita feito o ar que respira. Você desligará o telefone de propósito depois do quarto estaremos transferindo sua ligação.” (Narrador super-onisciente)

“Chovia copiosamente sobre o casebre de madeira que mal mantinha-se de pé no alto do barranco. Aliás, não! Fazia um sol de rachar naquele dia e tratava-se de uma mansão de trinta cômodos e não um casebre! Ou será que nevava copiosamente sob um sol de rachar e o casarão, carcomido feito um casebre, ameaçava desabar? Um instante, eu, eu... Ah, aproveitei sua distração e transferi quinhentos reais da sua conta para a minha, ok? Fui!” (Narrador absolutamente não confiável)

“Um estranhíssimo cenário descortinou-se diante dos olhos incrédulos de Lorena Bobbitt. Bem, hoje não estou com muito saco de descrever. Então façamos o seguinte: imagine você seu cenário esquisito. Sei lá, faça um esforço! Flamingos com máscaras gregas interpretando aquelas tragédias chatíssimas sobre carros alegóricos no Rio de Janeiro, dançando na boquinha da garrafa; seiscentos executivos trajando camisas listradas e suspensórios de couro, formando fractais com suas valises perfeitamente alinhadas; pterodáctilos mulçumanos desenhando símbolos cabalísticos nos céus de Pindamonhogaba. É estranho o bastante pra você?! É? E não adianta torrar minha paciência e querer saber o que Lorena fizera, o que vestia ou como se sentia! Não é tudo responsabilidade minha, falou?! Procura no Google!”. (Narrador über mal-humorado)

“O horrendo nascer de outro dia ensolarado anunciava através da janela a cruel extinção de qualquer possibilidade de alegria, por mais remota e efêmera que fosse. A pobre Maria da Lapa ganhou na Megasena acumulada, encontrou seu amor perdido e salvou sua mãe de uma doença incurável pela quinta vez, porém não poderia se sentir mais miserável, destituída de esperança e tomada da mais paralisante melancolia suicida.” (Narrador corno-depressivo)

“Lorenzo casar-se-iria-á se soubera-sse que Maria Eduarda finalmente voltara-ia-á-ando hoje/amanhã/há sete anos/se ela ao menos existisse.” (Narrador viajante do tempo, causador de terríveis paradoxos temporais)

“Jaqueline soltou os cabelos, macios, sedosos e cheios, graças à ação das pérolas nacaradas de DNA vegetal do novo condicionador Nadura – um toque de natureza no seu dia a dia. Carlos Otávio, que passava defronte de seu escritório, não pôde deixar de sorrir. Galante, exibindo belos dentes brancos. Faça como Carlos Otávio! Clareamento a laser? Só nas Clínicas Dr. White. Facilitamos seu tratamento em até seis prestações sem juros. Dr. White: seu melhor cartão de visitas é seu sorriso.” (Narrador de livro custeado pela iniciativa privada)

“Nuvens maliciosas roçavam lúbricas os topos túrgidos das montanhas lascivas. Um vento morno, que cheirava a sexo, levantava folhas solícitas e lubrificava a grama num vai-e-vem que acelerava e acelerava, de forma rítmica e constante. Abelhas sodomitas e borboletas impudicas defloravam os botões voluptuosos ainda virgens, num zum-zum indecente, que causava o mais abundante jorrar do néctar, numa luxúria devassa, de proporções orgásmicas.” (Narrador completamente “atrasado”)

“O almoço do funeral deve ser minuciosamente preparado: numa terça-feira, dia doze, quando a Lua estiver na fase minguante. Além da futura morta que será servida à francesa conforme manda a tradição, serão oferecidos barquetes de cannabis para os Sionistas Sino-Nipônicos de Ogum. Pois, como todos sabemos, em anos bissextos, nas terças de Luas minguantes, esta é sua única alimentação possível. Isto claro, salvo quando da época do acasalamento dos sagrados besouros rutilantes coprófagos, quando leite de llama e sementes de girassóis almiscarados do Tibet são a outra única opção. Não se esquecer de convidar os Elementais do Sétimo Dia e os Concretistas da TFP. Saudar os primeiros com a mão esquerda, enquanto deve-se dirigir o olhar em direção a Meca e a Reykjavik ao mesmo tempo, saudar o segundo grupo cuspindo em seus olhos, para afastar os maus espíritos. Não permitir que os Anarquistas Marxistas do Mercado Livre ocupem o mesmo salão dos Gregos Ortodoxos Budistas Vegans, ou poder-se-á causar o inicio do sétimo jihad do politiburo-cosanostra. Entoar a Internacional para os Asgardianos e o hino do Vasco da Gama para os Mamoetanos Lusitanos dos Sagrados Últimos Dias.” (Narrador que leu Burroughs demais).

“— Gostaria de matá-lo, Ferry Vicious. Meu dedo treme junto do gatilho, porém não ouso disparar: além de protagonista e herói, infelizmente sou plano feito o tampo de uma mesa. Quisera eu ser redondo como a esbelta Mary McHeavens, sua ex-ajudante em todos seus planos nefastos: salvou-me de sua emboscada, ainda que ela soubesse que você a mataria, como realmente acabou fazendo. Seu maldito antagonista igualmente plano!


— Já que não pode atirar, honrado, justo e bondoso Jeffrey. O que me impede de fugir pela porta? Seus inocentes olhos azuis? – riu o vilão, cheio de escárnio.

— Little George está lá fora, armado com uma calibre 12. Embora ele seja o alívio cômico da história, seria bom que você se lembrasse de suas ações típicas e cínicas de anti-herói. Ele não hesitaria em mandá-lo comer capim pela raiz, ir para a terra dos pé-juntos ou lhe conceder um paletó de madeira!

Do lado de fora, no corredor, Little George praguejou baixinho pelo roubo de suas linhas de diálogos e possíveis tiradas de efeito cômico.

Resignado, Ferry Vicious deixou-se algemar e deixou a sala, cabisbaixo. Talvez o juiz seria de alguma forma condescedente, já que ele apenas agira o tempo todo conforme fora desenhado.” (Narrador professor de literatura aposentado)
 
 
“— Vossa alteza! Vossa alteza! O Principado Aliterático e o Ducado Hiperbólico acabaram de declarar guerra à nossa amada Sinestesópolis! – gritou o mensageiro esbaforido, cheio de desespero nos olhos.


— Mas como? Por qual razão? – exclamou o gorducho rei, já prevendo o gosto barulhento dos metais em sua boca.

— O Ducado jurou arrastar montanhas e, nem que demore um milhão de anos, irá nos fazer chorar rios de lágrimas! Príncipe Prinius proferiu profusas pragas pródigas em pruridos purulentos! Nosso reino já escuta o cheiro da morte vindoura, já tateia o clamor dos tambores terríveis!

— Que se escrevam cartas aos reinos amigos! À Onomatocity, Paradoxis, Eufemística.

Horas depois, chegaram as respostas:

“Tic-tac, tic-tac, aha, ha, ha! Glup! Oops, zummmm!”

“Se o auxiliássemos, iríamos contra nosso princípio pacífico. No entanto, se não o ajudarmos, iremos contra nossas leis altruístas. Por Deus, estamos paralisados!”

“Penso que em breve todos vós ireis viver junto da luz do Senhor. De qualquer forma, temo que a ausência de coragem de nossos guerreiros não seria lá de grande auxílio para evitar o fim da infeliz existência terrena de todos vós.”

O pobre monarca já farejava o escarlate e o negro dos uniformes dos exércitos inimigos quando o velho Pleonasmus, o rico comerciante de armas, apresentou-se e fez uma mesura.

— Não precisamos agir como cadáveres de um defunto morto que já morreu! – disse ele. Permita-me apresentar meu novo catálogo de armas táticas que fará o inimigo entrar para dentro de suas covas e nunca mais sair para fora!

A seguir, abriu folhetos coloridos sobre a mesa do salão.

— Bombas de antíteses: capazes de encher de vazio e calor o mais frio dos inimigos. Flechas envenenadas de ironia, escudos de ambiguidades, causadores de confusão e discórdia. Catapultas carregadas de anáforas, silepses, oximoros e cacofonias de todo tipo. Eles não terão chance! Fugirão como medrosos ratos covardes sem coragem que temem a própria sombra!
 
Antevendo o trovejar em fuga dos exércitos inimigos e já degustando o sabor macio da vitória, o rei fechou negócio numa compra que praticamente arruinaria os cofres de Sinestesópolis." (Narrador professor de português de pré-vestibular)
 
 
"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado numa banana gigante. E pior: alguém certamente o havia caluniado, pois naquela mesma manhã, ele foi detido sem ter feito mal algum.


Berenice, sua empregada desdentada, adentrou o quarto com seu café da manhã numa bandeja e acompanhada de dois homens vestidos em ternos pretos. Nenhum deles fez menção de espanto à sua nova condição de alimento funcional, como se nada houvesse mudado com ele. Na janela do quarto, um corvo crocitava "nunca mais".

Percebeu o estrado da cama ferindo sua nova carne amarela e macia enquanto tentava subir as costas, empilhando os travesseiros. Sentia-se ridículo, vestindo o seu pijama listrado azul, tal qual personagens de um péssimo e antigo programa infantil.

Os homens começaram a beliscar de seu café, sem cerimônia alguma. Um era idoso, obeso e tinha um olhar determinado e cruel, como uma ave de rapina. O segundo era muito alto e magro, tinha um rosto comprido, queixo enorme, boca pequena e desgostosa e olhos nervosos.

– Chamo-me O’Brian – disse o gordo – e este é Howard – comentou apontando para o homem magro – estamos aqui para comunicá-lo do processo que está sendo movido contra o senhor.

– Apressa-te, O’Brian – falou o magro, com voz anasalada – não suporto mais pisar nesta fossa cheia de pitecantropóides viscosos e monstruosidades inomináveis e degeneradas.

– Processado? – indagou Gregório – Por quê? O que fiz? Quem está me processando?

O’Brian não exibiu expressão alguma no rosto, Howard continuou olhando para todos os lados, nervoso, preocupado em não tocar em nada.

O gordo foi até a cama, retirou a carteira do bolso e pôs um cartão sobre o lençol.

– Vá até o Castelo – disse ele – eles conhecem bem a realidade do partido. Podem te ajudar. Sua situação é dupliplusimboa, você corre o risco de se tornar uma impessoa.

– Realidade do partido? Como assim?
 
– A realidade corresponde aos desígnios do partido – respondeu o homem rotundo, de forma enigmática. Nos encontraremos outra vez num lugar onde não há escuridão.


Os dois colocaram os chapéus e saíram sem maiores explicações. Por alguma razão, Gregório teve a nítida impressão de que O'Brian flutuava no ar." (Narrador fã incondicional de Orwell, Kafka, Poe e Lovecraft)

segunda-feira, 28 de março de 2011

1° Lugar no 8° Concurso de Contos e Poesias de Genebra

Amigos, gostaria de compartilhar esta minha modesta conquista literária: no próximo dia 1°, que embora 1° de abril, é pra valer, recebei o prêmio de melhor texto na categoria "conto" no concurso realizado todo ano pela organização Raízes.

Semana que vem publicarei algumas fotos do evento e aproveitarei para conhecer a bela Genebra.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Reencontro

Olá! Já nos conhecemos, embora você não se lembre muito bem de mim. Estou aqui para ajudar você, agora que sua memória é falha e alterna e mistura passado e presente. Vamos, segure minha mão e te ajudarei a recordar daquele momento especial, quando sua curta estrada pelo Jardim dos Caminhos Bifurcados ainda era reta e você finalmente ousou mudar o rumo das coisas.

Lembre-se dos cheiros: é importante. O olfato é um sentido poderoso e primitivo. O odor de ervas frescas plantadas nos fundos da velha casa: hortelã-pimenta, poejo, cidreira. O pé de louro do qual sua avó tinha ciúmes. O perfume que saía da cozinha cheia e quente, onde uma panela sempre fumegava algo delicioso. Recorde-se desta época sagrada do “nunca experimentei isto antes”. Das surpresas, da dentadura dos velhos em copos de água nas mesas de cabeceira, da colher de sopa com o cabo cortado para caber no açucareiro de alumínio, do recipiente de madeira pintado com desenhos infantis e cheio de licor caseiro de jenipapo. Quem hoje conhece tal fruta? Quem sabe o que é jamelão, carambola, araçá? Vamos, você pode fazer um esforço, traga de volta à tona as calças curtas de tergal do uniforme escolar, as meias brancas três-quartos e os sapatos Vulcabrás que duravam até você enjoar deles. O Sabidinho, a cartilha de Talita, o cachorro Xereta que usava um chapéu de Sherlock e que tinha olhos tristes. Lembre-se do tato, do musgo macio que crescia nos feios muros de concreto pré-moldado meio tombados, da pele fina e frágil da sua avó, do cheiro de velho, mesclado ao de loção pós-barba do seu avô, que sempre arranhava o seu rosto quando lhe beijava.
 
Você foi passar o dia com eles. Sua mãe foi comprar alguma coisa e seu ombro estava dolorido pela vacina tríplice que você tomara na véspera. “Nada de leite para ele. O médico recomendou evitar gordura.” Foi a primeira vez que você bebeu café puro, ainda que você molhasse o pão no líquido fragrante e quase melado de tão doce. Nunca mais você beberia café com leite.

Sem paciência com crianças pequenas, seu avô lhe arrumou um conjunto de praia: baldinho, pá, ancinho de plástico azul claro. Você encheu o balde de água e foi brincar nos fundos, perto do galinheiro que os velhos ergueram sob a sombra do imenso pé de jenipapo. Não se importava com vermes nesta época e você saira sem camisa, mas filtro solar também não existia. Crianças tinham lombrigas e tomavam purgante, se queimavam demais de Sol, viviam de joelhos esfolados e bochechas descascadas de tanto soltar pipa. Crianças eram crianças e não estas coisas pálidas e mimadas, que só conhecem a luz da TV e do computador, que não têm ideia do que seja pique, polícia-e-ladrão e que nunca pularam amarelinha.

Um pouco de água e você escavou um buraco no barro. Mais água e você notou o quanto aquela argila era flexível como a massa de modelar que você tinha em casa. Foi quando a ideia lhe ocorreu.
 
O lago que você cavou era o mais profundo lago do mundo, cujas águas cristalinas eram ainda mais claras do que as da Baía de Guanabara, que você vira na semana anterior, cheia de botos que acompanhavam a barca até Niterói. Tufos de capim faziam o papel de árvores, criando um bosque misterioso e cheio de perigos ao redor da vila. Casinhas piramidais, enfeitadas com pedrinhas achadas aqui e acolá, uma estrada principal, coberta de areia branca, que você trouxe da obra interminável que seu avô tocava junto do poço. Mas de que adiantava uma vila tão linda, tão perfeita, se esta não fosse habitada por gente amável? Com as mãos de dedos curtos e gordinhos, você criou cada um deles. O rei, o príncipe valente e seu cavalo, os camponeses e suas plantações e bichos. O monte de terra retirada para fazer o lago tornou-se o Everest e, abaixo dele, ficava o Vale Feliz.

Do outro lado do Everest espalhava-se a Amazônia, uma selva verde e impenetrável de árvores cujas copas eram tão altas que pareciam beijar o céu. Que importava se estas guardassem semelhança com couve, boldo, bertalha e outras plantas exóticas? Ali, naturalmente, viviam as amazonas e Safira era a líder destas mulheres valentes, que não tinham medo dos besouros gigantes, dos caracóis ou das formigas venenosas e vermelhas. Certamente era linda e orgulhosa e não queria se misturar ao povo indolente que vivia junto do lago.

Porém certo dia, quis o destino que o príncipe, que você muito propriamente batizou com seu nome, fosse atacado pela terrível fera gigante que lembrava uma cadela pequinês cujo pelo havia sido descolorado por seu tio adolescente. Ferido de morte, foi ajudado por Safira, que conhecia os poderes incríveis daquelas folhas que cheiravam a louro e hortelã.
 
Muito grato, o príncipe a beijou, feito os adultos faziam quando passavam uma semente pelas bocas, que depois se tornavam os bebês e então as barrigas das mulheres inchavam como melancias. Safira, assustada, fugira de volta para a selva, carregando no ventre o herdeiro indesejado e um amor com que não sabia lidar.

Seu avô, feito um arauto de maus presságios, já lhe chamara duas vezes para almoçar. Mas você havia cedido uma parte de sua alma ao povo do vale e da floresta. Não podia abandoná-los à própria sorte e apenas respondeu, “Já vou”, sem a mínima intenção de ir. Logo você criou uma mitologia complexa de costumes e lendas dos dois povos e as razões já quase esquecidas para o cisma que existia entre eles.

Rejeitada por seu povo, Safira fugiu para o Vale Feliz onde o rei a recebeu como filha e o príncipe a fez sua esposa. Seu bebê era uma mistura adorável dos dois, com olhos negros da mica que você raspou de um pedaço de granito. Uma cerimônia linda de casamento foi realizada, quando pétalas rasgadas de rosas e copos-de-leite cairam dos céus, cobrindo a vila de cores e cheiros maravilhosos. “Então viveram felizes para sempre”, você repetiu para si mesmo, feito um papagaio, imitando a voz de sua mãe.

Uma abelha, escondida entre as flores, picou sua mão. Não existe dor como uma picada de abelha, não? É como queimar em agonia sem poder apagar o fogo! Nem quando você quebrou o braço com onze anos, nem quando foi mordido pela cadela de seu tio quando esta teve filhotes pela última vez, você sentiu tanta dor. A mão inchava e você soluçava com o rosto vermelho e molhado, girando no mesmo lugar com os braços abertos e encarando o Sol. “Por quê? Por que, Deus?”, você se perguntava. E outra vez escutou seu avô chamar, desta vez muito mais irritado.
 
Gritando, você procurou a maior pedra que conseguiu erguer e a lançou contra o lago. Suas águas cristalinas subiram até as nuvens e caíram inundando a vila como um dilúvio bíblico, afogando os animais e destruindo as casas próximas. Feito uma fera, você fez os habitantes da Vila Feliz saberem o que era o medo, a ira de Deus. Você, que tanto fez por eles, que eles nem sequer adoraram ou fizeram sacrifícios por você. Ergueu o pé e Safira era agora apenas lama, o príncipe e seu pai ficaram agarrados como uma coisa só, amalgamados às ranhuras do solado de seu Vulcabrás. Elevou o braço e, com a mão dolorida, derrubou as árvores da floresta. Despedaçou os sonhos, destroçou o amor, cuspiu na face de sua criação.

Um pouco de gelo, uma pinça hábil, um algodão com mercúrio-cromo e alguns afagos fizeram você esquecer da dor. À tarde, antes da chuva lavar finalmente a Vila e a aldeia do povo da floresta, você retornou à sua casa, sem jamais se lembrar do que vez.

Algo se perdeu ali, você nunca notou, mas o amor cedido foi sincero, o ato de criação foi inspirado. Seu Éden foi olvidado, pisoteado pelos patos e galinhas quando sua avó os soltou enquanto clamava “ti-ti-ti-ti” e lançava milho dourado como maná que caía dos céus. A chuva apagou qualquer lembrança daquelas vidas efêmeras e você viveu a sua vida a partir dali, tomando decisões incorretas, que só causaram dor a você e aos outros.
 
E eis aqui você, velho, esquecido num asilo de terceira. Tão fraco que às vezes se urina no pijama que não é trocado e lavado com a frequência necessária para afastar o odor acre e o tom amarelado do algodão. Quando foi que você foi visitado pela última vez pelo seu irmão mais novo? Sem filhos, sem esposa ou amigos que sintam sua falta. De você, só se espera a notícia que causará alívio ao embaraço que sua existência ainda provoca, feito um fragmento de espinho enfiado sob a pele, que incomoda de vez em quando, mas que não é notado a maior parte do tempo. Seu irmão já ensaiou as frases para o telefonema fatídico, já pensou nos preparativos de seu funeral: o caixão mais barato a ponto de não se notar que teria custado tão pouco, as coroas feitas com bóias de isopor e flores tristes e recicladas, as faixas insinceras com aquelas declarações de praxe, que ninguém realmente teve a intenção de dizer.

Apenas me concederam este pequeno e mesquinho privilégio: o de testemunhar seus últimos momentos nesta terra e de lhe dizer que tudo poderia ter sido diferente. Que suas decisões moldaram seu destino, que você errou por estes caminhos no momento em que abriu mão de sua inocência, quando deu ouvidos ao ódio ao invés do amor, que nada estava escrito originalmente.

Sua mão está fria, sua vista, coberta de uma película esbranquiçada está turvando, mas talvez, se você me olhar bem de perto nos olhos, poderá reconhecer o mesmo tom da mica de uma certa pedra de granito que você achou no quintal de seus avós naquele dia.

Bem, o tempo urge e já estou satisfeito. Preciso ir. Espero que no além-vida suas recompensas sejam proporcionais a seus feitos em vida. Aliás, com todas as forças assim o desejo, se realmente existe justiça neste mundo. Chore se quiser: não adiantará.

Despeço-me aqui. Adeus, criador.